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Friday, May 22, 2009

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 14 - Férias de Verão – Brincando à Distribuição



Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


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Se o Citron tivesse continuado a sua carreira no atletismo estava agora ao lado do Eusébio, a viver à das comendas. O primeiro a ingressar no mundo laboral foi o Pilas, que depressa se tornou patrão. Comecemos pelo início. O trabalho consistia em abastecer algumas livrarias e quiosques de Lisboa e da Linha de Cascais, de jornais e revistas. O motorista era o Pilas e tinha como ajudante o Citron. Mal sabia este que iria chegar ao fim das férias com uma excelente condição física, fruto de corridas contínuas e sprinteres que o seu companheiro e treinador o obrigavam, uma vez que arrancava sempre antes do atleta chegar à carrinha. Ficaram famosas as fugas do Pilas no centro de Cascais, com o Citron no seu encalço. O abastecimento da carrinha era feito lá para os lados do Marquês de Pombal e os primeiros postos da volta, além de clandestinos, pertenciam ao patrão do Pilas e dono da carrinha, que começava o dia a desviar revistas e jornais dos molhos que já estavam atados e etiquetados. Quando a carrinha iniciava o serviço ia com o rabo quase a tocar no chão e havia uma subida que tinha de ser feita em marcha-atrás caso a rua estivesse molhada, pois os pneus da frente estavam tão velhos que já não tinham força para se agarrarem aos paralelepípedos. A festa brava era reservada para os fins-de-semana, em que não havia trabalho, mas estava presente a carrinha. Ao patrão do Citron, o Pilas (capataz de outro) reservava-se o direito de trazê-la para casa, com uma obrigação: ficar parada! Mas isto era pedir muito a estes adolescentes irrequietos e ainda por cima com uma Peugeot comercial (sem rede a meio) a rir-se para eles. Bastava levantar o banco de trás e a máquina transformava-se num autocarro. No primeiro minuto da primeira sexta-feira à noite o patrão Pilas cumpriu escrupulosamente a ordem superior, outra coisa não seria de esperar, saindo de casa e desejando “boa-noite” ao Peugeot, mas quando já ia perto do Pica não aguentou a pressão da sua consciência e correu desgrenhado para o carro, saindo em peão e com os pneus a deitarem fumo por todos os poros. Foi assim toda a noite e as seguintes. Tinha de estar treinado para as corridas entre distribuidores, pois os da “Capital” estavam à frente na competição. O jornal “A Tarde” chegava sempre em último e isso o senhor Pilas não admitia. O Citron deixou assim de sair do carro e limitava-se a atirar o molho para dentro da loja. E foi numa bela tarde em que as três carrinhas concorrentes iam coladas umas às outras e já todos tinham estado ao comando da prova, que a “Tarde” ia assassinando um cliente. O proprietário da loja já estava à porta à espera, quando o Citron arremessou o molho atado, que acertou em cheio no velho e rebentou, espalhando os jornais pela banca e arredores. Ninguém parou. Após a vitória retumbante da equipa composta por dois paço-arcoenses de “boas famílias”, que cilindrou os adversários da Brandoa e da Porcalhota, o Citron arranjou uma namorada no Liceu de S. João, que fazia questão de visitar durante a hora de trabalho. Só convenceu o motorista, porque prometia-lhe sempre trazer uma amiga para o acariciar. A partir daqui o jornal “A Tarde” passou a chegar a Cascais à noitinha, com os clientes a reclamarem que àquelas horas já não vendiam nada.
- Ponha para as sobras, - respondia-lhes o Pilas.
Um dia o Pilas resolveu reformar-se e contratou o motorista de nome Peidão.
- Cuidado com a carrinha, podes levá-la para casa mas só a usas para o trabalho, - avisou no dia da assinatura do contrato.
O Citron continuava, já quase não cabia no carro devido à fabulosa musculatura, adquirida pelas inúmeras corridas e arremessos. Mas o Peidão era um rapaz muito ajuizado e compreendeu que o ajudante já não aguentava mais aqueles treinos intensivos e assim passou a levá-lo sempre até à porta dos clientes. Uma semana depois o Citron também se reformou e o Peidão ficou por sua conta e risco. E a tentação foi mais forte. No primeiro fim-de-semana transformou a carrinha em autocarro e foram todos passar a noite no “Maria Bolachas” na Praia das Maçãs e no regresso acendeu uma luz vermelha. Como a mecânica não era o seu forte, levou nesse estado a carrinha até casa, que ainda estava muito longe. De uma só vez ficaram os quatro no desemprego, incluindo a carrinha.

Thursday, May 07, 2009

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - Como tu sabes…



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Comandante Guélas
 
Série Paço de Arcos

O dia do aniversário do Focas chegou e na vila de Paço de Arcos a agitação pairava no ar! Os lugares já estavam marcados no restaurante e a ASAE tinha passado a casa de pasto a pente fino, não fosse o Pontas ir servir atum do Jamor ao Mac Macléu Ferreira, filetes das Fontainhas ao Boa-Cara e polvo da Terrugem ao Proveta. A primeira surpresa da noite foi o avistamento do Serapitola, que parecia o Álvaro Cunhal em versão negativo. Tinha autorização para mastigar, mas falar nem pensar. O Cocciolo pediu o livro de reclamações para protestar contra as comemorações dos cinquenta anos do sobrinho do Isaltino, pois largara um masso de notas por meia dúzia de croquetes e um saquinho de favas fritas.
- Pensei que eram as entradas e para não perder a fome esperei a noite toda pelo jantar.
A um canto da mesa o Conan mantinha o recorde de cobrições, agora com os episódios de incontinência incluídos. Todas as semanas abandonava fêmeas da Costa do Estoril. De repente o telemóvel do aniversariante tocou:
- Allô Focas, aqui engenheiro Petroni.
- Engenheiro Petroni?!!! – Perguntou o Focas fazendo um zapping à memória das amizades, incluindo os defuntos, não conseguindo, no entanto, descobrir algum “Engenheiro Petroni”. – Deve estar enganado.
- Grande Focas vejo que já estás com esclerose, eu sou o Engenheiro Petroni e gamámos….crescemos juntos com figuras ilustres, como o Mocho, o Balatuca, o Pingalim, o Milhas, o Peidão, o Graise, o Velinho, o Pilas, o Maneleiro, o Marreco, o Xinoca, o Pontas, o Rato, a quem me esqueci de pagar o compressor…
- Pierre Pomme-de-Terre, já podias ter dito.
- Como tu sabes acabei engenharia, a minha filha anda no Britânico, como tu sabes…
E o Focas agravou o seu estado de espírito com esta aparição difusa e imprevista de um amigo do alheio. Como é que ele poderia saber do currículo actualizado do Pierre Pomme-de-Terre se o último que lera fora há 35 anos quando ele fugira para o Brazil com o diploma incompleto da Infantil (fugira da sala 4 depois de ter pedido emprestado os guélas dos colegas e a carteira da educadora Meca, para ir comprar “Gorilas” ao Kitanda), levando no seu encalço o chefe Bigodes e todo o seu pessoal, o padre no encalço das esmolas, o carteiro dos cheques dos reformados, obrigando a vila a dividir-se ao meio, uns para o engavetar e outros para o enterrar. O Pierre Pomme-de-Terre agora o senhor Engenheiro Petroni, representava um certo neo-romantismo amigo do alheio, que se tinha estabelecido entre o final do século XX e o início do século XXI. A vinda desta figura carismática paço-arcoense representava o regresso às fontes das tradições da vila, particularmente no que dizia respeito ao mítico cheque careca. A mesa em “U” agitava-se, havia quem tivesse perdido a tranquilidade. As carteiras começaram a ser guardadas e todos viram o senhor Rato a cravar, com raiva, a faca da carne no atum do Mac Macléu Ferreira, e tudo por culpa das recordações de um compressor trocado por um cheque careca do filho do marquês. E o engenheiro Petroni sabia disso, viu-se na resposta que deu ao aniversariante quando este lhe perguntou onde estava:
- Em Macau a fazer o projecto para as futuras Torres Petroni que vou erguer no lugar do Tino, com as fundações do próprio.
Com a vinda deste mecenas de sinal contrário vinha outro tipo de discurso, desta vez mais elaborado:
- Focas amigo, diz aí ao pessoal que eu agora já tenho outra “armadura estrutural”, no passado fiz muita “argamassa” que tenciono agora compensar com um “cálculo estrutural” à maneira, que “arquitrave” as “incrustações” do antigamente, prometendo um autêntico “baldrame”, estás a topar?
O Focas nem teve tempo de responder, pois o (in)desejado continuou:
- Não te preocupes, convido-te desde já para um almoço sem limites aí no restaurante onde estás a jantar, e tudo por minha conta, e explico-te detalhadamente o que disse em cima.
O Pontas, pelo “sim” pelo “não”, encerrou de imediato o estabelecimento e pôs trancas nas janelas.