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Friday, March 18, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 57 - O Nando Maluco

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Este ilustre “paçoarquiano” era senhor de vários “hóbis”, um dos quais consistia em levar a aparelhagem dos pais a pastar para o jardim, paredes-meias com a estação dos comboios. Ligava o microfone, encostava-se ao muro e dava início ao programa radiofónico, dirigido a todos os utentes que esperavam a composição para Cascais.
- A menina que está encostada à coluna é uma pu..! – Dizia uma voz da rádio, acordando até os surdos.
A multidão era assim apanhada de surpresa, a sangue frio, sem possibilidade de resposta. Como era de calcular, todos os olhos se colavam na adolescente, que tentava disfarçar, abandonando sorrateiramente o local. Mas o predador radiofónico ia no seu encalço:
- Não vale a pena disfarçares, és uma grande pu.., ó oxigenada! Esconde-te atrás do careca que tem estado a olhar para o teu cagueiro.
- Já viram as prateleiras da velha com bigode que está sentada ao pé do monhé?
- Ó caixa-de-óculos, só és míope para os livros, mas para olhares para as tetas da cigana já não tens dioptrias.
O calvário só terminava quando o “verde”, o “pára-em-todas”, chegava e esvaziava a gare, deixando o Nando-Maluco sem ouvintes. Mas a festa não acabava aqui!
Recolhida a aparelhagem, chegava a altura do programa “in sito”, ou seja, o artista rumava para a estação, passando a actuar na gare do lado de terra. Desta vez a festa iria acontecer com a chegada da composição. Mal o comboio parava, o senhor Nando-Maluco procurava a vítima, alguma velha que estivesse sentada junto à janela, com esta aberta. E tinha de ter um “cabelo-à-Moisés” (igual ao do filme, na cena em que o atleta acabava de descer da montanha), sinal duma ida recente ao cabeleireiro. O predador introduzia os braços no comboio e penetrava, com as suas mãos grossas, na cabeleira encharcada de laca, transformando-a num “desperdício” digno dos melhores mecânicos da Costa do Estoril. E nem havia tempo para reclamações, pois geralmente o “pica-bilhetes” dava ordem de partida!
De regresso a casa o Nando-Maluco passou um dia pela praceta e deu de caras com uma discussão entre dois Gangs, o de Paço de Arcos e o de Caxias. O Zé Pincel tinha abafado o cachimbo da mota de um membro do segundo gang, que fora à estação comprar um bilhete, e deixara o “peidociclo” naquela zona, e no regresso topara a ausência do acessório. Como ninguém se acusara, tinha ido ao território buscar reforços, que estavam a chegar a conta-gotas. O Nando-Maluco foi recebido em glória, pois representava uma ajuda de peso para o Gang de Paço de Arcos, por ser mais velho e matulão, mas também por representar o “bom-senso”. Como não quis tomar partido por nenhum dos lados propôs arranjar uma solução equilibrada, que evitasse o confronto: um jogo, e quem vencesse ficava com o cachimbo! Cada grupo nomearia um representante, e fosse o que Deus quisesse. E qual seria a prova de fogo?
- O Zé Pincel vai buscar umas garrafas de vinho do pai e o primeiro a cair perde!

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