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Sunday, February 22, 2009

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - Os sapatos do coronel Osório


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


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Iria haver festa na vila, o Focas estava com casamento marcado e a despedida prometia ser longa. Começaram por arremessar um dos seus sapatos para a varanda do coronel Osório, que já se encontrava mais para lá do que para cá, depois de ter dividido com a esposa um jantar no café do senhor Américo. O militar ainda ouviu o impacto da falua made in senhor Coutinho no estor, mas confundiu o barulho com um tiro disparado pelo John Waine no filme que estava a dar na televisão. O que iriam dizer os futuros sogros quando o Focas aparecesse lá em casa para ir buscar a noiva e se apresentasse com um pé calçado e outro com uma meia “CD” rota? O casamento do Focas não poderia ser posto em risco, porque o Pilas já estava a preparar a festa, idêntica à do casamento do Peidão, em que trotou o dia todo, gatilhou nos extintores e abanou a fruta para as tias quando estava de cuecas em cima da prancha mais alta da piscina antes de saltar e gritar, “o que vocês querem está murcho”.
- Temos de ir buscar o sapato do pobre Focas, senão ele ainda se constipa, - disse o Velhinho, recuperando o equilíbrio depois de se apoiar numa árvore.
O jovem adulto escolhido para ir tocar à porta do militar, estava virado para a loja de electrodomésticos do Ligóia com o sexo cansado de fora a debitar mijo, muito mijo.
- Não dou, - gritou peremptoriamente o coronel Osório, não aceitando a explicação que colocava o sapato do Focas na sua propriedade devido a um golpe de vento traiçoeiro.
A hora para ir buscar a noiva aproximava-se. Como o andar onde morava o Velhinho era o de cima, um segundo plano foi montado, e consistiu em pescar a barcaça. Mas na varanda utensílios ligados ao mar só havia uma poita.
- Eu sou capaz de pescar um tubarão com uma linha de cozer, - atirou o Velhinho, chegando-se ao parapeito da varanda com a cana na mão.
Olhou para baixo e viu três sapatos, apesar de todos só verem um. Quando o isco começou a descer para ir salvar o sapato do Focas comprado na sapataria do senhor Coutinho, o pescador teve uma fraqueza nas mãos, devido à cevada que lhe forrava o interior, e deixou cair com estrondo a âncora em cima do objecto do noivo. O coronel abanou e deitou-se no chão em posição de defesa. Nova reunião, novo porta-voz, mas agora um com um ar mais convincente e da zona: o Pierre Pomme-de-Terre!
- Não, - tornou a gritar o militar da velha guarda para o adolescente arraçado de leitão com anjo barroco, de carne tenrinha e sorriso virgem.
O Focas não teve outro remédio senão pedir emprestado o sapato de cor diferente ao seu futuro cunhado, o Proveta, que o esperava no rés-co-chão, e não saiu da porta de entrada, sem acender as luzes, alegando uma reunião extraordinária com o padre. Saiu a correr e a coxear, mas com os sogros a babarem-se de orgulho por tão devoto enteado. No entretanto o gang reunira-se de emergência e aprovara por unanimidade a proposta do marido mais responsável da zona, o senhor Peidão, que lançara uma fatwa para a meia-noite: encher a varanda do coronel Osório com todos os sapatos velhos de Paço de Arcos e arredores. E a lei foi cumprida, durante meia-hora choveu granizo na varanda do militar. No dia seguinte o Osório foi visto com um enorme saco de plástico atestadinho de sapatos, a caminho do contentor da praceta.

Sunday, February 01, 2009

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - Estremoz cidade serena



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Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Uma das passagens de final do ano do Gang foi passada a quilómetros de distância, no meio de chaparros, tios chaparros, classificação que não constava nos manuais escolares dos “meninos de boas famílias” da Costa do Estoril.
- Chaparros queques?! – Perguntou admirado o Charlot.
- Tão queques que só podemos entrar de fato e gravata, e a festa é no casino lá da terra, um misto de mesas de matrecos com sofás de veludo, - explicou-lhe o Proveta, ajeitando a gravata do pai que lhe chegava aos pés!
Um dos membros do Gang namorava com uma menina cuja família tinha morada na respectiva terra e achara por bem convidar todos aqueles adolescentes das famílias mais brazonadas de Paço de Arcos, para assim subir na hierarquia social da “chaparrolândia”. Iriam todos de comboio, já equipados para a festa. A meio da viagem e já um pouco chateados por não fazerem nada, o Gang resolveu passar à acção, dando início a um jogo radical que consistia em mudar de carruagem, mas pelo lado de fora. Quando o maquinista se apercebeu do jogo, já havia vinte adolescentes, de fato e gravata, do lado de fora, facto inédito nos anais da CP alentejana. A brincadeira só acabou quando todos cumpriram o percurso definido: partida na última carruagem e meta na primeira. As autoridades da composição bem tentaram mete-los para dentro, recorrendo a gestos e a buzinadelas, mas a prova só acabou quando o Velhinho terminou o circuito. Meia-hora de descanso para os “bravos de Paço de Arcos” e nova animação: slows unisexo. O Focas e o irmão do Marreco levantaram-se e, ao som de uma música romântica, abraçaram-se e dançaram com sensualidade para a carruagem que ia atestada de velhas chaparronas tipo morcegos. Para abrilhantar o número, o Pilas foi à casa de banho e encheu de água uma camisa-de-Vénus, que pôs a circular pelos passageiros. A pouco e pouco a carruagem foi-se esvaziando de autóctones, acabando por ficar exclusiva dos “meninos de boas famílias” da Costa do Estoril. Entretanto algo parecia ter acontecido, um fenómeno do Entroncamento: o Peidão crescera durante a viagem, as mangas do blaiser castanho que o Pedro Sá lhe tinha emprestado acabavam nos cotovelos.
- Era o que eu usava quando a catequese ainda me aceitava, - explicou o proprietário, escondendo o facto de ter sido expulso da instituição aos 10 anos por ter desviado dinheiro da caixa das esmolas para ir comprar um maço de GS Filtro.
A chegada a Estremoz foi inesquecível para os habitantes. A rua principal estava recheada de laranjeiras carregadas de frutos reluzentes. Segundo reza a lenda, quem começou a guerra foi o Pilas, que acertou em cheio com uma laranja na cabeça do Conan que ripostou, mas falhou o alvo, esborrachando o esférico no fatinho catita do Velhinho, que também não gostou e respondeu à letra,…..Bastou meia-hora para a estrada principal estar pintada de cor de laranja. Mas como tinham de chegar a horas ao jantar na casa da família da namorada chaparra de um dos paço-arcoenses, sacudiram os caroços dos fatos e apresentaram-se na morada indicada. Foram recebidos como heróis e deram de caras com um repasto digno de príncipes. O Conan foi o primeiro a beijar a dona da casa e pediu para lavar as mãos. Só que não disse toda a verdade. Tinha saído de casa com a tripa cheia e durante a viagem a trepidação do comboio inibira o conteúdo de sair. Mas a “Guerra das Laranjas” acalmara-o e agora saíra tudo de uma vez. A fila para o WC aumentou, mas o Conan recusava-se a sair, puxando compulsivamente o autoclismo. Quando se viu obrigado a abandonar as instalações sanitárias, pois caso o não fizesse os colegas de escola ameaçavam deitar a porta abaixo, trouxe atrás de si um cheiro nauseabundo que não ficava nada atrás do Litopol. Devido a este “grande percalço” o jantar acabou de imediato e o Gang resolveu ir fazer uma visita de cortesia à pensão onde estavam alojados os dois únicos paço-arcoenses com posses: o Bakaus, teoricamente o maior cobridor do país, um conquistador cruel que não escolhia e atacava as suas presas sem estados de alma, e o sempre abonado com libras, o Pierre Pomme-de-Terre. Só dois tocaram à porta enquanto que os restantes permaneceram acoitados numa esquina. Uma velha estilo bruxa abriu a porta:
- Boa-tarde minha senhora, viemos dar um beijinho aos nossos manos, que estão aqui hospedados, - disse o pilas com um sorriso rasgado.
- São meninos de Lisboa?
- Sim, - respondeu o Conan, afastando com as mãos os vestígios gasosos da “obra” que tinha produzido uns quarteirões acima.
- Entrem, a casa é vossa.
Entraram todos.
- Chiça, e eu a pensar que as famílias numerosas eram aquelas que não tinham televisão, – resmungou a mulher morcego.
A contabilidade da casa era rigorosa, havia um contador à saída de cada tomada, mas o Bakaus já tinha feito uma ligação directa. O aquecedor estava ao máximo e o aparelho de controlo a dormir. Em cima de uma das mesas estava o garrafão de colónia “Lavanda” do gordo caixa-de-óculos com nome afrancesado. Quando o Gang se despediu dos “manos” o perfume transbordava dos sapatos italianos do Pierre Pomme-de-Terre. A festa decorreu sem incidentes de maior e alguns dos adolescentes acabaram a dormitar nos bancos do jardim, nunca tendo conseguido adormecer, porque a polícia colara-se ao espaço público e intervinha de cada vez que se deitavam.