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Tuesday, March 27, 2012

Camarada Choco 87 - O Nadador Salvador

Camarada Choco
Aventura 86

A Fisio Vitaminas era muito minuciosa no que fazia…minuciosa a mais! Por isso quando viu a caixa colorida em cima da secretária da Doutora Sem Caneco resolveu espreitar. Não era a de Pandora, mas andava lá perto. A praga de estagiários que saiu nunca mais deu descanso à Escola Para Desaparafusados da Venteira. E foi numa dessas ocasiões que apareceu perante o Desaparafusado Castelinho o seu príncipe encantado, com quem há muito sonhava, principalmente durante as convulsões nocturnas: um Nadador Salvador! Mas como é que era possível aparecer um indivíduo desses tão longe da costa?
- Meu Deus, isto não é convulsão, é o meu prometido Serjão, - rimou o Desaparafusado, revirando os olhos para a direita, e não para a esquerda como o Nélinho.
A verdade é que estava ali alguém dotado do “boca-a-boca” e da “massagem cardíaca”, e por isso o Castelinho ajeitou os peitos, e acariciou a retaguarda, mesmo sendo um Desaparafusado macho. O desconhecido era real e vinha da Atlântica. Nessa noite a convulsão misturou-se com o sonho, e o Castelinho viu-se a entrar de biquíni no Tanque de Recuperação do Porres, o único lugar do país onde ainda se podia nadar com Borgalhotas, Cutrilhos e Alcagoitas. À sua espera, sentado na nova cadeira aquática, com a cor característica de conguito, apito provocador na boca, chapéu do Benfica, óculos espelhados, calções até aos joelhos e a bóia torpedo entalada entre as coxas, estava o novo estagiário da Fisio Vitaminas. Quando iniciou a descida da rampa o Castelinho teve uma convulsão odorífica, e sentiu o cheiro do David – Hasselhoff. O abanão também excitou as áreas visuais e apareceu, de repente, junto ao seu garanhão, a tarada da Pamela Anderson Lee, que rapidamente se transformou na Barrote Croquetes, e partiu para a sedução. Mas o despertador tocou e o Castelinho viu-se reduzido à sua condição de Desaparafusado, com um coelhinho branco deitado ao seu lado. Apercebeu-se de que não podia perder muito tempo, os estágios tinham um prazo de validade, e as probabilidades de aparecer mais um homem ligado ao mar, eram muito reduzidas. A sedução e o abuso tinham de ser rápidos. Mas havia mais pretendentes! A Lolita já reduzira a sua relação com o velho Castanheira até ao meio-dia, e estava agora de beicinho pelo estagiário e a Leal até o olho maroto arrebitara. Alheio a toda esta convulsão generalizada, e habituado a cenas destas, estava o maior sedutor de todos os tempos, o Choco, que passou com desprezo pela “Fila da Sedução”, com a língua, e não a dita como antigamente, a arrastar pelo chão, e a deixar rasto como o caracol no corredor da Kalélé, porque a mãe resolvera substituir o diário Seroquel pelo Lagartil, um drunfo, não do Sporting, mas sim um SOS de elefante só para ocasiões festivas, que lhe dava um olhar sensual, irresistível para as fêmeas da Venteira.
 

Wednesday, March 21, 2012

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 53 - A Dentada

Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


A proprietária da Adega Camponesa em Alcabideche nunca mais se iria esquecer do encontro imediato do quinto grau que estava prestes a acontecer, pois trinta anos após relatou o sucedido ao cinquentão Carlos Ponta, como se de uma lenda se tratasse. Tinha estado toda a manhã a montar a mesa para uma refeição de luxo com clientes especiais, onde se destacava à entrada um soberbo peru real vindo directamente de uma quinta nobre da zona do Douro, após emborcar involuntariamente um meio-gordo com a idade de um rei. O bicho envergava o melhor traje para a ocasião e preparava-se para a “noite de núpcias”, onde iria ser trinchado, tal qual uma virgem, pela filha do financiador da real refeição. Contou então que num dia de calor entrou, com o Sol pelas costas, na sua casa de pasto, um demónio com a cara de anjinho.
- Vinha com a boca toda aberta, enorme, parecia o lobo do Capuchinho Vermelho, - disse a senhora, aproximando a cara do velho Carlos Ponta, que lhe sentiu o cheiro a alho e o toque do monstruoso buço. 
- Consegui ver-lhe as amígdalas, - reforçou a outra idosa que estava escondida atrás do balcão, deixando sair restos de tremoços que se desencravaram da prótese.
- Pareciam os tomates do meu falecido Júlio, - insistiu a proprietária.
Na cabeça do paçoarcoense Carlos Ponta as memórias já tinham soltado a alucinação da idade, e a cara do Focas com menos trinta e tal anos ocupava agora a porta da entrada do restaurante “Adega Camponesa” em Alcabideche. Mas como os neurónios já estavam com folgas, deu de caras com o Glorinha à janela a varrer a praceta em linha reta até ao café “Iolanda”, e do lado esquerdo até à esquina do Grilo, que estava naquele momento a vender uns charros ao Alice e ao Taka Takata. Porque ainda não tinha idade para poder andar em roda livre com o gangue, o irmão do Ginja só estava autorizado a estar à janela, tal qual a personagem da “Gabriela Cravo e Canela”, que dominava o panorama televisivo da altura. Ali fez tudo o que a adolescência pedia e assistiu a muito mais do que devia. O senhor Carlos Ponta esfregou os olhos e mudou para o sul, mais propriamente Lagos, e deu de caras com uma multidão de peidociclos estacionada à porta de um restaurante. Lá dentro uma dezena de adolescentes seus conhecidos, incluindo ele próprio, comiam marisco à descrição, mesmo tendo as carteiras vazias. Nova convulsão, de novo o Focas, agora quase em cima da ave.
- O peru nunca mais foi o mesmo depois daquela dentada, - exclamou a proprietária, pondo a mão no ombro esquerdo do cliente, carimbando-o com quatro impressões digitais de banha no blaiser, que ele comprara nos indianos do Martim Moniz, mas que insistia ser do Massimo Duti.
Foi de novo levado para o passado que o atormentava, e agora a alucinação também tinha som, um batalhão de peidociclos com o escape livre fugia a todo o gás do restaurante algarvio, deixando para trás uma mesa atestada de cascas de todo o tipo de mariscos e de garrafas vazias dos melhores carrascões da zona e arredores.
- O bicho mesmo depois de assado ainda deu um grito alucinante, - exclamou a outra, deixando agora sair restos de azeitonas, que acertaram no Pontas como cachos de caspa preta.
Foi uma dentada célere, eficaz e previsível. E o velho Pontas sentiu-a, como se fosse ele a ter estado enfeitado para o casamento, em cima de uma mesa, rodeado de rodelas de laranja. O atacante ferrou os dentes com tal força, que levou atrás de si parte das costelas do prato principal, deixando à vista de todos um buraco onde se podia ver claramente ao longe o imponente palácio real no topo da Serra de Sintra. A imagem do Focas ficou gravada como um demónio interior na alma da proprietária, e nunca mais lhe deu sossego, como se podia ver agora, várias décadas depois!

Thursday, March 15, 2012

Camarada Choco 86 - Merdolândia

Camarada Choco
Aventura 85


- Acudam, acudam, - gritava a Pirosa junto à porta dos “Pastéis da Venteira”, o local de maior concentração de croquetes por metro quadrado da charmosa cidade da Amadora, onde também se lavavam os dentes após o almoço.
A Dona Pilca encolheu-se na  secretária e puxou a Lolita para a sua frente.
- Credo mulher, parece que viste o Diabo, - exclamou a Desaparafusada mais famosa da Venteira, a seguir ao charmoso Choco.
- Cala-te, ou torço-te o pipo, - resmungou a artista das fraldas e babétes, dando uma alfinetada no Gonorreias, um boneco de trapo oferecido pela Kalálá e benzido pelo bruxo da aldeia onde nascera, que tinha uma influência demoníaca sobre o Cabo Pilas. – Bem podes gritar por socorro que, de mim, nem um bombom já te dou, ingrata.
- Acudam, acudam, - tornou a gritar a Pirosa, - tenho um Desaparafusado quase tapado de merda.
- Até te podes afogar nela, - tornou a resmungar a Dona Pilca, puxando ainda mais a Lolita para cima de si. – Andas armada em Doutora Sem Canudo desde que mudaste de sala, pois agora limpas os cus dos teus Desaparafusados sozinha, - e deu com desprezo um ponto-cruz no Gonorreias.
Mas o Cabo Pilas já se tinha prevenido com a outra Kalálá, e protegera o seu espaço com cascas de amendoins e bananas. O feitiço agora iria para local indeterminado! A primeira vítima foi a Dona Espatinha, futura Dra. Espatinha, que ficou incrédula quando, em vez de tirar uma bica, saiu um chá de croquete, com aroma do Trancão. Mas também a Fininha dos Serviços Administrativos estava atónita com o líquido negro que saia da fotocopiadora:
- A Folha de Pagamentos está a desbotar. Salvem-se quem puder, vem aí a Troika! – E saiu a correr com um cigarro entre os dentes, desaparecendo no meio das ervas do campo dos gatos.
 E do último quadro chinês do Pintor escorria um cinzento com cheiro a metano, que parecia vir directamente do decote da Gioconda de Monsanto, levando-o a expulsar todos os discentes, com medo de que lhe contaminassem as obras destinadas à Feira da Brandoa.
- Eu bem ando a avisá-los que o Cara de Cavalo já morreu há uns dias, e teima em vir para a Escola, - disse o Stor Pobre. – Agora entrou em decomposição ativa e ninguém o pára.
Esta era a única explicação, até agora lógica, para o cheiro nauseabundo que se abatera sobre a Escola para Desaparafusados e Afins da Venteira, que fazia com que a aragem quotidiana do cagatório dos mais velhos se assemelhasse à de um campo de mimosas em plena época alta.
- Eu confirmo o óbito do Cara de Cavalo, - retorquiu o Chefe Porres, abrindo a tampa de esgoto descoberta debaixo da secretária do segurança. – E eu a pensar que o empreiteiro não me tinha conseguido enganar.
O morto ameaçava fazer queixa ao pai, mas era aconselhado a estar calado, pois se houvesse alguma consequência seria só para ele, uma vez que era o único com o estatuto de Desaparafusado.
- Acudam, acudam, - desesperava a Pirosa, entrando de rompante na sala da ingénua Menina Tatrícia. – O Peixe Espada já está com merda na careca.
Na outra ponta das instalações do edifício de reeducação e reabilitação, a Terapeuta Julieta recebia a notícia de mais uma gentileza da GNR, uma soberba fotografia do seu bebé, desta vez a 180 numa localidade da Região Centro, tendo como pano de fundo uma procissão em debandada e uma santa empoleirada no capô, tipo estrela da Mercedes.
O Castanheira estava desesperado a abrir todas as tampas que encontrava, mas cada vez eram mais, apesar do projecto só mencionar quatro. Até que:
- Bingo, descobri a origem!
Aos seus pés estava uma fossa recheada com croquetes por camadas de todos os tamanhos e feitios, uns vestidos a rigor dentro de luvas azuis e outros embrulhados em charmosas fraldas descartáveis, ostentando várias datas desde a inauguração. Rapidamente começaram os boatos!