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Wednesday, November 29, 2006

Camarada Choco 43 - A “Caixa do Choco”

                         Camarada Choco

                                          Aventura 43

A contagem decrescente para retirar algo ao Camarada Choco tinha começado e já estava a influenciar a Instituição de Reeducação para Clientes Desaparafusados.

24 horas antes
Na sala do senhor Pintor reinava a confusão. Havia tesouras, martelos, cadeiras, pregos e outros objectos pedagógicos, pelo ar. O espaço artístico tinha entrado em auto-gestão após a saída do chefe, para uma exposição de 5 pinturas rupestres feitas por mongas estrangeiros, oriundos da Azinhaga dos Besouros. A excursão levara uma carrada de desaparafusados, fundamentais para a estatística final, para uma visita de cortesia, mesmo com o gasóleo a preços proibitivos, mesmo para os mongas, a uma amostra feita por uma técnica com um currículo a roçar o terceiro mundo, mas com bons contactos na nossa querida e muito estimada Instituição de Solidariedade Duvidosa.
- O que vem a ser isto ? – Insurgiu-se o senhor Pintor ao entrar no seu espaço cultural e a dar de caras com o Betão de sapatão em punho, a ameaçar esmagar de vez o Kodac. – Ou paras já ou vais ter com a mana, - ameaçou, usando uma voz de trovão, igual à que usara no Ralys em 1975, durante o assalto dos comandos.
- Com a mana não, eu não sou monga !
- Sempre que saio daqui o caos toma conta do meu estabelecimento. E ainda por cima fui apanhar uma seca. Eu e todos os mongas.
20 Horas Antes
A voz da Dona Pilca ecoava, mais uma vez, pelo estabelecimento.
- Ó Faísca, tira a mão dos meus guardanapos.
- Mas eu só queria levar um para casa, - desculpou-se a funcionária destravada.
15 Horas Antes
- Porra, - gritou o Virgulino, ao testar o cartão Multibanco no relógio de ponto. – Estou liso, o meu dinheiro desapareceu todo.
Na secretária o som estridente de uma campainha chamava a atenção da Doutora Sem Canudo. No monitor do Pato Donald a imagem de um saco azul ocupava todo o écran.
- Estou rica, estou rica, já posso receber os subsídios de Directora auto-nomeada, de Descoordenadora de Coordenadores, e de tudo aquilo que eu quiser.
10 Horas Antes
Quando o Vira-Bicos entrou na Cerci, quase que chocou com a Dona Espatinha e a sua monstruosa abóbora e os vinte mongas que a carregavam, incluindo uma bica quentinha que levava à cabeça. Tinha catado a cadeira eléctrica do Bacalhau, aproveitando uma ida dele e do Pitrogas ao cagatório, e atrelado a resma de desaparafusados que se preparavam para descansava no seu bar, para darem uma ajuda ao motor que não aguentava com tamanho dinossauro.
- Sai da frente ó marmelo, que eu só para na Direcção, - gritou, fazendo estalar no ar um chicote de marmeleiro.
- Epá, mas o que vem a ser isto ? – Insurgiu-se o peão, abanando com a deslocação do ar.
- Vou a caminho dos “Pontos” !
- “Pontos”?!
- Então não sabe que foi criado o “Cartão Canudo”?
- “Cartão-Canudo”?!
- Quanto mais prendas se der à Auto-Directora, recebe pontos neste cartão, e é só descontá-los no C.A.A.G.T.. Com esta abóbora e com o cafezinho que trago à cabeça, levo para casa uma caixinha de “Bollicaus” que foram com o Pedro Álvares Cabral e regressaram.
- C.A.A.G.T. ?! O que é que quer dizer?
- Cadeia de Armazéns da Afilhada !
5 Horas Antes
No primeiro andar a fila estava compacta. Os mongas tinham sido abandonados à sua sorte, a peregrinação à Torre de Babel ( Sala Canudo) entupia o corredor. O Porres tinha mandado reforços para controlar o trânsito, o agente Pato Donald não parava de autuar.
- Trouxe-lhe uma almofada feita de restos de piúgas e uma pega tirada a ferros dumas cuecas pretas do Choco, com o buraco onde estava o emblema do Benfica. – Ofereceu a Dona Piulia.- O Mano manda este quadro do Noddy.
- 15 pontos !
- Tenho aqui um painel de azulejos a retratar a vida árdua dos nossos clientes, - ofereceu a Dona Pilca.
- Mas estão todos a dormir ? – Constatou a Doutora Sem Canudo.
- É por isso que eu disse “árdua” !
- 7 pontos !
4 Horas Antes
No novo gabinete de uma das Afilhadas da Tarde, a própria tentava explicar à Faísca as vantagens de se inscrever num curso pós-laboral para alforrecas, podendo assim ganhar um canudo novinho em folha.
- Não sei, não sei, já não sou capaz, a minha cabeça está sempre em curto-circuito, - queixava-se a funcionária. Qual é a vantagem ?
- A vantagem ? Verá quando for à terra. Deixará de ser a “Faísquinha das Ovelhas” e passará a ser a “Doutora Faísca” !
- Como a outra ?
- Sim, como a outra!
- Alto e pára o baile, - interveio a Doutora Sem Canudo, dando um “basta” no trabalho árduo dos “Sacos para Presentes”, mais uma parceria, desta vez entre Logistas e Desaparafusados. E como já era tradição, os Aparafusados (daqui para a frente chamados “Chineses”) realizavam o trabalho escravo durante as várias semanas que faltavam até ao Natal, e quem ficaria com os louros, como sempre, eram os desaparafusados, agora promovidos a clientes e a estatística para a Segurança Social. O subsídio nº 34 da Doutora para os presentes dos familiares estava assim garantido.
- Cara Afilhada da Tarde, a Dona Faísca não precisa de mais habilitações, a sua formação em ovelhas, cabras e galinhas é mais do que suficiente para tratar do nosso rebanho de quiabos. E assim poupamos dinheiro !
- Mas….
- Nem “mas”, nem “meio mas”, a ideia de dar formação às nossas chinesas está fora de questão. Vou até decretar uma “Fatwa” a proibir mais canudos na minha Instituição, mas primeiro tenho de voltar para o trono, porque o povo espera-me.
3 Horas Antes
- Tenho aqui dois garrafões de “Gerupiga” do meu avozinho, - ofereceu a Terapeuta Zézé, esticando os braços.
- 300 pontos, uma calculadora chinesa e um pacote de leite só com um mês de atraso. Seguinte !
- Tenho aqui uma caixa de pauzinhos de gelado, para poder fazer talas iguais às que fazia no século passado.
- Óptimo, óptimo, assim faço de conta que endireito os marrecos e poupo dinheiro. Dou-lhe 400 pontos !
- Quatrocentos ?! – Indignou-se a Zézé. – Dê-me de volta os garrafões que eu trago-lhe uns troncos de árvore para endireitar cabeçudos.
- Pronto, pronto, dou-lhe mais 100 pontos.
- O quê, o que é que estas pindéricas são a mais que eu ?! – Interrompeu a Dona Piulia, retirando as pegas.
- Ok, tome lá mais 200 pontos e desampare-me o trono. Veja lá se não mete baixa !
2 Horas Antes
A situação estava a começar a ficar fora do controlo. Todas as enteadas queriam passar ao estatuto de afilhadas, e até já ameaçavam derrubar o trono, comprado com o já lendário subsídio do ar-condicionado. Pediram-se reforços !
- Os pontos não são tudo na vida. Voltem amanhã, - gritou o Porres, tentando controlar a situação.
- Os pontos são tudo o que temos, o resto é trabalhar e ganhar como chinesas ! – Queixou-se a Dona Gillete, encostando à parede um quadro de um Santo Mongol, vindo directamente de uma loja chinesa da Brandoa profunda.
- Porres, venha imediatamente aqui, - ordenou a Doutora Sem Canudo, dando ordem de “Stop” às peregrinas. – Que ideia é essa de os pontos “não serem tudo na vida” ? Não vê que assim tenho as chinesas felizes e ainda me levam as porcarias que teimo em coleccionar. Já tive de dar um cartão amarelo às minhas afilhadas da tarde por causa da triste ideia da “Formação” e agora é o senhor ? Mande-as de regresso ao trabalho, porque os clientes já estão a dormir há muito tempo e assim não há cartões para o Natal.
1 Hora Antes
- Posso entrar ? – Perguntou o Vira-Bicos.
- Já não há pontos, - atirou de rajada a Doutora Sem Canudo.
- Trago uma ideia, é de borla, mas dar muita guita.
- Guita ?! – Perguntou a Mãe-Natal Sem Canudo, levantando-se e tocando com os olhos no peito sensual do artista do “palco-monga”. – Adoro clientes que cagam pepitas de ouro…perdão…perdão…dos coitadinhos dos desaparafusados. Faço tudo por eles !
- Tenho um projecto para uma Filarmónica-Monga, que irá tocar em todas as Festas de Natal, em todos os Centros Comerciais, desde as montras dos talhos até ao Palácio de Belém, o mesmo que toca a Filarmónica de Berlim, ou seja, “Let it Snow”.
- Posso ? – Interrompeu a afilhada, trazendo ao colo a sobrinha.
- Saiam todos, tenho de ir avaliar a bebé.
- Avaliar, tia?! Outra vez?!
- Avalio todos os bebés que apanhar pela frente, as vezes que forem necessárias. Não é por acaso que também sou Doutora em Intervenção de Prevenção.
- “Intervenção de Prevenção”?! Intervenção Precoce !
Mas a bebé já tinha memória e pirou-se da tia, fugindo para o único local da Cerci onde a Directora Auto-Nomeada ainda não ousava entrar: na sala da Chefe Bélinha!
- Então e a Filarmónica ? – Perguntou o Vira-Bicos, levantando a perna para deixar passar a criança em fuga.
- Sim, sim, mas também quero que toquem o “Adeste Filetes” daquele rei…
- O “Adeste Fideles”, do Dom João IV, - corrigiu o artista.
- Sim, sim, tirou-me as palavras da boca, e também o “Lengeri à l’éter de Bude”…
- O “Lovange à l’Étérnité de Jesus”, de Messiaen…
- …foi o que eu disse…e também quero a “Obratória da Páscoa”…
- …”Oratória de Natal”, de Bach…
- …e também o “Concerto de flatos pêra a notché du Natálio”…
- …”Concerto fatto per la notte di Natale”, de Corelli. Ainda falta muito ?
- Quero tudo isto para a Festa de Natal !
- Com tantas ideias, como já é tradição, quem vai acabar por tocar no palco é o Pai-Natal do Bar ! – Atirou o Vira-Bicos, já com fumo a sair das orelhas.
Mas a Doutora Sem Canudo estava noutra, preparava-se para montar uma emboscada à pequenita, colocando-se junto à porta da Chefe Bélinha. Mal sabia é que a pequena já tinha sido evacuada pela janela e ameaçara a tia de agressão, caso a trouxesse de novo para as mãos da Inquisição.
0 Horas
Mas o problema do dia não eram estas ninharias. O assunto era sério, o Camarada Choco tinha sido levado para o hospital, porque insistiam em separá-lo do seu sinal nas costas, em forma de santola. As interrogações existenciais eram muitas ! A Cerci estava, pela primeira vez na vida, suspensa num limbo angustiante. Será que na altura em que lhe puxassem a Santola, o Choco se comportaria como um frade das Caldas e ficaria com o cano em sentido ? Ou o sinal seria uma tampa que, depois de aberta, se revelaria uma autêntica “Caixa de Pandora”, de onde sairiam milhares de choquinhos, que tomariam de assalto a Cooperativa ? O Porres estava preocupado ! Os critérios para a sua selecção como Presidente estavam a anos-luz das qualidades de um Choco, quanto mais de mil. E se ao ser retirado, o sinal ganhasse vida e gritasse para o Choco, “papá” ?
Para o médico apenas representava retirar mais um carrapato a um marreco, mas para a Humanidade da Roque Gameiro talvez representasse a abertura da “Caixa do Choco”. Sairia de lá tudo o que ele amealhara ao longo da vida ? Haveria um ataque sangrento, estilo “Guerras dos Mundos”, mas em vez de máquinas seriam cuecas pretas com o símbolo do Benfica, que se colariam para sempre nas bacias de todos os Aparafusados e Desaparafusados; e atrás delas resmas de faluas vermelhas nº 50, que tomariam conta dos pés de todos, incluindo as patas das cadelas. Conseguiria o Arrasta-a-Pata deslocar-se com as barcaças ao longo dos vastos corredores ? E o Primo do Choco, reconciliar-se-ia com o Stor Rico, visto agora serem irmãos gémeos ? E o Stor-Rico passaria a fazer pisca com as faluas, de cada vez que trouxesse a trotinete ? O “suspense” adensava-se.
Na sala de cirurgias a equipa fora apanhada de surpresa pela visita inesperada da Santinha, que obrigara o Choco a mumificar-se junto à entrada do ar condicionado. Mas havia mais ! A identificação do paciente tinha sido feita por fotografia e eles não sabiam quem era a mãe, a filha ou o filho. O progenitor, o senhor Fininho, foi chamado de urgência, para lhes indicar a sua obra prima, mas até ele já estava com dificuldades.
- Da última vez que o vi chegava-me aos joelhos e agora já estão os três do mesmo tamanho. A culpa é dos “gémeos” “Tricas Cólicas”, - disse o pai, tentando impressionar a equipa médica, mostrando assim ser um empresário intelectual.
- O serralheiro destravado quis dizer genes do “Treacher-Collins”, - esclareceu baixinho a enfermeira. – A mãe tem, os filhos herdaram. É por isso que parecem todos uns chocos.
- Então, como é que vamos resolver isto ? – Perguntou o médico, olhando para o relógio.
Só havia uma solução: fazer uma amostra aos três.
- Mas isso é uma violação da varanda alheia, - indignou-se o Fininho, abrindo os braços e protegendo o cardume.
O ar frio do aparelho começara a ter efeitos no comportamento do paciente. O único gene congelara e começara a aparecer gelo nas orelhas.
- Nhi, nhi, - balbuciou o Choco.
Só o telefonema de um cliente conseguiu tirar o Virgulino do Bloco Operatório.
- Mas eu volto depois de fechar a varanda, - ameaçou.
Com as calças pelos joelhos foi fácil identificar o cobridor, através de uma estalactite torta e nervosa.
- É este. Ponham os outros lá fora e vamos despachar a operação, antes que o maluco volte.