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Wednesday, December 21, 2005

Camarada Choco 32 - O Cabo das Tormentas (Triologia) - I



                                                    Camarada Choco

                                                                      Parte 1

                                                   A Irmandade dos Mongas

                                            Aventura 32

O Sol já ia alto quando os agentes da autoridade do sul do país, se depararam com duas jovens senhoras que caminhavam de joelhos no meio da estrada.
- Ò chefe, cuidado com as anoas que vão no meio da estrada.
O chiar dos pneus interrompeu a piedosa caminhada.
- Então, o que vem a ser isto ? – Perguntou, um pouco exaltado e a coçar os cornos doridos, o cabo da GNR, ao aproximar-se das donzelas.
- Falta muito para Fátima, senhor agente ?
- Para Fátima !?? A senhora está a gozar com a autoridade ?
- Então Fátima não fica perto de Porto de Mós ? Nós estamos a 5 quilómetros da vila, segundo aquela tabuleta – e apontou.
- Mas esta vila é Porto de Mós do Algarve e não Porto de Mós da região de Leiria.
- Meu Deus, e eu a confiar nas dioptrias da minha colega ! – Exclamou a outra caminhante.
- Mas, o que é que vos trás aqui, minhas senhoras ?
- Um cabo, um pequenito cabo – respondeu uma das anoas, levantando-se e ficando maior que o agente da autoridade, que antes falava para baixo e agora tinha de olhar para cima.
- Ajoelha-te, pecadora – disse de imediato a outra, puxando-a para a posição de beata.
- Eu !?? – Gritou o agente mais graduado. - O que é que eu tenho com isso ?
- Não é o senhor, é o nosso Cabo Pilas, que teve um treco em Lisboa e agora só funciona a carvão.
- É melhor estacionarem no passeio e explicarem-me o problema – ordenou o agente.
Depois de devidamente arrumadas, as peregrinas começaram a confissão.
- Senhor cabo da GNR, nós, humildes servas do Senhor, somos colegas de um Cabo, o Pilas, e cometemos terríveis pecados.
- Violaram-no ?
- Não, não. A minha colega, por Inveja, usurpou-lhe o lugar e mandou-o para o mesmo andar do da doutora, sem mongas. E eu, por Ganância, disse mal da Palmeira que ele rega todos os dias com muito carinho. Devido a estes monstruosos pecados, o nosso Pilas teve um treco depois de um traque..
- Um treco não – interrompeu a outra e continuou, - um RATÉ, e agora está ao nível da nossa colega dos têxteis, ou seja, mais para lá do que para cá. Pelo que nos contaram, precisa da ajuda dos tios para se sentar no bacio e, segundo o veterinário, apareceu-lhe mais um cromossoma no 21, ou seja, tem 4 cromossomas no par 21. No A E I O U, pára no I, e mesmo este tem dificuldade em pronunciá-lo. E tudo por culpa nossa ! Por favor, ajudem-nos, senão iremos directamente para o Inferno. Só Fátima nos poderá limpar estas almas desgarradas.
- Mas a culpa não é só nossa. A psicóloga da educativa confundiu-o uma vez com o monga do Kodac. O Cabo estava de costas.
- Então o que têm a fazer é virarem-se para Norte e continuarem a gatinhar.
Dito e feito. Os agentes ajudaram as donzelas a virar-se para a morada indicada, e com um empurrão puseram-nas em marcha piedosa.
- E se cagássemos para o Pilas e apanhássemos o comboio – disse a peregrina de óculos, de seu nome Pilca.
- Vira para lá essa boca pecadora – gritou-lhe a outra, de seu nome Tatrícia. – Temos de salvar o Cabo Pilas ou o demo tomará conta de nós.
- Mas, o Pilas valerá este esforço ?
- Não é o Pilas que está em jogo, mas o nosso futuro celestial – retorquiu a senhora Tatrícia.
- Pensa bem, ele está só um pouco fraquinho. E graças às nossas acções até tinha subido de andar. A culpa não foi nossa, mas dos ares da direcção.
- A culpa não foi nossa ? – Perguntou indignada a beata Tatrícia. – Eu corri com ele da sua salinha, tirei-lhe os mongas mais mongas que ele e pu-lo mais perto da doutora. Achas pouco ?
- Então se calhar a culpa é só tua, e eu não tenho nada a ver com isso, - disse dona Pilca, pondo-se de pé.
- De gatas beata, tu passaste estes anos todos a dizer mal da palmeira, ou do cacto, que ele lá tinha arrumado ao cantinho do quarto, e queres agora escapar à penitência ? Olhas que vais parar ao inferno !
- Ao inferno não ! – gritou dona Pilca, pondo-se de imediato de joelhos Avante para Norte.
E lá foram as duas almas gémeas desgarradas em direcção à salvação. Já iam em Alcácer do Sal, debaixo de um Sol infernal, quando madame Pilca viu um vulto ao longe. Levantou-se e correu na sua direcção.
- Pilas, Pilas, estás salvo, perdoa-me.
A colega tatrícia não teve outra solução senão levantar-se também e atirar-se ao pescoço da amiga.
- Pára mulher, pára. Não vês que aquilo é um bode velho. O Sol está a dar cabo de ti.
- Um bode !?? E eu a pensar que era o Pilas rijo que nem um nabo, a vir ao nosso encontro para nos perdoar dos terríveis pecados que cometemos.
- O Pilas !?? Ò amiga, ele quando se vê ao espelho, já só vê um ET de cor azulada. Nós demos cabo do Cabo, e temos de pagar por isso.
Mais à frente nova alucinação !
-É ele, é ele, está ali em cima a olhar piedoso para nós e a perdoar-nos, - gritou de novo dona Pilca, apontando para cima.
- Aquilo é um balão do”Batatoon” que foi largado por algum chaparrinho – desabafou a missionária Tatrícia. – Por este ritmo de visões, nunca chegaremos a Fátima.
- Mas porquê este “carma” ó Pilas ? O que te fizemos foi assim tão mau ?
- Foi péssimo Pilca, foi horroroso. Demos cabo do pigmeu, o pescoço dele agora está mais alinhado com a cabeça e as unhas dos pés estão azuladas. Já nem sei se Fátima será a nossa salvação!
- Vila para lá essa boca Tatrícia. Se não for Fátima, então o que será ?
- Meca, penso que só uma peregrinação a Meca é que nos irá salvar.
O dia tinha sido extenuante para as nossas heroínas da Roque Gameiro. Mal o Sol se pôs, já as duas dormiam que nem dois anjinhos querubins. Às duas da manhã o sono foi interrompido pelos gritos aflitivos de madame Pilca. O pesadelo tinha sido tão intenso, que fizera crescer um bigode tipo alentejano a esta auxiliar de meia idade.
- Foi horroroso, foi terrível, - contou a sonhadora. – Estávamos no inferno rodeadas de diabinhos com a cara do Pilas e cauda comprida. E para piorar a situação, eles tinham a forma de “Mon Chérris”.
- “Mon Chérris” !?? Um torresmo daqueles, com sabor a “Mon Chérri” !?? Estás a ficar Monga, o Cabo Pilas está a dar cabo de ti !


Fim da Primeira Parte

Segunda Parte – As Duas Peregrinas
Terceira Parte – O Regresso do Cabo

Camarada Choco - 31 - Nunca Tantos deveram tanto a um Cagalhão

                        Camarada Choco
                                         Aventura 31

A luta do Choco tinha como fim a Igualdade e a Fraternidade entre todos os seres humanos que circulavam, dentro e fora de mão, na sua querida e amada Cerci: se havia senhores, também queria ser Senhor; se havia doutores sem canudo, também queria ser Doutor Sem Canudo; se havia gente com bigode, também queria ter Bigode...etc., etc., etc.
A fama da sua luta chegou ao Céu e este deu-lhe o maior dos presentes ! Não foi um “Senhor”, não foi um “ Canudo sem Canudo “, não foi um “ bigode “, foi....foi um “Soberbo Cagalhão”. E perguntam vocês, meus queridos leitores ( se chegaram até aqui sem fugirem do Choco, são seus amigos ! ): mas o que é que um Cagalhão tem a ver com a Igualdade ? Tem tudo. Foi por causa de um Cagalhão fresquinho, que o Choco conseguiu igualar a Tribo dos Desaparafusados à Tribo dos Aparafusados, juntando todos numa única: a Tribo dos Pioneses. ! A partir deste memorável acontecimento de Julho de 2003, a Raça Humana passou a ser uma e só uma. Passariam a haver Pioneses de todas as cores e feitios, mas só Pioneses. Tudo isto tem uma história por detrás, e é isso que eu vou contar:

A primeira pessoa a dar de caras com o intruso, foi a dona Espatinha. Ia calmamente desfardar-se, após mais um cansativo dia, dividido entre o Bar e a Sala de Artes Gráficas quando, dentro do balneário reservado aos funcionários, deu de caras com um objecto estranho junto a uma retrete.
- Uma Anaconda – gritou, correndo em pânico.
A Anaconda nem tugiu, nem mugiu. Pé ante pé, tal qual a Padeira de Aljubarrota, resolveu enfrentar a fera. Agarrou na primeira vassoura que encontrou, levantou-a bem alto e quando se preparava para desferir o golpe fatal, arrependeu-se.
- Calma Espatinha – disse de si para si. – O animal deve estar mais assustado do que eu, provavelmente fugiu de algum circo, e está agora ali quietinho e desesperado à procura de ajuda. Vou buscar uma gaiola !
Quando ia a sair do balneário, deu de caras com a madame Electrochoque.
- Electrochoque, está ali uma Anaconda. Toma cuidado.
- Ana quê !??
- Uma cobra, uma cobra muito grande.
- O quê, aquela torta castanha junto à pia ?
- Sim, sim, aquela torta.
- Na minha terra chamam àquilo um “ Valente Cagalhão “. Aqui em Lisboa tem um nome estranho !
- Cagalhão !?? Aquilo não é uma Anaconda ? – perguntou, indignada, a dona Espatinha.
Quando se virou para o animal, já a dona Electrochoque tinha o papel higiénico na mão e estava a levantar o intruso.
- Está quentinho ! O forno ainda deve andar por perto.
O entusiasmo era tão grande, que agarrou no Cagalhão Anaconda pela cauda, deixando a cabeça e o pescoço no chão.
Já perceberam porque é que este objecto tão popular, e com tantos nomes, se tornou num Facto Histórico ?
O Choco até aqui era classificado como um Ser Humano Desaparafusado, pois de cada vez que ia ao trono, deitava metade do conteúdo intestinal para fora, como ficou descrito na aventura “ Estranhos Perfumes “. Acusavam-no de sofrer um desvio anatómico no fim das costas e mais algumas coisinhas, e por isso atiraram-no, quando veio ao mundo, para a Tribo dos Desaparafusados. E agora ? Como é que os Doutos sem e com Canudos classificam o Dono ou a Dona desta Anaconda ? Naquele espaço só é permitida a presença de Aparafusados. E se também os há com desvios anatómicos no final das costas e mais algumas coisinhas, então são Aparafusados Desaparafusados. E não nos podemos esquecer que há Desaparafusados muito mais Aparafusados do que muitos dos Aparafusados. Portanto, a partir deste 25 de Abril de Agosto de 2003 só há Pioneses...ouviram bem....Pioneses.

Saturday, September 17, 2005

Camarada Choco - 30 - Vêm aí os Celtas!

                        Camarada Choco  
                                            Aventura 30         
                                                                         Exmo Senhor

Animador ViraBicos

Vimos por este meio convidar V. Exa. e a sua Tribo, para estarem presentes na “ Festa CeltiMonguibérica “, a realizar em Coimbra.
Com os melhores cumprimentos
Dr. David Kovac’Olhões

O desafio estava lançado ! Era necessário transformar o Grupo Folclórico “ Os Mongas da Venteira “, num agrupamento de “ Celtas Desaparafusados da Brandoa Sul “, não sem antes desmontar os “ Chutos, Bufas e Bofetadas “ da Picheleira, fruto do último show no Parque Central. Depois de três seguidas com a mão, o nosso visionário Vira Bicos apresentou-se ao trabalho com uma resma de folhas A4 debaixo do braço.
- Aqui está o plano, vamos incendiar o Centro do País – disse, mostrando a folha da selecção.
Juntar os convocados foi um pouco complicado, como do costume, mas um ViraBicos é um ViraBicos, e por causa do seu estilo reaccionário, devido ao brinco na orelha esquerda, quarenta e cinco minutos depois tinha os candidatos a Celtas todos em sentido no primeiro andar. Trouxe também a reboque a sua Assessora, o senhor Pintor, a dona Espatinha e o stor pobre.
- Celtas, mas isto é que são Celtas !?? – Perguntou o stor pobre. – Não estou a ver aqui ninguém alto, de pele branca, olhos claros e cabelos louros.
- Se se der um banho no Choco com sabão “ Macaco “ e uma escova de piaçaba, fazes dele um Celta de Raça Pura, - explicou o senhor Pintor, abraçando o druida da Brandoa.
- Ok, a origem do Choco já está confirmada ! E os outros ?
- Este e este – apontou para o Bibi e o Badaró. – Vê a barriga circular e estes dentes de ferro.
E lentamente foram-se analisando os perfis dos candidatos. Havia Celtas com fortes indícios mongólicos e Celtas de raça indeterminada. Mais uma vez o Choco mostrava ser um Ser Humano do mais puro sangue roxo do norte da Europa, um homem de uma cultura castreja, um feiticeiro dos tempos modernos. O único que se aproximava do nosso herói, era o também lendário ViraBicos. Teriam sido outrora irmãos gémeos siameses ?
- Ò ViraBicos, se tomares banho com uma pedra pomes e lixívia, ficas loiro ! – Exclamou o senhor Pintor e continuou. – E quanto aos olhos azuis, arranjamos lentes no bazar chinês “ Lympókú “.
- Deixemo-nos de chinesices e vamos à música, - interrompeu a assessora, carregando no botão.
Uma música marota invadiu o espaço e tocou fundo no Choco. Como um vulcão adormecido que volta de repente à actividade, o Silva explodiu em movimentos Celtas, Lusitanos, Iberos, Fenícios e Gregos, só tendo parado no pilar do fundo da sala.
- Eu não quero movimentos tão perfeitos, porque senão ainda dizem que o deficiente sou eu, - gritou o ViraBicos, mostrando um cartão vermelho ao nosso herói.
Ficou então o grupo de pseudo celtas reduzido a doze cartagineses, incluindo o ViraBicos, a Assessora e a dona Espatinha. O senhor Pintor, por ser um romqano de gema, não pode fazer parte da alcateia.
Reiniciou-se a música atrevida, mas o grupo foi todo abafado pelo Badaró, na altura em que iam a passar por debaixo dele. Devido à sua acutilante visão de toupeira embriagada, abriu as pernas, em vez dos braços, e trancou com sofreguidão a Palhaça Tété, que soltou de imediato o franguinho assado do pequeno almoço.
- Porra, estão a gozar com a Cultura ? – Gritou o Animador, assoando-se com raiva à túnica fenícia. – Se isto continuar assim vou à secretaria e despeço-me.
Nova tentativa, nova corrida. Mas, em vez de tocar uma “ Céltica “, saiu um “ Carlos Ribeiro mais quatro “ gaulês com tendência para o suicídio, que levou, sem o consentimento do próprio, o nosso bem amado Choco para o meio da pista de dança, com um ritmo de rã abafada. O seu “ bumbum “ estava perto da redline, das orelhas já saia um fumo negro, da cera a derreter, e dos pés fugia um odor cavernoso, que dava um ar sensual ao ensaio. O stress do ViraBicos era tanto, que o brinco da orelha esquerda foi parar ao septo nasal, parecendo agora um toiro enraivecido perto da reforma. A cena era tão dramática, que o Kodac já se preparara para fazer uma pega de caras ao animador ruminante.
- Chiça, vocês desculpem, mas parecem uns mongas, - metralhou o ViraBicos, atirando com o capachinho para o colo do Stor Pobre.
O espanto foi geral quando da cabeça do colega do Batatoon saiu uma longa cabeleira loira, que se desenrolou até ao traseiro. Devido à raiva e à convulsão existencial, os olhos tornaram-se azuis e do meio das pernas saiu uma longa espada da Europa do Norte.
- Um Celta, um Celta, - gritou a assistência, precipitando-se para as escadas.
Na sala ficaram, frente a frente, dois Celtas genuínos: o Choco e o ViraBicos.


































Tuesday, July 19, 2005

Camarada Choco 29 - O Canivete Suiço

                           Camarada Choco
                                             Aventura 29

Estava eu calmamente a enfardar uns abrunhos na minha querida irmã, quando de repente um relâmpago atravessou de lado a lado a minha alucinação de fim de tarde e trouxe-me à memória, mais uma vez sem o meu consentimento, as palavras da doutora sem canudo dirigidas ao stor pobre:
- Vem aí um rapazinho superdotado, enviado pela Segurança Social, para nos ajudar; tem uma família muito complicada e quer trabalhar para poder continuar os estudos; ajudem-no.
A primeira vez que vi o dito cujo, lembrei-me de imediato do meu colega Pitrongas, mas um Pitrongas com a mania que tinha três canudos, segundo tinha dito a doutora sem canudo. Estava a dissertar com o jardineiro Virgulino acerca das virtudes do nabo e da cenoura na cura das hemorróidas e, como bom superdotado assumido, fazia referências à medicina chinesa. Foi nessa altura que revelou ter sido o discípulo preferido dum tal Confuso da Brandoa. Azar do senhor Virgulino, pois nessa altura resolvera ir regar as plantas da entrada no preciso momento em que o Fenómeno chegava à escola. Graças a Deus que um corte milagroso de água o fez afastar-se do local, a correr e a espumar.
- Coitado deste jardineiro, o problema dele deve ser muito grave; juro que vou usar todas as técnicas que aprendi no Curso de Ciclismo por Correspondência, para lhe consertar os carretos. Parece não haver muitas diferenças entre a cabeça dele e uma roda pedaleira – profetizou o novo inquilino, entrando pelo estabelecimento adentro.
À sua espera estava a madrinha sem canudo, orgulhosa desta nova aquisição.
- Quando o Ministro vier cá entrego o Choco a uma das tias, fecho a porta da sala, ele dorme um bocadinho, como fazem sempre os outros, e uma hora depois tiro-o de lá, apresento-te a Sua Excelência como sendo aquele que entrou e tu recitas ali mesmo umas vinte oitavas do Camões; de seguida faço uma descrição pormenorizada dos métodos pedagógicos usados na minha propriedade...esquece...nesta Cooperativa.
- Ok tia, eu também quero pertencer ao clube dos teus fãs !
- Para já quero-te apresentar ao pessoal da Secretaria.
Puxou bruscamente pelo super sobrinho e atirou-o de rompante para cima da capitã da equipa, que nem teve tempo de trincar o seu lindo quequinho.
- Dona Sãozinha, aqui está o super dotado de que lhe falei !
- O quê isto, senhora doutora sem...
- Dona Sãozinha, dona Sãozinha...
- Perdão, perdão, com...com...
- Mas custa-lhe muito lembrar-se !??
- Caneco...caneco...esta cabeça já está a carburar mal !
E como toda esta cena durou cinco segundos, o Ferrari humano ficou entregue à sua sorte, tendo aproveitado o tempo morto para formatar o computador da Chefe da Secretaria. Aparecia agora no monitor o Virgulino em tronco nu, estilo sardinha em lata. A cada toque no rato a imagem mudava, mas o tema era sempre o mesmo: de perfil, de cócoras, de gatas, atrás duns arbustos, em pino, etc.,etc.
- Os pagamentos, as folhas de pagamentos electrónicas – gritou a dona Sãozinha, empurrando o Emplastro para fora da Secretaria.
Mas, dos pagamentos electrónicos nem sinal. Só lhe saia a figura apolínea do jardineiro.
- Chiça, só me faltava isto. Está aqui todos os dias ao vivo e agora também em formato electrónico.
Só com a ajuda do senhor Pintor é que tudo voltou ao normal. Lá fora, a tia admoestava o super sobrinho:
- Não entras mais ali dentro, foste um menino muito mau !
- Mas, eu sou um Super Dotado tia.
- Está bem, está bem, mas não mexas mais nos computadores. Eles já são muito antigos e não estão adaptados a gente como tu. Aproveita o tempo e vai pedir instruções aos professores de Educação Física. Hoje ainda vais para a colónia com alguns meninos desaparafusados, e vais ter que reeducá-los na praia.
- E eu até tenho o Curso Superior de Pino e Cambalhotas dado pela farinha Pensal. O Seleccionador Nacional de Futebol é treinado todos os dias por mim. Ensinei o ABC do Futebol ao Eusébio, quando ele tinha 6 anos.
- Vê-se logo que és um super dotado ! Aprendi isso na universidade que me deu o caneco...o canudo.
E o Pitrongas II encaminhou-se para o ginásio, orgulhoso pelo elogio recebido da sua tia madrinha dos canecos.
Toc, toc, toc, bateu decidido.
- Posso entrar, professor ? – Perguntou ao stor rico com bigode.
- Quem és tu ?
- Um Super dotado enviado pela doutora – respondeu de rajada.
- Um Super dotado !?? Já ouvi chamar-vos de tudo, agora de “super dotado”. Deve ser uma nova técnica de integração.
- Sim, sou a novidade do Verão !
- Chiça, agora também enviam desaparafusados super aparafusados ! – Resmungou o Mestre. – Mas o que é que tu queres ?
- Um aconselhamento técnico, caro colega. Eu vou para a colónia e desejava saber se devo fazer “alongamentos” ao “reeducandos” ?
- É pá, deixa-te de “super dotações” e vai mas é passear com os teus colegas para a praia.
Nem mais uma verborreia saiu da boca do Super aparafusado. Encaixou a marcha atrás e saiu do espaço gímnico, atracando de popa no Virabicos, que ia a passar.
- É pá, vê lá por onde andas, ó Picasso da Moita – buzinou o artista.
- Andava à sua procura, ó senhor Animador. Eu hoje à noite tenho de apresentar uma peça no Teatro Fechado do São Carlos e ainda não escrevi a obra. Poderia sugerir-me um tema ?
O Virabicos olhou de lado para o Presunto que estava a bloquear-lhe a passagem e respondeu:
- Escreve uma peça sobre “Heroísmo”.
- “Heroísmo” !? Então posso contar a fantástica ajuda de um Super dotado à Marinha de Guerra Portuguesa.
- Ouve lá ó Coisinho Super aparafusado, não te estiques.
- Esticar-me !?? A única vez que me estiquei foi durante a subida ao Evereste. Eu só vou contar a minha aventura do fim de semana passado ao largo do Cabo das Tormentas, no farol da Guia.
Ainda o Virabicos compunha a túnica e já o Pitrongas Encenador II lhe entregava os textos.
- “O Jovem e o Adamastor “ ?
- Sim, é o relato real do meu último fim de semana. A Marinha pediu-me para os ajudar a recolher os bidons e os contentores daquele cargueiro que naufragou em Cascais.

“O Jovem e o Adamastor”
“ Um navio proveniente do Iraque, despejou vários contentores com produtos químicos ao largo da pacata vila de Cascais, em Portugal, na Europa Ocidental. As ondas tenebrosas estavam a empurrar os bidons de soda cáustica, para as rochas. Se explodissem, poderiam matar as criancinhas e os velhotes de Cascais...”

- Isto está um pouco exagerado, ó Super Dotado, - disse o Virabicos, interrompendo a leitura.
- Exagerado, eu !?? Então, o senhor não sabe que a soda cáustica é uma arma química específica para matar criancinhas e velhotas de bigode !??
- Soda cáustica !?? Dá-me a impressão que tu és, é um cáustico !
- Não, não, eu sou é um Super Dotado.

“Os valentes marinheiros portugueses recusavam-se a enfrentar o perigo e a defender a pátria. Foi então que o Senhor Primeiro Ministro resolveu consultar as Páginas Amarelas, e descobriu o indivíduo certo, no capítulo dos Fenómenos Atmosféricos. Um helicóptero atirou-o ao mar e o herói trouxe para terra o maléfico armamento, conseguindo ainda apagar à chapada um bidon que resolvera incendiar-se. E como estava com o fato de mergulho do Batatoon, de 20mm de espessura, ainda trouxe para o Presidente da República meia dúzia de santolas e trinta camisinhas com musgo, para fazer uma salada.”

- Chiça, deves ter bebido um bidon de soda cáustica ! – Exclamou o Virabicos, assoando-se à túnica. – É melhor ires ensaiar.
- Eu agora vou mas é ao bar ensinar a tirar bicas à dona Espatinha.
Pelo caminho ainda corrigiu os traços artísticos dos vários picassos que decoravam as paredes e acertou a taxa de cloro do tanque. Ainda teve tempo para ajudar o Choco e o Fangio Espástico a urinarem, um para a retrete e o outro para o lavatório. Aproveitou também, já que tinha as massas nas mãos, para lhes fazer uns alongamentos. Quando cruzou a porta do bar apresentou-se:
- Bom dia dona Espartinha, eu sou o célebre Super Dotado, enviado pelos deuses da Segurança Social. Venho aqui afinar a máquina do café, pois tirei o Curso Superior de Borras, na Universidade da Matacanha. A partir deste momento vão começar a jorrar as bicas mais deliciosas do Continente Asiático. Cinco minutos depois, deixou atrás de si uma sempre alegre tia Espatinha à beira de um ataque de caspa e a dar os “bons-dias” em alemão. Da máquina de café saiam agora tremoços e torresmos com chantilli. Mas o Super Dotado estava imparável! Ajudava agora a tia Piúlia nos Arraiolos, tinha-se apropriado do trabalho do Balbas e dava lições de tricot a uma surda-muda. Revelou-lhe que o seu sonho era costurar para fora, mas a tia Piúlia nem o ouviu, pois estava mais para lá do que para cá, como já era costume.
O acto final deste Canivete Suíço Existencial deu-se durante os ensaios do Virabicos. Pediu para assistir, foi proibido manifestar-se, e a meio da festa, e porque ninguém estava a prestar-lhe atenção, simulou um desmaio.
Conclusão: é preferível ter um risco num cromossoma, do que um borrão na Alma !






Saturday, June 04, 2005

Camarada Choco 28 - Um Dia nos Serviços Administrativos

                       Camarada Choco
                                        Aventura 28
A entrada da Dona Sãozinha no Posto Burocrático do rés do chão, significa que a Secretaria está aberta ao público, a todo o público, com ou sem parafusos. Depois de vários anos a transportar mongas para cima e para baixo, nas largas avenidas da Brandoa, foi presenteada com a responsabilidade de tentar ordenar as estranhas folhas de pagamento que, de início, tanto serviam para processar o vencimento da tia Tété, da chefe Tendinite, da auxiliar Mosca Morta e da Dona Graça dos Rissóis, ou para tapar o tubo de escape, em caso de urgência, à Mercedes Esgoto, quando esta ameaçava fazer transbordar o penico branco, ao fim de vinte dias consecutivos no WC comum para técnicos e utentes.
- Comigo ao volante deste barco, esta promiscuidade entre os vencimentos do pessoal e o tubo de escape dos utentes, vai acabar imediatamente – prometeu, no dia da cerimónia da tomada de posse, dando uma sentida e emocionada palmada no presidente Vóscar, que teve um descontrolo repentino dos esfíncteres traseiros, obrigando-a a usar a folha de pagamentos do 13º mês. – Prometo que esta será a última !
O Sol tinha acordado feliz e a dona Sãozinha também. As cortinas do Posto de Atendimento Público já estavam para cima e a Chefe dos Serviços Administrativos preparava-se para dar uma dentadinha num queque escondido debaixo duma HP Scanjet 3300. Quando se preparava para fechar os maxilares sobre o enfarinhado...
- Cófe, cófe, - tossiu alguém.
Com o bolo entre os dedos e os dentes, vasculhou o local com os olhos, mas nem sinal do autor. Teria sido uma alucinação auditiva ? Depois de tantos anos a servir um batalhão de desaparafusados, teria chegado a sua vez ? Assustou-se ao ver-se numa sala, sentada junto a um molho de porcas e parafusos.
- Que disparate é esse, Sãozinha ? – Questionou-se.
Qual disparate, qual carapuça, pois quando tentou de novo abocanhar o queque, uma vos vinda daquilo que sempre pensou ser o alarme, gritou:
- Hora de trabalho !
Nem teve tempo para se assustar, pois nesse momento entrou, com um ataque de caspa, o rei dos mongas, o hilariante Virgulino, furioso com a EDP, por causa dos constantes cortes de energia sempre que decide cortar a erva. Mas, também este ainda não chegara junto do computador, para jogar o “Poker para Tolos”, e já a doutora com canudo pedia-lhe para tirar dez mil fotocópias, e passar para texto legível vinte e cinco relatórios escritos em crioulo. Quanto ao queque, fugiu para dentro da impressora, e ostentava agora o valor do ordenado do chefe Porres. Para ajudar à festa, o Virgulino porteiro resolveu ter um ataque epiléptico e só parou ao colo da Dona Sãozinha, sem antes lhe ensopar com a baba as já famosas Folhas de Pagamento.



Sunday, May 08, 2005

Camarada Choco 27 - Hidrofilia

                         Camarada Choco                                        Aventura 27

Eram dez horas da manhã do século vinte e um, quando o Pitrongas tocou de mansinho na porta da sala da Soeiro Pereira Gomes.
- Entre – autorizou a agente do Serviço de Informações da Cerci ( SIC ).
Com cara de traseiro, o grande Pitrongas entrou pé ante pé e estacionou-se junto da Tininha, que se encontrava com metade do buço. A agente parou a espátula e olhou desconfiada para o intruso.
- Então, Pitrongas, por que é que estás com essa cara de traseiro?
- Eu não quero ir para a piscina !
- O quê, vou ter de te gramar durante a hora do almoço ? – Perguntou, rapando, por engano, a sobrancelha direita da Tininha, tirando-lhe parte do herpes ocular.
- Eu não quero ir para a piscina com os stores e o pintor, - gritou o utente, batendo com o pé no chão, sem antes pisar os calos do fadista, que expressou o seu mal estar cantando o Fado de Coimbra à moda da Mongólia.
- Os stores e o Pintor !?? – Inquiriu a agente, tirando a caneta e o bloco de notas do bolso esquerdo.
- Sim, sim, eles andam a tirar as cuecas à Joana Papagaio enquanto ela está a nadar à cão.
De imediato a agente da SIC escreveu na folha:

“ Indícios gravosos de Hidrofilia e roubo do património da utente Joana Papagaio “.

- Já contaste à tua mãe ?
- Sim, sim, disse-lhe que eles me tiraram a touca, as cuecas da minha namorada e não me deixaram apalpá-la como costumo fazer.
Os vestígios eram fortes, fortíssimos:

“ Indícios gravosos de hidrofilia, roubo do património da utente Joana Papagaio, impedimento de manifestações afectuosas de um cidadão desaparafusado e ingresso em rabo alheio “.

O relatório estava completo e iria ser entregue de imediato à doutora sem canudo, pelo estafeta turbo Ambrósio Caspa, que arrancou, tal qual um caracol com ferrugem, depois da agente lhe ter enfiado no bucho um anti-inflamatório “Ananás”, conforme indicações do encarregado de educação. Mas, e tudo devido à terrível “Globalização”, a inspectora da SIC acabara de ser contactada pela mãe do agora Desaparafusado Cornudo.
- Sim, senhora doutora, tiraram a touca do meu Pitronguinhas e as cuecas da Joana Papagaio. E tudo aos doze metros e meio de comprimento e cinco de profundidade.
- Cuecas!?? Mas, ao menos deixaram-lhe o fato de banho do Benfica??
- Se o fato de banho é do Benfica ou do Sporting, eu não sei. Mas, porque é que me faz essa pergunta? Está a desconfiar de mim? Olhe que o meu menino, além de ser o desaparafusado mais aparafusado da Escola, nunca se engana. É por isso que ele está na sala dos desaparafusados menos desaparafusados.
E nesse momento o relatório acabava de ser colocado em frente da Doutora Inspectora Sem Canudos, ao mesmo tempo que o jardineiro Virgulino soltava os palavrões do costume, devido aos cortes constantes da EDP, que o impossibilitavam de aparar as ervas daninhas.
- Já tenho a confirmação das suas informações – disse a Inspectora. – Acabo de receber o relatório da minha informadora mais importante. Mas ainda tenho uma dúvida?
- Dúvida!?? A senhora doutora duvida de mim ??
- Duvidar não !! Mas, não acha estranho ir de cuecas para dentro da água ?
- Não! Eu e o meu marido costumamos ir. Só o Pitronguinhas é que acha que é errado. É por isso que ele é desaparafusado.
- Tem razão, tem toda a razão ! Mas, como é que se tiram as cuecas, deixando o fato de banho ?
- Esses monstros são capazes de tudo !
- Tem razão, tem razão. Eu vou iniciar de imediato o inquérito e ainda hoje lhe telefono.

“ Exma Senhora Doutora Inspectora,
Querida madrinha, aqui lhe envio mais um relatório das actividades sinistras registadas no R/C da Vossa e Sempre Vossa Instituição para Desaparafusados. Espero com mais este humilde gesto subir na sua Eterna Escala de Preferências.

Relatório Preliminar dos Serviços Centrais da SIC

Assunto: Suspeitas de Hidrofilia na Forma Gravosa

Suspeitos: Autores – Stor Pobre sem bigode e Pintor
Cúmplice – Stor Rico com bigode
Factos Provados: Ponto 1 – roubo do património da utente Joana Papagaio
Ponto 2 – ingresso nos fundilhos da Joana Papagaio
Factos da Investigação:
Ponto 1 – local onde foram consumidos os crimes
hipóteses: à superfície da água ?
em profundidade ?
a meio caminho ?
Ponto 2 – cor do fato de banho
hipóteses: do Benfica ?
do Sporting ?
do Porto ?
Ponto 3 – como retirar umas cuecas do fato de banho, sem a mãe, que está sempre presente, ver ?
hipótese: se o crime ter sido cometido em profundidade.

Se a madrinha achar que são poucas as provas, amanhã de manhã quando formos juntinhas tomar o pequeno almoço invento outras.

Sem outros assunto,

Com toda a dedicação, beijinhos da afilhada.

- Xiça, está sempre a querer comer os torresmos à borla ! – Desabafou a Doutora Inspectora, começando a pensar:
“ Como é que estes facínoras teriam conseguido roubar as cuecas a uma pobre desaparafusada, mesmo nas barbas da mãe, deixando-lhe intacto o fato de banho, da cor de um clube ainda desconhecido ? A profundidade seria, com toda a certeza, e apostava nisto o seu Canudo, a solução. O crime fora cometido na caixa de saltos e as cuecas saíram por engano. O terceiro elemento do gang, e talvez o mais perigoso, aproximara-se silencioso da pobre mãe, desviara-lhe a atenção, tendo feito sinal aos cúmplices com o seu farfalhudo bigode amarelado. Estes lançaram-se gulosos sobre a presa e levaram-na para as profundezas, preparando-se para o festim. Mas, devido às águas turvas, confundiram-na com o ralo do fundo, e atacaram-no sem dó nem piedade. De cima só se veriam dois vultos pretos, tipo peixes espadas, a atirarem-se desesperados às grades de protecção, que quase lhes sugava todo o tutano. Quanto à verdadeira presa, já há muito que fora levada de volta à superfície pela água que saia furiosa dos tubos. Algum tempo depois, e devido à falta de oxigénio, os predadores regressaram desgrenhados. Quanto às cuecas, nem sinal delas ! Com certeza que algum deles as tinha comido durante o festim. Ficavam então esclarecidos os pontos um e três.
O raciocínio da Inspectora Chefe foi de novo interrompido pelos grunhidos enraivecidos do jardineiro Virgulino, de novo vítima da EDP.
- Passemos agora aos interrogatórios – disse, ligando para a Chefe dos Serviços Administrativos.
- Serviços Administrativos da Cooperativa Para Todos os Desaparafusados, Com ou Sem Parafusos; está falando com a Dona Sãozinha, Chefe desta Secção e dependente das ordens da “doutora sem canudo”.
- Com Canudo, dona Sãozinha -, ripostou a célebre “doutora sem e com canudo”.- Ordeno-lhe que detenha para interrogatório os Stores e o Pintor.
- E se eles resistirem ?
- Lance-lhes o Virgulino, o Porres, o Castanheira e o Cabo Pilas. Se mesmo assim resistirem, ameacem obrigá-los a assistirem à próxima peça do Vira-Bicos, “O Lago dos Desaparafusados”. E, que raio, a dona Sãozinha não sabe fixar “com canudo”??
- A sua ordem será imediatamente cumprida, senhora doutora com caneco...perdão, perdão, com canudo.

Saturday, April 23, 2005

Camarada Choco 26 - Um dia de Raiva

                          Camarada Choco
                                         Aventura 26

O dia começou com o Gelatina a fazer um soberbo Caravaggio na fralda, no momento da chegada da tia Mágui.
- Este miúdo tem uma praxia grossa da bacia. Executa o modelismo na perfeição. Vai ter futuro – disse, babosa, do alto da sua pedagogia, ao mesmo tempo que registava o fenómeno da Venteira no Plano Educativo Individual, e comia a bolacha das 9H41, sinal de uma metodologia à prova de “balda”.
O pensamento foi interrompido por um barulhento flato, emitido pelo Trovão.
- Um “Dó Maior”, um perfeito “Dó Maior”, com molho – exclamou, de novo orgulhosa, a Tia Mágui e continuou, - este tem queda para a música.
Naquele espaço educativo não havia lugar para mandriões. Iniciava-se o trabalho com o nascer do Sol e regressava-se a casa com o nascer da Lua. O excesso pedagógico era tal, que dois alunos já tinham “batido as talas”, não sem antes terem entregue as suas teses à funcionária-madrinha, que as entregou de imediato à dona Sãozinha, para darem entrada na Instituição, para assim poderem ser avaliadas pela tia Mágui.O sucesso da Sala dos Quiabos já tinha passado a soleira da porta, e despertava agora a inveja alheia. E para agravar a situação o Pascoal tinha tido uma convulsão tão chique, que espetara com os calmantes e a papa numa parede, acompanhados de um verde profundo, dando um toque artístico ao Graffiti.
- Isto é demais, - gritou a colega do lado. – Se estes vão para Belas Artes, os meus irão para Matemáticas.
E saiu em direcção ao gabinete da coordenadora, exigindo-lhe a compra de réguas, esquadros, transferidores e borrachas verdes. A tia Mágui não iria ficar a rir-se. Naquela sala, a partir das 14H00, passaria a ensinar-se Matemática Aplicada, em vez das Revistas Pirosas da manhã, a todos os destravados, desparafusados e afins, custasse o que custasse. Entretanto, a tia Mágui dava carinhosamente um pouco de bôla ao seu pupilo Trovão, que tinha resolvido abrir as goelas, e presenteara os colegas com uma ária digna dos melhores trovadores da Praça do Comércio. A cada demonstração cultural da sala da tia Mágui, respondia a vizinha com uma nova tabuada. Já se tinham quebrado 3 réguas, 2 transferidores e um dos mongas só dizia “Hí, hí, hí”, pois tinha encravado uma das borrachas verdes nas cordas vocais.
- Eu sinto que este me quer dizer algo de grandioso, mas a borracha não deixa, - confidenciou alto, de maneira a que o som chegasse aos ouvidos da vizinha, que comia agora, às 16H38, um quadradinho de chocolate preto, para compensar a sopa sem batata.
- Caravaggio, esta fez um Caravaggio, milagre, milagre, a sala da tia Mágui é uma fábrica de milagres – gritou a dona Sãozinha, que julgava que ia em direcção ao bar, mas fora traída pela idade, ao ver o pastel que a Bábá tinha atirado contra um papel em branco das tarefas executadas pela manhã na sala ao lado, e que agora escorria melodiosamente, deixando um rasto amarelado e subtil de uma soberba escarreta.
Isto foi o suficiente para se quebrar mais uma régua na sala ao lado.Entretanto, na outra ponta da Escola, o Pintor espumava com o coração da irmã do Choco nas mãos, sinal de que iria ser pai novamente de um caniche.Os registos da tia Mágui já ocupavam uma resma, enquanto que na sala ao lado tudo tinha emperrado na tabuada dos zeros e no puxão que um aluno tinha levado nas partes baixas, de uma colega mais atrevida.Para ajudar à festa, o Stror Rico com Bigode desmaiara aos pés da dona Sãozinha, que já tinha sido reencaminhada para o sítio certo pela Dona Tété. O dito senhor tinha tido um encontro do 4º grau com umas borboletas em cima duns gostosos presuntos. A visão fizera-o recuar aos anos da malandragem e a costura das calças ameaçou quebrar-se, pois com o bigode colado à testa, tudo era possível.
- Só me faltava esta, - queixou-se a Dona Visitação, tentando esconder as já célebres folhas de pagamento. – O Stor Rico com Bigode está mais para as borboletas do que para as notas e isto é grave, muito grave. O homem vai ter um treco, e logo dentro da minha loja.
A funcionária de escalão inferior disfarçava, olhando para as bolachas. A tia de outra sala tirou o blaiser do Pai-Natal, com que costumava vir para a Escola, e tapou as pernas da colega, para evitar que o fogo alastrasse a todo o colega.
- Eu vou mas é tomar um cházinho – informou a Dona Sãozinha, passando por cima do (in)docente.

Tiiiiiiiiii Tiiiiiiiii

- Estou? – Perguntou a dona das borboletas.
- É para informar a senhora que recebi as suas mensagens e estou apto para si e para a do blaiser do Pai-Natal.
O telemóvel queimava, a tia atirou-o para a retrete mais próxima, que se situava na casa de banho junto da sala 1 dos quiabos seniores, onde se encontrava, como de costume, a Papoila da careca, que evitou que o aparelho mergulhasse nas águas acastanhadas. Antes disso o telélé tinha passado uma razia à chefe da secretaria, que ainda teve tempo para dizer:
- Gente que vive à conta dos ordenados milionários dos maridos muda de telemóvel todos os dias.
- Apanhei um choque – justificou a docente.
Do outro lado da linha continuava o garanhão que ouvia espantado os gritos da Papoila.
- Calma, calma que eu vou já para aí. Eu aguento com as duas.
- Meu Deus, até parece que estou numa casa de doidos – gritou desesperada a Chefe Máxima dos Serviços Administrativos, correndo para o seu cházinho.
Chocou violentamente com a dona Pilca que andava à procura do serrote do 327.
- Números desses só nas folhas de pagamento – respondeu, já um pouco alterada a dona Sãozinha.- Vá mas é trabalhar.
A Instituição estava à beira do precipício. Todos rezavam para que a Doutora não aparecesse, mais uma vez, a declarar o dia como de Cargas e Descargas!





Saturday, April 16, 2005

Camarada Choco 25 - O Cunhado do Choco

                        Camarada Choco
                                        Aventura 25

O 25 de Abril seria , daqui para a frente e até à eternidade ( se Deus lhes tivesse dado esse direito ), um marco duplamente feliz para a mamã do Choco: o dia em que, devido à democracia e à liberdade, tinham sido legalizados os casamentos entre indivíduos com os cromossomas gripados; e o dia em que a sua Bélinha lhe havia comunicado estar grávida de um pintor, estando assim em perspectiva a perpetuação do cromossoma-coxo-dominante, auxiliado agora por um pincel das melhores espécies, que daria, com toda a certeza, lugar a uma brocha de cabeça larga. A emoção era tanta, que o “Jardel”, o único membro da família com os ditos ( cromossomas ) no sítio, resolveu expulsar excrementos pelo ânus, deixando um “brigadeiro” junto aos pés da dona.
- Maroto, pensaste o mesmo que a dona ! – cacarejou a futura vóvó, tirando do bolso um papel higiénico, que servia como recibo na loja do seu amado esposo. Mas, quando se preparava para embrulhar o “pastel da Venteira”, um golpe de vento fez voar a factura e o presente foi sofregamente agarrado pelos lindos dedinhos, que embalaram durante anos o casal de choquinhos. O Tempo parou repentinamente: a dona do “Jardel” olhava desesperada para as unhas, acabadas de arranjar no canil dos “Invisuais do Comércio”, e não conseguia expressar algum sentimento. Saiu a galope da porta da Escola, e ninguém conseguiu saber o que é que aconteceu ao resto do “Danquecas”.
À tarde a mãe levou a Bélinha à genecologista e contou-lhe a novidade:
- A minha filha está à espera de uma brocha de cabeça larga – e apontou para o ouvido da rapariga.
Os muitos anos de trabalho com a família Choco faziam desta médica uma expert em raridades.
- Está grávida?
- Sim, sim, tem o bucho cheio com uma brocha de cabeça larga.
- Meu Deus, mais chocos ?? – gritou a médica, pondo as mãos na cabeça.
- E sabe quem é o pai ?
- O SENHOR PINTOR – respondeu orgulhosa, em maiúsculas e a negrito, e continuou. – é o homem indicado para a minha filha, é quem eu sempre desejei – e meteu a mão no bolso, à procura da fotografia do futuro genro.
Mas só conseguiu encontrar parte do maldito “brigadeiro”, que aproveitou a saída para lançar o seu inebriante odor.
- De gravidez não há vestígios, mas parece-me haver indícios odoríficos de uma valente feijoada – disse secamente a médica.
- É pena, e eu que gosto tanto daquele pintor tão charmoso. Deve ter cá um pincel – e agarrou-se à perna da mesa. – Não sei se a doutora já reparou, mas a minha filha é deficiente – informou a dona do “Jardel”, pondo a mão do bolso no ombro da médica.
- Deficiente!? Quem diria, uma menina com um ar tão arguto – gritou desesperada, empurrando-as para a porta e encerrando de imediato o consultório.
Na rua, a mãe pôs a mão no ombro da filha e disse-lhe:
- Tens de ter paciência – aconselhou a mãe. – O pintor há-de ser nosso... teu, só teu. – E dito isto foi engolida por uma alucinação visual, que a levou para um campo da Brandoa rural. Em cima dum monte o pintor, com o pincel em riste e os caracóis ao vento, escarafunchava numa tela do tamanho do horizonte, fazendo um “Picasso” semelhante à sua amada. No vale, a quinhentos metros de distância, a musa gritava pelo seu cobridor:
- Árlos...Árlos...meu mor...Árlos...Árlos...meu hintôr hamádo.
A um sinal dum burro os dois seres precipitavam-se sedentos de amor...mas a convulsão acabou e a mãe voltou à Roque Gameiro, tendo por companhia as auxiliares responsáveis pela reeducação da sua Bélinha.
- Então, como é que está a sua filha ?
- Na mesma, mantém-se deficiente, como o irmão. Gravidez, nem pensar, está sequinha, a médica não encontrou aquela cola branca pegajosa. E eu que estava tão desejosa de ter um netinho branco com caracóis. Vou ter que comprar um caniche !

Wednesday, March 30, 2005

Camarada Choco 24 - Cargas e Descargas


                          Camarada Choco
                                           Aventura 24
A estória não pertence ao Camarada Choco, mas ficou na sua memória.
O dia tinha começado cor-de-rosa, a Escola estava em paz consigo mesma, os colegas distribuíam bons-dias às catadupas e até na área dos têxteis a funcionária estava mais “para cá” do que “para lá”, como era costume, tendo iniciado um tapete de “Lua de Mel”, em vez da diária pega para tachos de monhés. O Castanheira já estava com os óculos, comprados no Bazar Chinês, e preparava-se para arranjar os fusíveis à colega da sala 1. A Secretaria encontrava-se momentaneamente encerrada, pois a Dona Sãozinha fora tomar o seu merecido pequeno-almoço e a ajudante permanecia em estado de hibernação, com uma bolacha numa mão e os glóbulos oculares perdidos algures no telemóvel.
Por esta altura o Presidente Porres ainda estava a tentar convencer o filho a descer as escadas (direito exclusivo da Direcção), obrigando a carrinha a permanecer meia-hora em ponto-morto (ao contrário dos outros que nem saia da terceira); o Virgulino abria a mesma cova pela centésima vez; o Professor Rico com Bigode fazia o seu décimo sétimo telefonema para o banco, dando início à vigésima transferência do dia; o Pintor pintava a noite anterior; as Tias ainda não tinham começado a massacrar a cabeça da Coordenadora, pedindo-lhe explicações pela saída cinco minutos antes da hora, no mês anterior, dos Stores; a vizinha do Pintor ainda não apresentara a reclamação diária; a colega não avistara algum fantasma; o motorista dos recibos verdes abria a porta à ex-brasileira que tentara abusar do Castanheira, etc., etc..
De repente, tal qual um Tsunami, chegou no seu novo carrinho a Doutora, também conhecida no meio por Madrinha, e viu o parqueamento da Escola atestado, a abarrotar de veículos ligeiros e pesados.
- O QUÊ? E ESPAÇO PARA MIM? – Perguntou em Letra Maiúscula, deixando sair algo com os nervos. – COMO É QUE SE ATREVEM A ENCHER A MINHA PROPRIEDADE COM VEÍCULOS MOTORIZADOS, PESADOS E LIGEIROS? EU SOU A ALMA, A MOURA, DESTA ESCOLA, NÃO DESCANSO, NÃO BEBO, NÃO FUMO, SÓ FAÇO SKY, E OUSAM FAZER-ME ISTO?
A FATWA foi de imediato escrita e divulgada pelos presentes e ausentes:

“Declaro este dia como de CARGAS E DESCARGAS, implicando que daqui a 2 voltas ao quarteirão quero que o ESPAÇO ME SEJA DEVOLVIDO”.

Foram de imediato enviados, para os 4 cantos da Escola, estafetas com a “FATWA DA MADRINHA”.
A primeira vítima estava alegremente em cima de um Step, a segunda queixava-se da quinta e a terceira era um humilde Stror Pobre Sem Bigode.
Depressa se descobriu que a 1ª e a 2ª vítimas estavam em conformidade com o Código da estrada, não tendo isto, porém, evitado um ataque de caspa, seguido de 5 convulsões, à 2ª vítima, que já se babava de raiva, ameaçando pôr a Doutora a dormir dentro de um contentor.
Mas eis que alguém ousa dizer a verdade:
- O que ela quer é o vosso lugar!
Foi de mais! A Madrinha fez marcha para trás e cumpriu o prometido: duas voltas ao quarteirão. À terceira abandonou o veículo à entrada da Escola, acabando de vez com as Cargas e as descargas.














Thursday, March 03, 2005

Camarada Choco 23 - O Trombeiro

                         Camarada Choco
                                         Aventura 23


Na sala de Artes Gráficas imperava a serenidade, como era costume. Os artistas debruçavam-se afincadamente nas mesas, perdidos algures nas suas obras. Num breve olhar as tendências eram evidentes: junto à porta, sem sobra para dúvidas, o Bibi ensaiava um Caravaggio trissómico, com queda para a ciganisse; o Pitrongas, de pé junto a uma tela de promoção da loja dos setenta e cinco cêntimos, aproximava-se, desesperado, de um Picasso depois de um acidente vascular cerebral; o Fangio Espástico dava retoques a um “Napoleão a Cavalo a atravessar o Bairro do Relógio”;o Kodak, com o pincel em riste, pintava, em êxtase, um “Batatoon em Tripé”; o Peixe Espada chorava, como já era habitual, emocionado por pertencer a tão ilustre sala; o Zé Saltitão unira-se ao Lula, e ambos desesperavam na tentativa de igualar uma Josefa de Vómitos; e, para finalizar o idílico quadro, o nosso querido e amado Choco dedicava-se à “ arte etnográfica pré-colombiana”, mais propriamente à cultura de Tiahuanaco, esculpindo um generoso Virgulino, com cordelinho das Caldas. A apreciar o desenrolar dos acontecimentos, estava o exigente senhor Pintor, um homem implacável, formado nas melhores escolas da Brandoa, com mestrado na Linha de Cascais e colega de dois sábios do pino e da cambalhota, um, um “stor” pobre”, o outro um “stor” rico.
- Acudam, acudam – gritou alguém. – Acudam, acudam, tenho a ...em chamas!
A quebra do silencio inspirador fez com que o Bibi transformasse o seu Caravaggio, num Picasso coxo e pedófilo.
- Acudam...acudam...tenho a...toda em chamas!
- Mas, o que é que se passa !?? – interrogou-se o senhor Pintor, saindo da sala.
Os seus olhos de lince deram de imediato o alerta.
- Fogo, fogo...há fogo no andar em frente – alertou, correndo de imediato para o local do sinistro, tendo para isso trepado uma parede, tal qual um felino, e atravessado um telhado periclitante, tal qual um trapezista. – Fogo, fogo...senhor Porres, fogo, - gritou, já com a mangueira pessoal na mão, e pronto a despejá-la na cozinha em chamas.
Mas a idade nunca perdoa! Apesar do esforço titânico, só conseguiu atingir os sapatos. Quanto à retaguarda, ainda demonstrou não ter folgas, pois o petardo colou o Porres à janela do bar.
- Xiça, a bilha do gás devia estar cheia! – Resmungou o Presidente.
- Porres, não é altura para se encostar, - alertou o Pintor, aproximando-se agora dum Herói. – Vá buscar a pistola de pressão.
- Pistola de pressão!?? Mas, aonde?
- Deve estar na entrada.
O Porres já não precisava de ouvir mais nada. Arrancou, a todo o carvão, tal qual um carrinho do Continente com a roda da frente quadrada. Quanto ao nosso Pintor-Herói, lá permaneceu com o peito a desafiar as chamas, e agora também com uma outra mangueira nas mãos.
- Castanheira, dá-lhe toda a pressão.
O barulho ensurdecedor da turbina a arrancar, dava a sensação de estar no aeroporto de Lisboa. Mas, foi sol de pouca dura. As pingas nem aos sapatos do Bombeiro chegaram.
- Mangueira por mangueira, prefiro a minha, - gritou orgulhoso o Pintor-Herói-Bombeiro, revelando possuir humor perante o perigo.
- Está aqui a pistola de pressão – gritou o Porres, irrompendo pelo palco da tragédia.
- Mas, isso é uma colher de sopa ! – Informou, desiludido, o Castanheira.
- Se a pistola não vem, apago o fogo à dentada! – Ameaçou o Pintor-Herói-Bombeiro.
Quanto ao Porres, desapareceu novamente nas entranhas da escola, em busca da maldita pistola de pressão.
- Vou novamente recorrer à minha mangueira, - alertou o Pintor-Herói-Bombeiro.
- Não, não, - ainda se ouviu o Castanheira, pondo as mãos na cabeça.
A cena repetiu-se: na parte anterior ficou-se pelos sapatos, e na posterior sentou o Castanheira dentro do lava-loiças do bar, em cuecas.
- Cacanheira, Cacanheira, quéle cócó! – avisou a monga de serviço às bicas.
- Atrevido, já não tem idade para estas cenas, - gritou a dona Luisinha, a generala do estabelecimento.
Mas, o motorista só conseguiu recitar o “a, e, i, o, u”, sem o “o”.
- Está aqui a pistola de pressã, - gritou de novo o porres, arremessando o objecto.
O Pintor-Herói-Bombeiro agarrou-a com a mão esquerda e colocou-a com a direita. Bastou uma gatilhada para apagar o fogo.
- Bom trabalho, colega! – disse o Chefe dos Bombeiros, dando uma palmada nas costas do novo Rambo da Roque Gameiro.
As notícias correram depressa, a população juntou-se e arranjou um cognome para este futuro inquilino do Panteão Nacional. Como Pintor-Herói-Bombeiro-Rambo era um nome enorme, uma Comissão, formado para o efeito, decidiu fundir as quatro palavras, e criou uma nova: Trombeiro.




Monday, January 03, 2005

Camarada Choco 22 - O VIRABICOS





                          Camarada Choco
                                             Aventura 22



Até agora todos os meus heróis apresentaram-se com os rolamentos gripados e as juntas da cabeça queimadas, muito tostadas. Pois bem, vou deixar no descanso os meus queridos e amados colegas de curso, e vou-me atirar, de cabeça, aos meus ricos tutores. Temos genes a menos, e é esse o nosso problema; eles têm genes a mais, e isso também é um problema! Portanto, estamos todos no mesmo saco e, por incrível que pareça, adoramos o buraco em que nos meteram.
Esta é a história do Virabicos, o maior animador do distrito de Lisboa e arredores.
- Senhores e senhoras, o bando dos Marrecos e Anões, da Associação Portuguesa dos Amigos dos Corcundas e Meia Lecas.
As cortinas afastaram-se e do meio de uma escuridão e fumo, saíram vários mongas a cantarolar e a dançar, tais quais caixas de pastilhas Valda cheias de pulgas do mar. A um canto, e a tocar à gaita, lá estava o autor e encenador da peça, o famoso Virabicos, com uma cabeleira encaracolada, estilo Dino Meira, e uma túnica branca tipo mortalha. Findo o acto, nova pausa para retemperarem forças e mudarem o cenário. Saíram duas cadeiras de rodas da marca “Lolita Veloz” e entraram duas cadeiras de rodas da marca “Tremoço Saltitão”. Alguns minutos depois ouviram-se toques de Monguiérre. O apresentador coxo e zarolho reapareceu e anunciou:
- Senhores e Senhoras, Portugueses Mongas e Portuguesas Mongas, vamos ter o prazer de assistir à actuação do “Agrupamento Recreativo dos Coxos da Associação Portuguesa dos Vizinhos dos Ditos”.
As cortinas tornaram-se a abrir e do meio de uma escuridão com fumo, regressaram novos mongas a dançar e a cantarolar, tais quais caixas de pastilhas Valda cheias de pulgas da terra. Num canto do palco, e a tocar no bandolim, estava o autor e encenador da peça, o já lendário Virabicos, com uma careca tipo cú, e uma tanga branca impoluta, estilo Tarzan, que deixava os espectadores adivinhar que a sua dita era tão torta como a do camarada Choco.
Findo o segundo Acto as cortinas fecharam-se com estrondo, deixando de fora um monga, que aproveitou a ocasião para agradecer efusivamente sem parar, até que uma mão vinda do palco o engoliu, num abrir e fechar de olhos.
De repente alguém pede ajuda na primeira fila, debruçando-se desesperado sobre um espectador. Um pelotão de cinco mulheres precipita-se sobre uma cadeira de rodas da marca “Fórmula Um “, e arrasta-a para uma das saídas de emergência, deixando atrás de si um rasto castanho nauseabundo. O purgante dado estrategicamente em casa no dia anterior, fizera o seu efeito.
Novos toques de Monguiérre e outra vez o coxo e zarolho em acção:
- Senhores e Senhoras, Portugueses Mongas e Portuguesas Mongas, o “ Bando dos Estrombólicos e Mijões” da “Associação Pedagógica Para a Inclusão dos Mija-Paredes
A luz apagou-se, a escuridão invadiu a sala e o público susteve a respiração. De repente, um monga fluorescente cruza o palco como um raio; depois outro, e mais outro, uma nuvem de pirilampos mágicos orientais risca a escuridão, acompanhada dum barulho ensurdecedor de tambores, bandolins, gaitas e tudo o mais que estivesse à mão. Quando a luz de um holofote tornou a iluminar o palco, mostrou a nú o grande ilusionista e autor do espectáculo, o senhor Virabicos, desta feita vestido de negro e com uma bela cabeleira verde. Ah Leão ! E depois acendeu-se outro projector, e mais outro, até que o público se apercebeu que um dos bailarinos estava sem calças, em pânico, por ter o material em chamas devido aos efeitos especiais, e também por culpa do seu colega Pequeno Polegar, que resolvera passar-lhe por baixo das pernas. Sem demoras, apagou-o na cabeça da sua colega Lolita, que lhe retribuiu com uma mão cheia de Sarna. Foi visto mais tarde, de gatas e a coçar sofregamente o baixo ventre, com o membro superior direito e com o queixo.
Findo este Acto veio o intervalo, que fez com que o empresário Virabicos entrasse numa convulsão existencial, que o levou, via telemóvel, ao contacto com a doutora sem canudo, comunicando-lhe o fim do contrato que os ligava, não indo por isso participar na “Feira Internacional Hexassómica do Afeganistão”, organizada pela “Associação dos Amigos dos Afegãos com duas pernas e dois braços”. No calor da discussão, nem reparou que se sentara na cabeça da sua aluna Lolita, sendo assim mais uma vítima da chiquérrima Sarna.

CRRR.....CRRR
A um dado momento, a sala foi invadida por um barulho ensurdecedor, levando a assistência a temer um ataque de caruncho, que fizesse desabar o teatro. Mas, tudo foi salvo por um erro do nosso guerreiro e herói Choco Silva que, para impressionar a sua BéBéu, se lançou a uma corda existente no palco, para imitar o Tarzam, e assim subiu o pano para mais um Acto.
De costas para a assistência, dobrado para a frente, o nosso querido e visionário Virabicos coçava freneticamente o pandeiro com o microfone, sinal de que a chiquérrima Sarna já tinha acampado e começara a laborar. O aplauso foi geral, o espectáculo era intelectualmente elevado, conseguir fazer música com o cagueiro era um dom exclusivo de seres com mentes brilhantes, e o senhor Virabicos demonstrava ali que estava ao nível do Beethoven, do Mozart e do Batatoon. O show terminou quando o camarada resolveu mudar de liana e fechou com estrondo as cortinas, caindo desamparado sobre a sua Bébéu, que ficou com os olhos pregados no chão de madeira.
- Bis, bis – gritava a multidão em êxtase.
Mas, os fundilhos em chamas tornavam o nosso Mozart da Brandoa insensível aos apelos do selecto público. E, sem maestro, os artistas não funcionavam. Mas, como não havia nem espaço nem paciência para os ter nos bastidores, foram atirados para o palco, para só serem recolhidos quando o seu tempo de cena acabasse. Na plateia o responsável camarário pelo teatro não cabia em si de contente, perante tão ilustre público.
- Estava habituado a casa cheia com dez visitantes e agora estão aqui trezentos estrangeiros.
- Imagine que me mandaram o Gelatina para casa, porque diziam que estava cheio de sarna – interrompeu-o uma jovem mãe.- Tive de gastar uma pipa de massa e afinal eram só pulgas!!
- Só pulgas!?? Mas, afinal também há aqui estrangeiros com pulgas!?? Então, não são trezentos, mas três mil espectadores. Isto é o delírio! Desculpe minha senhora, mas vai-me dar um treco.
E caiu redondo sobre o colo de um africano, que só teve tempo para gritar:
- Gostinho, gostinho, gelatina, gelatina.
Entretanto, a Bébéu veio a si, debaixo do Choco, e resolveu agarrar-se no que estava mais à mão. Foi fatal! O puxão fez o macho subir de novo à liana, e os cortinados abriram-se com estrondo, deixando ao léu uma cena digna dos melhores caranguejos da Brandoa. Os artistas estavam em palco, congelados, cada um na sua posição.
- Caravaggio, Caravagio – gritou um velho gágá. – Milagre, milagre, isto é um milagre – e ajoelhou-se junto ao colo do africano.
- Gostinho, gostinho, gelatina, gelatina – berrou o preto, apertando entre as pernas a cabeça do ancião.
A força foi tanta, que a dentadura cravou-se no pepino do jovem.
- Gostozão, gelatina, macabé, escarumba – gritou, regressando por momentos a uma experiência da passada vida íntima com o primo, até este lhe Ter dado vários chutos, que lhe colocaram os intestinos nos joelhos, obrigando-o a cagar fininho durante muitos anos, tantos quantos a sua vida de clandestino.
O delírio era total ! O senhor Virabicos entrou numa excitação incontrolável, de memórias e alusões da sua sexualidade pré-genital primitiva, que o levaram a soltar uma verborreia cabo verdiana, seguido de uma exibição que mostrava um ID desinibido e grosseiro, que lhe furou as cuecas cor de rosa, transformando-o no seu próprio negreiro, e fazendo-o reviver a sua evolução de alforreca a bípede terrestre. Sacou, de imediato, o telemóvel e, sem demoras, retomou o contrato com a doutora sem canudo. Iria novamente ao Afeganistão e, com toda a certeza que, no meio de tantas burkas, descobriria um naipe de mongas ao quadrado, e os traria ao palco da Amadora para uma nova “Terapia pela Arte”. Ainda teve tempo de telefonar à sua amiga húngara a contar as novidades.
No palco os estrangeiros mantinham-se estáticos, representando na perfeição o “Martírio de São Lucas”.