miguelbmiranda@sapo.pt

Friday, August 30, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 48 - Meninos à volta da fogueira


 Comandante Guélas
 Série Colégio Militar
 
O meio militar orgulha-se dos seus serviços de comunicação, cheios de protocolos, que dizem garantir a eficácia na transmissão da mensagem.  A Luz acordou com o ronco dos autocarros militares que saiam de forma ordeira do colégio, já o mesmo não se podia dizer dos meninos que cantavam em uníssono do interior “As Meninas de Odivelas”. Tinham como destino o Regimento de Cavalaria de Braga, que os iria acolher neste primeiro dia da excursão pedagógica. A teoria iria dar lugar à prática, os professores de História, Geografia e Ciências teriam de mostrar que as secas dadas nas aulas teóricas tinham correspondência no terreno. A viagem demorou uma eternidade, nos anos oitenta a auto-estrada acabava cedo, e teve somente uma paragem para almoço, um piquenique colegial, onde foram servidas sandes, pedaços de galinha, fruta e um sumo. A mata serviu de casa de banho! Quando chegaram à Porta de Armas do quartel o sol já se tinha recolhido aos aposentos, e o soldado da guarda dormia a sono solto. Acordou sobressaltado com os faróis dos veículos militares, e com o barulho que vinha do seu interior. Por momentos pensou tratar-se de uma nova revolução, cujo comando tinha ordenado a este exército de anões para ocuparem o quartel.
- Colégio Militar? – Exclamou o soldado quando foi informado pelo capitão Oscaralhito da chegada. – Mas em que país é que fica?
Nos veículos sentia-se a tensão, os Meninos da Luz já se imaginavam à mesa com uns soberbos bifes de cavalo, acompanhados por um arroz doce com a consistência da argamassa. Foi chamado o oficial de dia, que repetiu a pergunta:
- Colégio Militar? – E mexeu na papelada. – Não tenho qualquer tipo de informação da vossa vinda.
Ao longe a rapaziada inquietava-se com o que via, o oficial pequenino e careca que os comandava aumentara o ritmo do seu gesto compulsivo, pentear o cabelo a partir da orelha.
- Não temos nem casernas, nem comida., - sinal de que o papel de Lisboa tinha servido para a higiene íntima de algum sargento barrigudo.
Valeu a Deusa Minerva e o seu “engenho e arte”, pois tinham trazido as fabulosas tendas de 3 panos, que não conseguiam dar guarida aos pés. O terreno disponibilizado era longe, e foi com frio e fome que montaram o acampamento militar, com a respectiva escala de “quartos de sentinela”, onde muitos estiveram perto da hipotermia, devido ao frio cortante. Valeu-lhes a taberna das redondezas e o seu meio-gordo, e derivados, à taça e à garrafa! Um pouco mais tarde o Regimento de Cavalaria de Braga, num gesto de bom senso, para manter o Colégio Militar à distância, ofereceu-lhes comida: duas caixas de madeira, uma cheia de pão duro e a outra com sardinhas afogadas em sal! Cada um arranjou um pauzinho, onde espetou o bicho e preparou-se para assá-lo numa fogueira, que carecia de autorização dos oficiais:
 - Nem pensar, estão a gozar com a tropa, isso é contra as regras militares, denunciamos a nossa posição ao inimigo- respondeu indignado o Cuequinha, não cedendo a devaneios e madalenas.
- Mas, meu tenente, na nossa terra estes bichos só se comem assados, - exclamou o Javardo elevando a voz. – E não estava previsto um acampamento, a excursão era de caráter intelectual, devíamos de estar a dormir no quartel em caminhas fofinhas.
- E é nisso que os nossos pais devem estar a pensar, - reforçou o Jags.
Mas como a fome já era negra, e a burocracia militar lenta, alguns optaram por começar a cozinhar os Clupeidae com o álcool que tinham comprado na tasca do “Manuel da Leitaria”. Não foram longe com a ajuda do Rum, do Gin, do Brandy e do Pisang Ambon: os bichos mantiveram-se teimosamente como vieram ao mundo, mas as circunstâncias criaram-lhes a ilusão de estarem a saborear primos afastados, os carapaus com bigode. Depois de uma reunião bem regada, o Pintelheira, porta-voz dos cães, leu a ata aos discentes. Mencionava os termos inapropriados com que um aluno se dirigira ao seu superior hierárquico, a forma usual de dar a volta a uma questão pertinente, mas abria uma excepção para este caso imprevisto e da responsabilidade de terceiros, ou seja, de ninguém. Houve fogueira, os inimigos que se lixassem!

Eram seis horas da manhã quando a patrulha do 357 foi informada da presença de uma carrinha na estrada nacional, que precisava de um empurrãozinho. Quando a Ford Transit roncou, após vários ratés, que levaram momentaneamente o sonho do capitão Oscaralhito para cenário de guerra, saiu das suas entranhas um fumo tão espesso que ofuscou o grupo, criando um efeito especial, um dos caucasianos regressou com uma nova identidade: o Javardo dos anos oitenta tinha-se transformado no Sissé dos anos setenta. Durante duas semanas o urinol oficial foi a berma da EN1, onde vertiam águas, em alinhamento perfeito, cinquenta Meninos da Luz de cada vez!

 

Thursday, August 15, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 47 - Os limites da Luz


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

- A Cruz e a Espada foram sempre os dois símbolos de Portugal, - disse o Cardeal na visita ao Colégio Militar durante os anos trinta.

O diretor do estabelecimento, levou as palavras a peito e decidiu, durante o desfile do batalhão, que a Cruz iria ficar ao mesmo nível da Espada: a missa dominical passaria a ser obrigatória, mesmo para os da religião anglicana. Deu bronca! As missas que se seguiram foram barulhentas, saltitavam bolas de ping-pong, os bufos entregavam os culpados ao padre, as penas de detenção aumentaram, a medida foi rapidamente retirada. Os Meninos da Luz mostravam, mais uma vez, que havia limites que não podiam ser ultrapassados, como em 1938 quando o governo quis instalar a Mocidade Portuguesa dentro do colégio, com fardamento próprio. A onda de repúdio que se ergueu, e o facto do presidente da República ser ex-aluno, fez recuar os políticos, que nunca lidaram bem, independentemente do regime, com o Colégio Militar. Na aula de filosofia o Remédios não conseguia que a “lógica silogística” captasse a atenção da turma, uns jogavam à batalha naval, outros liam jornais desportivos, e havia quem pusesse o sono em dia. Até que:
- Venha ao quadro rapaz - disse, apontando para o Jóquei.
As perguntas que se seguiram foram de caráter vingativo, a turma ficou muda, todos estavam a zero, ninguém queria estar na pele do colega. O Jóquei aguentou desesperado o interrogatório, até que a emoção o fez investir contra o alferes, dando-lhe um biqueiro na perna, fazendo-o fugir da sala, a coxear, e no meio de risos e aplausos. A sentença foi rápida:
- Vais ser expulso do colégio, a tua família já foi avisada, - informou o Cobras, que não aparece na galeria oficial dos diretores, com um hiato de rostos e nomes entre 1936 e 1944.
Neste dia, após o toque da alvorada, o Bambu ficara com problemas emocionais, o diretor fizera uma visita surpresa.
- Dormiu sem pijama? – Perguntara-lhe.
- É o calor meu tenente-coronel, - justificou.
- Ah, é o calor? Então eu facilito-lhe a vida, esse cabelo vai todo fora.
Careca e com a festa da prima no fim-de-semana, não lhe dava muito jeito. Nem teve paciência para a fotografia da praxe junto à escadaria do palácio do conde de Mesquitela, onde funcionava a enfermaria, que nesta altura também tinha um enfermeiro chamado Valentim, tal como nos anos setenta. Mesmo com a farda de pano vestida, com os botões polidos com Solarina a brilharem ao sol e os sapatos pretos em estilo espelho, fez uma careta.
Os Estudos eram regidos pelo Chinito, que entrou a coxear, uma antiga maleita ganha na Primeira Grande Guerra, cujos gases o tinham tornado num professor com mau feitio, que distribuía reguadas por “dá-cá-aquela-palha”. Reparou que as luzes brancas, suspensas do teto, rodopiavam e, por breves momentos, ficou a olhar para os globos. De seguida dirigiu-se para as janelas abertas e fechou-as, sentando-se na secretária para atender um aluno que o esperava com um caderno na mão. Olhou para cima e, qual não foi o seu espanto, quando viu de novo os globos em movimento.
- Um tremor de terra, chefe de turma, sentiu o edifício a tremer?
- Não meu capitão!
O Chinito estava nervoso, levantou-se, saiu da sala e foi perguntar ao sargento. Ninguém sentira nada, mas no entanto os globos moviam-se furiosamente.
- Eu não acredito em fantasmas - gritou, - tem de haver uma explicação.
A turma ria-se, o regente sentia-se impotente, andava na sala de um lado para o outro, até que tropeçou num fio transparente, que descia do teto pelo fundo da sala, passava as carteiras e acabava no posto do comando, a mesa do Engenhoso, que tentou uma fuga, mas foi de imediato agarrado pelo oficial, que o levou para o estrado, deu-lhe as reguadas da praxe, e saiu com ele da sala. A aula de português do Murgalho decorria com normalidade, debitava a matéria e fumava, até que surgiu na janela da porta, uma invenção do Cobras para poder controlar as aulas, a cara do director. Entrou e sentou-se na primeira fila, ao mesmo tempo que o docente escondia o cigarro no bolso das calças, prosseguindo com a lição. Primeiro estranhou-se, depois o cheiro a queimado entranhou-se, e quando o professor começou a gritar de dor, ao mesmo tempo que retirava um lenço a arder do bolso o director saiu sem pronunciar qualquer palavra. Anos mais tarde, nos anos setenta, a cena repetiu-se, também na mesma disciplina, com o professor Ferrari, que escondeu o Kart no mesmo sítio, mas controlado pela mão que permaneceu no bolso o resto da aula.













 

Thursday, August 01, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 46 - Nos idos de março


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

O Colégio Militar é feito de sonhos, tem várias dimensões, tem algo de misterioso, de mágico, de fascinante, de sedutor e de sinistro, o seu nome tem todos os desvarios e todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências. Um dos mitos que corria neste ano de 1936 dizia que o irmão, sacerdote, do temido capitão Belisário, professor de português, chumbara tantas vezes um aluno, que este se suicidara da Ponte de D. Luís. Outra estória contava que uma boiada a um professor durante uma refeição, uns anos antes, chocara tanto um diretor, que este se suicidara com um tiro na cabeça. Do professor de desenho e matemática, o Madureira, contavam que namorava há muitos anos com uma rapariga e que, por ser tão tímido, nunca a pedira em casamento. A distração também era o seu forte, por isso um dia foi alvo de chacota dos alunos, pois apareceu na paragem do eléctrico fardado da cintura para cima e à civil da cintura para baixo.

- Vamos dar “pusia”, - disse o professor de português, tentando disfarçar o seu sotaque de Trás-os-montes.
- Pusia? – Perguntou o Pissocas, pondo a turma a rir.
A fúria do Bernardim foi tão rápida e intensa, que se levantou da secretária com a vara na mão, e arriou em todos num abrir e fechar de olhos. O mesmo não acontecia ao Tabi dos anos setenta, porque as dificuldades auditivas careciam sempre de uma pergunta de reforço:
- Stor, posso bater à …..?
- O quê? – Perguntou ao 601 o professor de inglês, com a mão em concha junto ao ouvido.
- Apanhar a caneta!
Na aula do padre Sancho, professor de moral, considerado o maior pregador de Lisboa e arredores da década de trinta, cujos temas até aí tinham sido a avareza, a luxúria, o medo, a fé, a mentira, o roubo, ia-se dar um acontecimento. Quando todos se preparavam para o habitual sono reparador:
- Hoje vamos falar de “masturbação”, - disse o sacerdote com aparência de camponês.
O tema foi de imediato traduzido à turma em linguagem gestual pelo Andorinha. E o docente prosseguiu:
- “Quando vos sentirdes acariciados pela mão do diabo, entregai-vos nos braços do Senhor”.
O padre estava enganado, a mão que tocava nos meninos não era a do Demo, mas sim a dos próprios.
- “O uso e abuso do onanismo contribuem para o enfraquecimento do organismo”, - continuou.
O Plauto não aguentou o sermão e interveio:
- Então se eu bater uma terei de rezar vários padres-nossos, para não adoecer? Vamos todos direitinhos para o inferno.
O assunto era delicado, e o tema recorrente, até o tenente Bernardim, professor de português que vivia no colégio, avisava os alunos das tentações do Mal:
- O Eça de Queirós só pode ser lido pelos alunos do último ano, porque contém capítulos que os meninos de doze e treze anos devem evitar.
Quem não evitava as novas tecnologias era o alferes Remédios, responsável pela disciplina de geografia, que usava com frequência um projector, onde eram apresentados os mapas dos rios na parede branca da sala. Mas como nem tudo são rosas, a obscuridade da sala era aproveitada por muitos para porem o sono em dia, até que numa aula uma distração do professor levou ao aparecimento da Rosa internacional do momento, a Jean Harlow, em trajes demoníacos, que arrebitou as cabecinhas dos presentes. Pelo contrário, o Carcaça, tenente-Coronel, professor de inglês, recusava usar o “Linguaphone”, por isso obrigava os alunos a colocarem um lápis atravessado na boca:
- Só assim é que conseguem produzir os fonemas de Oxford ou Cambridge, - explicava.
Os rumores diziam que o Cabeça de Apito ia deixar a direcção, sendo naturalmente substituído pelo Réptil. A vida do Colégio Militar desenrolava-se ao som da corneta, era intensa e rotineira, entre o Toque da Alvorada, às 7 da manhã, o Toque de Recolher às 22H00 e o Toque de Silêncio às 23 horas. Mas havia sempre tempo para fugir à rotina. Foi isso que fez o Andorinha, quando um dia resolveu construir um pára-quedas com uns lençóis. Coseu-os e nas pontas atou umas cordas. Lançou-se de uma varanda do colégio num domingo à tarde, e aterrou com estrondo, mostrando o seu “engenho e arte”. Fraturou uma perna e apanhou vários dias de prisão. O jogo da navalha também tinha adeptos, ganhava aquele que conseguia, em menos tempo, executar uma sequência de espetadelas com uma navalha entre os dedos de uma mão aberta.