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Wednesday, March 21, 2007

Camarada Choco 45 - No Reino do Leão





                         Camarada Choco
                                          Aventura 45
 

O convite chegou via fax, como já era habitual, mas quis o destino que  não fosse parar ao caixote do lixo, como era habitual. Mesmo vindo da Federação dos Pseudo-Deficientes (F.P.D.), os chamados “Meninos Desaparafusados da Linha”, que enchiam as escolas dos aparafusados, mas que muitas vezes eram recambiados para as cooperativas, para assim não chatearem os senhores professores da primeira classe do comboio do Ensino. E era com parte destes que o Estado se representava nas olimpíadas, abrindo os noticiários com a enchente de medalhas de ouro.
Mas desta vez a resposta foi “SIM”! De peito, ou costas erguidas, consoante o modelo do atleta, iríamos defrontar o Leão no seu Estádio. A Seleção começou de imediato a preparar-se para o embate. As Novas Tecnologias do Marketing foram postas em ação, tendo em vista arrasar com a concorrência. De “Ping Pong” só um entendia, o Brazuca, a nova aquisição da Cooperativa, descoberto numa obra, que tinha substituído a escola. E como era clandestino, talvez fazendo-se passar por desaparafusado conseguisse o tal visto milagroso. Era isso o que a simpática mãe esperava, para depois o tirar rapidamente dali, antes que a peste o contagiasse. O convite dos pseudo - clubes de desaparafusados, muitos dos quais mais aparafusados dos que os pseudo - aparafusados das escolas oficiais, às genuínas escolas de genuínos desaparafusados servia só para a estatística, porque em vez de meia dúzia de gatos pingados a fingir de deficientes, contariam com uma centena de desaparafusados de todos os calibres, daqueles que nenhuma entidade oficial convida, excepto se houver eleições. A nossa missão era vencer e convencer, mostrar que éramos os “Tubarões do Seixo”, nome mítico que levava sempre o “i” de cada vez que saiamos para o exterior. A tática tinha como elemento principal o Cascão, um superdesaparafusado que passava a maior parte dos dias a falar com as moscas. A chegada foi apoteótica, a cada “Tubarão do Seixo” aplicou-se uma camisola da loja dos trezentos com as palavras indicativas do local de origem: Venteira! Os primeiros leões foram de imediato informados pelo Stor Pobre de que iriam ser cilindrados e ao campeão de Portugal aconselhou-se a mudar de profissão. O Tubarão tinha vindo massacrar o Leão. Para o aquecimento foi destacado o Cascão, que começou de imediato a tentar acertar nas moscas com a raquete. Não precisava de bola ! O Brazuca foi mandado sentar, não precisava de aquecer, os anos de treino em casa com os primos eram suficientes. A prestação do superdesaparafusado provocava risos jocosos aos adversários, que viam esta prova como um passeio no parque.
- Mas eles são mesmo deficientes – desabafou um anão coxo com o Leão ao peito.
O Cascão continuava o seu aquecimento, tentando acertar nos insetos virtuais que ocupavam o seu espaço aéreo. Para impressionar o “inimigo” foi enviado para uma das mesas um par desaparafusados africanos da Brandoa, que de “Ping Pong” percebiam pouco…muito pouco…nada, absolutamente nada, mas mesmo assim eram melhores, muito melhores, que o Cascão. Chamavam-se Lali e a Vaisnessa ! O primeiro ainda tentou acertar na bola fantasma, materializada pelas informações que o olho maroto dava às poucas partes do cérebro que não tinham saído após a queda do penhasco na sua ilha, que lhe abrira o coco ao meio, e que tinham sido substituídas pelas poeiras que se acumularam durante o longo processo de cicatrização. Apareceu já assim, graças aos protocolos de saúde que davam a possibilidade de colocarem os feridos nos aviões com destino a Lisboa. E depois os professores e os outros técnicos é que se tinham de desenrascar, porque os médicos pouco ou nada informavam. Quanto à Vaisnessa, os dotes de jogadora também não eram grande coisa. Ao lado os felinos riam desamparados.
- Mas eles são mesmo deficientes, - tornou a dizer o anão coxo com o Leão ao peito.
A estratégia estava montada, os leões iriam cair que nem uns patinhos. Mais um par tomou de assalto o aquecimento: o Gorilão e o Monga Romeu. Acertaram cinco vezes em mil, o que não convenceu o anão coxo com o Leão ao peito:
- Mas eles são mesmo deficientes !

Primeiro Jogo

Leão versus Tubarão

A partir deste momento só o Brazuca nos representava, os outros não passavam de simples engodo. O primeiro representante do felino era o já célebre anão coxo, que se dirigiu para a arena com um sorriso de vencedor absoluto e bastaram poucos minutos para regressar à bancada ainda mais pequeno e duplamente coxo.
- Só isto ? – Perguntou o Brazuca, compondo a popa.
- Foi sorte de deficiente, - justificou-se o marreco zarolho, o próximo da lista. A eliminação do anão já tinha aberto uma brecha na jaula do Leão. O treinador observava agora com atenção o nosso Tubarão. O jogo demorou algum tempo, mas o marreco também foi com os burros. A situação estava grave. As luzes apontavam para o Brazuca. Foi a vez do Stor Pobre entrar em cena e arrasar com a concorrência. Alvalade não chegava aos calcanhares da Venteira. O treinador dos Tubarões colocou-se junto do treinador dos Leões e explicou toda a metodologia de treino.
- Está a ver aquele ali, - e apontou para o Cascão, o célebre caçador de moscas. – O Brazuca quando nos veio parar às mãos (dois dias antes), estava naquele nível.
- Espantoso ! – Admirou-se o representante dos felinos. – Que trabalho fantástico.
- Das 8 da manhã, às 8 da noite. O Stor Rico abre a porta e a Dona Pilca fecha-a. O Brazuca nem almoça, é só treino, só treino. O Cascão iniciou agora a sua carreira no “Ping Pong” e no final do ano estará ao nível do nosso campeão e para o ano virá aqui disputar a taça (caso houvesse algum milagre, pois estava assim desde que nascera há 14 anos, vindo diretamente da pipa que era a barriga da mãe, que no teste de amniocentese dera vinho tinto branco de Belas). Nos "Tubarões do Seixo" há centenas de mesas espalhadas pelos corredores, ocupadas durante todo o dia. A culpa é do Porres que, desde a chegada ao topo, Trabalho e Competência passaram a ser temas obrigatórios.
O Brazuca limpou tudo e obrigou o Leão a ficar de gatas, com o traseiro à disposição do Tubarão. A única foto oficial foi tirada debaixo da bandeira verde, com marcação incontestável na primeira página do jornal oficial de Alvalade.

Friday, March 02, 2007

Camarada Choco 44 - As Lágrimas da Doutora



                          Camarada Choco
                                           Aventura 44

Habituados ao insólito, os “Cerciamos” (habitantes da Cooperativa de Reabilitação para Desaparafusados e Aparafusados) prepararam-se para o apocalipse, onde tudo daria lugar há insanidade e há loucura. Uns ainda se espantam (a minoria) porque não acreditam, outros porque estão cansados, outros porque receberam uma oferta melhor, talvez uma oferta que não pudessem recuar, ser afilhadas e, como consequência, mais prósperas e felizes. O abraço da ex-Doutora Sem Canudo à Dona Pilca e à Menina Tatrícia, fez transparecer um estado de alma, que criou uma vibração nas vozes de todos os presentes. Era o culminar de um amor caprichoso, tumultuoso, de encontros e desencontros, de desejo, sensualidade e ausências (o estado “santinha”, exclusivo desta Instituição). A um canto, discreta, estava a Dona Gilette, elemento cada vez mais raro nos colectivos dos desaparafusados. Atenta, paciente, formosa mas não segura, à espera da sua vez para vender o único produto possível da sua sala de quiabos: frasquinhos de compota de Baba e Borra de Monga, que lhe possibilitariam, segundo pensava a própria, comprar um talhão junto à Casa Forte da Madrinha.
As lágrimas da Doutora Madrinha eram ali ouvidas a tocar nos tacos, ao vivo e a cores, sem piano, em pequenas doses de crocodilo, repetidas tantas vezes quantas o montante entregue. A concentração, o esforço e a boa disposição imperavam na sala. Mas não em todos os cantos. O intrépido gaulês, o Senhor Pintor, denunciava a situação, propondo um novo olhar, que era sempre pessoal. Assim, estes jantares de Natal não serviam apenas para reconstruir novas alianças do passado, mas antes criar espaços para novas afilhadas. Foi o momento de um encontro privilegiado, onde se pressentiu o pulsar comum dum saco azul subterrâneo, por debaixo dumas saias, quase invisível, interior.
A geração de afilhadas é uma tendência que se tem vindo a desenvolver e a que todos devem estar atentos, por ser claramente favorável a quem desejar fazer umas colónias.
- No meu dia de anos nem um beijinho me deu, nem uma lágrima verteu. Só consegui os dez minutinhos finais da jorna – resmungou o Senhor Pintor, afastando, do fato comprado nos indianos da Praça de Espanha, um pêlo encaracolado. – Alguém haverá de ser responsabilizado por isto !
O ritmo alucinante do beija-mão era pontualmente interrompido por uma fotografia, enquanto que no corredor se tentavam adivinhar as prendas, não fosse alguém receber uma pega da Sala dos Têxteis. A Madrinha estava sempre presente, na forma como comíamos, nas palavras que usávamos, propositada ou inadvertidamente. Mas, com a Madrinha há sempre muitos “mas”…
- A “clave de Sol”, onde está a minha “clave de Sol”, que comprei nos chineses com o dinheiro dos vossos almoços….vossos não, meus almoços. Ninguém sai daqui se a “clave” não regressar há minha propriedade. Mas uma parte da plebe estava mais preocupada em guardar nas carteiras as velas, do que no discurso da “Madrinha de Algumas”. O jogo do arremesso dos porta-guardanapos foi bruscamente interrompido pela chegada, não programada, da companheira do Camarão.
- Estás proibido de jogar com a progenitora do Tremelga.
Era o segundo cartão amarelo da noite ! O jogo prometia aquecer, a Madrinha já não gritava só pela “clave de Sol”, mas também pelas “velas com a Santinha”. Nem os beijinhos das novas afilhadas conseguiam controlar a “baba de fúria”. E nestes momentos tudo vem à memória, até a garrafinha do vinho do Porto descoberta no armário da Psicóloga Loira. Mas o pior ainda estava para vir !
- A “Passarinha”, roubaram-me a “Passarinha”, - gritou a Dra. Madrinha Sem Canudo, deitando fumo pelas orelhas, sinal de que os segmentos estavam prestes a gritar.
- A “Passarinha” da madrinha ? – Perguntaram em coro as novas afilhadas, levantando-se com dificuldade da mesa de Natal. – Nós vamos investigar, já temos suspeitos. Acalme-se Madrinha que volta para casa coma sua “Passarinha”, a “Clave de Sol”, as “Velas com a Santinha” e todas as outras porcarias….
- Tatrícia – interrompeu a Dona Pilca, tentado abafar a última palavra da sua colega chinesa com um valente empurrão, que a atirou para cima do Cabo Pilas, que caiu desamparado no chão. – Queres dar cabo do posto que tanto nos custou a ganhar ?
E no meio disto tudo veio de novo à memória da Doutora Madrinha Sem Canudo a garrafa de vinho do Porto. Agora compreendia ela as razões de tanto “farróbadó” naquele gabinete. E escusava a Psicóloga Loira explicar que fora alguém que lhe pedira para guardar o produto e ela esquecera-se. As melhoras dos clientes não se deviam a palavras sábias, mas sim aos vapores do vinho do Porto. Era um tratamento fraude !
- Qualquer dia é o Nélinho a ser eleito Afilhado, - continuava a resmungar o Senhor Pintor. – Vou-me vingar em alguém ! – E levantou-se apressadamente da sala, desaparecendo nas entranhas do edifício.
Algum tempo depois ouviu-se um barulho metálico vindo do andar de baixo e para os lados do Bar. Todos se precipitaram escadas abaixo, pensando ser o Muro que apanhara de vez o Porres. Mas não, o arrastar de metal pelo chão era mais para lá. Pararam a escassos metros quando deram de caras com o Senhor Pintor a expulsar um armário do seu estabelecimento de pintura.
- Na Sala de Artes não se produzem sandes, sandoscas, croquetes, pastéis de bacalhau, mas sim telas com Nódis e outra bicharada – informou o Dr. Pintor, com o fato dos indianos já todo amachucado.
- O meu Sobrinho…o senhor Doutor Pintor Sem Canudo tem razão – confirmou a Dra. Madrinha Sem Canudo, tentado resolver a situação embaraçosa, recorrendo às palavras mágicas.
- Dá-me a impressão de tenho de acelerar a produção das minhas compotas, - atirou a Dona Gilette. – Ainda saio daqui hoje afilhada !
- Sobrinho ?!! Eu fui promovido a Sobrinho ?!! – gritou o Pintor, abraçando-se à Tia.
- E para provar a afeição que tenho por si, convido-o a acompanhar-me a um Curso de Formação de Power Point, que não me vai servir para nada, mas não dou o meu lugar a ninguém.