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Wednesday, March 02, 2016

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 77 - A Liga Anti Cavalo


O Comandante Guélas

Série Colégio Militar 

Liga Anti-Cavalo

“Não somos nós que decidimos a forma das coisas; mas as coisas em nós que decidem a sua própria forma” – Espinosa.

Ainda somos do tempo em que o colo das nossas mães era substituído, a frio e sem preliminares, por uma Mannelicher qualquer. Somos herdeiros de nós próprios, se o Menino da Luz tem uma essência, é ter memória de si mesmo. Estas estórias têm de ser contadas porque sentimos necessidade de contar as nossas próprias histórias através do tempo, projetando-as numa memória futura coletiva, onde muitos se apercebem de sentimentos que não sabiam que tinham. Têm de ser vividas algures num tempo que tanto tem de longínquo como de próximo, permitindo-nos viver o espaço dentro da nossa mente, mostrando a realidade do nosso imaginário, mais real do que tudo o que vemos e nos rodeia. Mas nenhuma leitura é definitiva, aquela que conhecemos é só uma entre muitas possíveis. Nos dias seguintes à revolução gritavam nas ruas que era o povo quem mais ordenava, havendo no Colégio Militar também um dia especial, em que quem mais ordenava era a bexiga! A aula de matemática acabava e a correria em direção ao picadeiro até podia ser ganha pelo Escalope, à Rosa ninguém ligava, pois o primeiro a chegar escolhia o equino menos mau, podendo ainda fazer um checklist dos quadrúpedes que se alinhavam atrás do edifício, tendo assim uma ideia de como iria decorrer a aula de equitação. Só havia uma verdade, os bichos eram muito diferentes do que os que apareciam nos livros de quadradinhos do Buffalo Bill. E com o Cabedo só se poderia esperar o inferno na terra! Mas quem sobrevivia às “firmezas” do Mula, atual sindicalista, que não aceitava reivindicações, estava apto para todo o serviço, incluindo uma aula de equitação de quarenta e cinco minutos com cavalos incompatíveis. Por isso, ordenar “desmontar” durante uma carga no picadeiro, que mais parecia um carrossel com freio nos dentes, só poderia originar um “ramalho” entre bípedes fardados de cotim e quadrúpedes desmiolados, com os primeiros a quererem sair ilesos de uma orgia de dentadas, coices e afins. Mas o Dores também não se ficava atrás, porque ordenar, a galope, tirar os pés dos estribos, largar as rédeas, pôr as mãos na cabeça, e presentear os putos com um cavalete no caminho, de certeza que hoje em dia seria acusado, e o bicho também, por um qualquer artista do ministério público, de infanticídio, acompanhado da capa do “Correio da Manhã”. O Vinasse conseguiu nesta aula fazer o único mortal para trás da sua vida, com aterragem forçada de costas na serradura, e sentir na cara o vento aterrador causado pelos sapatos do Eusébio, que o faz acordar nos dias de hoje muitas vezes sobressaltado, um stress equino, rodeado pelos bafos da Salame, da Nono, do Tangerina e do Rata, que tornam o seu ressonar de leão e o vibrar da placa insignificâncias para a sua cara metade, quando comparados com a incontinência da idade, que deixa marcas no lençol, que não engana tal como o algodão.
- Senhor aluno, agarre o cavalo e monte! – Gritou o equitador.
E também havia o volteio, com silhão e pano, que começava com o menino a galopar ao lado do garanhão, e não da Rosa com quem tanto sonhava, seguido de uma ordem para montar, em que primeiro tinham de colocar as mãos nas pegas, seguido de um acertar do passo com o equino e, num abrir e fechar de olhos hop, que o colocava sentado no cavalo e pronto a receber mais ordens, como a volta ao mundo, e a saída para o outro lado, sem tirar as mãos, e voltar a montar após uma chamada a pés juntos na serradura. E havia quem saísse pela garupa, após uma cambalhota para trás, arriscando-se a uma ajuda extra do bicho através de um coice bem medido.
Foram estes momentos inesquecíveis que deram origem ao aparecimento de um mito, a Liga Anti-Cavalo, uma O.N.G. colegial que pretendia a extinção da equitação, mas que de certeza se houvesse um referendo o Cortesão seria o escolhido para o papel de Miguel de Vasconcelos no dia da mocada, juntamente com a matemática. E dizem as comadres que chegou a abrir sede às quartas feiras nas latrinas do piso superior dos Claustros, onde se podiam levantar os cartões que provavam a sua pertença à LAC. Os peritos atestam que a maior mija durou quarenta e cinco segundos, sinal do stress pré cavalar, um recorde que ficou para sempre no currículo do Cuecas de Buda, e será tomado em consideração se alguma vez aparecer algum descendente à procura de um estágio numa multinacional qualquer, em cujo conselho de administração de certeza que haverá um Menino da Luz com o cu calejado.








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