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Wednesday, March 22, 2006

Camarada Choco 37 - O Retorno do Camarão

                                                        Camarada Choco
                                                                      
                                                                 Aventura 37
Portugal,

Vinte e um de Dezembro do Ano da Graça de Dois Mil e cincoAlgures a meio de uma manhã cinzenta um lamento corta a rotina da escola de mongas:

- Estou na miséria, vou ficar sem o último milhão – dizia a vítima, encostando a cabeça no ombro esquerdo do senhor Pintor, que pincelava num Noddy com a mão direita.
-Calma Camarão Reformado, calma, - dizia o artista dando um jeito com o ombro, tentando sacudir a cabeça do crustáceo para o lado do Bibi.
- Isso são gases – interrompeu a Lolita, passando em alta velocidade atrás do seu Castanheira.
- Calma ?? Então vou passar de uma vivenda para um T-10 com vista para o mar e tu dizes para ter calma, - chorou o ex -Stor Rico, agora monetariamente muito abaixo do Stor-Pobre, agarrando os colarinhos do pintor, obrigando-o a desenhar, involuntariamente, um cacete de elefante ao pobre do Noddy. – Não vou poder trocar de Mercedes…sou um pobretanas, vou ficar a ser conhecido como o Chixarro. Acabou-se o Camarão Reformado.
- Calma, calma ò Petinga….Camarão reformado….
- Viste, viste, até tu já olhas para mim e vês uma Petinga. Já todos se aperceberam do meu estado de miséria absoluta – queixou-se, puxando o bigode, que já se colara à testa. – A isto chama-se azar, sou um pobretanas azarento, sem futuro e já sem carteira da “Cartier”. Para o próximo ano só poderei ser cliente dos chineses, a minha alimentação vai ficar reduzida a arroz. Acabaram-se as lagostas, vou só poder comer ao pequeno-almoço um pratinho de torresmos e um penalty.
- Não exageres Petin…Camarão, vai ver que tudo se há-de resolver.
Ficou a Escola a saber que a ausência do ex-Camarão Reformado ao jantar de Natal se deveu ao facto de não ter dinheiro para comprar a prenda para a troca final.


Três de Janeiro do Ano da Graça de Dois Mil e Seis

Um potentoso Mercedes entrou a chiar no parque da escola e saiu de lá, tal qual um felino, um Casanova de bigode, já temperado, com um bigode digno de um Camarinha e uma cor a roçar o beduíno. Os olhos de lince escondiam-se por detrás de uns charmosos óculos de Sol “Lacoste” e os pêlos do peito esvoaçavam ao sabor do vento matinal.
- Camarão Reformado, Camarão reformado – gritou o Pintor de uma janela do primeiro andar, onde tentava secar um Noddy de cócoras a aliviar-se junto a uma azinheira. – veste a camisola, estás no trabalho e não no Passeio Atlântico.
- Na escola ?? – Perguntou assustado o ex-miserável, olhando para todos os lados.
Tal qual um golfinho, regressou ao bólide , conseguindo ser mais rápido do que o próprio bigode, que ficou à espera junto a uma das colunas.
- Assim sim, Camarão Reformado, - disse o pintor, e continuou. – Espera aí, tu estás diferente.
- Achas?
- Estás diferente do ano passado? Já não és Reformado!
- Correcto, agora sou de novo o Camarão dos anos vinte, passei a tomar o pequeno-almoço às 8H30 e não às 10H30 como antigamente.
O Stor Rico tinha recuperado de novo o estatuto e mais, muito mais, deitara para trás das costas o título de crustáceo reformado e enfrentava de novo as ondas do prazer, com o seu mastro em riste e a bandeira do Benfica na ponta. Tinha vencido a miséria e estava agora mais novo e atrevido, disposto a voltar ao século passado e aos seus ânus de glória. Até lá teria de palmilhar, em marcha atrás, o Passeio Atlântico, para assim tentar reduzir a idade dos 500 mil quilómetros para os 30 mil. Sem camisola e com os pêlos ao vento e os olhos a cortar as fêmeas, que antes não passavam de fantasmas.

Thursday, March 16, 2006

Camarada Choco 36 - A Queda de um Anjo

                                                     Camarada Choco

                                                                 Aventura 36

As dores eram insuportáveis, as hemorróidas invadiam o cérebro, indo por-se às cavalitas das artroses, da caspa e dos caracóis. Os pastorinhos não eram nada em comparação com esta mártir da Roque Gameiro, que tinha iniciado o calvário na Pedro Álvares Cabral e feito o estágio na Brandoa.
- Meu Deus, dá-me um anjo, envia-me um sinal qualquer, que me apague este fogo. Aceito qualquer coisa, até um anão, desde que tenha uma tromba funcional.
Entretanto junto à secretaria.
- Dino Meira? O senhor é o Dino Meira? – Perguntou a subordinada da dona Sãozinha, indo a correr para o vidro da secretaria.
- Mas que histerismos são estes aqui nas minhas instalações? – Impôs-se a D. Sãozinha, levantando os olhos das folhas de pagamentos.
- Mas é o Dino, chefe! – Justificou-se a moça.
- Dino? O meu nome é Nélinho e venho apresentar-me directamente das ilhas. – Interrompeu o desconhecido, agora com identidade.
Na Venteira todas as conversas chegam aos têxteis, mais cedo ou mais tarde. A mártir levantou-se, a custo, equilibrou-se nos tamancos, com muita dificuldade, pôs uma mão nas cruzes e dirigiu-se para a porta, pondo a cabeça de fora.
- Milagre, milagre, os céus ouviram-me e enviaram-me um Anjo, com mistura de Açor e Marco Paulo.
As dores passaram, a face coloriu-se e dançou um tango com o tição que estava dormindo, que acabou também por ter um gostinho e cantar um fado.
A emoção aumentou quando a Dra. Sem Canudo, como é tradição, tomou conta da situação, mesmo sem saber nada do assunto, e encaminhou o noviço para a sala de Arraiolos.
- É meu, é meu, o anjinho é todo meu, - gritou a mártir, dando uma palmada numa aluna, que executou de imediato três pontos cruz seguidos, sem convulsões. – Este ninguém mo tira, foi-me enviado pelos céus, como dizia o horóscopo do “Borda d’Água”.
Dito e feito.
Se o Nélinho se ausentava, tinha de justificar o tempo, segundo a segundo. E a situação agravou-se quando interceptou o anjinho a falar para as ilhas:
- É uma quarentona com cara de uma …monga…de vinte!
Só ouviu “quarentona” e “cara de vinte”. Foi de mais!
- Com cara de vinte, eu?? E que mais coisas eu tenho com 20 anos ? – Interrogou-se baixinho, dando cinco pontos cruz seguidos, também sem convulsões, quebrando o recorde da sala.
Findo o telefonema, o Nélinho aproximou-se da porta.
- Aonde pensa que vai? – Levantou-se de imediato a “guarda do anjo”.
- Vou à sala ao lado pedir um lápis.
- Eu também vou! Maria, toma conta da sala.
E a cena repetiu-se o mês inteiro. Onde o Nélinho fosse, a Mancha ia atrás. Só parava á porta da casa de banho, porque o Anjo se trancava antecipadamente. Por vontade dela fazia tudo nas retretes exteriores. Dessas vezes o Nélinho ouvia, além das arranhadelas na porta, o desabafo:
- Adorava sacudi-la!
E foi numa dessas procissões que deu de caras com o Ambrósio caspa encravado na retrete.
- Só me faltava esta, - queixou-se, - assim o Nélinho tranca-se outra vez.
E foi o que fez. A mancha ficou de novo à porta. Nisto entrou uma das madrinhas do choco, e não ganhou para o susto quando um roteweiler saiu de trás duma retrete e lhe barrou o caminho.
- Onde é que pensas que vais, piranha?
- Eu vou lavar as mãos!
- vais, vais. O que tu queres sei eu, mas fica sabendo que o Nélinho é meu, TODO MEU E SÓ MEU. EU VI-O PRIMEIRO.
- Tu já pareces a papoila, qualquer dia estás a ouvir o “Milho verde”, dentro da piscina de bolas.
Por detrás da porta o Nélinho tremia que nem varas verdes. Como é que iria conseguir sair. Espreitou e viu uma careca.
- A predadora está aqui ou é a Papoila? – Pensou.
CRRRCRRRR
Um som de algo a ser arrancado do solo distraiu a fera e obrigou-a a ir dar apoio ao Ambrósio, que estava a ser içado das entranhas do cagadouro, trazendo este colado ao rabo e deixando escapar por baixo um formosos cagalhões.
Foi o suficiente para o Nélinho escapulir e desaparecer no meio dos paninhos.

“Não pare, Não escute, Circule, Perigo de Morte” , é a tabuleta afixada na porta dos Têxteis!

Camarada Choco 35 - INDEX

                                                   Camarada Choco
                                                                Aventura 35

- Espanha, isto aqui é Espanha.
- Não, essa palavra não – gritou a Dra. Sem Canudo, interrompendo a aula de Bisca lambida…perdão…Apoio Psico Pilas Gógico , do Cabo mais famoso da Venteira, e continuou. – Atenção ao Bacalhau Pascoal, ele está traumatizado. Desde que a namorada se ausentou para Espanha que o homem se sente um genuíno cornudo. Ninguém o segura em casa, até já atacou o cão da vizinha, confundindo-o com um castelhano.
- Então vou falar do Benfica e do Sporting – disse, titubiante o cabo mais cabo de Portugal.
- Não, essa palavra também não, - alertou novamente a Dra. Sem Cascalho…perdão…sem Canudo. – O colega dele, o Bode, vai contar tudo à mãe e ela depois massacra-me toda a noite ao telefone.
A conversa foi interrompida pelo cumprimento do aluno mais brilhante da Instituição, que fazia questão de dar os “bons-dias” em linguagem estrangeira, depois de ter ido com o Vira-bicos a uma Convenção de Mongas na Alemanha.
- “Broche”, - atirou secamente, com o ar duro dos nórdicos.
A Dra. Sem Canudo estava tão preocupada com o seu Bacalhau, que nem ouviu o “Bom – Dia “ em grego.
- “Chupa-me o Pau” – disse com sapiência o Pitrongas, avançando de imediato para uma saudação em francês, “minete”. – E rodou a língua tão depressa, que se engasgou e tossiu. Como monga com uma formação pessoal das melhores, pediu desculpa pela interrupção das saudações, e justificou. – É um pintelhinho.
Mas o caso da fuga da noiva do Bacalhau para terras de Castela ocupava toda a mente da doutora mais Dra. De Portugal.
Recuemos no tempo.
A noiva do Bacalhau Pascoal nunca deveria ter saído da Azinhaga, nunca lhe deveriam ter tirado os piolhos que trouxera no primeiro dia, e o cheiro a ranço deveria ter sido conservado. O sabão “Macaco” e a escova do piaçaba roubaram-lhe a alma, puseram-na pelada de odores corporais das barracas. E não satisfeitos com esta lavagem existencial, resolveram levá-la para os cavalos em cascais, onde as tias a transformaram numa “dádinha”, mais correctamente, numa “monga dádinha”. De Cinderela a prazo passou a Princesa definitiva, e isso mexeu com a Carolina Caracol. Depressa passou a olhar para os colegas de cima de um pedestal, enterrando para sempre a vista deslumbrante que tinha da barraca da coxa do buço. O Choco já não servia para noivo, o Bibi era muito velho, o Porres era deficiente motor, talvez o Bacalhau fosse o indicado, enquanto fosse proprietário do Ferrari. Mas, o anjo vermelho que morava no seu ombro esquerdo, em substituição dos Pediculus Capitis , dizia-lhe diariamente que ela merecia mais, muito mais, talvez um príncipe árabe!
E o Ferrari do Bacalhau pascoal deixou de ser uma mais valia. A Carolina Caracol…a Dra. Carolina Caracol merecia muito, muito mais. E resolveu dar corda aos sapatos, à traição, deixando para trás o seu Bacalhau, agora reduzido a um miserável deficiente de Cacilhas, e não a um Príncipe da Noruega, como antigamente.

Wednesday, March 15, 2006

Camarada Choco 34 - De escravo a Senhor


                                                     Camarada Choco
                                                                      
                                                                    Aventura 34

Para os lados das Artes Gráficas estava instalada a revolta. As paredes testemunhavam a indignação geral:

“Libertem o Choco”

“Abaixo a Escravatura”

“Pintor para a Forca”

“O Choco para a Sala das Madrinhas, já!”

As relações entre o estudante universitário Choco Silva e o Pintor, tinham atingido a forma de uma Guerra Total, e cada um usava as armas que tinha. O Choco tinha-se transformado numa fábrica contínua de pastéis e agora presenteava o patrão com todo o tipo de queques, bolas de Berlim, Pirâmides e Cornucópias. Era só vê-los descer diariamente pela cadeira abaixo, ajudados muitas vezes por sumo de laranja. Já não se sabia onde ficava o WC e as Artes Plásticas. E, devido a toda estas confusão, o impensável aconteceu: o Porres entrou um dia apertadinho na Escola e urinou para dentro de um cinzeiro tipo Dali, pensando que era a sanita:
- Fui pelo cheiro – desculpou-se ao senhor Pintor.
Tinha-se atingido o ponto zero das Relações Humanas. O dono da sala já tinha os cabelos todos brancos de tantas preocupações, e o Virgulino numa manhã de nevoeiro comunicou à doutora que tinha visto uma ovelha junto ao bar.
- Chega ! – Gritou desesperado o Pintor, ordenando à dona Espatinha para pôr fraldas ao infractor.
Foi a gota final que fez entornar a taça ! A notícia espalhou-se, como era costume, à outra ponta da Instituição de Educação e Reabilitação, e as Defensoras dos Direitos Humanos puseram-se em marcha, em defesa do senhor Choco Silva.
- Libertem o Choco, - ordenou a sargenta que comandava as hostes.
- Agarrem-me, senão eu atiro-me à ovelha, - gritou uma fundamentalista mongâmica.
- Não têm mais nada para fazer, do que perturbarem os meus caracóis ? – Perguntou, indignado, o patrão das Artes Gráficas, batendo com a porta, e arremessando para cima da multidão o Virgulino, aproveitando para acusar o Choco do lançamento do membro da Direcção,
Lá dentro o Choco atirara-se com os lápis de cor a uma folha A4 e desenhara a sua revolta: um Batatoon com duas grades em cima. Antes de o enviar às suas libertadoras, assinou a obra com um brigadeiro. Foi a histeria colectiva. A sargenta recebeu a carta e mostrou a obra à multidão. Foi de imediato enviado um poney-express aos confins do edifício, que entregou o desenho a uma Comissão de Sábias.
- Meu Deus, ele é um génio: um Batatoon, duas grades e um brigadeiro fedorento ! Ele faz um apelo ao Mundo Livre para a sua libertação !
- Tirem o Choco dali, e já ! – Ordenou a doutora.
No dia seguinte o mártir apresentou-se na nova sala e foi recebido como um herói. A amizade era tanta, que o Choco abriu os braços e pediu:

- NHI NHI, NHI NHI !

E o urinol portátil foi de imediato colocado na sardanisca marota do ex-Escravo, e agora Senhor de uma sala na parte mais in da Escola.

Camarada Choco 33 - O cabo das Tormentas (Triologia) - II


                          Camarada Choco
                                                                        Parte 2 

                                                         As Duas Peregrinas

                                                            Aventura 33

Depois do relato arrepiante do pesadelo de dona Pilca, que lhe fez crescer um bigode tipo alentejano, e em que a pecadora contou que tinha caído num caldeirão cheio de Pilas com sabor a “Mon Chérri”, as peregrinas da Roque Gameiro não conseguiram fechar mais os olhos e aproveitaram a ocasião para se confessarem.
- Eu fui muito velhaca para o Cabo – desabafou Dona Pilca. – Vou-te contar um segredo. Fui eu que o convenci a participar no bailado “O Lago dos Cines”.
- Bailado “O Lago dos Cisnes”!?? Estás maluca ó mulher, acorda, vê lá se atinas. Aquilo que eu vi na festa foi o bailado “O Charco dos Sapos” – gritou-lhe madame Tatrícia, levantando-se.
- Ajoelha-te ó pecadora. Tu também tens culpas no cartório – berrou a agora alentejana, puxando-a pelas calças.
- Eu!?? Mas o que é que eu fiz ao maçarico?
- Tu!?? Tu gamaste-lhe a sala, e não só.
- Eu não fiz mais nada – disse a agora dona da sala do Pilas, atirando fumo, com desprezo, para a cara da colega de peregrinação.
- Ai não? Ai não? Quem é que o convenceu a entrar no bailado e lhe disse que tinha o aspecto de um Cisne?
- Um Cisne, aquele Morcego?
- Vá lá, diz que é mentira – desafiou a alentejana. – Não te esqueças que estás em peregrinação e que, se pecares outra vez, vais parar a um caldeirão cheio de morcegos com sabor a sebo.
- Ok,ok, eu disse-lhe que ele era parecido com um cisne, para o tentar fazer esquecer da sala. Mas foi com boas intenções. Agora responde-me a esta: é verdade que ele desmaiou no camarim, antes do espectáculo e tu recusaste-te a fazer respiração boca a boca? Não te esqueças do caldeirão de morcegos!
- Sim. Sim, é verdade. Ele estava ali todo esticadinho, a precisar de oxigénio, mas eu olhei para ele e vi um batráquio.
- Podias ter-te lembrado daquela história em que uma princesa beija um sapo e ele transforma-se no Carlos de Inglaterra.
- Torresmo por torresmo, prefiro o Nacional.
- Ó amiga – desabafou a peregrina Tatrícia, pondo-lhe o braço para cima. – Somos umas pecadoras genuínas. É melhor recomeçarmos a caminhada. O Cabo é o nosso tormento!
E disto isto levantaram-se, ajoelharam-se e rumaram em direcção à Lua que, felizmente para todos, estava para Norte. Meia hora depois um camião tentou atropelá-los, tendo-as confundido com dois coelhos.
Ao amanhecer chegaram à Península de Tróia e, devido ao facto dês estarem de joelhos, só pagaram meio bilhete, preço estipulado para anões, marrecos e crianças.
- Ó Pilca, mas isto não é ilegal numa peregrinação?
- Ilegal? Ilegal porquê?
- Porque quem anda é o barco e não nós.
- Ó Tatrícia, querias que nadássemos de joelhos? Ainda algum pescador nos confundia com duas santolas e íamos directamente para a panela.
- Isso não era nada em comparação com o que fizemos ao Peixe-Balão.
O diálogo das duas mártires foi interrompido por uma senhora que lhes perguntou:
- As meninas fugiram de alguma Cerci?
- Cerci, acha que nós temos cara de andarmos numa Cerci? – Indignou-se a dona Pilca.
- Acho, acho, só numa Cerci é que os utentes têm um tamanho desses e bigodes.
- Pois fique sabendo que na nossa Cerci há uma educadora que elimina qualquer pêlo mais teimoso e não deixa vestígios, arrancando até as beiças, se for preciso.
A situação estava escaldante! Uma pequena multidão cercava agora as pecadoras da Roque Gameiro e havia quem ameaçasse chamar as autoridades. A dona Tatrícia levantou-se e tomou conta da situação:
- Calma, calma, eu sou a auxiliar responsável pela reeducação, um pouco difícil, desta anoa de bigode e estava só a ensiná-la a rezar.
Foi trigo limpo! O pessoal dispersou e o barco chegou ao destino. Mas, a vida não estava fácil para as pecadoras. Uma gaivota mais atrevida resolveu despejar o seu conteúdo intestinal sobre a miss Pilca, acertando-lhe em cheio no bigodão. O odor a maresia embrenhou-se pelo nariz sensível da peregrina e alterou-lhe os circuitos cerebrais. Nova alucinação!

O Cabo ocupava agora o lugar da Doutora sem Canudo e a Doutora sem Canudo era o Cabo. A Cerci era um quartel, onde todos andavam fardados. Junto a si passou o Soldado Raso Choco, que estava de faxina aos cães e a si próprio, levando na mão uma travessa recheada de croquetes, que deixou na mesa da entrada do Quartel General.
- Tenente Pintor, é favor de se apresentar no gabinete do Comandante, o General Cabo Pilas.
A conversa foi rápida e incisiva, o Pilas queria que o oficial das Artes Gráficas o pintasse num quadro tipo D. Sebastião, tendo ao seu lado os dois canídeos em posição de combate: de um lado o Virgulino com a máquina de corta relva em riste e do outro o Porres em calções tipo Batatoon. Ainda conseguiu ver a Alferes Espatinha a passar com o seu pelotão de Mongas e a gritar:
- Esquerdo, Direito, Ope dois, esquerda,direita, Ope dois….quero ver todos a marchar direitinho, nem que para isso fiquemos aqui o dia todo.
No dia seguinte ia haver desfile do Batalhão no exterior, com a presença do Grande Minorca, o Generalíssimo Cabo Pilas. No ginásio o Coronel Stror Rico com Bigode tratava da saúde aos magalas mais atrevidos. Noutra ponta do quartel o Major Stror Pobre sem Bigode, inspeccionava o cano do Choco, não fosse ele disparar inadvertidamente durante o desfile. Na sala ao lado a Capitoa Sobrinha da Doutora dava os últimos retoques, com catana, aos bigodes dos mancebos. Era a azáfama geral! O ditador não queria falhas na formatura, todos tinham de ser esculpidos à sua imagem.

A alucinação foi interrompida por uma velhota que, dirigindo-se às peregrinas, lhes perguntou:
- As senhoras podiam dar-me um autógrafo?
- Um autógrafo? – Indignou-se a beata Tatrícia. – Mas, a que propósito lhe vou dar um autógrafo?
- As senhoras não são as célebres meninas do Sado?
- Meninas do Sado!??
- Aquelas senhoras que lavram a terra com as unhas dos pés e têm carrapatos atrás das orelhas.
- Estás a ver ó Pilca? Por tua culpa andámos há dias a arrastarmo-nos pelo Alentejo e o resultado é este: as nossas unhas dos pés estão enormes, os carrapatos invadiram os nossos corpos, as hormonas alteraram-se e os pêlos descontrolaram-se. Agora somos famosas!