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Tuesday, October 17, 2006

Camarada Choco 42 - Dias de Mérito

                           Camarada Choco

                                            Aventura 42
À porta da Escola para Desaparafusados & Afins, dez pirilampos de cor azul e com o tamanho do Arrasta-a-perna…perdão….Supervisor de Manutenção, intimidavam os trabalhadores, que iam lentamente chegando para mais um dia de trabalho.
- Hoje é o Grande Dia da entrega das estatuetas com os “Dias de Mérito”, - informava a afilhada da Dra. Sem Canudo, trajando o fato do casamento, já realizado.
Os critérios de selecção eram rigorosos, não fosse essa a imagem da gestão do Estabelecimento de Reeducação. O tapete vermelho estendia-se em direcção ao novo Espaço Desportivo, local de distribuição das comendas. O povo estava nervoso ! Na parede destacava-se um aviso: “é obrigatório o uso de identificação. Não é autorizada a presença de elementos estranhos neste “estaminé”. A segurança actuará em caso de desobediência”. E a força bruta não olhava a meios para estancar os intrusos: o Pato Donald barrava a entrada aos prevaricadores. De vez enquanto, tal qual um alarme de supermercado, lá se ouvia o barulho de uma corneta de feira, alertando para a passagem de um infractor. Entrava então en cena o Supervisor de Manutenção, que tentava deter o indocumentado, caso a perna permitisse a perseguição, o que não se passava a maior parte das vezes. Mas nem tudo eram espinhos ! A cultura tinha chegado aos desaparafusados: estava agora a descoberto uma zona pré-histórica, constituída por um conjunto giríssimo de calhaus. Teriam vivido nesta zona homens das cavernas ? Mongas cavernosos ? Porres e Virgulinos com uma tanguinha e um osso na cabeça ? Todos olhavam desconfiados para o primo do Choco.
- Parece um “crómanhôn”, - disse o Vira-Bicos, escrevendo a ideia no caderninho de planeamento de espectáculos. – Vou pô-lo no palco neste Natal, junto aos manos.
No bar a Dona Piulia explicava às colegas as razões para a sua esperada vitória.
- Vejam bem, “mérito” vem do latim, que significa “médico”. Ora a que tem mais “curriculum” para os “Dias de Médico”, sou eu. E já me doem as costas. Espero que não atrasem a festa, porque senão ainda meto a centésima baixa do ano.
Nos Serviços Administrativos o Porres esclarecia os seus assalariados que as suas ausências permanentes aos fins-de-semana, apesar de ganhar um extra para estar presente, não entravam nos critérios de selecção para o “mérito da Venteira”.
- Um homem com estas qualidades todas, Supervisor de Manutenção, Motorista Semanal e de Fim-de-Semana e Presidente, será sempre um vencedor, - dizia, com o peito inchado e a pata torta.
O Cabo ultimava a saída dos “Chips”, tentando que não se repetisse a cena das célebres “Folhas de Pagamento”.
- Ou eles saem depressa, ou o Pato Donald vai passar o dia a tocar a corneta.
O programa não era informático, tinha-se optado pelo modelo tradicional, mas muito mais fiável: o Pintor e o seu Bando ! Os B.I.P.R.I (Bilhete de Identificação Para Reeducadores de Inadaptados) silenciaram o pato e trouxeram um pouco de calma à zona da entrada.
- Estava a ver que tinha de ir a casa buscar a caçadeira e apagar o pato, - desabafou o Pintor. – Depois dava-o ao Stror Rico que o transformaria no melhor arroz da Península Ibérica.
Tirando o Choco, que congelara junto a uma das estátuas da entrada, tudo estava nos conformes. Tudo ?! Tudo não ! O Kodac tinha atribuído ao Pintor a profissão de Pintor e ele queria mais.
- Pintor, só Pintor ?! O meu grau académico é Pintor Formador Cobridor……enganei-me, foi a emoção….escreve só Formador, e enquanto o cargo não estiver oficializado no Cartão de Utente da Escola, não pincelo. Palavra de Escultor !
- Escultor ? – Interrompeu a Dra. Sem Canudo, agora convertida em Directora Geral de Mongas & Acompanhantes (D.G.M.A.).
- Escultor?! Eu disse Escultor ?! Queria dizer Formador, - emendou o senhor Pintor, de nome próprio igual ao do pai do Pitrongas, o que causava uma certa confusão na cabeça do pobre do Cliente-Monga (Climongas), levando-o muitas vezes a chamar pai ao Pintor e a dar-lhe os bons-dias em grego.
- Na minha LEI (Lei Geral Acanucada) não há lugar para “Formadores”, excepto se a minha afilhada o necessitar. O senhor mantém-se exclusivamente “Pintor”, e daí não sai, - ordenou a Dona do Espaço, conhecida entre os Mongas (Educativa) e Clientes (CAO) como a Dra. Sem Canudo.
Mas o Pintor era um homem feito com barro do século passado, tinha genes do Viriato e ripostou:
- Aqui , na Lei da República, eu sou “Pintor- Formador”.
- “Lei da República” ?! Essa eu também já comprei e não diz respeito aos mongas.
- Então, diz respeito a quem ?
- Amanhã, amanhã respondo….Kodac põe lá o “Formador”….”Lei da República”….disparate….a Lei sou EU. Tenho rapidamente de alterar os Estatutos, porque senão perco o tacho para sempre e vou ser obrigada a trabalhar na profissão que já deixei há vinte anos.
A monotonia foi interrompida por algo transcendental. O Porres entrou a andar normalmente no corredor de acesso ao novo Pavilhão Desportivo.
- Então agora já não mancas, ó coxo ? – Perguntou o Betão, a nova “cocluxe” da Cerci, com um volume de voz igual à da sua alma gémea, o Stor Pobre. Tinha entrado como Cliente, era mano da Piulia, mas muito melhor que a irmã, que ocupava um cargo de Supervisora de pegas e tapetes de Arraiolos inacabados, e sem data marcada, porque no turno da manhã começavam a montá-los e no turno da tarde era precisamente o inverso, tudo isto tendo como base filosófica o “Grande Livro Pedagógico da Doutora Sem Canudo”.
- Esqueceu-se que é coxo, - disse a Dona Gillete à sua colega mais nova.
- Eu bem te dizia que ele era coxo da cabeça – retorquiu a Dona Tosta, erguendo os braços em sinal de triunfo.
Seria este um segredo que se escondia atrás de muitos outros ? A passagem repentina de Condutor de Mulas para Supervisor de Manutenção, após a vitória numas eleições, introduzira na Cooperativa de Solidariedade o fantástico e trouxera o género lúdico contagiante que era apanágio de todas as outras “Escolas Para Desaparafusados”, o célebre “fui o primeiro a chegar, só saio dentro de uma caixa e deixo cá a família”. Entretanto, a proprietária massacrava, mais uma vez, a cabeça da Chefe Bélinha.
- Os teus subordinados andam a fazer as coisas fora do penico. À roda do cesto de papéis, que comprei a peso de ouro com o célebre subsídio para o ar condicionado, está cheio de papéis acastanhados com grainhas de uvas e caroços de azeitonas. Na minha secção isto é impensável, pois registo tudo em vídeo.
A conversa é interrompida por um sonoro flato, seguido de uma tosse forçada.
- Este deixou rasto ! – Gritou a Lolita, saindo detrás duma coluna.
- O que é que fazes aqui, Lolita ? – Perguntou exaltada a Directora auto-eleita, virando-se para a cliente.
A folga nas válvulas do Supervisor de Manutenção já era tema de conversa entre os mongas, agora chamados clientes com a Reforma da Segurança Social, e incluía também os que não falavam.
- Espero que a culpa agora não seja minha, não fui eu que o contratei – disse a Chefe Bélinha.
- Todos somos responsáveis pelo Supervisor. Por este andar qualquer dia passa para Cliente.
No andar em baixo ouviu-se de novo o som de uma corneta. Era o Stor Rico, vindo directamente do “Café Central”, a coxear. Nova corneta, novo coxo, desta vez a Terapeuta Zézé:
- Esqueci-me da identificação no “Condor”. O senhor Segurança Pato Donald pode esperar um pouco, porque eu vou perguntar ao Nélinho se já trouxe as malas da nossa magnífica excursão ao Algarve com os Mongas. Ficava naquele barco para sempre, depois de atirar pela borda fora todos os clientes.
- Mas para a próxima vez não tentes imitar a cena do “Titanic”, e ir abrir os braços para a proa. Tive de trazer mais um deficiente, desta vez uma coxa, - disse o Nélinho.
- Este Nélinho é tão insinuante que me faz acreditar no improvável, e desejar que seja real. Vou já meter uma baixa !
Na parede junto à Sala dos Têxteis, um cartaz do Departamento do Saco-Azul, situado na área do Treino Social, anunciava uma novidade:

“Aforro – Monga, se ainda acreditas que tens futuro aqui, investe numa poupança feita à imagem deste local, com garantias de retorno em mini-tijolos para barragens e tubos de ensaio para casamentos. E caso haja funerais, os nossos mongas estão aptos para tudo, são uma autêntica mina de ouro. Não há petróleo no Beato, mas em compensação a Venteira está cheia dele. A qualidade do produto é garantida pelo trabalho escravo dos funcionários e o descanso permanente das pepitas. Com os seus investimentos estão a garantir a Família e os seus Descendentes”.

Um pouco mais à frente outra novidade!

“Vá ao Parque Aventura da Bolacha, junto ao Bar Azul. Veja a magestosa videira do Virgulino; toque no pinheiro do Vira Bicos; sinta a frescura da erva daninha do Porres; prove um croquete da Duna; e muitas outras surpresas”.

Na porta de entrada o Choco continuava entregue às delícias da Santinha, que se apresentava, como de costume, em trajes menores, ou melhor, completamente pelada, influenciando assim os humores da cabecinha. Estes encontros libidinosos tinham sempre acontecido no balneário da piscina, quando ele tentava calçar as meias, que teimavam em entrar pelas orelhas; queria vestir as cuecas, amarelas à frente e castanhas atrás, como mandava a tradição, mas o nariz não deixava. A Santinha toldava-lhe a razão, ou melhor, os vestígios dela, e arremessava-o contra os prazeres da carne, neste caso um chouriço mal amanhado, com bolor, e torto, muito torto. A única parte do corpo mumificado que se movia eram os olhos, que seguiam o “show” da Santa, deixando-o numa posição convidativa: de cu para o ar ! Os glóbulos oculares estavam agora na nuca, porque a atrevida fugira para a pala, e acenava ao Choco com algo da Noruega. Estas cenas tinham sempre hora marcada quando estava no balneário, que coincidia com a presença de um velhote dotado de um fabuloso par de tomates. O reformado bem tentava chegar à roupa, mas o fato de treino estava sempre mais perto do nosso herói e ele temia ser atacado. Das poucas vezes que conseguiu alcançar as cuecas, vesti-as rapidamente, mas era tarde quando se apercebia que eram as do Choco, as pretas do Benfica. Nestas alturas já a carrinha ia longe.
Noutro canto o Pintor fazia contas ao prejuízo. De todos os “Noddys” e “Autoretratos” encomendados, foram poucos os que lhe tinham pago o serviço, sendo a mais caloteira a Patinho. Mas o sucesso era tanto, que houve quem quisesse uma pintura recatada, ou pelo menos era o que o artista tinha pensado. Felizmente que não tinha caído no conto do vigário dos pôr-do-sol africanos !
A afilhada tentava mostrar serviço, vendo nisto uma hipótese de promoção.
- É obrigatório o uso do Cartão do Cliente.
- Cliente ?! –Interveio a madrinha, - de Trabalhador da Doutora !
- Era o que eu queria dizer, de Trabalhador da Doutora.
No WC mais perto o Stor Rico olhava desesperado para o nascimento da sua careca.
- Não, não, logo agora que estou um tubarão-martelo. Se fosse há meio século atrás ninguém me agarrava, o cabelo estava pelos ombros, o bigode batia-me na testa, ia e vinha às Berlengas a nado, e ainda trazia um carapau com 30 Kg entre os dentes, depois de ter subido a Serra da Estrela dez vezes com a bicicleta do João da Fruta, e ter martelado várias suecas pelo caminho. Agora o meu ritmo é igual ao da Vespa.
Enquanto isso o Stor Pobre tinha acabado de levar com um cartão amarelo da Chefe Bélinha, por ter chamado coxo ao Porres.
- Eu não quero faltas de respeito para com o Arasta-a-Pata, - disse com autoridade.
Entretanto, as reclamações chegavam à mesa do Cabo Pilas. A afilhada da tarde, que só aceitava a Dra. Sem Canudo como madrinha quando todos saiam, reclamava:
- Então elas não são Especializadas e no cartão diz que sim. Eu não andei dois anos a comprar a Farinha “Pensal”, para agora estar ao mesmo nível das oxigenadas. Gastei um dinheirão até me sair o diploma.
- A mim saiu-me na “Cerelac”, - picou a Abelha Maia. – Ontem fui pela milésima vez ao Ministério e elas fazem poucas horas. Vou massacrar a Chefe.
O dia da Chefe Bélinha tinha nascido torto. Ela bem tentava atirar água em todas as direcções, mas os focos de incêndio iam reacendendo: o Stor Rico tinha um cano roto, a Abelha Maia mongas a mais e as colegas minutos a menos e o Stor Pobre tinha acordado com a carga toda e não largava os calcanhares ao Coxo….ao Arrasta-a-Pata…ao Deixa-que-eu-Chuto….
Finalmente ouviu-se uma corneta a sério, era o Castanheira a anunciar o início da festa de entrega dos “Dias de Mérito”. No vasto Recinto Desportivo, com capacidade para sete Mongas de 50 centímetros e dois Clientes de 1 metro e trinta centímetros e não mais do que 45 quilos e trezentos gramas, coube toda a Escola. No espaldar, a Dra. Sem Canudo anunciou os contemplados: Dona Piulia, o Supervisor de Manutenção e ela própria. Quanto aos restantes, aconselhou-os a esforçarem-se mais e a verem neles um exemplo a seguir.