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Monday, August 27, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 16 - O Fim da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar 

O calendário indicava o ano de 2016, o mês era Dezembro, comemorava-se o tradicional dia 1. No Zimbório o novo batalhão da Luz, uma fusão de três escolas, o Colégio Militar, os Pupilos do Exército e o Instituto de Odivelas, perfilhava-se perante o orgulhoso ministro da Defesa Nacional que conseguira, finalmente, cumprir com uma data prometida. O que os revolucionários de Abril não tinham conseguido fazer, mudar a farda dos Meninos da Luz, conseguira agora a classe política responsável pela bancarrota que empurrara o país para fora da União Europeia. Mas a Espanha continuava à distância, apesar destes claustros serem agora o único local do país onde ainda se comemorava o 1º de Dezembro de 1640. As pressões para as novas fardas tinham sido tantas, que este “ministro visionário”, que se sabia agora ficara dispensado da tropa devido a um atestado médico que o declarara com eneurese, pediu ajuda, não à Maria Gambina, como fez o director em 2009, mas ao atelier da sua prima Zulmira, que optou por uma solução mista: o Colégio Militar deu o blusão e as calças, que ficaram à boca de sino, os Pupilos o penacho, que virou uma crista vermelha igual ao dos guardas fronteiriços do Paquistão e o Instituto de Odivelas o chapéu, sendo a bota um modelo de tacão, com um pompom verde na ponta, um produto exclusivo da dra. Tânia, amiga da Zulmira, comum a todo o batalhão:
- Tivemos atentas aos pormenores, no “olhar direitaaaa” o som dos calcanhares assemelhar-se-á a um trovão, - explicaram ao “Correio da Manhã” as especialistas da Coina!  
Mas antes disto tudo cumpriram-se as outras tradições! Na cruz já esvoaçava o capote alentejano verde e encarnado do graduado mais novo (mantinha-se o critério da escolha pois ainda não tinham surgido reclamações), também uma modernice da Zulmira, neste caso uma graduada, a Tânia Vanessa, e a nova barretina tapava a cabecinha do pára-raios. Tinham sido lá colocados por uma grua e duplos, por pressão da Associação de Pais e Amigos do Externato Teixeira Rebelo (A.P.A.E.T.R.). Nunca mais uma dupla de alunos iria escalar às escondidas, durante a noite, a cúpula da igreja dos Meninos da Luz, raça agora extinta. Quanto às pinturas, só batom foi permitido, e nos lábios. As trinchas, tinta das obras e pasta de dentes dos anos setenta eram agora coisas do “passado tenebroso”. A mocada era apresentada num plasma através de um filme realizado pelo Manoel de Oliveira e  nos serões das companhias os graduados tinham como missão coçar as costas aos colegas mais novos, para diminuir o trauma do internato, em vez das tradicionais firmezas que davam saúde e faziam crescer. O batalhão da luz mais parecia um conjunto de leitões alimentado pelo Macluz, nome do refeitório, que já não fornecia os tradicionais “bifes de cavalo”, classificado como “anti-pedagógico” pela poderosa A.P.A.E.T.R., cujo presidente possuía os poderes de um marechal. As “bengalas” e “bicicletas” do Semita não passavam de lendas, o torcedor de orelhas conhecido por Ferrari fazia parte do Index, o mascar de tabaco, seguido de cuspidela para a gaveta, do Menau, era considerado uma blasfémia, o Carioca não passava de uma invenção dos antigos, a tentativa de abafo da filha do responsável do aviário continuava segredo de estado, apesar de agora o batalhão estar cheio de Rosas uivantes, o lendário túnel entre o Colégio Militar e o Instituto de Odivelas, causador de tanta atividade individual noturna, reduzira-se a um simples passar por debaixo de uma cama, traduzindo-se isto numa fraca força muscular dos membros superiores e à extinção da popular revista “Gina”; os carolos do hilariante capitão Caetano e as reguadas do capitão Espírito faziam parte das lendas urbanas, a água gelada imposta pelo ten-coronel Durão para enrijecer os jovens não passava de um mito importado da Mitra, a carga, seguida de desmontar, nas aulas de equitação do major Cabedo estava classificada como ficção; os floretes e as espadas da esgrima eram agora de PVC e apitavam para assinalarem os toques, em vez dos tradicionais gritos de dor; e muitas outras maravilhas que se iam lentamente apagando dos neurónios dos ex-alunos do antigamente.
- Batalhão, - disse suavemente ao microfone, para não arranhar as cordas vocais, o Comandante Aluno. – Firme, Sentido!
E o despertador do 191 (Peidão), do 3º E do 120 (Cabedo), do 121 (Pejó), do 125 (Horrível), do 136 (Macaca), do 151 (Escorpião), do 157 (Bicuda), do 224 (Fogaça), do 280 (Minhoca), do 299 (Camélia), do 300 (Elefante), do 305 (Vinesse), do 307 (Escalope), do 320 (Vaca), do 328 (Cão), do 384 (Leitão), do 470 (Lory), do 485 (Magoo), do 488 (Sorridente), do 601 (Gordini), do 607 (Six), do 652 (Xoxo), do 653 (Bétis), do 664 (Barrada), do 666 (Zecarias), do 667 (Loira) e do 668 (Peida Gorda), do ano lectivo de 1973 / 1974, tocou com estrondo, tirando-o abruptamente do pesadelo. Por breves momentos ainda  ouviu o professor Grijó, mais conhecido por Semita:
- Oube lá ó mocinho, tu percebes tanto disto como o sapo tem cabelo. Já viste algum? Ora aí tens!
 Deu de caras com a notícia do “Sol” de 23 de agosto de 2012!

Thursday, August 23, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 15 - A Firmeza


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


"Castigava sempre tão bem, tão pouco e tão no princípio que quase nunca lhe aconteceu ter de castigar mal, muito e no fim" José Manuel dos Santos 

O comandante-aluno estava a ler, como habitualmente, a Ordem de Serviço, o último ato oficial antes da companhia destroçar para ir dormir, segundo o manual, mas que na prática não passava de um pró-forma, pois geralmente era a seguir a isto que se dava início à festa-brava. Todos foram informados do nome do oficial nomeado para o dia seguinte, que seria o capitão Caetano, dos colegas que iriam ao Hospital Militar, o 607 (Six) e o 305 (Vinasse), que conseguiram atingir respetivamente os 41 graus e os 40,5 graus, depois de terem esfregado toda a pasta de dentes Colgate do 652 (Xoxo) nos sovacos, escapando assim ao teste de Português do Ferrari, e daqueles que teriam consultas marcadas na Enfermaria, e mais outras secas exclusivas do meio militar. Finda a leitura, passou-se ao que interessava. O aluno 191 (Peidão) foi chamado pelo comandante da companhia, que estava a meio do pavilhão, equidistante dos quatro pelotões, e os procedimentos de aproximação foram cumpridos, tendo-se perfilhado em sentido junto ao seu chefe e colega mais velho. Iria ser castigado por ter tirado o barrete ao 125 (Horrível) enquanto este defecava, tendo-o de seguida atirado para dentro da latrina do lado, onde aterrou em cima do conteúdo intestinal do 470 (Bolinha), que não tinha puxado o autoclismo. O réu ainda tentou justificar a ação como uma resposta de retaliação por ter sido vítima da vítima, mas foi condenado na mesma a quatro festinhas, que foram de imediato servidas a frio, e que o puseram a cuspir fininho e com a visão afunilada. Mas havia mais em lista de espera. Seguiu-se o 300 (Elefante), que foi sentenciado a um biqueiro no traseiro por ter apresentado vários vincos no lençol da cama, sinal de que estava mal esticado, assim como o fato de treino amarfanhado dentro do cacifo. Explicou ter sido obra de terceiros, mas teve mesmo de dobrar-se para que a pena pudesse ser cumprida. Levantou os pés do chão após o chuto, e regressou ao pelotão com um andar esquisito. Após este cerimonial de cariz individual, seguiu-se a pena coletiva por terem demonstrado pouca aptidão militar durante a parada da hora do almoço, uma vez que era uma terça-feira, dia de apresentar cumprimentos ao oficial nomeado. Na altura do “olhar direitaaa”, quando os pelotões passavam junto ao capitão Espírito, que costumava resolver os problemas disciplinares com uma régua personalizada, em vez de se ouvir o som seco dos calcanhares a bater em uníssono, ouviu-se um metralhar de botas, que deixou o comandante de pelotão à beira de um ataque de nervos. E não foi só com o primeiro pelotão, aconteceu em todos os quatro. Chegava agora a vez da retaliação: a tradicional Firmeza!
- Cócoras, - ordenou o comandante da companhia aluno.
Ninguém podia mexer-se, os braços estavam esticados em frente, e era proibido sentarem-se nos calcanhares. A tripa do 384 (Leitão) não aguentou a pressão e a bufa que se ouviu fez eco, e provocou uma risota geral, sendo todos de imediato contemplados com vários penaltis. Quanto ao bufador foi imediatamente chamado pelo chefe máximo da companhia e teve pena sumária de seis festinhas bem aviadas. E com este graduado, com o número 12, havia sempre um ritual: abanava primeiro a pulseira onde tinha gravado o nome e o grupo sanguíneo, e só depois disparava. Após várias séries de um minuto, passou-se à marcha à volta do pavilhão, com um “olhar direitaaa” numa das pontas, até a coordenação do batimento dos calcanhares estar perfeita. A festa prolongou-se até ao toque de “recolher”, e acabou com um “passo de corrida” e uma ordem para uma “apresentação à alvorada” coletiva. Mas também havia firmezas personalizadas e em locais pouco convencionais, como aquela a que foram sujeitos o Peidão (191) e o Horrível (125), na casa de banho enquanto o graduado aliviava a tripa! São aconchegos da memória que guarda os elos capazes de nos fazer sentir o espaço, como em nenhum outro lugar. Se fosse agora as mães receberiam de imediato um sms “há grad k ker firme enkt kaga”, e o carrasco ainda não estava com as calças em baixo e já tinha a visita do diretor e da TVI em direto, não sem antes serem bombardeados com a publicidade sobre a vantagem da toma diária de um “Activia com Mel” sobre a tripa. Tempos esquisitos estes!

Thursday, August 16, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 14 - Um dia na vida do 3º E do Ano Letivo 1973 / 1974


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

Parte 2


Enquanto decorria o primeiro intervalo da manhã, o ajuntamento era no cubículo do funcionário, que aproveitava o internamento longo dos alunos para fazer negócio, vendendo-lhes todo o tipo de guloseimas, trazidas clandestinamente do exterior. Mas tinha de estar sempre com “um olho no burro e outro no cigano”. E neste dia distraiu-se. O 191 (Peidão) escolheu um bolo mais distante, e quando o funcionário virou costas tirou-lhe um queque. Foram dois pelo preço de um, promoção impensável naquele ano distante de 1973.
Quando a corneta soou o 3º E formou rapidamente, pois o Minhoca (280) passara de balda a aprumado desde que fora nomeado Chefe de Turma, depois da recusa do 191 (Peidão) e do 485 (Micróbio, Pitosga ou Magoo conforme a fonte), e resolvia todos os problemas disciplinares, como era tradição, ao biqueiro. E ele tinha um remate poderoso! A próxima aula era de Português, e para agravar a situação havia teste escrito. O velho professor Ferreirinha, mais conhecido como Ferrari, veio mal disposto, e pior ficou quando a turma resolveu encostar as carteiras umas às outras, para poderem cabular melhor. Os últimos das cinco filas foram assim encostados à parede do fundo: o 668 (Peida Gorda), o 607 (Six), o 384 (Leitão), o 300 (Elefante) e o 156 (Bicuda).
- Querem brincadeira? – Ameaçou o Ferrari aproximando-se do 307. – Mostra-me o T.P.C.!
- Não fiz, - respondeu o Escalope.
A orelha do aluno foi de imediato atacada pelo professor Ferreirinha, que a torceu, devagar, devagarzinho, como já era habitual.
- A vossa sorte é que eu não trouxe a caderneta.
As carteiras voltaram à posição inicial e os testes começaram a ser distribuídos. Quando ia a passar pelo Elefante (300) viu-o a mastigar e quis saber o que era.
- Não professor, eu guardo-a aqui, - e apontou.
O professor Ferreirinha nem queria acreditar no que via: uma praga de pastilhas elásticas coladas debaixo da carteira.
- Seu porco, não sabe o que é o caixote de lixo? – Perguntou já com a orelha do 300 (Elefante) torcida entre os dedos.
- Ponha-a aqui na minha mão.
E espalmou-a de imediato na cabeça do aluno. Mas foi distraído por um coro de “é,é,é,é”, e todos a olharem para o Horrível. Era a nova brincadeira, mesmo com a avaliação a decorrer. De cada vez que o 125 tirava as cábulas do bolso todos gritavam, obrigando-o a devolve-las aos fundilhos apressadamente. Tirando este pequeno detalhe, o resto do tempo passou sem mais incidentes de relevo. A corneta tornou a tocar e todos saíram apressadamente, correndo desenfreados para o cesto do “reforço” da manhã, entrando em mergulho na cesta. Iam agora transitar para a aula de Educação Física, cujo ginásio se situava no topo da colina. E como a disciplina estava dividida por grupos de nível, aqueles que iam ter aula com o tenente Dario já sabiam que não poderiam chegar atrasados. Quando saíram do pavilhão deram de caras com os soldados que levavam o almoço para a sala dos oficiais nos claustros. Deu-se então uma emboscada, eles tinham as mãos ocupadas com as travessas, que iam tapadas, e a única reação eficaz foi fugirem. Chegaram ao destino com falta de filetes, o Semita iria comer menos. Lá para os lados da sala do padre Carioca, responsável pela musicalidade do batalhão, cruzaram-se com a Rosa. Como do costume houve troca de piropos, e à noite iriam ser as cuecas que pagariam este encontro imediato. Logo de seguida apareceu, vindo de cima, o filho dum tenente que residia no colégio montado numa bicicleta. Nova emboscada, seguida da fuga do petiz em direcção ao gabinete onde pensava estar o pai. Houve “cavalinhos”, “ciclocross”, “saltos” e outras coisas mais, até que o pneu da frente mudou o formato de “zero” para “oito”, sendo o veículo abandonado junto da sala do canto-coral, cuja porta sofreu vários biqueiros, acompanhados pelo grito de guerra do costume: “ó Carioca lambe-me a …..”! Mas naquele dia tudo acontecia. Agora era a vez do trator com caixa aberta que ia em direcção ao curral e ao aviário, conduzido pelo senhor Nunes, um funcionário com cara de poucos amigos. Tudo a correr, e tudo pendurado, e eram tantos que a máquina se recusou a subir. O condutor bem gritou para saírem, mas ninguém obedeceu. Parou, saiu a correr para enxotar as moscas fardadas de cotim, ao mesmo tempo que os insultava com todos os nomes possíveis e imaginários, mas a única coisa que aconteceu foi uma corrida conjunta à volta do veículo. Regressou furioso para os comandos e lá acelerou para o topo da colina, com a mesma carga, que foi entrando à medida que arranjava espaço. Cruzaram-se com outro funcionário, que ia montado na sua bicicleta e o 601 (Gordini) gritou:
- Ó Miranda, tens o cu à banda!
Mas um pouco mais acima estava o vigilante Xavier à espera da turbe, pronto para lançar a mão a um deles, e encaminhá-lo directamente para o Oficial de Dia. Mas não teve sorte, fugiram todos pelo campo de futebol.