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Sunday, December 05, 2004

Camarada Choco 21 - Caldo Verde

                          Camarada Choco
                                         Aventura 21



Por vezes quem sai aos seus regenera...mas não o suficiente ! O chinês é trissómico e a sua progenitora é quadrissómica, pentassómica, hexassómica...enfim, ela é que deveria estar com o parafuso, a anilha fina, a anilha grossa e a porca. O canteiro à entrada da Escola que o senhor Virgulino tenta desesperadamente manter florido, leva todos os dias com pequenos presentes dos felinos do bairro. Foram tantos que ele até já se habituou. Até que um dia...
- Dinossauros !?? Agora até dinossauros vêm cagar aqui !! – gritou desesperado o candidato a jardineiro fininho, tentando expulsar o intruso com uma busca-pólos – francamente, sou o único que trabalha nesta espelunca...perdão, nesta casa e só me sai é merda !
Recuemos no Tempo. Duas horas antes o chinês aprontava-se afincadamente para mais um dia escolar, enquanto que a sua mamã tentava desesperada descobrir qual era a parte da frente dos calções que o seu miminho iria vestir. A tarefa era tão difícil que ela nem se apercebeu que o estudante tinha ido à cozinha dar os bons-dias ao periquito estrábico que falava espanhol e arrotava em árabe. Como sempre e devido ao efeito cromossómico, procurou-o no fogão. E qual não foi o seu espanto quando deu de caras com um naco de carne assada de odor suculento. Quando fechou a porta do forno já o pedaço do porco lhe forrava as paredes do estômago. No entanto a mãe descobriu que a braguilha era definitivamente virada para trás, para assim lhe facilitar a saída dos seus inúmeros gases dinossáuricos.
- Rodrigues, diz adeus à tua passarinha e vem calçar os calções.
Nem veio. Nem respondeu.
- Rodrigues estás a ouvir-me ?
Nem a ouvir, nem a ver, nem a sentir, mas sim a digerir.
- Se não vai a marmita à castanha, vai a castanha à marmita – gritou a senhora.
Dito e feito. A mãe embrenhou-se em passo de corrida pela cozinha, mas por mais incrível que pareça, e só explicável por ser uma senhora pentassómica, tropeçou no penico que estava em cima do lavatório com as escovas de dentes lá dentro, e marrou de encontro à proeminente barriga do filho que, devido ao impacto, soltou um estrondoso arroto, que colou às grades o pobre do periquito e o transformou num mini-franguito-da-guia.
- O jantar, o jantar da família – berrou a fêmea quando sentiu o cheiro a colorau. Comeste o jantar dos tios !
A resposta do chinês foi um sorriso maroto e uma bufa das antigas, com molho e couves.
- Vamos, vamos embora – e pegou na mão do Rodrigues arrastando-o para a rua.
À medida que se aproximavam da Escola o meteorito intestinal do trissómico aumentava a cada passo, dava a idéia de que já se deslocava a jato.
- Aguenta, aguenta que já estamos quase a chegar – gritava a mãe desesperada, ao mesmo que lhe desapertava a braguilha para aliviar a pressão, não fosse ele explodir a qualquer momento.
Mas na última curva o chinês começou a deitar fumo e ela só teve tempo de o atirar para o canteiro de estimação do Virgulino.
- Agacha – ordenou.
E a cena era linda: margaridas, cravos, rosas, agapantes e uma... uma espécie de melão sorridente e sonoro.
- Chega, chega, toca a entrar, eles que te limpem.
E o Rodrigues ainda foi visto a entrar e a deixar atrás de si um rasto de couves verdes salpicadas de castanho.
- A minha carne assada – lamentou-se a mãe, olhando entristecida para o produto expelido pelo seu querido trissómico – até tem cenouras e couves.
O assunto das tripas estava resolvido...ou talvez não ! A mãe rumou para o emprego e o filho desapareceu nas entranhas do edifício. Como bom profissional encontrou a sala e, com sofreguidão, agarrou na cana e lançou-se à pesca. Sabia de antemão que os peixes só iriam picar quando a corda do mecanismo acabasse e por isso fez apelo à sua paciência de um falso chinês. As horas passaram até que alguém o chamou:
- Piscina, vamos para a piscina.
O bufador asiático levantou-se, pegou no saco e dirigiu-se sorridente para a carrinha, que já estava apinhada. Junto à carrinha o senhor Virgulino continuava desesperado a tentar afastar o intruso do seu querido canteiro.
- Só eu é que trabalho nesta casa. O raio do gato devia ter o tamanho de uma vaca e ainda por cima comeu uma saca de cenouras e couves.
O Rodrigues ainda lhe deitou um olhar maroto, mas foi por pouco tempo, pois o Porres arrancou de imediato.
A segunda parte do jantar destinado aos tios do nosso amigo saiu quando ele estava a nadar num brilhante estilo-à-cão E não era só ele que nadava, atrás de si seguia em fila ordenada um conjunto de couves e cenouras, tal qual uma pata com as suas crias.






Friday, November 12, 2004

Camarada Choco 20 - CRIME PERFEITO





                         Camarada Choco
                                          Aventura 20



Era uma vez uma ilha semeada de coqueiros e de gente exótica.....
O choro dentro da cubata era a duplicar porque em vez de um nativo vieram ao mundo dois. O acontecimento foi comemorado com poemas, vinho, catinga e muita...muita imaginação:

Óbvio e Óbvia, respectivamente o nome do rapaz e da rapariga.

Os livros e os cocos tinham influenciado o pai, não fosse ele um candidato a poeta-pedreiro, sempre vestidinho de branco, boininha e cheirinho maroto a catinga. Mas nas histórias cor-de-rosa também caiem as nódoas! Uma gripe lixou tudo, degenerou para um mal maior que atacou sem dó nem piedade a pobre Óbvia. Havia uma solução: um soro, um simples e banal sorinho. Banal!?? Naquele fim do mundo nada era banal, principalmente a partir do momento em que os seus governantes tinham decidido serem maiores e vacinados. Assim, soro nem pensar....aquele tipo de soro que na nossa terra compramos no senhor Firmino da esquina, na loja dos 150, ou até numa qualquer banca da rua....nem uma gota. Foi-lhe fatal, não no sentido literal mas ao nível motor, mental...existencial.. Tragédia...tragédia!!?? Não...a Sorte Grande, o futuro radioso para a família...o Grande Golpe...a Golpada.
Como o pai tinha acesso ao Presidente da ilha, uma espécie de senhor Porres da loja ao lado, conseguiu passagem para ele e para a filha irem para a terra dos antigos mauzões, à custa dos mauzões. A menina iria fazer uma tentativa de recuperação.
Lembro-me do sorriso genuíno da Óbvia, isso a doença não tinha conseguido roubar-lhe.
- Ela tem uma boa cabeça, deve-se investir nesse aspecto – alertou uma vez a especialista do grande centro aos técnicos e ao pai.
O investimento começou e o pai até conseguiu arranjar o emprego porque tanto lutara: acartar tijolos e outras coisas afins. Graças à filha estava no El-Dourado!...e mais tarde, e porque estavam com muitas saudades da sua taluda, veio o resto da tribo. A festa foi de arromba, o cheiro a matacanha e a catinga fresca embrenhou-se pelo noite dentro, só terminando quando o progenitor adormeceu devido ao excesso de sumo de cevada. Como era óbvio a Óbvia não pode participar porque era...era...era deficiente e naquela festa só entrava gente fina. O azar dela era a sorte dos outros ! E nem teve direito a tomar os comprimidos obrigatórios, porque a mãe só lia em crioulo, apesar de ser analfabeto e o pai estava de férias da filha. Restou-lhe o seu inseparável bóbi, um rafeiro mais arraçado do que os outros, um genuíno anjo da guarda que a mimava de noite e de dia. Talvez os únicos beijinhos que tivera ao longo da sua penosa vida foram as inúmeras lambidelas que o vira latas insistia em dar de minuto a minuto.
A tribo já estava instalada, o pó da ilha ficara para trás e os seus trouxeram uma nova lotaria: “subsídio de assistência à 3ª pessoa”. Mais uns continhos para a algibeira! E para isso bastaria tirar a Óbvia da Escola e levá-la alegremente para o barracão, onde a educariam e reabilitariam com muito carinho. Dito e feito, foi óbvio que a Óbvia regressou ao lar doce lar. E como não era rapariga para grandes fugas, porque com os olhos ninguém conseguiria ir longe, estacionaram-na a um cantinho e aí ficava enquanto todos saiam para trabalhar. Todos!?? Todos não, o inseparável Bóbi não largava a sua grande paixão e passava os dias a alimentar-lhe aquele magnífico olhar.
As suas mazelas obrigavam os músculos a contraírem-se ao mesmo tempo e assim não havia osso que aguentasse. Em seu auxílio vinham sempre os drunfos, que repunham a legalidade naquele pobre corpo e que atrasavam as demolidoras deformações. Até a tribo chegar, tudo era feito dentro da lei, depois dela acampar instalou-se a anarquia típica do seu local de origem. De estúpidos e atrasados revelaram-se uns espertalhões, uns sabichões: o “ subsídio de assistência à 3ª pessoa fez com que o dinheiro que era dado à Escola fosse parar aos fundilhos do pai e assim passarem a tratar alegremente do seu Totobola. E como com tostão a tostão encheriam depressa o mealheiro em forma de coco, abdicaram das idas à farmácia e assim passaram a poupar o dinheiro que antes a Escola gastava nos drunfos. E quando o mar bate na rocha quem sempre se lixa é o mexilhão, neste caso o molusco chamava-se obviamente Óbvia. A partir daqui os ossos da pobre pequena começaram a gripar e as deformações acentuaram-se. Nenhum apelo às instâncias responsáveis foi o suficiente para salvar a pobre criatura que um dia nasceu no sítio errado com tudo errado.
O único ser que a acompanhou até ao horrível fim foi o seu inseparável Bóbi. !


Tuesday, October 26, 2004

Camarada Choco 19 - Queda para a Música

                           Camarada Choco

                                          Aventura 19

Os excessos por vezes pagam-se caro...caríssimo ! E a devoção exagerada a uma causa também não é boa conselheira, pois pode ser ela a responsável por esse excesso...e que excesso ! No meio deve estar a virtude, a vida é para ser levada com moderação. As coisas fazem-se lentamente, passo a passo, e só se avança para a etapa seguinte quando a anterior estiver bem consolidada...repito...bem consolidada. Não é por fazermos muito e gritarmos que fazemos muito, que iremos ter um chalet lá em cima.
O Natal estava à porta, a grandiosa e luxuriante festa organizada pela nossa querida Escola para Desaparafusados da Venteira aproximava-se. Afinavam-se os últimos acordes, os ensaios intensificavam-se, tinham conseguido adestrar a Papoila a dizer ao microfone a palavra “Amor” ( politicamente correta para a ocasião ), sem com isso ter um ataque epiléptico ou enfiar dois abrunhos ao colega mais à mão. A Dona Ermelinda já confirmara a sua presença gratuita e calculava-se agora o seu tempo de atuação, não esquecendo o inflacionamento habitual: oficialmente 1 hora, mas na prática 5 horas, ficando sempre a tocar sozinha para o representante do representante do Presidente da Câmara, visto as outras ilustres pessoas terem muito trabalho nestas alturas, apesar de serem sempre uns apoiantes incondicionais dos deficientes.
Os cenários já estavam montados, a vomitadela de última hora da Papoila para cima de um Pai Natal já tinha sido absorvida pela farfalhuda barba; à vaquinha faltava-lhe um olho, comido com elegância e sem subtileza pela “Bébèu”, que a confundiu com o seu esbelto e amado Choco. Naquele meio ninguém iria estranhar uma leiteirinha com um só farol. A cabeleira verde da SóTraques cabia-lhe que nem uma luva, mas ela ainda não se tinha sintonizado com o espírito natalício e por isso arrancava com sofreguidão a “permanente” de cada vez que a colocavam na sua mona em forma de ananás. A ameaçar ajudar no evento estava a mãe da Castafiore, uma espécie de Amália com Dino Meira, que tinha umas cordas vocais gripadas desde a adolescência. Era demais ! Se ela ousasse aparecer temia-se que os políticos ameaçassem com reuniões imparáveis, e sem o poder não haveria subsídios. O próximo Tegretol teria de ir parar ao bucho da Amália Meira, custasse o que custasse.
Na sala ao lado embrulhavam-se as prendas que iriam ser dadas pelo Pai Natal versão mauber. A convivência de muitos anos fazia com que se soubesse, sem margem para erros, quais os presentes que cada um gostaria de receber.
- O Tremoço vai adorar esta guitarra, – dizia com paixão a funcionária e amiga – a música para ela é tudo! – apesar de ter só uma orelha e mesmo essa ter problemas na segmentação.
O festival ultrapassou, mais uma vez, as expetativas, a Amália Meira cantou e desencantou, os políticos retiraram-se quando a comunicação social fugiu, a Papoila acabou por afiambrar aos tortos e aos direitos, a família Ramires trouxe a tribo e saqueou a mesa dos comes, e o Tremoço lá recebeu entusiasticamente a guitarra mas...e aqui é que está o imbróglio da questão...devido à confusão do fim da festa, esqueceu-se do instrumento na carrinha. Possivelmente deverá ter reclamado em casa, mas como só usava uma linguagem extraterrestre ninguém notou a ausência do objeto de prazer infinito.
- A guitarra do Tremoço ficou aqui – disse a extremosa funcionária no dia seguinte – coitadinho dele deve estar à beira de uma travadinha e por esta altura já deverá ter destruído a parede com as cabeçadas de protesto.
- Deixa-te desses exageros – respondeu-lhe uma colega – ele se calhar já nem se lembra que recebeu uma guitarra.
- O quê!?? Fica sabendo que o meu Tremoço é um rapaz muito esperto. Logo ao fim da tarde vou-lhe levar a prenda antes de ir para casa.
Dito e feito ! Às 18H30 de um dia qualquer do século XX o instrumento foi depositado nas mãos do Tremoço, que começou de imediato a esgalhá-lo, tentando assim tirar-lhe umas notinhas esganiçadas. No dia seguinte a mãe teve de se deslocar, como de costume, à loja do senhor Pereira dos Tomates de Ouro e deixou o artista na esgalhação da sua guitarra. Como segurança, não o fossem raptar, deixou a porta do apartamento aberta. E o Tremoço lembrou-se de dar um show ao vivo para os vizinhos. O resto foi muito rápido: a guitarra escapuliu-se das mãos do punk, precipitou-se para o rés-do-chão...e no seu encalço foi o Tremoço.





Monday, October 11, 2004

Camarada Choco 18 - CENAS CANALHAS

                          Camarada Choco

                                           Aventura 18
 
O mar batia furioso de encontro às rochas, lixando para sempre alguns mexilhões mais atrevidos, enquanto que noutro ponto do país fluidos cerebrais batiam furiosos de encontro aos restos de neurónios, lixando para sempre os sonhos cor de rosa do nosso querido e estimado Choco. As gaivotas fugiam em pânico dos respingos violentos que se projectavam no ar, dizimando tudo à sua passagem, enquanto que no outro local os piolhos, as cabaças, os cutrilhos e as burgalhotas fugiam em debandada, pelos lençóis abaixo, deste terrível terramoto existencial. O bater de uma onda mais violenta rasgou as entranhas da terra e tudo desapareceu numa nuvem de espuma; a T-Shirt vestida no ano lectivo anterior rasgou-se com violência ao nível dos peitorais e lançou para o ar as moléculas de odor corporal, que obrigaram a um suicídio colectivo das cutrilhas que estavam a vomitar à janela; a fúria da tia Natureza não tinha limites, tudo era diferente, tudo era igual, o Oceano e o Choco misturavam-se numa orgia infernal, ora eram pedaços de rochas que se projectavam no vazio, ora eram pedaços de sebo que se colavam com estrondo no poster do herói da cassete pirata, que se confundia com o musgo das paredes sensuais do quarto do camarada Choco. A vida estava ingrata e os sonhos já não eram cor-de-rosa, a sua sensual “Bébéu” já há muito tempo que o largara, estando agora a largar a sua excitante bába, não de camelo, no colo de outro. Os sonhos do dragão da Venteira eram agora negros, carregados de trovões, peidos, relâmpagos rápidos e jactos de mijo, que decoravam as cuecas vermelhas com bolinhas brancas. Só o faro deste predador é que conseguia distinguir a parte da frente da de trás e nunca se enganava, prova irrefutável de que os seus neurónios cerebrais, apesar de reduzidos, eram dos melhores. O ladrar carinhoso do “Jardel” deu-lhe os bons-dias, mas infelizmente o senhor Choco não estava para aí virado e teve assim necessidade de transmitir ao canídeo de estimação da mãe a sua opinião sobre o estado do tempo: o coice colocou o peluche arrumadinho ao colo dum Santo António com fácies de trissómico. E como um colo dum Santo só tem espaço para uma criatura de cada vez, o menino não teve outro remédio senão despencar-se das alturas e cair em cheio dentro dum balde com as cuecas de molho de toda a família. O desencadear de acções familiares foi puro e duro, após a mãe se aperceber do estado periclitante da “jóia da coroa”. Entrou em cena o chefe da família, o único contribuinte, o empresário, que se atirou sem dó nem piedade ao Choco e fez dele um “puré-de-batata-da-loja-dos-300”. Estranha forma de iniciar um novo e solarengo dia.
A rejeição tinha-se consumado, a mãe já não o queria, abandonava-o agora aos 22 anos e doava a sua parte do carinho à irmã, tornando-se ela agora a única totalista do “Amor de Mãe”. Triste e abandonado, tal qual uma Ágata qualquer, o nosso herói pegou na trouxa e rumou em direcção ao trabalho.
O dia não podia ter começado pior. À sua espera estava a Dra., tal qual uma agente da Pide, pronta para lhe fazer a folha.
- Há, à,ó,ô,à – ainda tentou protestar mas foi em vão.
Confiscou-lhe o saco de plástico e abriu-lhe com raiva a mochila tipo pára-quedas. O conteúdo ficou no chão à mercê das patas dos seus colegas, tal qual as batinas dos universitários. As minhocas, que já tinham construído moradias de musgo numa ex-toalhinha branca, não tiveram outro remédio senão protegerem-se dentro dos ténis vermelhos deste Che Guevara da Brandoa, apesar da natureza-morta do seu ambiente.
A vida de um revolucionário não estava para brincadeiras desde o 11 de Setembro. Até aqui, neste edifício a quem ele considerava a sua primeira casa, uma simples mochila de 50 Kg não passava despercebida. Na noite anterior tivera tanto trabalho a transformar uma toalha de mesa fascista em trinta “bábetes” proletários, para humildemente recuperar o seu “Amor de Mãe”. Apesar da idade cronológica ser a de um adulto, não se aperceberia a mãe de que o conteúdo encefálico parara aos 3 anos, e tudo graças ao Decreto-Lei 40/85 que extinguira os números negativos? E aos 3 ainda se é muito querido e ainda se usam “bábetes”! Quereria a mãe que ele passasse a ladrar para assim também ter direito ao colo, como o Jardel? Enfim, problemas existenciais que infelizmente também afectavam os guerrilheiros. Mas agora era tempo para trabalhar e agarrou no pincel, dando início às pinceladas.


Saturday, October 02, 2004

Camarada Choco 17 - CHOCONAIFE


                          Camarada Choco
                                              Aventura 17 
 
As mãos apertavam com carícia, tal qual o seu ilustre antepassado “Jack o Estripador”, o pescoço sensual e lustroso da progenitora, aquela que lhe dera de mão beijada os genes da marca Treacher-Collins. A língua do macho já tocava na orelha esquerda, sinal de uma força bem aplicada, enquanto que a língua da fêmea tocava na orelha direita, sinal de uma resistência a atingir a redline.
- HáHêga – gritava desesperada aquela que um dia o tinha parido com tanto amor.
Graças a Deus que o nosso Choco ainda conservava nos seus genes uma réstia de “AMORDEMÃE”. Retirou de rompante as garras do pescoço e enquanto ela recuava devido à anóxia, presenteou-a com um elegante e extraordinário coice, uma forma jubilatória de assinalar e comemorar a vida, que a colou à parede mais próxima, junto a um Santo António que, devido às ondas de choque, largou o menino e precipitou-se de encontro ao chão, fazendo um estranho barulho:
- Bufaram-se – alertou o vizinho do quarto esquerdo.
Era bom era ! Mal ele sabia a fera que morava em baixo, um macho dos antigos, um HOMEM-DAS-CAVERNAS com letra grande, um sábio, um atleta, um mangusto, uma ave rara, um pitrongas, um génio literário..enfim, o Adamastor da Venteira. O esforço fê-lo voltar para a cama e deitar-se relaxado, tendo nos seus braços o ursinho de estimação, o Trabeclas, nome posto em memória do seu grande avô materno, responsável pelo gene – coxo que se infiltrara na linhagem desta distinta família da Brandoa-Sul.
A um canto da casa a mãe conseguira finalmente descolar-se da parede, deixando para trás, não um rasto como o caracol, mas sim a sua silhueta de sebo, que começava agora a derreter com os primeiros raios de Sol. Iria com certeza ser aproveitada para fazer velas no Natal. Pé ante pé a triste senhora, mãe extremosa dum Choco em conflito com o Mundo, espreitou para os quartos dos filhos e confirmou que estavam a dormir. Por breves momentos esqueceu-se do predador e ficou-se com as memórias de há vinte e dois anos atrás, que lhe mostravam um anjinho – achocalhado, ou seria um morcego (??), de trinta centímetros, cor de suspiro-fora-de-prazo e olhos de camaleão. As dores no ombro direito e no baixo ventre trouxeram-me de novo à realidade. Tinha de sair e ir apresentar queixa ao técnico responsável pela reeducação do Choco, enquanto o guerreiro descansava agarrado ao seu fiel Trabeclas. No quarto ao lado dormia com os anjos a Bélinha. A Natureza tinha destas coisas: no lado esquerdo uma fera, um revolucionário à moda antiga, uma raridade, um Viriato em potência, capaz de nos surpreender a todas as horas, senhor de inúmeros odores a macho e dono de uma colecção completa, e móvel, de cassetes piratas, gravadas in loco na feira da Brandoa e com as fotografias do Dino Meira pintadas na altura com lápis de cor made in Afeganistão pelo tio BinLadras; no lado direito uma choquinha sem passado e com pouco futuro, que provavelmente passaria ao lado da História caso o maninho não resolvesse acordar, durante a nobre missão da pobre mãe, e presentear a irmã com uma colecção completa do faqueiro comprado numa loja dos 150 do Casal Ventoso, a prestações constantes e suaves, arrumando-o com classe e charme, característica indiscutível deste diabo-da-Brandoa ( primo afastado do diabo-da-Tânsmania), nas largas costas da irmã. Se os céus quisessem nada de trágico aconteceria.
- Que cheiro a Peido, – alertou de novo o vizinho do 4º esquerdo.
Era bom era ! Mal ele sabia que a fera que morava em baixo acabara de voltar-se de barriga para baixo e isso implicara recorrer a alguns gases disponíveis, que expunham a manifestação de um especial estado de alma.
O senhor Tobias, dono de uma loja de electrodomésticos, ainda viu, de relance, um vulto a passar, tal como um foguete, mas a coxo.
- Bolas, naquela família ninguém cumpre os limites de velocidade, – praguejou.
Mas para cumprir os limites era necessário tê-los ! Na cave do prédio uma masmorra esperava o nosso incipiente herói, tal e qual aquela que tinha visto na televisão.
- À ponho, ponho, – dizia a senhora ao reeducador do filho, demonstrando ser uma governanta diferente, capaz de enunciar uma certa pintura do mundo familiar, não estivesse ela na secção das Artes Plásticas.
Mas contra toda a lógica de um esquema mental humano, depressa avançou com uma proposta lógica e surrealista:
- E se o meu choquinho deixasse crescer o bigode ?
O reeducador nem queria acreditar ! Confuso...perdido nos meandros da mente, já nem conseguia distinguir a ficção da realidade, o dia da noite,...e ainda por cima a mãe esperava uma resposta rápida:
- Então, o bigode !??
- Sim, sim – respondeu com medo, – um bigode... talvez resolva a situação... com uma mosca...
Passavamos de um ChocoKnife para um Zé do Telhado dos autênticos, um galifão, a roubar aos ricos para dar aos trissómicos... uma lenda capaz de fazer sombra ao mais terrível dos Talibãs, ao mais sanguinário dos ladrões, ao mais terrível dos índios.
Depois do bigode ser um dado adquirido a mãe desapareceu no alcatrão de regresso a casa. Infelizmente o Choco já acordara e estava a treinar afincadamente na irmã. A mãe foi a tábua de salvação para a choquinha, pois foi confundida com um Talibã e levou o respectivo correctivo necessário à situação.

2 – 0 foi o resultado do desafio, e por KO !

O dia acabou mal para o nosso querido ChocoKnife pois à noite, mais concretamente às 23 horas dez minutos e quarenta e cinco segundos, a mãe pôs o pai ao corrente da história do episódio número setecentos e trinta e seis da grandiosa novela de Amor, Ódio e Paixão, “ChocoKnife – o herói Treacher – Collins”, e enfiou-lhe vários secos e molhados, ficando no ar a promessa de para a próxima lhe meter os “dentes para dentro, coladinhos ao Céu da Boca”. Enfim, modernisses !.




Wednesday, September 15, 2004

Camarada Choco 16 - Estranhos Perfumes


                           Camarada Choco
                                           Aventura 16 
 
A noite já ia longa, a Lua Cheia banhava de luz as ruelas estreitas da pacata Freguesia, indo os últimos raios terminar nas cabeças dos dois felinos mais famosos da Venteira, o “Rapaz” e a “Boneca”. Mas o sossego estava condenado ao fracasso ! Uma sombra misteriosa e caduca deambulava calmamente pelo terceiro andar direito do número sessenta e nove da rua Mestre Gameiro Monga. A silhueta de uma cifose, vulgo marreca, deslizava com desprezo pelas paredes brancas da habitação, acompanhada à frente por uma face também ela amarrecada. Lucky Luke era o cowboy mais famoso do oeste, que conseguia disparar mais rápido do que a própria sombra e o Choco era o monga mais conhecido da Brandoa, que já não conseguia aguentar com o seu próprio cheiro. As insónias sucediam-se, e a culpa disto tudo devia-se ao facto das actividades na piscina terem encerrado com a chegada do final de mais um Ano Lectivo. Sem natação não havia banhos e agora o Choco vergava-se ao peso do sarro e das borgalhotas. Até um leão deste gabarito tinha limites ! Os carneiros recusavam-se a saltar e sem eles o João Pestana entrara em greve. A solução encontrava-se na cozinha e tinha a forma de um elegante garrafão de perfume, que dava pelo nome de “PacoRabóne”, made in uma loja dos 50 das elegantes catacumbas da Manchúria. Nestas alturas o Choco desnudava-se, tendo mesmo assim dificuldades em arrancar as cuecas amareladas, estilo pergaminho, que teimavam em agarrar-se, tal qual uma carraça, à sua elegante bacia em forma de couve flor. Ultrapassada esta sensível fase, o nosso herói do cinema mudo abria com os dentes o gargalo em forma de tremoço e expulsava com sofreguidão o cheiro nauseabundo que já lhe riscava a alma. Mas havia algo que teimava em permanecer e esse algo eram os odores insuportáveis das entranhas! Como felino que era, também conseguia sempre ultrapassar estes obstáculos. Nada como uns bons gargarejos, seguidos de várias deglutições do maravilhoso “PácoRábo”. E assim terminava mais uma das inúmeras sessões nocturnas do nosso querido Choco. A tudo isto assistia a sua incrédula progenitora, também ela com dificuldades em adormecer, mas por só contar até às 3 ovelhas e assim não conseguir accionar o velho John Péstan. Tudo isto ela contou, na décima pessoa, à educadora responsável pela difícil tarefa de transformar a irmã do Choco, a já célebre Bélinha, numa cidadã útil à sociedade:
- Todas as noites é sempre a mesma coisa, vejo-o sempre nu a banhar-se no perfume e depois bebe-o, será que o meu Choco é um drógado, um tchocoindependente ?
- Nãoão – respondeu-lhe a educadora, revelando ser uma mulher do norte.
- Mas não vim aqui só para falar de tristezas – continuou a Encarregada da Reeducação do Choco – sabe que hoje deixei a minha Bélinha usar o meu perfume especial – e deu um toque orgulhoso na filha, uma espécie de Choco com saias – emprestei-lhe o “Ananás, Ananás” que comprei por 200 na loja dos 300.
Algures perdido numa das casas de banho do Centro, o nosso herói sofria na pele, mais propriamente ( e sejamos realistas! ) no olho-do-cú, as agruras do seu vício nocturno. Agachado em cima da retrete, tal qual uma galinha no poleiro, despejava, sem apelo nem agravo, o seu “PácoRábo” ingerido na véspera. Mas como a sua coluna nunca fora uma linha recta, sofrendo por isso um desvio no fim da linha, metade do conteúdo intestinal teimava em deslizar pela parede abaixo. O responsável pela pele do Choco Silva estava atento e por isso proibira o uso de cigarros numa área de 50 metros em redor do Predador-Cagador. Uma beata mal apagada poderia transformar o nosso Choco tipicamente europeu, num Choco africano, vulnerável aos instintos rácicos dos vizinhos. Os mais optimistas diziam que ele estava com o cio e tinha assim necessidade de marcar o seu território. Mas fosse qual fosse a razão de largar tanta quantidade de merda, acabou por não ser autorizado a ir com os colegas ao museu do fado, não resolvesse lá marcar o traje de alguma fadista mais atrevida. E o despejo a que foi sujeito, já depois de ter abancado na carrinha, marcou-o profundamente. Foi visto a entrar enfurecido na Escola, deixando rasto como o caracol, só parando na casa de banho mais perto, onde deixou um grafitti de desprezo. Depois da obra feita atirou-se, com as garras de fora e as cuecas dobradas, às costas do Pitrongas, afiambrou duas bolachas no GiGi e marcou um penalty na perna esquerda da Palmira Melga. O Predador-Cagador estava incontrolável ! A cor esbranquiçada esfumava-se, até dava a ideia que já havia um novo Papa, o Choco aproximava-se da forma dum fantasma, um misto de Corcunda–de-Notre-Dame com um saco de Farinha-Nacional-de-50-Quilos. As queixas acumulavam-se à porta do domador da fera, os papéis azuis de vinte e cinco linhas entupiam a entrada para a sala de Artes Gráficas. Até o Windows 95 tinha fugido em pânico! O que fazer para parar esta máquina infernal de chutos, pontapés e borradas?

Sunday, September 05, 2004

Camarada Choco 15 - O Universitário - Odisseia 2


                         Camarada Choco
                                         Aventura 15 


 

A Faculdade sobressaía imponente do meio verdejante do Estádio Nacional. O laboratório esperava impaciente pela Máquina Humana que se encontrava a uns escassos quilómetros de distância, mais propriamente à porta do ginásio, pela centésima vez, da Instituição onde, afincadamente, se dedicava a tirar o curso “Bucis, Dobradiças e Pinceladas” , tendo em vista ocupar num futuro próximo o Conselho de Gerência da empresa do pai, mas somente nos dias quentes de Verão, visto a mãe se recusar a abrir a loja nos dias frios e húmidos de Inverno, devido ao enrejelamento do único neurónio cerebral, característica partilhada por todos os membros desta tradicional família brandorenha.
A carrinha que se preparava para rumar em direcção ao Palácio da Ciência não saía da fase dos ratés, talvez em solidariedade com o nosso grande Choco, que também manifestava a sua raiva com uns “descuidos” giríssimos, junto à porta da sala de treinos.
- Há,ó,ó,ó,há,à – gritava o nosso herói do filme “E Tudo os Microcéfalos Levaram”, apontando para o interior do micro pavilhão.
Na carrinha o chauffer exprimia a buzina ao máximo e também ele já dava ratés.
- Então, o homem vem ou não !??
- O Choco quer entrar no ginásio, senhor Porres.
- Digam-lhe que a festa hoje é na Faculdade e já estamos atrasados.
Nada demovia o nosso Hércules. Mas algo inesperado, e bem-vindo, aconteceu. Um relógio da marca “United Colores of Benton” encontrava-se perdido a um canto do corredor e uma funcionária ousou encontrá-lo.
-Quem é que perdeu um relógio ? – perguntou em voz grossa.
A confusão era tanta que ninguém lhe prestou atenção...ninguém !??..ninguém não, um irredutível valente agarrava corajosamente no Leão, com o fato a escorrer, felizmente ainda não era sangue, mas da espuma que saía abundantemente dos caninos da fera, agora cravados na porta da “Sala de musculação para mongas e afins”, e mesmo assim ainda conseguira captar a mensagem.
- Que horas é que ele marca ? – gritou
- 21h30 do ano de 1345 AC!
- É do Choco – disse de imediato o valente esquivando-se, mais uma vez, do ataque furioso do Pantera.
O Choco reconheceu o objecto, retraiu as garras, embrulhou a língua, puxou a face pontiaguda de encontro ao crânio e presenteou-nos com o seu sorriso “após um 69”, rumando ao encontro do senhor Porres, que já se encontrava à beira de um ataque de caspa miudinha.
Na Faculdade todos esperavam por esta espécie de simbiose entre o Zé Maria e o John Holmes. Até um especialista vindo expressamente do país mais poderoso do Mundo, um Professor Doutor ( por extenso ), fazia questão de estar presente e participar no teste do Senhor Doutor Choco ( também por extenso ).
Trinta minutos depois e envolto num denso nevoeiro, a carrinha aterrou na Motricidade Humana trazendo a bordo o “Desejado” e as suas inseparáveis faluas vermelhas número 50. A alma branca do Choco contrastava com a cor acastanhada do seu fato de treino do 1º Domingo do Ano Lectivo anterior. Até a sua aura exalava um odor corporal digno dos melhores cobridores da Brandoa.
- Hello, Is this the athlete ?
- Há-ó-ó-há-bóbó – respondeu o nosso querido e estimado Choco no seu melhor inglês, dando a entender ser um especialista nato com a língua.
Entrámos para o laboratório e ficámos de imediato encadeados com a panóplia de luzes e aparelhos que nos aguardavam, sequiosos de prazer. E sequiosa para iniciar o teste estava a nossa cobaia! Tal qual um felino a atirar-se sobre a presa, o Choco dirigiu-se sem receio para o tapete rolante sendo, mais uma vez, traído pelos majestosos paquetes cor de sangue, que o obrigaram a projectar-se de encontro a um enorme cogumelo vermelho, que de imediato obrigou o computador a debitar um número igual ao de uma cautela da lotaria popular. Após uma breve reanimação da enfermeira, que não ganhou para o susto depois de ver tão apolínea figura, ou por ver todo o seu trabalho a ir pela pia abaixo devido a uns Adidas indianos, iniciou-se a ligação das duas máquinas, a artificial e a natural. Tentou-se em vão ligar um conjunto de eléctrodos ao peito do Eleito, mas estes não estavam habituados a agarrar em crostas ensebadas. Foi necessário pedir uma lixa 70 ao senhor Trabujo para assim podermos abrir caminho em direcção à pele do Monumento.
- 1,2,3...teste !
E o computador confirmou a ligação do coração ao hardware.
- Há, ó, ó , á, bóbó – gritava o Choco de prazer, notando-se uma tumefacção debaixo dos sete fatos de banho.
De seguida tentou-se introduzir na boca do herói da Brandoa o analisador de gases, uma espécie de vibrador labial, de cor branca. Mais um problema ! Com a emoção, própria destas situações, o Choco quase que o engoliu, mudando a sua facies de peixe corneta, para a de uma anaconda gigante. Um safanão na cifose fez com que projectasse o aparelho de encontro à parede da sala. Quanto ao computador, dava sinais de não entender nada de nada, as luzes mudavam de cor a um ritmo estonteante e as curvas dos gráficos ultrapassavam o espaço do écrã, dando a entender que tentavam aproximar-se do esquema mental do senhor Choco. Após algum esforço nas tentativas de ligação da Máquina Humana à máquina do Homem, foi dada luz verde para se iniciar o teste. O tapete rolante começou a roncar e atrás dele foi a gazela.
As rotações aumentavam, as da máquina, através dos números, e as do Choco, através das alterações aerodinâmicas, facias e costais, que davam a ideia, e o temor, de que o nosso garanhão iria levantar voo a qualquer momento. A prova aproximava-se do fim, o oxigénio fugia do corredor como o Diabo da Cruz, a cor vermelha das bochechas mudara para azul e os célebres ténis cor de Ferrari pareciam querer fugir dos pés que os alimentavam. Ingratos !

Trás – Pum – iiiii – Chuá
Gritou o bucal quando desacoplou dos beiços carnosos do sensual pantera branca da rua Roque Gameiro e foi esborrachar-se no écrã de 17 polegadas que fazia a ficha à fera.
- Stop, Stop – ordenou o mestre, mas sem sucesso.
A cobaia fazia questão de continuar, estava mais programada do que as máquinas. O professor saiu do seu lugar de espectador deliciado, pôs-se de gatas e num ápice encontrou o silicone. Algum tempo depois já estava colocado, tal qual uma rolha, na boca musculada do Choco, que agora ameaçava catapultar o olho esquerdo.

Trás – Piiiim – Pòin – Chuáá
- Stop, Stop – gesticulava o americano, mostrando à assistência também ser adepto de faluas nº 50.
A gazela fazia orelhas moucas, a meta estava a um piscar de olhos, mas de momento só podia usar o olho direito, visto o outro já deitar fumo e ter a pálpebra colada à testa devido à força do vento.

PUM – PUM
O raté do Choco foi tão violento que colocou o Professor Doutor do país mais poderoso do Mundo na sala ao lado, ao colo de um Professor Doutor do país do Achamento.
E como mandam as leis da Física, a uma acção há sempre uma reacção, consubstanciada no arremesso do silicone, desta vez para o lado esquerdo, devido à posição da boca da fera, indo este alojar-se na boca da assistente, que acusou um excesso de dióxido de carbono e baba no gráfico do computador, levando a incauta observadora a ingerir de imediato um frasco de álcool, receando ficar igual ao atleta tostado...perdão...testado. Tomara ela ter no seu código genes tão finos e delicados como os do Choco !
Fim da prova, discussão dos dados e conclusões:

Ter-se-ia de pedir aos “states” um outro tipo de vibrador....perdão...bucal, mais indicado para o nosso campeão.

Nova marcação, nova corrida !
O nosso querido menino saiu da Faculdade tal como entrou, envolto numa estranha neblina, igual à do D. Sebastião, também ele um grande choco.

Algumas Semanas Depois !
- Então o homem vem ou não vem? – barafustava o chauffer de nome Porres, ao mesmo tempo que tentava, desesperadamente, pegar a velha carrinha já meio amongoada.
- Está colado à porta do ginásio.
- Porra, não me digam que perdeu outra vez a cebola ? – gritou, dando um murro no volante e conseguindo pôr o motor a rugir.
- A cebola não é, está no tornozelo.
- Há, ó, ó, ó, ó, á – espumava o senhor Choco, dando um violento pontapé na parede, fazendo com que a falua esquerda número 50 abandonasse o pé e fosse colar-se ao tecto, devido ao excesso de sebo que transbordava do seu interior.
- Abram-lhe a porta antes que ele destrua o edifício – ordenou o motorista, puxando agora dos galões de Presidente da Instituição e mostrando o cartão que comprovava a sua genuína autoridade.
Desta vez eram uns calções tipo cueca que faltavam ao Pantera Branca, um pouco encardida, da Brandoa. Não podia ir para a Faculdade só com 6 pares vestidos !
A chegada ao recinto da Universidade foi mais gloriosa. O fumo era tanto que os milhares de alunos fugiram do local pensando tratar-se do dia do Juízo Final.
O estrangeiro desta vez tinha tomado as suas precauções. Toda a equipa estava protegida com o equipamento usado no Futebol Americano. Quanto ao Choco, ainda vinha mais cheiroso do que na sessão anterior.
Mas tudo correu às mil maravilhas, o nosso leão vinha mais potente do que nunca e atingiu a nota máxima, excepto na parte final em que cuspiu novamente o bucal. A causa foi descoberta nas folhas da Net que acompanhavam a biografia autorizada do nosso Bomba: o perfil anatómico tinha uma pequena variação em relação à maioria dos da espécie e quanto a isso a tecnologia estava ainda um pouco atrasada.
A festa acabou com o Porres a gritar bem alto, como manda um bom político:
- Comigo a Presidente todos vão ficar iguais a este !

Thursday, August 19, 2004

Camarada Choco 14 - O Universitário - Odisseia 1

                          Camarada Choco


                                           Aventura 14
 
A emoção era enorme e imprópria para cardíacos, coxos, zarolhos, carecas e afins. Pela primeira vez na história da nossa querida Cooperativa de Reabilitação...etc.,etc., e mais algumas mariquices, um dos seus associados tinha sido seleccionado, entre muitos milhares de mongas ( metade da população portuguesa ), west boys, cromossomas-x-men, Dandy-Walker’s e muito mais hippies, para fazer parte da selecção mundial...perdão, é a emoção a ultrapassar o meu discernimento....para fazer parte da amostra dum estudo que se iria realizar numa Faculdade.

Nome do Herói: CHOCO SILVA, ou melhor, DR. CHOCO SILVA (com letra Maiúscula e a Negrito).

Ficaria assim para a história da Brandoa como o primeiro Treacher-Collins a norte do Tejo a ingressar numa Universidade !
Iria ser sujeito a um treino intensivo durante algumas semanas e depois teria de passar por implacáveis exames finais. O Choco nem estremeceu, estava desde aquele momento pronto para a luta, com o peito ao vento...peito !??..Oh não...enganei-me...com a Cifose...lá estou eu a armar-me em intelectual...com a marreca ( nome popular ) ao vento e a língua junto aos pés.
Ainda a madrugada era uma menina e já o nosso atleta montava arraial à porta do ginásio, devidamente equipado com a sua jurássica camisola de alças número 69 do Benfica, os seus calções verde esperança e os ténis número 55, sendo os 12cm em excesso ocupados pelas suas unhas estilo predador e para amortecer o cheiro de doze anos consecutivos sem ver a luz do Sol e as carícias da água.
1,2,3..., eram tantas as flexões que até a cifose dorsal desaparecia no meio de toda aquela massa muscular, parecendo ir instalar-se sorrateiramente na face sensual do nosso Sansão, que ficava agora mais parecido com um peixe corneta.
4,5,6..rugia o leão da Brandoa, à medida que fazia manguitos com a barra de 15 quilos, ou seriam toneladas!?? A expressão facial e a posição da língua, que já tocava na testa, tendiam para a segunda hipótese.
Na 8ª tentativa o colapso traiu as expectativas e o ferro caiu com estrondo no seu sensual pescoço, provocando o arremesso imediato dos seus ténis vermelhos contra a parede branca, assim como o crescimento descontrolado das unhas pré-históricas, que se enrolaram com estrondo na língua em forma de jibóia, ao mesmo tempo que deitava fumo pelas orelhas. Foi graças às toneladas de roupa que o Choco sempre trazia na mochila que conseguiram extinguir o fogo.
A prova seguinte fazia apelo aos seus abdominais. E este parecia ser o ponto forte do nosso Tarzan Choco Taborda!
- Preparado...atenção...vai – gritou o professor com voz grossa, digna de um verdadeiro treinador.
Mas só veio a língua, que recolheu com um pedaço de caliça do tecto. Iria ser o fim do mundo quando o chefe Porres tomasse conhecimento da ocorrência! Deu-se por finalizado o primeiro de muitos treinos. O nosso herói pegou na mochila, que geralmente pesa toneladas, devido aos milhares de cassetes piratas, bugigangas, roupas, toalhas, fatos de banho, shampôs, chinelos, óculos de mergulho e muitas, muitas mais surpresas que o acompanham para todas as actividades da vida diária.
Ainda os poucos galos da cidade não tinham tocado nas cornetas e já o nosso UNIVERSITÁRIO estava junto à porta do ginásio, pronto para o segundo combate.

Prato do Dia: Resistência Aeróbica

- Aos seus lugares...pronto...Piu !
Tal como um trovão, o nosso querido Choco partiu em slaide, com os ténis a chiar e o escape na máxima potência. Contra todos os prognósticos e apostas, não foi longe! Ainda não tinha atingido o meio da recta e já se precipitava de encontro aos paralelepípedos. O cronómetro não parou, obrigando o nosso Carlos Lopes da Brandoa a retomar a marcha. Mas nem assim melhorou ! Novo despiste no mesmo local. O director da prova deu ordens para se suspender o encontro e ordenou um exame rigoroso à máquina e ao terreno. Neste não havia nada que fosse o responsável, nem mesmo uma humilde bosta da cadela Duna. Geralmente os cocós tomavam banhos de Sol na relva do Porres e do Virgulino. A culpa era dos pneus!
- São inadequados – gritou o responsável.
Os ténis vermelhos eram grandes demais para as jantes. Metade deles, mais precisamente as partes da frente, não acompanhavam o andamento e ficavam sempre para trás. Treino suspenso até mudança de faluas.
Dia 3. Mais uma vez o atleta a antecipar-se aos galináceos.

Prato do Dia: Flexibilidade
A caixa, emprestada pela faculdade já esperava ansiosa pelo utente. Primeira exigência: o jovem tinha de se descalçar!...Descalçar !??..Meu Deus, e o ambiente, a camada do Ozono, iriam aguentar ?? Desatar aqueles paquetes iria ser um trabalho “herculíneo”. Pelo menos mil nós dados desde o nascimento até à idade adulta, separavam as fedorentas meias do final do século XX. Missão Impossível! Foi com o auxílio de um pé-de-cabra meio monga que as carcaças saíram, levando coladas parte das unhas encravadas e do seu conteúdo calórico. A partir daqui o odor insuportável a chulé-por-camadas traiu a consciência dos presentes e dos mais próximos e só voltaram à luz do dia com a ajuda dos profissionais do 112. Quanto à “flexibilidade”, esta alternava de lado por influência da marreca, da escoliose e de outros problemas afins.
Há certos momentos que temos a sensação de que o Tempo anda a gozar connosco. Ainda mal tínhamos recuperado do dia anterior e já o Choco se encontrava pronto para mais uma corrida.

Prato do Dia: Salto em Comprimento sem Balanço

Duas marcas de giz branco no chão assinalavam o ponto de partida e o de chegada. Os ténis benfiquistas persistiam em não largar o grande Choco Silva e por isso teve de ser feito um desconto pessoal: a Segunda linha recuou 10 centímetros! Foi-lhe explicada, da melhor maneira possível, a técnica ideal para ser um verdadeiro campeão.
- Hã, hã – rugiu o nosso herói, dizendo que tinha percebido claramente as instruções....ou talvez não!??....agora já era tarde de mais!
O garanhão já estava preparado para o Take Off ! As asas balançavam freneticamente, das orelhas já saia fumo branco, a língua esvoaçava em todo o seu esplendor, a cara parecia o Concorde. Colocaram colchões na parede distante, para o caso do jovem decidir aterrar na sala ao lado. Quando partiu o fumo já tapava todo aquele magnífico Jumbo da Brandoa e o barulho era ensurdecedor. O Landing provocou um autêntico terramoto. Uma eternidade até o fumo desaparecer.....todos olhavam estarrecidos para a parede, tentando vislumbrar o nosso Ser Olímpico. Mas dele, nem sinal ! Teria entrado em órbita, estando agora a ser cobiçado por um par de marcianas siamesas ?
- Está ali – gritou um dos assistentes, obrigando-os a olhar para trás.
E estava mesmo.... a 10 centímetros à frente da linha da partida.
O cabedal do herói crescia a olhos vistos. A prova dos nove veio num dia de Sol na casa dos pais. Estavam os pintores a dar novas cores ao quarto de dormir dos progenitores quando foram surpreendidos por gritos femininos alucinantes vindos da cozinha. Desceram apressadamente dos escadotes e correram como lebres para o local da tragédia. O espectáculo era arrepiante ! O nosso atleta acabara de atacar, tal como um felino, a sua progenitora e a sua querida irmã, que desde o nascimento partilhava com ele o síndrome de Treacher – Collins. As duas fêmeas já estavam “Ko” e o agressor transportava-as agora como os antigos Treacher – Collins das cavernas. O chefe da família foi confrontado com a dura realidade quando chegou do trabalho, já a noite ia longa. Lançou-se de imediato no encalço da fera, que tentava desesperado contar os carneiros, que teimavam em não sair do número três. Apanhou-o num momento de fraqueza e lançou-lhe um grito de morte:
- Se eu um dia chegar a casa e encontrar a tua mãe e a tua irmã aqui esticadinhas, dou-te uma sova que também ficas alinhadinho com elas.
Ainda o nosso herói não conseguira guardar o rebanho e já o cinto, comprado na feira da Brandoa, lhe fazia uma tatuagem na marreca.
- Querido toma cuidado com o teu “castrol”, que está muito elevado – avisava a vítima mais velha, tentando salvar o seu menino das garras do seu garanhão.
No dia seguinte o Universitário apresentou-se, tal qual um Apolo, na zona dos treinos. O mau tempo do dia anterior já não fazia parte da sua memória ( nem cabia ! ). Desta vez ia em direcção à Faculdade, precisava de se adaptar aos aparelhos. Os efeitos do árduo trabalho sobre o escultural corpo do Choco eram bem visíveis na inclinação lateral da carrinha, também ela deficiente.
O tapete rolante já roncava e o atleta olhava para ela como um palácio para um boi.
- Ah, á, á – dizia, e muito bem !
- Pronto ? Go, go...
- Nem os ruídos fisiológicos prejudicaram o arranque do pantera branca da Brandoa, que lá seguiu tipo foguetão, esteira acima.
O dia D aproximava-se, assim como o estudo exaustivo da fera.

Tuesday, August 10, 2004

Camarada Choco 13 - A CARTA


                         Camarada Choco
                                         Aventura 13
Estava o chefe calmamente a arrumar os papéis na secretária, quando o telefone tocou de mansinho. Ainda teve tempo para deitar um último olhar ao relógio, que o informou serem horas do recolher. Levantou o auscultador e foi de imediato metralhado por uma voz à beira de uma convulsão:
- A minha filha foi convidada pela Escola para um show porno no dia 24 de Março - gritou um enlouquecido, ensandecido, desvairado, endoidecido, desatinado, frenético, enfim, um mentecapto, do outro lado da linha.
O chefe nem queria acreditar ! Estaria a delirar ou já estava em casa a dormir e o excesso de trabalho provocava-lhe alucinações ? Não, era mesmo verdade.
- Estou !??
- A minha filha foi convidada pela Escola para um jantar íntimo à luz das velas e tem de ir vestida com uma blusa decotada e mini-saia - atirou o outro de rajada.
- O quê, com quem é que eu estou a falar ? - perguntou, atónito, o Chefe, pondo-se de pé, tal qual um felino, passando a falar de cima para baixo.
- DAQUI FALA O ENCARREGADO DE EDUCAÇÃO DA PALMIRA MELGA - respondeu em voz maiúscula.
- Boa-noite, senhor Evaristo Melga !
- BOA-NOITE NÃO, MÁ-NOITE. ENTÃO VOCÊS ANDAM A CONVIDAR AS ALUNAS PARA ENCONTROS DESAVERGONHADOS? - tornou a gritar o papá Melga.
O Chefe nem queria acreditar. Agora tão perto da reforma, depois de ter cumprido várias comissões militares no Ultramar, só faltava esta melga para lhe estragar o resto do dia.
- O senhor está a dizer que recebeu uma carta da nossa Instituição a convidar a sua filha...
-....PARA UM ENCONTRO SEXUAL....PEDEM PARA ELA IR TODA NUA...
O Chefe deitou um rápido olhar para um Tegretol que dormia descansado a um canto da secretária e desejou poder envia-lo, via Telecom, para aquele pai tresloucado.
- O senhor vai-se acalmar e amanhã manda-nos a carta pela sua filha.
- MANDAR A CARTA PELA MINHA FILHA !?? NÃO, NUNCA, JAMAIS....
Uma carta daquelas nunca poderia ser transportada por uma menina deficiente. E se ela engravidasse, mesmo não sabendo ler ? Hoje em dia não se podia confiar em ninguém, o perigo espreitava em todos os sítios, os pedófilos....perdão...os mongófilos não davam descanso às pobres damas, até já atacavam dentro dos envelopes. O senhor Evaristo Melga arriscava-se a ter um envelope como genro e a ser avô de uma melguinha correio azul.
- Então venha cá o senhor entregar-nos a carta.
- E DORMIR !?? APESAR DE EU SER UM PAI ATENTO E PREOCUPADO, AS RESSACAS.....OS SERÕES DE TRABALHO OBRIGAM-ME A DORMIR DURANTE TODAS AS MANHÃS. VOU ENVIAR-LHE A CARTA E A MINHA MULHER. MAS NÃO SE ESQUEÇA, SENHOR DIRECTOR, A MIM NINGUÉM ME CALA !
A carta foi entregue com nojo, diria mais, com asco...com aversão..com repugnância...pela agastada mãe à beira do precipício da vida. O local onde ela julgava que a sua filha estava e estaria sempre em segurança, revelara-se agora numa diabólica armadilha, que não hesitava em enviar espermatozóides liofilizados através dos CTT, um produto mais corrosivo do que a própria droga. Que mais coisas tenebrosas poderiam fazer ? Seriam cobaias de experiências comportamentais ? Aquela sala de luzes e sons, que a tinha maravilhado, não seria um laboratório de experiências sexuais ? A televisão tinha razão ao alertar e mostrar ao mundo estes centros de terror. Depois desta reunião com a direcção iria à SIC denunciar estas conspurcação, esta depravação, esta profanação e com certeza que o seu Evaristo Melga iria abrir o telejornal das 20H00, sendo assim o primeiro "Informador" português, aquele que descobrira o verdadeiro objectivo das Cercis deste país.E assim o envelope foi aberto e lido em voz alta o seu diabólico conteúdo:

" Vimos por este meio informar que a sua educanda Palmira Melga vai participar numa prova de Natação no dia 2 de Março. Neste dia terá de trazer fato de banho, toalha e chinelos ".

Saturday, August 07, 2004

Camarada Choco 12 - Desenvolvimento Pessoal e Social

                           Camarada Choco

                                             Aventura 12
 
O tema escaldava ! Pedia-se a colaboração de todos, tinha-se chegado a um ponto sem retorno, o abismo estava cada vez mais perto, a ponte para a outra cueca...perdão...para a outra margem tinha de aparecer o mais rapidamente possível. “Sexo”, sempre o maldito “sexo” ! Ficar-se-ia pela teoria, como do costume, ou tentar-se-ia socializar a prática ?
A Natureza andava a brincar connosco. Privava-nos de muitas coisas, mas no que tocava ao “chéxu” estava tudo intacto. Era só esperar pela chegada da Primavera e aí estávamos todos a abanarmo-nos de todas as formas e feitios, para chegarmos ao mesmo prazer. E quais iriam ser os temas a transmitir-nos ? Seriamos divididos por classes, os Eremitas, os Pescadores ( tudo o que vem à rede é peixe ), os Predadores, os Arrastões...etc.,etc., ou ficaria tudo ao molho ? Ou até não teríamos direito a participar, pois só aos doutores diria respeito ! Ainda as decisões não estavam tomadas e já choviam propostas:
- Os alunos da Educativa poderão ir visitar os do C.A.O. !
Uma simples visita de cortesia ou um encontro mais picante !?? E quais seriam as regras?? Existiria fora de jogo e cartão vermelho ? Quantos doutos juizes ? Não seria melhor deixar andar as coisas como estavam, do que ir mexer num vulcão meio adormecido ? A decisão estava tomada....
A sala 6 da Área Educativa, constituída por meninos e meninas no início da Puberdade tinha sido a escolhida para ir fazer uma visita sexual....perdão...perdão....uma excursão de trabalho à sala 9 da Área do C.A.O., para aí assistirem a uma Acção de Informação sobre “Sexo”. A excitação estava dentro dos parâmetros normais, incluindo duas convulsões de última hora. A saída decorreu ordeiramente ao som de um ritmo caótico e alucinante.
Na sala a Formadora esperava pacientemente os utentes, entretendo-se a desenhar num quadro um estranho objecto constituído por dois círculos pequenos e uma linha recta avantajada. Os assistentes foram-se acomodando à medida que chegavam e algum tempo depois o local já fervilhava de mongas teenagers inconsequentes.
- Bem, podemos começar – avisou a oradora, apontando para o desenho – Isto é um Pénis ! Alguém sabe o que é um Pénis ?
- Énis...Énis – levantou-se de imediato alguém da assistência com o braço no ar – Énis, Énis...
- Diz lá, Palmira Melga, o que é um Pénis.
- Énis...Énis – gritava excitada a espectadora à beira de uma convulsão, sendo acompanhada pela multidão em histerismo – Énis, Énis...
- Vá lá, explica aos teus colegas...
E como um gesto vale mais do que mil palavras, puxou de imediato o Choco que estava ao seu lado e prontificou-se para mostrar o que era o “Énis”. O macho não cabia em si de contente por ter sido ele o eleito e já deixava escapar a sua enorme língua de encontro ao chão. Abriu os braços e avançou a bacia em sinal de cooperação.
- Énis, Énis – continuava a gritar a intelectual.
Puxou pelo indicador da mão direita e colou-o de imediato nos ténis vermelhos número 50 do seu querido e respeitado Choco. A decepção foi geral, mas não evitou que a turba se lançasse furiosamente de encontro a todos os ténis presentes. O retorno à calma demorou uns longos trinta minutos, tendo sido necessário recorrer a todos os calmantes disponíveis na sala. Quanto ao macho eleito, ainda se podia ver o seu gesto reprovador, como que chamando burra à sua ilustre colega.
- Énis, Énis – gritava ininterruptamente a interveniente, alheia ao caos em que se transformara o “Desenvolvimento Pessoal e Social”.
- Quem sabe o que é um “pénis” ? – tornou a perguntar a Formadora.
De imediato, o Choco tomou a iniciativa e saltando para o palco, tal qual um felino, gritou bem alto para quem o quisesse ouvir:
- Áálho, áalho, áalho – rosnava o nosso herói do cinema mudo, ao mesmo tempo que baixava furiosamente os calções...os calções...os cinco calções multicolores que trazia desde o mês anterior.
Nem as vozes contra o demoveram da exibição e num piscar de olhos ficou com a cintura pélvica ao léu, mostrando ao público presente o apêndice avantajado, torto e com um nó na ponta com que os céus o tinham presenteado e agora aumentado com o calor da discussão. E, no meio disto tudo, ainda se ouviu um grito alucinado duma das presentes, que desmaiou com a emoção. Era a nossa querida e estimada Madame Amorim ! Quanto ao Choco, permanecia parado e orgulhoso, exibindo o seu fabuloso Chevrolet com os pneus furados, uma precaução da Natureza, não fosse ele querer seguir as pisadas dos progenitores e manter indefinidamente a inscrição da família Choco na Segurança Social.
A primeira parte da sessão estava concluída, já não havia dúvidas quanto ao “Pénis”. No entanto, foi necessário esperar algum tempo para fazer sentar a Papoila que, devido à sua fraca visão, insistia em ver o Chevrolet, tendo-se para isso deslocado para junto do colega e colado os olhos ao seu descomunal pepino. Quanto aos outros machos presentes, todos eles também exibiam os seus dotes às colegas interessadas...todos!??....todos não, havia uma excepção, o Ambrósio Caspa que, por mais que procurasse, não conseguia vislumbrar o seu cacete, ausente devido às contingências genéticas.
- Amigos, tenho outra pergunta para vos fazer – avisou a Formadora, conseguindo captar, depois de muito esforço, a pouca atenção dos presentes.
O próximo tema também não era dos mais fáceis. Foi com muito medo que se atreveu a passar à questão seguinte:
- Alguém sabe o que é uma “Vagina” ?
Foi demais ! Com esta o Choco não se aguentou e atirou-se sofregamente à Zobaida, que permanecia no seu normal estado letárgico rodeada de moscas, mas foi traído pela sua visão estereoscópica, indo cravar os dentes na roda traseira esquerda, que apresentava um piso careca, despedaçando-a com estrondo, facto este que provocou um súbito desequilíbrio na pré-histórica cadeira de rodas, que não aguentou a traição da força da Gravidade, arremessando, de imediato, o seu pesado conteúdo de encontro ao chão frio. Mas como o destino é madrasto, nesse preciso momento ia a passar a apressada Lolita que não teve outro remédio senão apanhar com os cento e tal quilos da sua colega, ficando espalmada, tendo ainda tempo de atirar umas sábias palavras para o ar:
- Organizem-se !
Foi com muito esforço que conseguiram dominar o senhor Choco, tendo o Conselho Pedagógico, que reuniu de emergência, deliberado amarrá-lo a uma cadeira. Decidiu-se também avançar com a projecção do pequeno, mas muito elucidativo, filme “A Actividade Sexual dos Caracóis, das Lentilhas e dos Percebes” da autoria do Alto Comissariado Europeu para a Igualdade no Trabalho e no Sexo ( A.C.E.I.T.S. ), que estava previsto para o final da sessão. Entretanto, os organizadores desta educativa e pedagógica Acção de Formação acharam por bem também eles recorrerem à ajuda dos milhares de drunfos postos à disposição dos presuntos....perdão...dos presentes. Pode ainda ouvir-se o protesto do Fangio Espástico, que queria que pusessem no ar a cassete com a gravação da sessão do canal 18 da TVCabo do dia anterior.
As lentilhas foram mais eficazes do que os caracóis, pois conseguiram adormecer a assistência, principalmente o impetuoso Choco que dormia agora como um anjinho, no regaço da sua amada Florbela. Quanto aos responsáveis pela organização, já estavam de novo preparados para a acção:
- Vamos falar outra vez sobre “Vagina” – principiou a titubeante Formadora, lançando um olhar medroso para as suas colegas, ao mesmo tempo que ligava o projector de slides que atirou para o écrã a imagem de uma rosa.
O tema era muito forte ! O nome da Rosa mexia demais com as profundezas da alma e das....cuecas....do nobre e altivo Choco, obrigando-o a dar um pulo majestoso, tal como um garanhão, mergulhando de cabeça no retrato...
- Ele vai dar cabo do écrã – gritou a Formadora, conseguindo afastar-se a tempo do predador.
Não se sabe a causa, nem o truque utilizado, mas todos são testemunhas juramentadas de que o herói saiu do local com uma rosa vermelha entre os dentes. Quanto à do écrã, desapareceu misteriosamente sem deixar rasto.
- Lá vão as lentilhas outra vez – gritou o projectista, rodando o manípulo do aparelho.
Ficou-se pelos bivalves e quanto aos utentes, que se desenrascassem na próxima Primavera.






Thursday, August 05, 2004

Camarada Choco 11 - A Sala de Snooker

                           Camarada Choco
                                                                Aventura 11

 A notícia não podia ter sido a melhor: a Sala de Snooker já tinha aberto ao público......perdão.....Snoezelen......Sno quê !??..... Snooker, aquela com um tampo verde, muitas bolinhas coloridas, uns quantos buracos e uns tantos paus!??...Não, não, Snoezelen, também havia bolinhas, mas mais, muito mais, um colchão de água que vibrava e debitava música, uma bola de espelhos, um tubo alto com água e peixinhos coloridos, que mudavam de cor quando lhes tocavam, e outras atracções, que eram para o menino e para a menina. Portanto, Snooker “Sim”, mas um Snooker da Guerra das Estrelas, capaz de excitar o mais profundo dos colegas. E tudo isto por uma pequena bagatela: três mil contos!!
Resolvi antecipar-me à realidade e dei um pulo ao Futuro (nos sonhos pode-se tudo ). Lá estavam eles, os meus queridos amigos de infortúnio esperavam ansiosos a sua vez de curtirem, o néon colocado à porta da casa de espectáculos indicava que era ali o sítio mais in da cidade da Amadora:

Sala de Snooker
... Ò Perdão ...

SALA DE SNOEZELEN

...onde até o teu bisavô embalsamado diz “YES”....

.....anunciava com orgulho a luz cintilante.

O ambiente, enevoado pelo fumo dos cigarros estilo anos 30, mostrava que a tensão, em todas as partes do corpo, era muita. Havia homens e mulheres a preceito.
- Olha o calmante, Vallium 20 do melhor – anunciava a nossa querida Lolita, vestida de coelhinha do PlayBoy, tendo nos pés as famosas faluas 53 do seu amante Choco.
- Quero Fê.....Fê....Fê – gritou um macho de óculos escuros barrando o caminho à vendedora.
- Vê lá se te organizas – disparou de imediato a artista do Portugal dos Pequeninos.
- Fê...Fê... – e o senhor Kodak não passava disso, parecia ter o cromossoma extra do vinte e um encravado na garganta.
Ao seu lado uma senhora com a cara de toupeira mantinha um diálogo animado com as suas próprias mãos. Era a dona Snawzer, uma jogadora inveterada, viciada ainda no Colchão de Água, mas já curada do Pufo. Numa cadeira próxima, uma snoezelendependente careca tentava desesperadamente dar lustro à sua cabeça , roçando violentamente com esta numa placa de anúncio, que avisava:

“ Neste Estabelecimento é vedada a entrada a indivíduos com P.C. “
P.C. !?? Partido Comunista !?? Estava vedada a entrada a deficientes inscritos no Partido Comunista !??
- Ordens da Dra. Sem canudo! – apressou-se a esclarecer a abstracta Dona Lolita – Os utentes com Paralisia Cerebral podem ir dar uma volta ao bilhar grande, porque isto não é para os vossos dentes....perdão...para os vossos ossos.
- Avante camaradas – gritou o Fangio Espástico acelerando contra a multidão, ao mesmo tempo que dava sinal ao extenso cordão de mongas para o seguirem.
Parecia uma das cavalgadas dos filmes do velho oeste:

- na ponta esquerda o lendário Ambrósio acelerava como uma lesma, deixando para trás a sua própria caspa;

- ao seu lado, mas um pouco mais à frente, a famosa lebre sem patas, o inigualável Zé Balbas, deixava no soalho as marcas da borracha dos sapatos;

- no extremo direito e um pouco atrás, a pesadona Mercedes Esgoto deixava no chão um rasto como o caracol, mas acastanhado para dar um toque pessoal;

- em sentido contrário seguia a Telma Estrábica ao encontro dos seus fantasmas;

- em passo de corrida, quase junto ao líder, a madame Castafiore cantarolava tão afinada como a sua progenitora de cabelo verde;

- e muitos mais que a História iria registar para sempre no imemorável filme ,

“ A Fuga dos PCs para a Brandoa “.
Lá dentro a loucura era total ! O Tubo Mágico embebedava as almas atormentadas e estas lançavam os neurónios, tal como os dados num jogo de Poker, pelas áreas apertadas daqueles cérebros micros, indo bater de encontro às luzinhas que subiam pela coluna. O Colchão de Água, para além de vibrador, soltava uma música radical, a dos “Rolingspásticos”, a banda de rock do momento. O Pufo já era, a Zulmira Destravada tinha-lhe pregado uma dentada monumental e agora o seu conteúdo esvoaçava pela boîte, dando um toque natalício ao ambiente.
- Neve, neve – gritava tresloucada a madame Amorim, uma veterana nestas andanças, deixando cair, com estrondo, os dois anõezinhos que tinha escondidos nos sovacos....sovacos não...axilas...axilas!?? .... A madame Amorim nunca teve axilas, mas sim sovacos, e dos grandes...SOVACÕES, já para não falar das crostas acumuladas nas suas pernas peludas, devido às ausências prolongadas ao chuveiro. E a sua progenitora que andava sempre tão aperaltada e perfumada !
Na Piscina de Bolas viam-se pernas, muitas pernas, acompanhadas de risinhos marotos, entrecortados por vezes por cabeças que emergiam com bolas coloridas entre os dentes, mas só por poucos segundos, desaparecendo de imediato nas profundezas.
Quanto à Bola de Luzes, a rotação era infernal e já levava agarrada quatro espásticos, três atetósicos, cinco coxos, dois marrecos e meio, sete micro, dois hidro, sem contar com a Zobaida que, devido à força centrífuga, já tinha abandonado o carrocel, encontrando-se a deslizar lentamente pela parede branca do recinto.
- Fujam, vem aí o chefe Porres – avisou o Zé Balbas.
- Mas tu não ficaste mudo depois daquele fim-de-semana alucinante oferecido pelas doutoras no dia das “ Comemorações do Regresso Pedagógico ao lar doce lar “ ? – perguntou a sempre atenta Lolita, afastando o melão do senhor Melão.
- É tanga, só não falo para receber o subsídio, mas à noite transformo-me no Super-Balbas, o maior orador de todos os tempos.
- Ó menina, ainda vais ficar muito tempo agarrada ao meu melão ? – refilou o senhor Melão ( não confundir com o dos “Excesso” ), apoiando-se na cabeça micro que lhe aparecia entre as pernas.
- Se já te tivessem operado a esta hérnia monstruosa não estavas aqui a ocupar tanto espaço – respondeu, de imediato, a candidata a deputada à Assembleia da República.
- O meu mal não é ter todo o intestino nos joelhos, é ter nascido preto e não ser filho de ministro. Os especialistas dizem que não é urgente !
- Sai da frente ó P.C., esta procissão “belongue” aos mongas – gritou o Johny Kodak, o rei dos trissómicos, uma espécie de maçons do Ensino Especial.
Num canto escuro e já um pouco inclinado pelos efeitos dos drunfos, o Choco mostrava a sua requintada arquitectura corporal a uma moça desprevenida.
Na Sala de Snoezelen a festa aproximava-se perigosamente do RedLine. Dentro do tubo já nadavam dois utentes e a Violeta ameaçava com uma crise existencial e tudo devido a eles não mudarem de cor quando lhes tocava. Os boateiros depressa espalharam que a boite era uma fraude, tinham-na comprado numa loja dos 300, não era uma Znoezelen genuína. Queriam a cabeça do responsável !
No ar pairava a ameaça de uma convulsão em bloco, um autêntico 25 de Abril dos deficientes.
- Calma, o povo é sereno – gritava para as massas a única pessoa lúcida, a D. Lolita, depois de ter trepado para as costas do Pitrongas.– Só tenho drunfos para os mais radicais ! Quem quiser reclamar dirija-se à Secretaria e fale com a chefe.
A festa acabou nos Serviços Administrativos com os utentes em histeria total e a Dona Sãozinha em início de colapso, depois de ver, mais uma vez, as folhas de pagamentos desaparecerem, desta vez engolidas pelos artistas mais incomodados.



Tuesday, August 03, 2004

Camarada 10 - Linha de (Des)montagem

                          Camarada Choco

                                             Aventura 10

- Conseguimos – gritavam com orgulho as educadoras para quem as quisessem ouvir – conseguimos a “Linha de Montagem”, os nossos alunos vão começar a produzir !
Era o delírio colectivo, a nossa querida Escola acabava de entrar no pelotão da frente do Mundo Ocidental. Pus-me a imaginar ! Um centro industrial pujante no meio da cidade da Amadora, o orgulho de toda uma população, um exemplo para o Universo, o país dos Descobrimentos tornava a renascer das cinzas e mostrava-se agora babado aos bárbaros. E tudo isto devido à já famosa “Linha de Montagem” !
De repente o meu sonho foi invadido pela imagem arrogante do Choco, o melhor operário fabril, a apertar com convicção uma porca a um parafuso monstruoso, pertencente a um petroleiro liberiano que entrara recentemente nos estaleiros da Lisnave. O seu empenho reflectia-se na enorme língua que descansava suavemente no chão de madeira, tendo os olhos colados à cara barroca da sua querida namorada, que recebia o trabalho acabado pelo seu macho e dava início ao seu: desaparafusar ! Não, não era possível, estes pensamentos eram anti-operários, não iria ser com certeza esta a realidade da nossa futura fábrica.
A “Linha de Montagem” iria fazer jus ao seu nome, as porcas sairiam da fábrica devidamente enroscadas, quer quisessem, quer não. Aqui trabalhar-se-ia, o tempo das mordomias chegava ao fim ... avante camaradas ... ó, perdão ... avante mongalhadas !
- Então, onde estão as máquinas ? – perguntou o professor.
- São estas – respondeu a educadora, mostrando-lhe três recipientes de plástico da “Loja dos Trezentos” e vários sacos com porcas e parafusos.
- What !?? Perdão, caras senhoras, eu com toda a certeza que não me fiz entender ! Vou repetir o pedido. Minhas caras colegas, V. Exas. terão a gentileza de me mostrar o material.
- Aqui está !
De novo os recipientes de plástico, os sacos com os parafusos, as indomáveis roscas e .... e ..... ( claro que faltava alguma coisa, a sua indignação era genuína ! ) as irresistíveis anilhas finas e anilhas grossas, escolhidas em função do tamanho dos parafusos dos operários.
Fui outra vez puxado para o mundo alucinante da cadeia de produção e dei de caras, para mal dos meus pecados, até já parecia uma perseguição, com o rei dos trabalhadores, o irresistível sindicalista Choco, que apresentava agora um cartão de identificação colado à testa, que o denunciava como membro do clube dos portadores de Síndrome de Treacher – Collins. A mania das grandezas deste macho da Brandoa já me começava a irritar ! Estava agora a tentar pôr no seu parafuso uma anilha fina, não se coibindo de usar como martelo a cabeça oleosa da sua colega operária, a Dona Lolita. Ao seu lado estava a Telma Estrábica a tentar pôr uma rosca num parafuso fantasma, produto da sua visão dupla. À sua frente a Florbela debicava alegremente nas porcas, sendo a sua barriga de grávida testemunha da sua gulodice extraterrestre, não se coibindo de lançar uma mão ao parafuso do seu amado. Na ponta final da linha de produção estava a majestosa Zobaida tentando, há já muito tempo, colocar a sua anilha grossa, sendo prova desse esforço o bigode que entretanto crescera, cobrindo-lhe agora o lábio superior, dando um toque nobre à sua silhueta barroca.
De repente a confusão instalou-se na secção S.L.M.E.A.A. quando a operária Papoila resolveu suspender , unilateralmente, o trabalho, para presentear o seu camarada de posto com um jacto de vómito, deixando-lhe um odor muito in, digno dos melhores perfumes Brandoenses, como, por exemplo, a célebre “Essência de Anão”. Isto obrigou o operário a soltar do parafuso a sua mão direita, para assim poder retirar dos óculos os restos da maçã, bife e massa e outros produtos alimentícios calóricos, que lhe perturbavam a visão de 140 dioptrias, esquecendo-se, no entanto, que a mão esquerda já há muito tinha virado a 180º, sendo por isto inútil nesta faraónica “Linha de Montagem”. Como se previa, a Lei da Gravidade era para todos sem excepção e assim o parafuso despencou em direcção ao solo, acabando por aterrar na cabeça do JóJó Báfo-de Bode, que estava a sorver, com enorme prazer, um resto de bife expulso das entranhas da sua amiga Papoila. O que se ouviu na secção S.L.M.E.A.A. ( Sub-Linha de Montagem para Espásticos, Atetósicos e Afins ) não foi um “ai”, porque o operário Báfo-de-Bode não era dotado para a oralidade, mas também não correspondia a um “ui”, porque o som vinha das entranhas, tal como um vulcão, deixando no ar um pressentimento de estado convulsivo, seguido de hecatombe de merda. Perdoem-me, mas só pode ser este o termo certo ! Na nossa alegre Casinha os utentes há muito tempo deixaram de fazer coco, fazem merda, muita merda, em qualquer altura, em qualquer lugar, sem avisos, tudo à traição, e muitas vezes com cumplicidades familiares, que os atulham de purgantes, dados nas alturas certas, para eles assim despejarem o conteúdo intestinal longe de casa. E foi numa das ocasiões mais impróprias que a operária Mercedes Esgoto resolveu expulsar os quilitos que tinha a mais. O resultado ficou expresso no número alucinante de moscas por metro quadrado.
Os episódios laborais foram-se multiplicando, tendo atingido o seu auge na manifestação de operárias junto à porta da Administração. Queriam ter os mesmos direitos dos seus colegas machos, ou seja, o uso de bigode e pêlos nas pernas. A Patroa não cedia ! Mulher que fosse encontrada na “Linha de Montagem” com pedículos capilosos nos beiços ou nos membros inferiores era de imediato obrigada a deslocar-se à zona da tosquia, mesmo que isso significasse divórcio, fim-de-namoro, fim-de-amante, etc., etc. A “Igualdade” ainda era uma palavra vã nesta fábrica de Roscas, Anilhas Finas, Anilhas Grossas, Mongas e Parafusos.
Mas, e há sempre um “mas” em todas as histórias, a hora da libertação aproximava-se, como o nevoeiro pela costa. O sinal veio através de um jornal clandestino, que já circulava nas hostes operárias, o “Almondegas”, assinado pelo punho da operária Catarina Eumacho ( pseudónimo da Zobaida ). O título do pasquim não deixava dúvidas:

“O Buço é do Povo, Abaixo a Rapação”.
A resposta do poder foi brutal, mandando retirar as drogas que paralisavam os poucos neurónios disponíveis, apagando de vez estas veleidades revolucionárias, deixando o povo trabalhador à mercê da tirania das suas almas.
A partir desse momento não havia nada para ninguém, acabaram-se os Largastil, Mellail, Brunil, Nalium, Unisedil, Tegretol, Diplexil, Sabril, Bialzepan, Luminal, Noostan, Artane, Haldol,.........
As palavras revolucionárias inundaram de imediato as paredes brancas:

“Espásticos Unidos jamais serão vencidos”
“ Abaixo as Roscas Fascistas “
“ Operário Amigo Junta a Nós a Tua Atetose “
“ Marreco Trabalhador, o Povo está Contigo”

A Revolução estava em marcha, ninguém a parava. Do alto do palanque, tal qual um Lenine de saias, a camarada Lolita enchia os ouvidos dos seus colegas com a sua verborreia revolucionária, estando agora mais vermelha do que o normal, talvez devido à falta das doses maciças de Diplexil. No meio da multidão de fêmeas que clamavam pelos seus bigodes, um agente fascista disfarçado com uma saia e uma camisola do Benfica com o número 69 e um cheiro popular, tirava partido do calor revolucionário e abusava das ingénuas camponesas.
- Há, Ó, Ó, Há, Á, Á – gritava, excitado, o técnico de porcas.
Até o Zé Balbas gritava de emoção e furor proletário, prontificando-se a ajudar o Fangio Espástico a pegar o bólide e a desaparecer no meio de um chiar de pneus, pelos vastos corredores da fábrica de roscas e anilhas, tendo-se esquecido de parar no sinal vermelho, apanhando assim distraída a Carolina Caracol que, com o impacto, ficou sentada ao colo do piloto, indo ambos precipitar-se pela Secretaria adentro, só parando em cima da Dona Sãozinha, que viu, para seu desespero, as folhas de pagamento ficarem coladas ao tecto, devido ao excesso de baba revolucionária, tendo ainda tido tempo para recriminar os invasores:
- Saibam V. Exas. que se esqueceram de pedir licença para entrar !
O estrondo trouxe-me de novo à realidade. E lá estavam eles, aqueles charmosos homens e mulheres, a trabalhar arduamente a um ritmo de caracol, no eterno ciclo

PARAFUSO, ANILHA FINA, ANILHA GROSSA E PORCA.
Ao longe a cera já borbulhava, pronta a atacar o buço mais entranhado e o pêlo mais teimoso !





Monday, August 02, 2004

Camarada Choco 9 - O Demolidor

                                                        Camarada Choco

                                             Aventura 9
 
Plim, Tlim, Tim ......... gritava a loiça quando atingia o chão da sala ao lado.
- Os pratos, os pratos do almoço - gritou uma funcionária. - É o Zé Trovão.
Era sim, senhora, o Zé Trovão, tinha conseguido iludir a vigilância, que por vezes se quebrava devido à falta de meios humanos. Quando chegaram ao local do crime deram de caras com o autor, que lhes estendeu as mãos e confessou:
- Ó patiu, patiu.....à, à mau - dizia, ao mesmo tempo que revirava os olhos e mordia furiosamente os pulsos, tatuando-se com a sua dentadura de onze anos, a maior parte deles atormentados por doenças da Alma.
- És mau, és mau, estes pratos eram para o almoço - disse a primeira senhora a juntar-se aos cacos.
Coitada, coitadinha, nem teve tempo para se aproximar mais, pois o Zé Trovão deu paz aos seus pulsos e declarou guerra à intrusa, agarrando-lhe freneticamente a cabeleira, arremessando a proprietária contra o chão de nylon, roubando-lhe parte dos cabelos, que ficaram entre os seus dedos gordos. Em socorro da maltratada foi uma educadora, que também não teve muita sorte, apesar de ter ido munida com os métodos pedagógicos mais avançados. Eu fui testemunha ocular e juramentada da cena canalha ! O Zé Trovão parecia estar de relações cortadas com o sexo feminino, pois presenteou esta admiradora com um excelente biqueiro, digno dos melhores momentos do tio Eusébio. Escusado será dizer que deixou a senhora a coxear e a tentar afastar-se o mais rapidamente possível do predador, usando para isso a perna que ainda estava sã. Mas o trovãozinho já não estava para aí virado ! Atacou a terceira, e a mais cuidadosa, que se tinha conservado longe, à entrada,. Desta vez o tiro saiu-lhe pela culatra, pois pretendia distribuir chutos em rajada, ou seja, incluir o professor no lote das vítimas. E como a melhor defesa é o ataque, ele neutralizou-o de imediato, deixando-o sentado no chão, entretido novamente com os seus pulsos, ao mesmo tempo que os feridos eram retirados da zona de combate.
Aos dois anos uma gripe resolveu armar-se em esperta e transformou-se numa encefalite, que deixou muitas marcas no cérebro do Zé Trovão. Teria sido obra do acaso ou tudo já estaria traçado algures nos astros, ou talvez até nos genes? Respostas desnecessárias perante um mal que se instalou e levou para o fundo do poço toda uma família.
Quando fui para aquela Instituição, o Zé Trovão já lá estava a distribuir murros e pontapés a todos. Nem em casa parava. O pai já só aparecia aos fins-de-semana, a irmã ameaçava sair de vez e a mãe ( sempre as mães ! ) era uma mártir nas mãos daquele filho que vivia quotidianamente possesso. A loiça acompanhava o crescimento daquele rapaz de onze anos, e era colocada em armários que trepavam pela parede, estando sempre fora do seu alcance. Quando a segurança falhava, lá saia pela janela um conjunto de canecas ou de pratos, o que estivesse mais à mão, que só parava, felizmente até agora, no alcatrão do bairro. Mas como mais valia prevenir do que remediar, o Zé Trovão tinha acoplado a si um seguro contra terceiros. Em cada canto da casa havia um balde para o menino selvagem poder urinar, visto que quando a vontade apertava ele despejava para onde estivesse voltado.
Mais uma tragédia aproximava-se desta família, pois a mãe ameaçava suicidar-se ! Quiseram então falar com o médico responsável pelo acompanhamento desta criança. Ficaram a saber que o doutor “observava” o seu paciente via telefone. Usaria um satélite ? Não, não era um satélite, era mesmo um telefone, e dos antigos. Precaução, somente precaução e nada mais. Nas últimas visitas do Zé Trovão ao seu consultório, dois anos antes, este tinha-lhe deixado como recordações os cacos do mobiliário. O doutor estava traumatizado !
Na conversa que tiveram abordou-se o tema “lobotomia” e foram informados de que já não se fazia, era contra os Direitos do Homem. Os métodos usados tinham seguido um caminho totalmente diferente, que iam dar ao mesmo ou eram ainda piores. Usavam-se os químicos, montanhas de comprimidos, que neste caso chegavam às 16 bombas diárias, com efeitos secundários que atiravam o nosso amigo para o abismo. Não havia Estômago, Fígado, ou sei lá o quê, que aguentasse tamanha carga de drunfos. E não se limitavam a receitá-los, mudavam-nos constantemente para verem os seus efeitos. Uma “Lobotomia Química”!
- Basta - disseram um dia. - Temos de fazer qualquer coisa !
Quiseram falar pessoalmente com o psiquiatra, que se prontificou de imediato a recebê-los, mas com uma condição: não levar a fera ! Há dois anos que não o via, fugia dele como o Diabo da Cruz. Aceitaram as únicas condições possíveis e propuseram uma outra, que consistia em filmar o artista no seu habitat natural, para assim Sua Excelência o poder observar no quentinho do lar, sem maçadas e sem encargos, tendo ao seu lado um copinho de Whisky de 12 anos, estando ambos livres das garras do José Trovão.
Pelo caminho ficaram outras histórias de indivíduos da mesma tribo do nosso amigo, como, por exemplo, a daquela família que contratou um ex-comando para andar sempre colado ao filho, tendo como missão dominá-lo em casos de crise. Mesmo assim o artista conseguiu, durante um jantar familiar, arremessar o caniche através da janela do 5º andar.




Friday, July 30, 2004

Camarada Choco 8 - Viagem ao Centro da Terra

                                                       Camarada Choco
                                                                        Aventura 8

 Já estávamos de férias quando fomos convocados para ir ao Centro de Saúde. Desconfiava-se que uma das minhas colegas contraíra tuberculose e, como tal, todos nós tínhamos de fazer uma micro e um teste antituberculina. Missão Impossível ! Fazer deslocar os colegas aquele sítio, dar-lhes uma pica e espalmá-los entre duas chapas metálicas ?? Seria mais fácil Portugal declarar guerra a Espanha e com certeza que as baixas seriam muito menores. Mas a missão era de carácter obrigatório ! Os professores optaram então pela fuga em frente e foi em estilo manada que aparecemos no local apropriado para os exames, depois de uma viagem alucinante, dentro da carrinha de nove lugares, segundo dizia o livrete, transformada desde a fundação num “bus” sem lotação definida e com um fedor constante, resultado de uma mistura de odores da Idade Média: suor, roupa suja, dentes podres, baba, urina, gordura rançosa dos cabelos, sovacos, sebo, meias seculares, ténis jurássicos, cuecas mijonas, etc.,etc. A aliança de todos estes componentes terminava num apoteótico cheiro a merda. Com certeza que se alguém acendesse um fósforo tudo explodiria !
O Centro de Saúde era um local animado e animador, disso testemunhavam as caras simpáticas que ocupavam as dezenas de cadeiras.  Entrámos de rompante, sem aviso, a sangue frio. Fomos de imediato engolidos por um mar de olhos e empurrados para as paredes nuas por uma onda gigantesca de silêncio. As “ gentes normais “ estariam aterrorizadas ou escandalizadas ? Tinham entrado ali com doenças do Corpo, era inevitável e antidemocrático que saíssem com doenças da Alma, e tudo isto causado por aquele bando de bárbaros, que se recusava a ter os mesmos genes da classe operária.
A primeira parte do plano chegara ao fim: os seres superiores estavam amedrontados, temiam ser mordidos, era este o efeito da política oficial da integração a funil ! Iríamos agora dar início à segunda fase da operação “Picamongas”, ou seja, arranjar lugares sentados para todos nós, os príncipes e princesas de sangue preto. Apesar de todos serem testemunhas do esforço dos funcionários e dos técnicos para manter os mais pesados em pé e os mais lunáticos em ordem, ninguém se dignava a dar-nos lugar. Até que, e felizmente há sempre um “ até que “, chamaram alguém, ficando assim um lugar vazio, ocupado de imediato, segundos ordens do professor, pela querida Papoila, a tal miúda da “careca”! O trajecto desde a tribo até à cadeira azul foi seguido de perto pelos olhares indiscretos dos presentes. Os vizinhos desta nova e estranha inquilina encolheram-se nos seus lugares, mas isso não foi o suficiente para evitarem ser atingidos pelos perdigotos disparados pela nossa leoa. A sua cabeça abanava agora ininterruptamente de um lado para o outro, acompanhada por um bufar que fazia vibrar os lábios e distribuía criteriosamente a saliva mal cheirosa. Foi remédio santo ! Poucos minutos depois os vizinhos fugiram em debandada, deixando duas cadeiras vazias, que foram de imediato ocupadas por atletas do mesmo calibre. Três já estavam aviados ! A estratégia continuou até à vitória final ! Os papéis tinham-se alterado. Agora ocupávamos orgulhosamente todos os lugares e os adversários acumulavam-se a um canto da sala de espera. Enquanto estas acções se desenrolavam, outros inscreviam pacientemente os nossos colegas.
Algum tempo depois deu-se início às consultas. A primeira a ser chamada foi a Zulmira Destravada, uma veterana dura de roer, que não admitia ataques  à sua integridade física, viessem de onde viessem. Dois funcionários dirigiram-se ao gabinete da médica com a nossa amiga e quando se preparavam para entrar uma enfermeira barrou-lhes “ educadamente “ o acesso à doutora:
- Aqui só entra a...- e olhou para o papel - ..Zulmira, mais ninguém foi chamado.
- Ok, chicas espertas, ela é toda vossa - responderam, ao mesmo tempo que trocávamos olhares cúmplices um com o outro.
Aquelas senhoras acabavam de perder uma grande oportunidade para estarem caladas. A porta de vidro fechou-se pesadamente e todos nós ficámos  perdidos de riso e na expectativa. Não iríamos perder o espectáculo por nada deste mundo. Aproximava-se um tufão !
Guinchos, berros, coices, murros, dentadas, a Zulmira Destravada distribuía mimos a tudo o que lhe aparecia à mão. A porta abriu-se de rompante e a enfermeira, que há pouco nos tinha corrido, recebia-nos agora de braços abertos e só faltava estender-lhes um tapete vermelho. Era urgente irem salvar a doutora das garras daquela fera, senão ela ainda se transformaria numa utente e teria de ir para o grupo que estava de pé a um canto da sala de espera do Centro de Saúde.