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Monday, June 04, 2007

Camarada Choco 47 - O Pirilampo Mágico


                         Camarada Choco
                                         Aventura 47

A notícia de que o Camarada Choco tinha atingido o topo da carreira de desaparafusado não fora novidade. As suas cuecas tinham-se metamorfoseado em pergaminhos, provas inequívocas de uma vida de sucesso. “Topo” significava que o Camarada Choco era o exemplo de uma vida dedicada à “diferença” e aos desprotegidos, ou seja, uma espécie de Robin Hood, que tirava aos ricos para encher a mochila. A consagração devia-se à importante intervenção do neurologista, que há meses andava a brincar com o conteúdo da tola do nosso herói, obrigando-o a ingerir todos os “drunfos” do mercado, principalmente aqueles que davam direito a viagens à volta do mundo. Enquanto o químico só dava para um fim-de-semana no Algarve para duas pessoas, o Choco passou meses a dar de caras com a Santinha, toda nua, querendo isto significar um estado de congelamento semelhante a um pacote de ervilhas do Continente, em promoção, tirado da arca dos faisões, protegidos, que o Pintor descobrira a voar por cima do espaço aéreo duma das reservas de caça do Alentejo. Demorava sempre meia-hora até regressar à temperatura ambiente!
Assim, quando os bilhetes do cruzeiro no majestoso paquete “O Elefante Branco” começaram a cair no Centro de Saúde, o senhor doutor chamou a família do Camarada Choco de urgência, facto que a mãe, mesmo desaparafusada, achou estranho, porque estava há vários meses a tentar encontrar o dito senhor, mas o raio do homem passava a vida em congressos nas ilhas Fidji. Ainda a progenitora mal tinha passado a porta do consultório e já a receita de dois contentores de “Tegretol GT 5500 Turbo” estavam nas suas mãos. Era desta que o Choco iria aparafusar de vez!
O “drunfo” do tamanho de um melão demorou a cruzar o esófago, mas graças a um piaçaba milagroso chegou ao seu destino. O primeiro sinal foram umas argolas de fumo que começaram a sair das orelhas. O segundo foi durante a primeira micção, em que o nosso herói levantou a perna e encharcou o cágado, que se preparava para ver a “Floribela”. O terceiro veio sobre a forma de um flato que apagou todas as luzes da casa. Aqui o Chefe da Família reagiu, pondo a mão no cinto de cabedal chinês e ameaçando fazer uma tatuagem na bilha do Camarada Choco. O quarto correspondeu a um arroto monumental, tipo trovoada, que rebentou com a energia do quarteirão, impossibilitando o chefe de família de ver o beijo carinhoso entre a Floribela e o Guarda Ricardo. A fúria do senhor Firmino foi tal que, com a pressa de tirar o cinto, deixou as calças, as cuecas e o conteúdo destas no sofá e despejou a energia em cima de um “abajour” chinês, pois confundiu a luz que o Choco emanava no topo da marmita, com o objecto mais caro da habitação, a Santa-Meteorológica, que mudava de cor conforme o clima. Quando as luzes regressaram à casa mais famosa da Venteira, já o Choco tinha desaparecido entre os lençóis, de cor de cartão, e piava agora baixinho.
- Respeitinho é muito bonito, - disse orgulhoso o Chefe Silva. – Lá por ser adulto, não faz o que quer.
O Jardel foi o único que compreendeu o dono, respondendo com um aceno da cauda. Entretanto, o fumo que se foi acumulando nas entranhas da cama do nosso herói, já colara os lençóis ao tecto.
Eram vinte e quatro horas quando as badaladas da torre da igreja coincidiram com o ladrar do relógio de cuco que o pai do Choco tinha comprado nesse dia, em promoção, na loja do senhor Koçá Ky Buda. Nem mais um segundo passou quando o efeito do Tegretol GT 5500 Turbo atingiu a fase do “redline”, ou seja, o Camarada Choco iniciou a ópera pimba ,“O Rebarbado de Sevilha”, com as cordas vocais ao máximo e o escape em “ponto-de-rebuçado”. Tudo vibrava, a Santa-Meteorológica não conseguia fixar a cor, o canídeo Jardel iniciou um uivo digno dos melhores lobos da Brandoa, a mana Bélinha vestiu a cara-de-cu que costumava levar para as colónias, e a mãe (por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, e neste caso uns genes especiais) telefonou assustada para os tele-táxis da Guarda. Quanto ao chefe máximo da tribo, começou-se a notar uma comichão anormal do bigode, que alastrou para uma explosão de raiva que atacou o Choco com o cinturão de cabedal da Indonésia, só parando quando o nosso herói adormeceu à custa de tanta “bordoada”.
- Modernices, são só modernices. O doutor enche-me o miúdo de remédios, mas ele só adormece à maneira antiga, - disse orgulhoso, recolhendo aos aposentos.
Só alguns dias depois e vários concertos interrompidos, é que o doutor se apercebeu de que a dose destinada a parar com as “travadinhas” cerebrais , punha o nosso herói fresco que nem uma alface sem ter necessidade de passar pelas brasas. E isso o Firmino não tolerava!