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Monday, January 03, 2005

Camarada Choco 22 - O VIRABICOS





                          Camarada Choco
                                             Aventura 22



Até agora todos os meus heróis apresentaram-se com os rolamentos gripados e as juntas da cabeça queimadas, muito tostadas. Pois bem, vou deixar no descanso os meus queridos e amados colegas de curso, e vou-me atirar, de cabeça, aos meus ricos tutores. Temos genes a menos, e é esse o nosso problema; eles têm genes a mais, e isso também é um problema! Portanto, estamos todos no mesmo saco e, por incrível que pareça, adoramos o buraco em que nos meteram.
Esta é a história do Virabicos, o maior animador do distrito de Lisboa e arredores.
- Senhores e senhoras, o bando dos Marrecos e Anões, da Associação Portuguesa dos Amigos dos Corcundas e Meia Lecas.
As cortinas afastaram-se e do meio de uma escuridão e fumo, saíram vários mongas a cantarolar e a dançar, tais quais caixas de pastilhas Valda cheias de pulgas do mar. A um canto, e a tocar à gaita, lá estava o autor e encenador da peça, o famoso Virabicos, com uma cabeleira encaracolada, estilo Dino Meira, e uma túnica branca tipo mortalha. Findo o acto, nova pausa para retemperarem forças e mudarem o cenário. Saíram duas cadeiras de rodas da marca “Lolita Veloz” e entraram duas cadeiras de rodas da marca “Tremoço Saltitão”. Alguns minutos depois ouviram-se toques de Monguiérre. O apresentador coxo e zarolho reapareceu e anunciou:
- Senhores e Senhoras, Portugueses Mongas e Portuguesas Mongas, vamos ter o prazer de assistir à actuação do “Agrupamento Recreativo dos Coxos da Associação Portuguesa dos Vizinhos dos Ditos”.
As cortinas tornaram-se a abrir e do meio de uma escuridão com fumo, regressaram novos mongas a dançar e a cantarolar, tais quais caixas de pastilhas Valda cheias de pulgas da terra. Num canto do palco, e a tocar no bandolim, estava o autor e encenador da peça, o já lendário Virabicos, com uma careca tipo cú, e uma tanga branca impoluta, estilo Tarzan, que deixava os espectadores adivinhar que a sua dita era tão torta como a do camarada Choco.
Findo o segundo Acto as cortinas fecharam-se com estrondo, deixando de fora um monga, que aproveitou a ocasião para agradecer efusivamente sem parar, até que uma mão vinda do palco o engoliu, num abrir e fechar de olhos.
De repente alguém pede ajuda na primeira fila, debruçando-se desesperado sobre um espectador. Um pelotão de cinco mulheres precipita-se sobre uma cadeira de rodas da marca “Fórmula Um “, e arrasta-a para uma das saídas de emergência, deixando atrás de si um rasto castanho nauseabundo. O purgante dado estrategicamente em casa no dia anterior, fizera o seu efeito.
Novos toques de Monguiérre e outra vez o coxo e zarolho em acção:
- Senhores e Senhoras, Portugueses Mongas e Portuguesas Mongas, o “ Bando dos Estrombólicos e Mijões” da “Associação Pedagógica Para a Inclusão dos Mija-Paredes
A luz apagou-se, a escuridão invadiu a sala e o público susteve a respiração. De repente, um monga fluorescente cruza o palco como um raio; depois outro, e mais outro, uma nuvem de pirilampos mágicos orientais risca a escuridão, acompanhada dum barulho ensurdecedor de tambores, bandolins, gaitas e tudo o mais que estivesse à mão. Quando a luz de um holofote tornou a iluminar o palco, mostrou a nú o grande ilusionista e autor do espectáculo, o senhor Virabicos, desta feita vestido de negro e com uma bela cabeleira verde. Ah Leão ! E depois acendeu-se outro projector, e mais outro, até que o público se apercebeu que um dos bailarinos estava sem calças, em pânico, por ter o material em chamas devido aos efeitos especiais, e também por culpa do seu colega Pequeno Polegar, que resolvera passar-lhe por baixo das pernas. Sem demoras, apagou-o na cabeça da sua colega Lolita, que lhe retribuiu com uma mão cheia de Sarna. Foi visto mais tarde, de gatas e a coçar sofregamente o baixo ventre, com o membro superior direito e com o queixo.
Findo este Acto veio o intervalo, que fez com que o empresário Virabicos entrasse numa convulsão existencial, que o levou, via telemóvel, ao contacto com a doutora sem canudo, comunicando-lhe o fim do contrato que os ligava, não indo por isso participar na “Feira Internacional Hexassómica do Afeganistão”, organizada pela “Associação dos Amigos dos Afegãos com duas pernas e dois braços”. No calor da discussão, nem reparou que se sentara na cabeça da sua aluna Lolita, sendo assim mais uma vítima da chiquérrima Sarna.

CRRR.....CRRR
A um dado momento, a sala foi invadida por um barulho ensurdecedor, levando a assistência a temer um ataque de caruncho, que fizesse desabar o teatro. Mas, tudo foi salvo por um erro do nosso guerreiro e herói Choco Silva que, para impressionar a sua BéBéu, se lançou a uma corda existente no palco, para imitar o Tarzam, e assim subiu o pano para mais um Acto.
De costas para a assistência, dobrado para a frente, o nosso querido e visionário Virabicos coçava freneticamente o pandeiro com o microfone, sinal de que a chiquérrima Sarna já tinha acampado e começara a laborar. O aplauso foi geral, o espectáculo era intelectualmente elevado, conseguir fazer música com o cagueiro era um dom exclusivo de seres com mentes brilhantes, e o senhor Virabicos demonstrava ali que estava ao nível do Beethoven, do Mozart e do Batatoon. O show terminou quando o camarada resolveu mudar de liana e fechou com estrondo as cortinas, caindo desamparado sobre a sua Bébéu, que ficou com os olhos pregados no chão de madeira.
- Bis, bis – gritava a multidão em êxtase.
Mas, os fundilhos em chamas tornavam o nosso Mozart da Brandoa insensível aos apelos do selecto público. E, sem maestro, os artistas não funcionavam. Mas, como não havia nem espaço nem paciência para os ter nos bastidores, foram atirados para o palco, para só serem recolhidos quando o seu tempo de cena acabasse. Na plateia o responsável camarário pelo teatro não cabia em si de contente, perante tão ilustre público.
- Estava habituado a casa cheia com dez visitantes e agora estão aqui trezentos estrangeiros.
- Imagine que me mandaram o Gelatina para casa, porque diziam que estava cheio de sarna – interrompeu-o uma jovem mãe.- Tive de gastar uma pipa de massa e afinal eram só pulgas!!
- Só pulgas!?? Mas, afinal também há aqui estrangeiros com pulgas!?? Então, não são trezentos, mas três mil espectadores. Isto é o delírio! Desculpe minha senhora, mas vai-me dar um treco.
E caiu redondo sobre o colo de um africano, que só teve tempo para gritar:
- Gostinho, gostinho, gelatina, gelatina.
Entretanto, a Bébéu veio a si, debaixo do Choco, e resolveu agarrar-se no que estava mais à mão. Foi fatal! O puxão fez o macho subir de novo à liana, e os cortinados abriram-se com estrondo, deixando ao léu uma cena digna dos melhores caranguejos da Brandoa. Os artistas estavam em palco, congelados, cada um na sua posição.
- Caravaggio, Caravagio – gritou um velho gágá. – Milagre, milagre, isto é um milagre – e ajoelhou-se junto ao colo do africano.
- Gostinho, gostinho, gelatina, gelatina – berrou o preto, apertando entre as pernas a cabeça do ancião.
A força foi tanta, que a dentadura cravou-se no pepino do jovem.
- Gostozão, gelatina, macabé, escarumba – gritou, regressando por momentos a uma experiência da passada vida íntima com o primo, até este lhe Ter dado vários chutos, que lhe colocaram os intestinos nos joelhos, obrigando-o a cagar fininho durante muitos anos, tantos quantos a sua vida de clandestino.
O delírio era total ! O senhor Virabicos entrou numa excitação incontrolável, de memórias e alusões da sua sexualidade pré-genital primitiva, que o levaram a soltar uma verborreia cabo verdiana, seguido de uma exibição que mostrava um ID desinibido e grosseiro, que lhe furou as cuecas cor de rosa, transformando-o no seu próprio negreiro, e fazendo-o reviver a sua evolução de alforreca a bípede terrestre. Sacou, de imediato, o telemóvel e, sem demoras, retomou o contrato com a doutora sem canudo. Iria novamente ao Afeganistão e, com toda a certeza que, no meio de tantas burkas, descobriria um naipe de mongas ao quadrado, e os traria ao palco da Amadora para uma nova “Terapia pela Arte”. Ainda teve tempo de telefonar à sua amiga húngara a contar as novidades.
No palco os estrangeiros mantinham-se estáticos, representando na perfeição o “Martírio de São Lucas”.