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Friday, May 25, 2012

Comandante Guélas - Série Colégio Militar 4 - Inverno Quente


Comandante Guélas

Série  Colégio Militar 




Do ano de 1975 só se fala do verão quente, mas houve um inverno escaldante lá para os lados da Luz, mais propriamente no colégio de meninos internos em confronto permanente entre pulsões e restrições. Com as saídas aos sábados à tarde e as entradas obrigatórias até às onze horas da noite do dia seguinte, o batalhão de adolescentes e imberbes só via um rabo de saia quando a mítica filha do senhor Nunes, responsável pelo curral e pelo aviário, a Rosa, resolvia ir fazer uma visita ao papá. Nestes dias as camas rangiam até altas horas da noite. Esta história tem como protagonista, não a Marlin Monroe da Luz, mas uma administrativa, que um dia cometeu a imprudência de ir atestar o Fiat na bomba de gasolina do colégio. A saia que levava revelou-se imprópria para o local, e foi a ignição para um impulso linguístico que fez convergir as energias dos cinco adolescentes em três janelas do primeiro andar:
- “Senhor soldado, não se engane no buraco, olhe que é o do carro”
- “Não queres segurar antes na minha mangueira?” 
- “Abre as pernas que eu vou de cabeça”
… e outras miminhos que se perderam na memória do tempo!
O capitão Oscaralinho, um pequenote careca com a mania que era malandro, ainda tentou intervir, mas não teve tempo, pois a mania que tinha de pentear o cabelo a partir da orelha atrasou-o, e quando se apercebeu já a chinesa estava no gabinete do Diretor. O relatório com o acontecimento caiu a seco na secretária do comandante da Terceira Companhia, o hilariante capitão Caetano, um oficial hostil e paranóico, com uma pulsão maneirista, que não tinha o controle de nada e que via todos os dias a sua autoridade fugir-lhe debaixo dos pés. Deu início às investigações, que terminaram em reuniões individuais com os encarregados de educação onde, em termos formais, foi lido em voz alta o relato dos acontecimentos com os miminhos dirigidos à donzela. Se a Rosa resolvesse tomar atitudes destas de cada vez que ia ao colégio, não havia tempo para mais nada.

Ofício Circular
“Encarrega-me Sua Exa. O Brigadeiro Director de transcrever a V. Exa. O nº 1 do artº 10º da Ordem de Serviço Militar, nº 47, que é do teor o seguinte: punições com 2 dias de suspensão, cada um dos alunos da 3ª Companhia e do 4º Ano nºs:
157 – Becas
601 – Gordini
653 – Beterraba
por no dia 30 de Janeiro de 1975  terem dito “palavras insultuosas para com um funcionário deste colégio, que foram ouvidas por elementos militares e civis, que se encontravam no local de abastecimento de gasolina”.

26 de Fevereiro de 1975
Mas houve mais dois ofícios circulares personalizados, um para o nº 125, o Horrível, com três dias de suspensão, e outro para o nº 191, o Peidão, quatro dias, por ser reincidente (já tinha ficado detido uns dias durante umas férias da Páscoa). O que pensarão hoje o médico Becas, o engenheiro Gordini, o coronel Beterraba, o professor Peidão e o fisioterapeuta Horrível?
De uma coisa se safaram todos, do desfile do 3 de Março!

Monday, May 21, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 3 - O Túnel da Luz


Comandante Guélas
 
Série Colégio Militar
 
Dizia a lenda que o Colégio Militar estava ligado ao Instituto de Odivelas por um túnel, que povoava a imaginação de todos aqueles jovens fardados de cotim com as hormonas aos saltos, por isso a descoberta da entrada do “El-Dourado” teria consequências incalculáveis no desempenho do batalhão, que passava parte do dia a martelar o alcatrão com os calcanhares, a tarde em esgalhações coletivas enquanto o Pequito debitava o verbo “Avoir” e grande parte da noite a fazer ranger as camas. Mas algo estava a acontecer! Na aula prática de química o Gordini distraiu-se com o pensando enredado nas saias das Meninas de Odivelas, despejou no alguidar do ajudante Morais, o Ruca, o Sódio e o Potássio da turma, provocando uma explosão que fez com que o Patronilha se descontrolasse momentaneamente na Java 125, e quase se enfiasse pelo pátio da Infia adentro com a sua bela Julia à pendura, onde, devido à deslocação do ar, o capitão Oscaralhinho desesperava em tapar apressadamente a careca, puxando o cabelo que tinha sido atirado com violência para cima da orelha direita.

- Nesta aula uns dormem de olhos fechados e outros de olhos abertos, - reagiu o engenheiro Grijó.

Na aula de equitação, quarenta e cinco minutos agonizantes a trote, onde a fruta batera com violência na sela, o ten-Coronel Dores (ex 120) ordenara à metade da turma, a outra estava na aula de esgrima, para irem secar os cavalos no exterior do picadeiro, deixando bem claro que só poderiam ir a passo, avisando o chefe de turma de que qualquer incidente seria da sua responsabilidade. Ao longe, os camaradas faziam combates no exterior. Foi dada a ordem de “alto,” e alinharam os animais. Os da esgrima prepararam-se para o embate, a loucura comprimida dos Meninos da Luz acabara de estar contida,  todos despejavam adrenalina em vez de suor. Não foi em passe, nem a trote, nem a galope, mas sim numa carga tão grande, por momentos todos queriam salvar as suas dulcineias imaginárias, a barreira de candidatos a mosqueteiros desfez-se, deixando passar os animais desembestados, que foram chicoteados com os floretes de aço, que os atiraram para o campo de obstáculos, onde o Peixinho saltou pendurado na sela.
No laboratório de línguas o Teatcher preparava-se para debitar mais uma aula do seu Americam Language Course, estando os alunos a ocupar individualmente as boxes com a panóplia de instrumentos, e no momento em que colocou os auscultadores no alto da sua mesa de comando, o 224 deu um berro tão grande ao microfone, pedindo-lhe que lhe chupasse uma parte do corpo, que todos viram o docente dar um salto na cadeira, abrir a boca e retirar apressadamente o que pusera nos ouvidos.
Quando o lusco fusco chegou havia movimentações inabituais lá para os lados do estaleiro de obras junto ao pavilhão de Ciências. O Horrível, o 191, o 120, e o 667 tinham acabado de encher uma lata de tinta com mijo, e do rijo, e não sabiam o que fazer com tão precioso líquido, até que um civil enfiado num fato azul cueca a deslocar-se calmamente em direcção à igreja da Luz lhes chamou à atenção. Apesar de ser tempo de verão, a chuva que caiu sobre o incauto cidadão foi tão repentina, que ele nem teve tempo de abrir o chapéu para a chuva, que não trazia. Alguns minutos depois foi visto a berrar com o Chico Porteiro na Porta de Armas.
A notícia correu depressa pelo pessoal, o Vinasse anunciara o “achamento” da entrada para o Túnel que ligava diretamente às Meninas de Odivelas, e tudo isto durante o consumo de um cigarro debaixo de uma árvore numa zona interdita virada para o Estádio do Glorioso. Ao princípio pensou que era do efeito do fumo, mas uma observação mais cuidada revelou um pedaço de azulejo antigo, que foi de imediato datado do tempo de D. Dinis. Escavou um pouco mais e apareceram outros, e mais outros, e mais…, o Horrível ficou eufórico, já se via a chegar clandestinamente ao Instituto em formato de “Desejado de Odivelas”, no meio de uma noite de nevoeiro, saindo de um alçapão secreto atrás do túmulo do rei de barbas ruivas, e por ser o maior auto intitulado predador do Largo da Luz, que dava sempre ao fim de semana oito de seguida sem ver a luz do sol, teria com toda a certeza um batalhão de meninas à sua espera. Escavou, escavou, até acabar com o resto das unhas roídas, e se aperceber que só fazendo apelo ao lema  “um por todos  e todos por um” poderia atingir as cuecas tão desejadas. Pediu reforços! Mas o Gordini, o Becas, o Peidão, o Xoxo, o Bétis e o Barrada, não foram suficientes. O buraco continuava dum tamanho miserável, e escadas nem vê-las. Veio a turma, mas precisaram de mais, muitos mais. E vieram, a recompensa era do outro mundo. Quando a cova já ameaçava desabar sobre grande parte dos militarzinhos imberbes, e enterrar para sempre muitos sonhos libidinosos, apareceu o Moca e o Meia-Lua, que acabaram com a festa à custa de paus e pedras, mais os berros incompreensíveis do primeiro.
Do outro lado do pecado também havia movimentações junto ao leito do monarca: "Chegámos a usar as nossas pulseiras de prata, daquelas com nó e grupo sanguíneo, em jeito de pêndulo, para descobrir a tal passagem” (Menina de Odivelas)!
 




Wednesday, May 16, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 2 - O dia em que a Luz parou



Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Estávamos num domingo à noite e por isso de regresso a casa, o Colégio Militar, onde iríamos permanecer até sábado à tarde, altura em que alguns iriam visitar os pais, enquanto outros permaneceriam meses e meses à guarda da instituição, uns com os pais longe nas Províncias Ultramarinas e outros já sem pais por terem tombado na sua defesa. A Porta de Armas esperava-nos até às onze da noite, hora a partir da qual teria de haver uma explicação plausível para o atraso, senão arriscavamo-nos a ficar “detidos” no fim-de-semana seguinte. Na zona da enfermaria havia sempre uma emboscada, da responsabilidade daqueles que os comandavam, os graduados, que os aliviavam dos chocolates e afins, a célebre “Bolama”, denotando já terem uma preocupação no combate à obesidade dos seus subordinados. Um gordo tinha sempre mais dificuldade em cumprir uma “Apresentação à Alvorada” (vestir-se a rigor com a farda de pano e mostrar-se com sensualidade ao seu superior alguns segundos depois do toque da alvorada, fazer o mesmo mas vestido de cotim e novamente de pano), e ter ainda tempo para fazer a cama, sem vincos no lençol, fardar-se de cotim e chegar a tempo à formatura, cujo toque era vinte minutos depois. Caso o não fizesse teria de passar pelo Comandante de Companhia aluno que, de uma maneira geral, lhe enfiava um par de abrunhos, uma espécie de pequeno-almoço adiantado. Mas houve um dia em que todas as taras e manias ficaram em banho-maria! O almoço decorria com normalidade, de tempos a tempos ouvia-se um copo a despedaçar-se de encontro ao chão, seguido de um grito em uníssono de metade do batalhão, “Paga já”, que obrigava o funcionário de nome Zé Pereira a deslocar-se em passo de corrida com um bloco de notas na mão até ao prevaricador, obrigando-o a assinar uma nota de pagamento, que seria depois entregue ao encarregado de educação. Mas de uma maneira geral eram precisas mais notas de pagamento porque o lema do Colégio Militar, “um por todos, todos por um” tinha sempre um sentido prático, e desta vez foi levado ao extremo: 180 alunos estavam dispostos a suportar o prejuízo (“1/180 avos de um copo” - sic). De repente ouviu-se um grito do Leitão (384), que se pôs de pé a apontar para a Segunda Circular. Duas Panhard faziam pisca para o Colégio Militar. De um momento para o outro deu-se um levantamento, não de rancho, porque era dia de bifes de cavalo e mousse de chocolate, mas de todo o batalhão, que correu à carga para o exterior, e nem o Moca conseguiu parar a turba, apesar de ter acertado em vários com o pau (no Escalope, 307, no Coiote, 95, no Macaca, 136, no Peida-Gorda, 668, no Elefante, 300, no Gordini, 601, no Peidão, 191, no 485, Micróbio, ….) com que costumava abrir as janelas após o Toque da Alvorada, ao mesmo tempo que gritava ordens numa língua que só ele compreendia. E aconteceu a primeira mudança: correram para a porta de armas com dois dedos levantados em sinal de “vitória”, e não formados como habitualmente.
- Cuidado jovens, cuidado pois estão uns homens maus a atacar Lisboa – avisou o padre Vladimiro.
 A segunda mudança aconteceu nos Claustros. Não se formaram pelotões de ocasião (mínimo de cinco, quatro a marchar e um a comandar), como era obrigatório, cada um correu como pode escadas acima. As janelas trancadas não foram abertas, optou-se por partir os vidros. E lá fora em cima duma Panhard um ex-aluno (1920-1928) saudava todos os militarzinhos em transe. Finda a festa, deu-se a terceira mudança. Os alunos regressaram todos com os chapéus na posição de “farra”, inclinados para trás, o equivalente ao “sou bué radical” de agora. A primeira vítima do novo dia dava pelo nome de Capitão Caetano, e tudo aconteceu quando um Che Guevara de ocasião entrou pelo seu gabinete e, em vez de seguir o protocolo e pedir “Sua Excelência meu capitão dá licença que entre”, trocou o verbo e gritou, “Sua Excelência meu capitão dá licença que penetre”, e penetrou de imediato, a frio. O Capitão Caetano começou a espumar e a tiritar, e quando se preparava para responder ao inabitual pedido com um abrunho entre os olhos do indisciplinado, este desatou a correr para as camaratas, levando colado ao seu traseiro um capitão à beira de um ataque de nervos, que nunca o conseguiu alcançar. Noutra ponta do colégio a fava calhara ao Didi, professor de inglês, que se encontrava numa situação invulgar, ao verificar que no fim da aula, e já no exterior, os alunos tinham formado duas fileiras, para ele passar pelo meio. Seria uma nova forma de festejar a liberdade? E porque é que os militarzinhos tinham nas mãos dicionários da disciplina? Puxou a franja para o lado e avançou, primeiro cautelosamente, mas quando sentiu um livro a tocar-lhe nas costas, acelerou escadaria abaixo, com a biblioteca no seu encalço. A partir daqui o Colégio Militar entrou em autogestão, formaturas nem vê-las, as “apresentações à alvorada” eram coisas dos “dias negros do fascismo”, o Cara de Cavalo vendia charros, e os graduados eram somente aqueles que tinham umas estrelas amaricadas nos ombros. E um dia apareceu, numa das raras formaturas da Terceira Companhia, um oficial com uma monstruosa tabuleta ao peito a dizer “COPCON”. Trazia nos sacos várias calças, blusões e uma colecção de sapatos. Informou então os presentes de que, devido à restauração da balda…perdão, da liberdade, o povo da Luz iria ter direito a decidir o seu próprio destino, a começar por aquilo que queria vestir. A decisão foi tomada por unanimidade: calças à boca de sino, blusão justinho e sapatos de tacão alto! O militar do Otelo olhou demoradamente para a escolha do povo, e imaginou-o a marchar para o seu chefe em estilo Parada Gay. Arrumou apressadamente a tralha e foi-se embora, gritando:
- Estão a brincar com a Democracia.