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Tuesday, February 12, 2008

Camarada Choco 56 – Propriedade Privada


                          Camarada Choco

                                                                  Aventura 56

A leitura que fazemos do mundo dos Desaparafusados é muito subjectiva, pois eles dependem sempre dos seus estados de alma. É por isso que o bar é o epicentro de todas as coisas. Representa o domínio absoluto da Dona Espatinha, cuja única obrigação é pagar a Dízima à Senhora do Feudo. Um dia quando se preparava para fatiar o já célebre Bolo de Baba de Monga da Mosca Morta , deu de caras com uma dentadura a rir-se para ela.
- Meu Deus, alguém perdeu peças! Será de um Aparafusado ou de um Desaparafusados, eis a questão?
- Banana, massa, arroz, salada, cebola, - disse o Buda, o monga com a maior cabeça da Instituição, que ficara ao espelho a ver crescer a cabaça, porque na ilha não havia palinhas para desviar o líquido da tola para o estômago. E quando os papéis chegaram para uma reeducação à séria num país distante, já a cabaça tinha solidificado, como a lava de um vulcão. Era o Buda e só falava em comida, mesmo quando cagava.
A ocorrência foi comunicada, por telefone, aos Serviços Administrativos, e a Madrinha quis saber de que material eram feitos.
- Se forem de oiro meta no Saco Azul e deixa de haver descoberta, tal como aconteceu ao cheque do velho da colónia.
- São brancos! – Informou a Dona Espatinha.
- Ponha-os na retrete e diga-me o que é que acontece, - ordenou.
- Flutuam!
- Então não é marfim, entregue-os ao dono, - e desligou.
A Dona Espatinha sentiu-se perdida, desajustada. Como é que iria descobrir o dono ou dona do “corta-palha”? Resolveu pôr em lugar de destaque o achado, com uma tabuleta. Os primeiros a entrarem no estabelecimento foi um casal constituído por dois mongas genuínos, uma pateta deslumbrada e um pateta pretensioso, que quis logo comprar os dentes para oferecer à noiva.
- Mas ela tem os dentes todos, não precisa destes.
- Fica com mais, - justificou-se o chinês, mostrando porque é que na sala era o terceiro calhau a contar do armário.
Mas atrás deles estava outro, com um ar assustador e perverso, mascarado de “Abelha Maia”, a dizer que era um ninja.
- Espatinha, vê se são meus, - e abriu a boca, mostrando ser um descendente em liga directa do crocodilo do Peter Pan.
- Vê se entendes, isto não são bolas de sebo, são dentes.
- Então se calhar são meus, - gritou um monga amaneirado e ignorante entrando de rompante no espaço, na ponta dos pés.
- É mentira, são meus, deu-me a minha tia que trabalha num convento em Espanha que se chama “O Elefante Branco”, - exclamou o Pitrongas, que vinha coladinho ao bailarino, mostrando ser um deficiente versátil, sempre disposto a tentar novidades, neste caso enfiar na boca uns dentes de plástico com musgo. Mas antes cumprimentou a Dona Espatinha com um volumoso “Bom-Dia” em alemão, que foi de imediato chumbado pela Senhora das Sandes que apelou ao rigor e à ética, valores que eram transmitidos a todos pelo Presidente Porres, um exemplo de gestão e dedicação à causa do Camarada Choco, só com duas pequenas manchas, de mijo, no currículo, uma assinatura num cheque para um amigo e num contrato para auto-emprego de supervisor de nada, numa altura em que a sua Escola de Condutores de Mulas estava na falência. Enfim, um Pancho Villa da Brandoa. Junto à porta permanecia o Camarada Choco, belo e misterioso, com a mochila entreaberta. A afectividade do seu olhar era a prova da sua modéstia. O “corta-palha” iria, mais tarde ou mais cedo, pingar para a sua mochila. Apareceu o Castanheira e o Primo do Choco, que demoraram algum tempo a analisar a peça.
- Meus não são, - atirou de rajada o familiar do nosso herói, mostrando ser psicologicamente da profundidade de um bidé.
Quanto ao primeiro, tomou um leitinho transparente, fez uma excursão pela memória e deu uma “grande seca” à Dona Espatinha, contando-lhe a história da bisavó que usava um dente de elefante. O Vira-Bicos, um homem de complexidades poliédricas, só parou junto do objecto estranho ao café, que o fez revelar-se como um senhor de segredos imorais. A presença de todas estas carcaças ressequidas estava a levar a Senhora das Bicas a aproximar-se a passos largos do seu ponto de saturação. Já se via o véu amargurado dos olhos. A Lolita entrou sem aviso com aquele movimento verbal que fazia dela um fenómeno da natureza, cuja língua não tinha medo de nada e debitava palavras rápidas, altas e sonoras, que a faziam delirar e alucinar.
- Organizem-se! – Gritou com a altivez dos mitos e o clamor do trovão.
E como boa telefonista compulsiva, agarrou na mão e fez de imediato uma ligação para o vereador dos seus sonhos, dando-lhe conta, com veemência e voracidade, da descoberta da Dona Espatinha.
- Acudam, acudam, - gritou alguém dos confins da Escola.
No parque da instituição tinha sucedido algo! O Cabo Pilas apresentara-se ao serviço dentro de um bólide e tinha tido alguns problemas na manobra.
- Eu estava aqui sentadinha no contador da electricidade a fumar um cigarré quando vejo um carro a fazer a recta aos soluços, - contou a Tareca ao agente Bóbó.
- E não vinha ninguém ao volante, - interrompeu a Faísca quase à beira de uma convulsão.
- Quando quis fazer a curva acelerou e nem tive tempo de acompanhar a manobra. Ouvi um estrondo, vi uma data de pincéis a voar e o carro continuou, só parando lá em cima no local das “cargas e descargas”.
- Houve vítimas? – Perguntou o repórter da TVI.
- Está ali espalmado no chão, a confundir-se com o alcatrão, um gato, - exclamou a Dona Piulia, que tinha sabido da notícia e suspendera as dores para vir aparecer na televisão.
- É a dona do bichano?
- Não, sou uma vítima!
- O carro-fantasma também lhe acertou?
- Atropelaram-me a alma e fugiram, - queixou-se a Senhora das Baixas Pressões.
No cimo do parque a porta do bólide abriu-se e saiu de lá, com um ar arrogante, o Cabo Pilas, trazendo na mão direita uma mala à Doutor que se abriu com estrondo e espalhou várias “Ginas” pelo alcatrão. Depois de recolher o material didáctico dirigiu-se, em passo de ganso, para a Escola de Desaparafusados. Quando ia a passar pelo gato espalmado foi interceptado pela Pirosa:
- Já viste o lindo serviço que fizeste, - e apontou para o bichano.
- O gato sabia fazer “crochet”? – Perguntou o repórter.
- Gatos há muitos, - respondeu o Cabo Pilas, limpando as solas dos sapatos, com desprezo, no pobre animal. – Serve para tapete de entrada, - e desapareceu lá para os lados do primeiro andar em busca da sua Kalélé, cujo horário de trabalho indicava que deveria estar no seu quartel, a dar lustro aos livros. Mas já tinha concorrência:
- O que é que o Senhor Pintor faz aqui, junto à minha porta? – Perguntou, tentando crescer.
- Esta porta é a sua? – Perguntou o artista da cassete pirata, barrando o acesso do dono ao interior do espaço. – Não pode entrar, está em manutenção.
- Em manutenção?! O senhor pretende dizer que eu trabalho num mijatório?
- Não pode entrar, e pronto, são ordens da Doutora Sem Canudo.
- O quê?! Até para entrar na minha sala tenho de pedir autorização à Madrinha das outras?
- É um assunto que não me diz respeito. Não entra e pronto!
Na outra ponta da Instituição que transformava Aparafusados em Desaparafusados, a Maria contava a odisseia no “Miguel Bombarda”:
- Quiselam dáleme os comprimidos e eu de-lhes uns abufos.
Tinha tido alta, não porque a merecesse, mas sim para não pôr em perigo a vida dos Doutores & Companhia. Tinha sido sempre assim, na Venteira era onde a compreendiam, com mais ou menos dentadas.
- A Gilete esteve aqui? – Perguntou a Menina Tatrícia pegando nos dentes e ficando com eles em frente aos olhos, tal como Shakespeare.
O caso só ficou resolvido quando a mãe do chinês-cagão reclamou pela falta de material.
- Os dentes são nossos, - explicou a mãe-monga. – Quando eu vou para o trabalho, ele vai desdentado para a Escola, quando eu tenho folga, fico a comer papas em casa.
No rés-do-chão, na área da Educativa, a confusão era enorme. O Amendoim tinha ido aos cornos, com o único braço disponível, ao Buda e a Pipoca não conseguira segurá-lo.
- E ainda por cima está com uma convulsão e a cabeça do outro ultrapassou o tamanho dum melão do Entroncamento.
O Amendoim era um Desaparafusado de cor, que desaparafusava em muitas coisas, incluindo o crioulo. Tinha aparecido na Escola acompanhado da mãe e de um tradutor, que explicara à Psicóloga Morena que o objectivo da encarregada de educação era que o seu Amendoim chegasse ao final do Ano Lectivo a falar um crioulo límpido. E como os desejos dos progenitores eram agora lei, até para os Desaparafusados, crioulo foi a língua oficial registada no Plano Educativo. Invertia-se assim a situação, o Amendoim passaria à condição de Aparafusado e os doutores promovidos a analfabetos. Descobriu-se mais tarde que o Desaparafusado, Aparafusado em crioulo, era surdo que nem uma porta, um mouco genuíno. Nova carta para casa, de novo a mãe presente numa reunião, mas desta vez sem tradutor, e na mesma condição que da primeira vez. Informaram-na que o Amendoim nem crioulo, nem português, e tudo causado pela panada que levou ao nascer, quando caiu do coqueiro. Mas como quem tem boca vai a Roma, lá lhe conseguiram explicar que possivelmente o filho teria de gramar com um aparelho auditivo. Fez-se luz! Desta vez percebeu o sentido da questão e explicou que já lhe tinham querido pôr o tal rádio no pavilhão auditivo, mas ela recusara, por uma questão estética. O percing da Casa Sonotone não jogava bem com o seu Amendoim. E como boa guineense de família muçulmana, optara por proteger as partes baixas do seu rebento com um colar feito por um bruxo. A última cena que ocorreu no corredor central foi a Kalélé em fuga para a Sala da Dona Pilca, que estava ausente por motivos de força maior, perseguida por dois mecos rebarbados.

Camarada Choco 55 - Reforma “Convulsiva”




                          Camarada Choco
                                             Aventura 55


- Vai imediatamente para a reforma, - gritou a Doutora Sem Canudo entrando de rompante, sem bater à porta como já era costume, na Sala dos Têxteis, acordando violentamente a Dona Piulia, que tinha adormecido ao som de um “ponto-cruz”, dado pelo seu Tino. A expressão facial da Madrinha mostrava que estava irresistível, incontornável e incondicional.
As portas das outras salas ficaram cheias de olhares curiosos que passaram a acompanhar do interior a estranha animação.
- Não posso, tenho de acabar a encomenda de duzentos “abafa-o-palhacinho” feita pela Dona Pilca e que espero vir a acabar lá para meados de 2020.
- Tem de ir para a reforma porque a minha caixa está a ficar vazia e qualquer dia não há dinheiro para me pagar o ordenado dum dos cargos que não exerço há vinte anos, na época em que usávamos os pauzinhos dos gelados para endireitar mongas, mas que faço questão de receber. A outra Caixa que lhe pague o ordenado.
Mas a Dona Piulia tinha caído novamente num transe profundo e estava agora a receber o seu príncipe encantado, de nome Tino, desta vez vestido de bombeiro e munido de um camião com os dois depósitos cheios e uma mangueira descomunal.
- Aiiiii, - gritou a Informadora , que ia a passar e fora albarroada pela sonhadora que vinha em marcha-atrás. – A senhora já não sabe o que faz, tem de ir imediatamente para a reforma e deixar o que lhe pagam para pagarem a mim, que preciso do carcanhol, - e piscou o olho à Madrinha, que aplaudiu e a chamou à parte.
- O dinheiro não é todo para si. Eu dou-lhe vinte por cento.
- Só?! E as informações que lhe dou, não valem nada?!
- Ok, mas não pense que fica com o carcanhol todo. Eu quero continuar a receber pelos vinte cargos em que me auto-nomeei.
- Trinta por cento e já não se fala mais no assunto. As informações valem oiro.
- Mas primeiro temos de convencer a Piulia a reformar-se.
- Deixe isso comigo, que eu vou ser implacável.
A Dona Piulia tinha novamente caído num dos sonhos e estava agora defronte de um Tino vestido de Noddy dentro de um táxi amarelo que a convidava para o deboche e a perdição. A Madrinha aproximou-se sorrateiramente da senhora dos Têxteis, pôs-lhe o braço por cima do ombro e sussurrou-lhe ao ouvido:
- É o Tino novamente. Já viu que com a reforma vai tê-lo a tempo inteiro.
A presa sorriu, abriu os olhos, que deixaram de caber nos óculos, respirou fundo e disse:
- Talvez tenha razão, vou pensar no assunto.
A Madrinha piscou o olho à Informadora e marcou mais uma reunião, junto à casa de banho da entrada, o cartão de visita da Escola, paredes meias com os sofás onde se sentam as visitas, que muitas vezes pensam que entraram nos esgotos. Como do costume, a instalação sanitária estava ocupada com os meninos da Dona Gillete, uns cagões da pior espécie.
- Viu, aprenda comigo que eu ainda vou durar muito, - exclamou a Madrinha ao ouvido da candidata a Madrinha. – Ela disse que ia pensar, o carcanhol já está no papo.
- Tem a certeza?! Olhe que eu preciso dos trinta por cento para este ano. A Dona Piulia ameaça com a reforma desde que chegou e ainda nos há-de enterrar a todas.
-Esteja descansada. Eu conheço este tipo de gente. Eu também ando a dizer que vou largar os cargos e cada vez tenho mais.
- É por isso que estou preocupada. As doenças pegam-se.
Mas a alma da Dona Piulia estava cercada de sonhos, expectativas, desgostos, alegrias, sonetos, tragédias, romances. E a causa disso tudo tinha um só nome: Tino!
- Piulia, - continuou a Madrinha, pondo mais uma vez o braço ao redor do pescoço da funcionária de meia-idade, não para o apertar, como era o seu desejo mais íntimo, mas sim para tentar dar-lhe a volta ao ordenado. – Ofereça ao seu príncipe-da-praça um “abafa-o-palhacinho”, sou eu que lho dou.
- Alto e pára o baile, - gritou a Dona Pilca. – Isso tem um preço.
- O preço de tudo o que se fabrica nesta Escola de Reabilitação é decretado por mim. Eu deixo, a título excepcional, que a Dona Piulia leve um destes agasalhos para palhacinhos, de borla. É por uma causa justa!, - E deu um toque à Informadora, que estava coladinha . – Aprenda que eu não duro para sempre.
- Infelizmente parece que também ainda nos vai enterrar a todas, - sussurrou a candidata a nada.
- Mas o que é isto?! – Indignou-se alguém que pretendia fazer um telefonema para casa, e assentar no livro como “de trabalho”, e verificou que o aparelho já não estava ao “Deus dará”, mas guardado por uma nova funcionária tipo cão de guarda, que fazia questão de discar o número.
Entretanto e enquanto a pessoa reclamava da mudança, o Porres aproveitou a distracção da funcionária e discou para a esposa, como era habitual, para saber o que era o jantar. Aproveitou para lhe dizer que à tarde, quando iniciasse a volta, passaria lá por casa com a carrinha e os mongas, para a levar ao Feira Nova. Enquanto se discutia a problemática da gratuidade do “abafa-o-palhacinho” made in Dona Pilca, cuja produção tinha sido contratada aos chineses da Sala dos Têxteis, da responsabilidade da Dona Piulia, cujo estado a que tinha habituado os colegas do “mais para lá do que para cá” se tinha alterado radicalmente devido a um simples Tino, passou o Camarada Choco com um dossier debaixo do braço e os dois olhos “à Belenenses”, uma vez que insistia em estar acordado e a falar durante toda a noite, à medida que passava as folhas transportadas com tanto orgulho.
- Agora o poder da Madrinha multi-funções também já chegou aos meus “abafa-o-palhacinho”? – Insurgiu-se a Dona Pilca, mostrando a todos porque é que ao longo de toda a sua carreira escolhera sempre ser a voz discordante.
Desde que se tinha mudado para o topo da instituição, a Faculdade de Tampinhas Professor Doutor Nélinho, o Camarada Choco estava num estado de exercício contínuo de aprendizagem, que associava ao sentido de liberdade e de independência individual a excelência da responsabilidade profissional. Ele era bom em tudo o que fazia, incluindo o cagar. Cagava com estilo para os outros, revelando ser individualista, moralista e empreendedor que levava as injustiças da vida muito a sério. Mas esta sua ingénua relação com o que de mais terno podia existir, confrontava-o muitas vezes com o que de mais brutal podia existir: o “olho à Belenenses”. Mas mesmo nestas ocasiões dramáticas ele conseguía fazer amor consigo próprio. De repente a Dona Piúlia levantou-se com brusquidão, pondo de rasto todas as doenças que andava há anos a propagandear, agarrou na mota eléctrica dada à Escola, mas registada pela Doutora Sem Canudo em nome próprio, para fazer um figurão como presente de um futuro aniversário para alguma sobrinha, e acelerou em direcção ao Refeitório, com um cigarro fumegante ao canto da boca e o cabelo ao vento estilo punck.
- Perdeu o tino de vez, - comentou a Dona Gilete habituada a estes jogos de humor, cruzados com dramas escondidos.
- O Tino é outro e tem “T” maiúsculo, - atirou a Tareca.
Mas a via rápida estava interrompida. O Professor Doutor Sem Canudo Nélinho esquecera-se de tomar o “Tenilvet” e sem o drunfo começara a deitar fumo pelas orelhas e a procurar uma vítima. A “sorte” coube ao Vira-Bicos.
- Alto e pára o baile, - gritou, pondo-se em frente ao Animador-de-Mongas.
- Mas o que é que vem a ser isto?! – Indignou-se o hippie ao ver-se envolvido numa pega de caras.
- Mostre-me a sua autorização de residência, - ordenou o agora bófia Nélinho.
- Mas quem é o senhor para me dar este apertão? – Perguntou indignado o Vira-Bicos, já com os glóbulos oculares fora das órbitas e dos óculos.
O problema da dupla personalidade só foi resolvido depois da Terapeuta Zézé ter conseguído convencer o Nélinho a comer uma maçã vermelha com um “Tenilvet” no interior, perto do caroço, que lhe arrumou momentaneamente os carretos deixando de implicar com a vítima, que correu para o seu espaço artístico no primeiro andar e recusando, mais uma vez, a entrada da tia Kalélé para uma faxina.
A recusa do direito à reforma foi afixada no placar. Todos sabiam que sem os estímulos e provocações da Doutora Sem Canudo, a Dona Piulia perderia grande parte do seu poder e da sua originalidade. E em relação ao facto das puristas não gostarem do seu modo de trabalho, a Senhora dos Têxteis encolheu os ombros e presenteou-as com uma baixa, tendo ainda tempo para dizer:
- Têm inveja do meu Tino!