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Wednesday, May 19, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 34 - Eu Peidão me confesso!


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Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Como faço meio século de existência começo por explicar a origem do nome porque sou conhecido na gloriosa vila de Paço de Arcos: Peidão! E para baralhar as contas o nome nada tem a haver com o excesso de meteorismo intestinal, mas sim com uma questão de relações públicas. Esta alcunha ficou para sempre entranhada no meu já grande nome e uso-a como “cartão de visita”.
- Olá Janeca, daqui fala o Miguel, posso falar com o Rui? – Perguntei ao telefone, com uma voz suave e bem colocada.
- Miguel?? Miguel quê?
- Peidão! – Acrescentei.
- Já podias ter dito!
E a partir deste momento apercebi-me da grande importância do meu indicativo. A razão era simples, durante uns meses após ter feito onze anos mandava levar na “peida” todos aqueles que o chateavam, e tantas foram as vezes que acabou Peidão. O aluno 191 do Colégio Militar fazia agora parte daqueles que, além do número, também tinham uma identificação alternativa, com registo no livro de alcunhas da instituição, onde outras também se destacavam, como o “Cuecas de Buda”, o “Cu de Senhora”, o “Peidocueca”, o “Beduíno”, a “Judi”, o “Horrível”, o “Escalope”, o “Gordini”, e muitas, muitas mais. As novas gerações amaricaram e passaram para os “nick name”, como o “Solid Sonic”, o “Rickybaby”, o “Magnífico Repolho”….Quanto ao Peidão, agora um exemplar chefe de família, mantém-se firme e hirto como uma barra de ferro.
Quando se enamorou pela sua Aninhas, uma paixão bela, simples e frágil, primeiro só lhe disse o nome oficial, mas quando resolveu apresentá-la aos amigos não teve alternativa. No dia do casamento, quando entrou na igreja da Quinta da Granja em Sintra, para se dirigir ao altar, ponto de encontro que combinara com a sua Aninhas logo de manhã quando acordaram juntos na casa onde viviam, olhou para as galerias e deu de caras com os amigos que abriam e fechavam a boca, um coro que pronunciava o seu célebre nome. Felizmente a casa de Deus distorceu a letra e à plateia chegou uma “Ave Maria” em latim de Trajouce, que emocionou as beatas, atónitas com tantos “meninos de boas-famílias” reunidos ao mesmo tempo, num lugar sagrado. Deveriam com toda a certeza pertencer aos escuteiros de Paço de Arcos. A noiva, que já ia a meio caminho quando os anjinhos cantarolavam, foi entregue pelo pai e o padre, que também era um amigo e sabia de cor a letra, deu rapidamente inicio à cerimónia e ordenou ao casal que se ajoelhasse.
- O Peidão tem o preço dos sapatos nas solas, - gritou o Espalha.
O auto-colante mostrava ao público que as faluas do noivo eram made in Maconde, e que os números correspondiam de certeza ao preço mais baixo da loja, o que comprovava definitivamente a forretice compulsiva do jovem.
Desde muita tenra idade que a relação do Peidão com os números foi muito conflituosa , obrigando as professoras a trabalhos extras de reguadas que lá encarrilaram o petiz, mas não o endireitaram. Sobreviveu no sistema, no meio de Derivadas, Exponenciais, Logaritmos, Variáveis, e muita mais treta que não serviu, nem para ele, nem para a maioria dos amigos que escolheram a área de Ciências, uma vez que aqueles que agora acusam os filhos de nada fazerem, foram aqueles que no 5º ano do liceu se piraram para letras, intitulando-se agora os intelectuais de serviço. Nos curtos fim-de-semana em que via o filho, porque este andava no Colégio Militar onde entrava ao domingo à noite e só saia no sábado seguinte à tarde, o pai tentava-lhe dar explicações de matemática mas depressa desistia, obrigando-o a fazer os exercícios que ele tentara explicar. O Peidão queria era ir brincar com os amigos, mas sem o TPC correcto nem pensar. Pedia então ajuda aos céus para lhe iluminarem os neurónios, mas de lá nunca veio uma ajudinha, nem um simples raio de sol. Nunca soube se Deus não o ajudava por escrevia por linhas tortas, ou se também não percebia nada desta chata ciência dos homens. Sobrevivi!
Beijinhos a todos


Saturday, May 01, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 33 - A Fonte Santa


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                       Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
O Peidão era aquele tipo de adolescente que todas as mães sonhavam, com um sentido sóbrio da realidade e da sua proporção. Filho de militar, neto de militar, menino da Luz, cabelo rapado, cabedal a perder de vista, enfim, um currículo que daria com toda a certeza para um qualquer crepúsculo. A sorte (ou terá sido azar? Maldição?) de se cruzar com ele calhou à menina mais prendada de Oeiras, a Aninhas, santinha de aspecto e de feitio. O soberbo bigode do rapaz cruzou-se com os grandes olhos azuis da menina e ele sentiu uma silenciosa tomada de consciência do seu novo estado por esta menina que pensava ser uma queque da Avenida de Roma, enquanto que ela manteve-se frágil e embevecida pelo amor. Um mês depois o adolescente enganou-se na hora de ir levar a sua querida a casa e deu de caras com a família toda reunida. Beijinho nas senhoras, aperto de mão aos homens e no fim…engano…tentativa de beijinho num primo, que chegou a colocar a cara à disposição, mas que à última o Peidão identificou como macho, apesar de ter o cabelo a tocar-lhe nos ombros. A apresentação estava feita. Mas voltemos ao início da relação, que começou dentro da Feira Popular onde ambos estudavam. O Peidão apresentou-se com nome próprio, mas no dia em que resolveu levar a namorada ao local onde estavam os amigos teve de se confessar, descobrindo que entre o passado e o presente nada mudara. Assim, uma vez Peidão, sempre Peidão, a família compensava esta nódoa na alma do rapazinho. E fez bem em abrir-se à namorada porque a recepção no café foi acompanhada por um coro monumental de “Peidões. Mas foi a viagem ao Algarve de mota que os levou ao grande e definitivo confronto com o destino.
- Confie em mim, – disse o jovem, firme e hirto como uma barra de ferro, ao futuro sogro. – Andar de mota comigo é seguro, e dá prazer (entre dentes), garanto-lhe que a sua catequista virá inteirinha para casa.
À palavra de filho e neto de generais não havia como recusar, uma jóia destas só aparecia de 100 em 100 anos, era pegar ou largar. E uma semana depois o Peidão foi buscar a Aninhas a casa e descobriu que não tinha lugar na mota para ela, ocupada com sacos, remos, canoa, tenda. Como a rapariga era despachada, trepou para a máquina e lá arranjou um buraquinho. Foram enlatados, mas felizes, era uma luta entre o real e a fantasia! O primeiro incidente ocorreu a meio do caminho quando sentiram um abanão e a Aninhas alertou para a saída de um dos sacos. Havias cuecas de ambos espalhadas pelo asfalto quente do Alentejo profundo, sinal de que no amor tudo era possível. A primeira paragem foi na Zambujeira do Mar e o campismo selvagem contemplou uma tenda com entrada obrigatória de gatas e sem duplo tecto, mas com uma vista magnífica sobre a praia. E ao lado havia uma “Fonte Sagrada” de onde brotava um fio de água que enchia constantemente garrafões de “peregrinos”, que se aventuravam a subir uma escadaria que desaparecia lá para os confins da praia. Com a chegada destes dois meninos vindos directamente da Costa do Estoril, o serviço de abastecimento das almas passou também a banhos públicos. Mas como é que se conseguiu tal feito, se o que saia do tubinho era um mísero fio de água que demorava meia hora a encher um garrafão? O Peidão era um rapazito que se adaptava a todas as situações, por isso é que era “de comer e chorar por mais”. Pôs-se de imediato à procura da nascente e deu logo de caras com uma porta selada que se encontrava por cima da bica. Cinco minutos depois estava pendurado a encher um balde e a atirá-lo para cima da sua Santinha, que aproveitou para se ensaboar, ser ensaboada e pôr champô. E os baldes foram tantos e tão rápidos, que da bica já saia uma água completamente turva, sinal de que o interior da “Fonte Santa” estava em convulsão.
- Vem aí alguém, – avisou a jovem ex-catequista indo sentar-se no banquinho do miradouro.
O Peidão fechou a portinhola e juntou-se à namorada, abraçando-a com amor. Ambos estavam carregadinhos de espuma da cabeça aos pés quando o “turista local” chegou. Pôs o garrafão na boca da bica e sentou-se a fumar um mata-ratos, olhando desconfiado para aqueles estranhos “camones” cheios de espuma do mar. Afinal, o quotidiano não era assim tão normal como ele pensava. De tempos a tempos o casal de pombinhos espreitava pelo ombro um do outro e lá viam a água turva a cair lentamente no garrafão. Iria ser toda consumida e de certeza entupir os rins ao velho e mandá-lo ir viver para outra freguesia. Mal o aldeão saiu precipitaram-se para a bica e trataram de finalizar a higiene. Quando saíram do local, de “Fonte Santa” só tinha o nome, porque do tubo não saia nem uma pinga. Abandonaram a região cedo com o fresco da manhã e rumaram em direcção a Aljezur e no dia a seguir a este montaram tenda em Lagos, e depois em Quarteira, e quando iam em direcção a Faro a mota teve um furo no pneu da frente e deitou-se, obrigando os motociclistas a esfregarem as pernas desnudadas e os braços bronzeados no alcatrão de Boliqueime, e tudo isto na presença de um carro da GNR que ia atrás. A Aninhas foi a primeira a pôr-se de pé, e com os braços ensanguentados e metade do biquini conseguiu que ninguém passasse por cima do seu tesouro. A assistência de uma casa próxima foi rápida, saiu de lá uma senhora avantajada que ofereceu guarida a todos, chamou a ambulância e ainda teve tempo para mostrar os arranjos de flores que fazia para funerais, ao mesmo tempo que dava em mão própria um cartãozinho ao Peidão, para futuras necessidades. Mas ele estava mais para lá do que para cá. Foram atendidos por um médico com bronzeado de nascença, raro para a época, que se interrogava com a origem do paciente que roncava desalmadamente numa cadeira por detrás dos feridos que tinham acabado de chegar. O Peidão ainda ouviu a explicação da enfermeira que contou ser um brutamontes que entrara a meio da noite a partir tudo, só parando com uma dose cavalar de um calmante, que já estaria a perder o efeito. O doutor pincelou os miúdos e pô-los na rua num abrir e fechar de olhos, ao mesmo tempo que desaparecia nos confins do hospital. A Santinha foi entregue ao pai uma semana depois….toda partidinha. No dia 11 de Junho de 1988, oito anos após a “Fonte Santa”, um amigo padre declarou-os unidos para sempre!