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Thursday, August 03, 2006

Camarada Choco 40 - I Have a Dream!

                          Camarada Choco
                                                              Aventura 40

O primeiro sinal chegou pela manhã e fez-se silêncio absoluto na sala principal da Cooperativa: a impressora oferecida por um benemérito que fizera uma limpeza ao sótão de sua casa (e pensava que assim iria ter um lugar aprazível lá em cima ), mas que fora paga, e bem paga, por um projecto de apoio aos marrecos sem marrecas da câmara, debitava as célebres folhas de pagamentos, que durante muitos anos tinham sido feitas pelas saudosas mãos da sempre presente Dona Sãozinha, sem erros, e que foram depois substituídas, após a entrada da Doutora Sem Canudo, por um programa informático para traineiras da Somália.
Rostos ansiosos e corpos inquietos pelo sufoco da constante mongalhice contabilística, davam o tom a um ambiente de drama anunciado, criado pela necessidade absoluta de suprir dificuldades na atribuição de subsídios africanos: 10% do ordenado para não vir passear ao fim de semana com os mongas; 80% para quando se atingir a coordenação da própria coordenação descoordenada.
E finalmente a Folha de Pagamento debitou a categoria da funcionária contemplada: Paquete, com farda e tudo!
A notícia depressa se espalhou, a função passava a ser despejar os cinzeiros, os cheios e os vazios, e entregar bicas nas salas, com um horário de cinquenta horas semanais.
A ditadura acabara, a revolução dos cravos finalmente chegara à Cooperativa, 30 anos depois da outra. A contemplada tentava, desesperada e usando os mesmos modos de expressão da Papoila, a careca da sala do Milho Verde, voltar à posição anterior, mas a situação fugia-lhe ao controle. A máquina oferecida, mas comprada com um chorudo subsídio, que sustentava os 10% e os 80%, confirmava o veredicto.
- E ainda vou ter que comprar a farda, porque aqui as manias da Direcção são pagas pelos funcionários.
Tentou ainda uma última manobra:
- Eu é que mando, eu sou a proprietária deste espaço, a super-coordenadora de mim própria e dona de vocês todos - e ameaçou dar ordem à máquina para mudar a categoria de todos os insubordinados.
Mas o poder estava nos corredores e a contra-revolução não tinha apoios. Tentou fazer um apelo ao Presidente, mas este estava a tentar desentalar o filho da retrete e a meditar sobre a sua nova categoria: de Super-Intendente passara a apanha-croquetes. Lá se iam os 10% para não fazer nada ao fim-de-semana.
- Decreto que tudo o que aquela máquina debitar é ilegal, - tentou, mas o povo não deixou. – Isto é tudo culpa daquela contabilista que fui buscar de borla à Mitra, mas é ela a única que consegue manter o meu subsídio de super-dotada para descoordenar. Não posso mandá-la embora porque senão ainda acabo no Tarrafal.
Tentou reagrupar as tropas no Bar, mas a situação piorou quando deu de caras com 4 Noddys e uma Musa Pelada num sofá de pele de zebra, na sala do Pintor.
- Pornografia na minha quinta?
- Mas com que direito é que uma simples paquete ousa entrar por este espaço cultural, sem pedir licença? - Levantou-se o senhor Pintor, um ex-candidato ao Festival da Canção da Casa do Gaiato, agora promovido a Maioral da Roque Gameiro pela máquina marada. – Finalmente a justiça aos cinquenta anos, não andei todos estes anos a estudar e a pincelar damas para ganhar menos que o analfabeto do Presidente & Companhia. Vá imediatamente despejar os cinzeiros, sua pirosa armada em galo, os cheios e os vazios, senão apanha com um processo disciplinar por desobediência ao Maioral, senhora ex-doutora Sem Canudo, actual funcionária da categoria Paquete com Farda!
A Lei era a Lei, mesma para quem pensava que estava acima dela. A nova trabalhadora não teve outro remédio senão ir limpar as conchas e as tampas dos frascos de compota. Quanto ao ex-Pintor, escoltou-a até ao contentor, montado no cavalo da sala 4 da Educativa. Ainda pôde ver a contabilista estrábica a entrar de rompante na Secretaria, para tentar substituir o software africano por um chinês, ambos pagos a peso de ouro por um projecto para dar ar condicionado aos mongas.
- Depressa, restaure-me a categoria – gritou desesperada a Paquete com Farda mas Sem Canudo, enquanto abria a tampa verde e se cruzava com o Apanha Croquetes. – Temos de reconquistar o Poder.
- A culpa é sua, está sempre com esquemas marados.
- Não se esqueça que foi com “esquemas marados” que passou de “Instrutor de Mulas Coxas” a “Supervisor de Mongas e de Tudo o que Não Mexe”. Veja lá se quer retornar à profissão que deveria ser de toda uma vida, mas que graças a mim, e à minha astúcia, se transformou numa Lotaria.
- Acalme-se, acalme-se, estava só a brincar – acautelou-se o “apanha croquetes”, pensando no futuro. – Para condutor de mulas não volto!
Entretanto noutro canto da Escola o Cabo Pilas acabara de saber que tinha sido promovido a ajudante da cabeleireira na Sala das Roscas.
- Vais começar por derreter a cera com o bafo, ouviste anãozinho reformado, - ordenou-lhe a agora Madre Superior, a implacável Dona Pilca.
- Mas eu já não tenho bafo para apagar as velas, sou um deficiente das Forças Armadas, - lamentou-se o ex-militar, apoiando-se no ombro da Senhora dos Pincéis.
- Tira daqui o coto, ó meia-leca, e toca a trabalhar. Nesta sala és igual aos teus colegas das roscas. Tens dez minutos para preparar a cera. Já há clientes na sala de espera.
- Mas como é que isto aconteceu, ainda ontem era o Doutor Cabo Pilas e hoje sou o Chico da Cera?
- Cala-te pigmeu e toca a trabalhar!
Por cima deles, a funcionária da lavandaria, a Dona Tremelga, acabava de saber que estava aos comandos do barco e tinha rapidamente de dar um rumo à Instituição de pouca Solidariedade e de muitas cunhas.
- Eu? Porra, mas a P_ _ A da Dra. Agora é paquete e eu é que tenho de tomar conta desta M _ _ _ A ? F _ _ _ - SE o raio do azar. Ao menos vou deixar de lavar as cuecas do P _ _ _ _ _ _ _ O do Porres !
A anarquia instalava-se lentamente, até os têxteis tinham mudado de mãos. Agora era o Vira-Bicos que fazia rendas para fora e pegas para dentro e o Nelinho estava aos comandos da máquina de cozer. Quando à Dona Piúlia era a única que continuava mais para lá do que para cá, mas agora nos Serviços Administrativos a tirar fotocópias em branco.

TRIM, TRIM, TRIM,
tocou o despertador na casa da Doutora!
- Que pesadelo, chiça. Ter tantos tachos está a dar cabo de mim!