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Wednesday, October 30, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 52 - Simplesmente Vapor

Comandante Guélas
Série Colégio Militar
O Vapor


- É o Gui que vai mandar na Força dos Estabelecimentos Militares de Ensino, - ordenou o Alguidar, levantando-se e pondo-se em bicos dos pés.
O silêncio pesava. O Tó sabia que todos sabiam que ele era mais um daqueles ministros que nunca comandara nada, e que agora tinha tido a oportunidade da sua vida, negada uns anos antes pela “enurese”, declarada por um atestado semelhante ao da sua licenciatura. O país tinha um político em processo de “transferência”, deslocava sentimentos do passado, ausência de pilão ao despertar, para pessoas do presente.
- Mas senhor ministro, os outros já cá andam há mais tempo.
O assunto estava a transformar-se num jogo floral, com barricadas e trincheiras, o poder usara e abusara de inépcia política, assumindo o confronto como forma de vida, os do outro lado, estavam fechados no seu mundo, perdendo a capacidade de entender o que os rodeava. Todos faziam poucas tangentes à realidade, havia adagas e espadas a tilintar.
- Quem manda sou eu, está decidido, o gordinho vai comandar.
O fundamentalismo instalara-se na Luz, já nem o pin escapava, havia quem os quisesse tirar àqueles que no  passado tinham dado luz à gloriosa Luz, o Moca, o Patronilha, o Miranda, o Semita, o Carioca, e aos que com orgulho e competência os substituíram, mostrando que o local estava sempre para lá de formatados conceitos estéticos. A “Geração Calimero”, alimentada a Suissinhos, que nunca provara um amarelo feito com bifes da testa e ovos do pai da Rosa, saídos do interior das galinhas desmaiadas com o clorofórmio que alguns tinham desviado ao Valentim e arremessado para cima das aves, pedia uma revolução, e quando escutavam nos ipod o Pequeno Saul, o seu líder incontestado, apetecia-lhes bater em alguém. Por isso esta estória merece um ponto parágrafo.
O passado com estórias continua a ser uma memória útil, onde certas decisões eram difíceis de tomar, mas representavam um grande ato de coragem. O Vapor era um equino rebelde, acreditava na possibilidade de escapar ao sentido único do seu tempo, que o reduzia a uma simples cavalgadura militar, com direito a número mecanográfico e a documento oficial de existência. A oportunidade surgiu num 3 de março e abalou as convenções, o Vapor fez uma insurreição do espírito que deixou no éter, e nas memórias de muitos, a sua marca, não com “engenho e arte”, que isso era exclusivo da rapaziada, mas sim com “engenho e ferradura”. O Colégio Militar era detentor do mais antigo título de legitimidade na arte de receber figuras ilustres e iria mostrar, mais uma vez, que estava de boa saúde. Preparou-se com “ardor guerreiro” para a visita de um português que uns anos antes enfrentara, durante uma campanha eleitoral, os tiros de uma pistola, subindo para o tejadilho dum carro, tal qual um “doirado pomo brilhante”, tornando-se no alvo perfeito:
- “Não tenho medo”, - gritou para a turba que o esperava em Évora, no longínquo ano de 1976, deixando para sempre um risco na superfície da cidade alentejana.
Por isso tinha à sua espera a meio da estrada da Luz a Escolta a Cavalo, onde se incluía o célebre Vapor. Os cavalos envergavam fato de cerimónia, assim como os Meninos da Luz, que só podiam pertencer a esta elite com as “lides do estudo” alcançadas. E eles montavam como mais ninguém! Quando o barulho dos cascos de encontro aos paralelepípedos se tornou audível, o comandante engrossou a voz e:
-  Batalhão…firme…sentido!
A sinfonia das botas e das armas dos alunos juntou-se ao ritmo dos equinos, e ao carro que trazia o presidente.
- Ombro arma, - continuou.
O Mercedes parou junto ao monumento, e o Vapor encostou de imediato a garupa à porta por onde a excelência pretendia sair.
- Apresentar arma!
E apresentadas ficaram, pois careciam do consentimento do visitante para regressarem aos ombros. Quando o presidente quis abrir a porta do bólide, esta esbarrou com o traseiro roliço do Vapor, que espreitou através do vidro. O bípede sentiu a fúria de seguir em frente, mas o quadrúpede tirou-lhe o cavalinho da chuva, parecia querer fazer-lhe a folha. Por causa do impasse, a maioria dos militarzinhos encaixou o cão nos cintos e aliviou o peso das armas, que já estava a tornar-se insuportável. A pressão interna na porta do Mercedes preto era igual à pressão externa. O Vapor estava inamovível. Por breves instantes o Gordini fez a revisão da matéria dada:
- Qual é a unidade padrão da pressão? – Perguntara uns tempos atrás o Semita ao seu colega Peidão.
- É o Rascal! – Respondera a seco o colega, provocando o riso da turma.
- “RASCAL”???? Moçooo, sabes o que é um Jericoacéfalo? É o que tu és….um burro sem cérebro, - e deixou cair o ponteiro no coco do 191, – ao mesmo tempo que se virava para a turma. – Nesta aula uns dormem de olhos fechados, outros de olhos abertos.
- Esta cavalgadura não vai ficar a rir-se, - pensou o ilustre visitante exasperado, empurrando a porta com raiva, riscando o vidro com as estrelas.
O equino foi apanhado desprevenido, afrouxara o flanco depois de sentir os esporins a picarem-lhe a barriga, e perdera a primeira batalha.
- A mim ninguém me pára, - disse orgulhosamente o presidente quando sentiu a cabecinha ao vento.
Compôs a farda, ajeitou o chapéu, e olhou com desprezo para o Vapor, que espumava por todos os poros. Mas este já tinha feito os cálculos, e por isso disparou de imediato um soberbo coice, decidido a fazer a folha ao intruso. A direção das ferraduras estava correta, o queixo do inimigo era o alvo, o local previsto para a aterragem indefinido, mas uma mão invisível protegeu ambos de um destino cruel, o bípede safou-se de ficar com a cara ainda mais à banda, o quadrúpede de ser transformado em bifes no jantar seguinte e o colégio de alterar o sentido da História. A partir deste momento o visitante registou para sempre nas suas memórias que o único vento de uma tempestade inesperada, veloz e aterradora, com o cheiro da humidade da palha apodrecida, não do domínio do ar, mas do interior obscuro das cavalariças, fora sentido na Luz.  

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