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Saturday, March 23, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 38 - A Liga dos Meninos Extraordinários


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


Quem nunca olha para trás, nunca saberá olhar para a frente, para a posteridade. A origem das visitas de cortesia aos locais com grandes quantidades de bolama perde-se nas memórias do tempo. O local onde nos anos setenta se erguia um balneário luxuriante de musgos, bafios e podridões, com capacidade para todo o vasto batalhão, dividido por cabines individuais com paredes de mármore e chão de madeira esverdeada, onde porta sim porta não fermentavam soberbos cagalhões, deu lugar nos anos oitenta a um faustoso Bar do Pessoal, carregadinho de todo o tipo de “especiarias” que faziam babar qualquer Menino da Luz. Passou-se assim das incursões amadoras ao cubículo do Miranda, um espaço clandestino de venda de bolos, cujo trinco cedia à primeira patada, sinal de uma liberdade muito complicada num tempo muito complicado, a autênticos raides feitos por profissionais altamente treinados. Esta é a história de um desses grupos, a Liga dos Meninos Extraordinários!
- Chaminhas?
- Presente!
- Pesera?
- Estou aqui!
- Cigano?
- Pronto!
E mais o Arnaldo, o Farol, o Tobias, o Banana, o Gordo, o Granadas, o Adão e o Porca, todos à volta do mapa das operações, cujos dias de ação estavam diretamente relacionados com o nível do metabolismo energético dos intervenientes, estendido sobre o tampo da mesa da sala de leitura da 4ª Companhia. Paralelo a estas “visitas de estudo”, existia um sistema de apostas, cujo prémio, que nunca foi atribuído, estava destinado a quem descobrisse os responsáveis por estas atividades escolares. Começaram por entrar por uma janela, uma entrada tortuosa, labiríntica, com poucos pontos de fuga, cujas prateleiras das batatas fritas reclamavam sempre com o peso do Gordo, ao mesmo tempo que soltavam um ruído que ultrapassava os decibéis aconselhados para este tipo de modalidade. Após a operação juntavam-se numa das esquinas do refeitório, e faziam uma avaliação da ação, que era sempre cronometrada pelos vigias, estrategicamente colocados nas áreas de sombra do geral da 2ª e 4ª Companhias. Mas um dia deram de caras com grades nas janelas, e quando tentaram entrar pela porta, depararam-se com fechaduras novas. O Granadas tinha a solução, umas soberbas gazuas, mas estavam um pouco… fora de mão,…em casa, lá para os lados do Estoril. São estas memórias sagradas, preciosas, que nos abrem as portas do Colégio Militar, somos todos exilados do nosso passado, e por isso precisamos de o recapturar. Continuemos. A mota do Gordo foi a solução, saiu a guinchar na tarde da noite, levando no seu lombo o proprietário das ditas e o Pesera, prego a fundo em direção à Marginal. E como não tinha chaves para entrar em casa, o Granadas teve de trepar e entrar clandestinamente, como era seu hábito no colégio. Recolhido o material, o regresso foi feito com o ponteiro das rotações na redline, até a GNR os mandar parar lá para os lados da praia de Carcavelos.
- Maldita bófia, - protestou o Porca quando os motoqueiros mostraram o papel da multa, usando vocábulos raros e piscadelas de olho, ao mesmo tempo que salivava ao ver as gazuas, mostrando que o hábito das visitas noturnas já lhe tinha desenvolvido um “reflexo condicionado “.
 Com estas histórias as nossas almas mesclam-se e fundem-se umas nas outras, numa união tão absoluta que apagam as suturas que as juntaram.




Wednesday, March 13, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 37 - 10 de junho


Comandante Guélas
Série Colégio Militar




Esta é uma estória com duas partes, ligadas por um ponto em comum, a “Raça”! Neste dia o pequeno-almoço foi reforçado porque a data pertencia à Pátria, a festa iria ser brava: ovos mexidos cuja matéria prima tinha vindo diretamente dos rabos das meninas do senhor Nunes, excluindo o da sua filha, porque o produto que esta produzia chamava-se “desejo”, e mexia com as almofadas dos Meninos da Luz. Tudo se passou num tempo em que o boletim meteorológico seguia à risca a sapiência do Borda D´Água, por isso o calor apertava impiedosamente. Na formatura do Colégio Militar, que juntamente com as dos outros ramos das forças armadas, esperavam pelo presidente da república que, tal como uma noiva, insistia em não chegar a horas, não se via um movimento, graças às Firmezas, que nestes tempos faziam parte do Plano Curricular. Nas tripas de alguém  os ovos das galinhas que nunca causaram gastroenterites colegiais, não se sabe se pela qualidade dos mesmos ou das tripas dos meninos, refilaram, e o som que saiu assemelhou-se ao de uma corneta. Ninguém reagiu, nem o próprio, que continuou impávido e sereno com a arma em descanso, e com os metais a brilhar ao sol, tudo graças ao senhor Manuel, um coxo velocista temperamental, que reagia violentamente quando alguém requisitava algo inabitual, como fora o caso da véspera deste 10 de junho, em que o aluno trocara a solarina “Coração” pela Rosa. Na noite anterior tinham levado as armas para a camarata, e por isso os saltos dos armários para as camas, os concursos de gosmas, que deram origem a fabulosas estalactites, capazes de competir mano a mano com as colunas de Palmira, e que ficaram suspensas durante anos letivos seguidos, foram trocados por combates corpo a corpo com as ditas, que só acabaram quando a almofada do Elefante foi trespassada por uma baioneta com a cabecinha ao léu. Eram tempos em que os pais não passavam da Porta de Armas, não havia mães a gritar, nem Correio da Manhã, a Boca Louca saltitava em bolsas proletárias, pegar de empurrão só em pensamento e as Meninas de Odivelas estavam apetitosamente longe! A festa oficial deu depois lugar à festa colegial: Chá Dançante!
O evento escancarava as portas ao sexo feminino, tão raro no colégio durante os outros dias, com exceção da apetitosa menina Lisete, da fabulosa Júlia Patronilha, da inigualável menina Cassilda, da imponente dona Teresa, e de muitas outras guardadas nos corações desta gente assinalada. Tal como de manhã, tinha havido um trabalho árduo de bastidores, que consistia na montagem dos adereços, luzes, bolas de espelhos, sistema de som, cobertores nas janelas, bar, e outras coisas mais. Quem estava no ativo tinha de vir fardado, quem era ex geralmente ostentava um cabelo a tocar os ombros, as Meninas de Odivelas podiam vir à civil, e as civis traziam belos decotes e mini-saias. À espera delas estavam vários tipos de colegiais, desde o galã, que ostentava uma farda recheada de medalhas, as dele e as emprestadas pelos colegas marrões que tinham ficado em casa a estudar para os testes, os conquistadores, que passavam os dias a falar das aventuras amorosas do fim-de-semana anterior, incluindo com a almofada, o Líder, que já tinha a fêmea marcada, e ameaçara com represálias quem ousasse dirigir-lhe a palavra, o rata, que fazia de pau-de-cabeleira para a irmã, mas depressa recebia ordem para dispersar, o mudo que só via e andava em grupo, mas que no final confabulava uma estória de amor. E assim se encerrava a contribuição dos Meninos da Luz ao dia também dedicado ao Zarolho!
 


 

Monday, March 11, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 36 - Luz XXI

Comandante Guélas
Série Colégio Militar


A decisão já era oficial, o Colégio Militar preparava-se para receber no seu seio as Meninas de Odivelas e os Pilões. As Dulcineias viriam, não através do túnel que várias gerações cavaram em vão com as suas próprias mãos, mas sim de Metro. E isto estava a causar o pânico em alguns Meninos da Luz, com medo que elas viessem atraentes, ameaçadoras, em poses sedutoras, idolatradas. Por isso eram contra, queriam a exclusividade, mesmo reduzidos a uma turma por cada ano:
- Se conhecerem o colégio que eu conheço, deviam saber que esta fusão só terá um efeito, a sua destruição, - gritava um Bétinho que nunca sentira na pele um pincel frio cheio de tinta plástica preta com pasta de dentes, que fazia arder os tomates, e que era acordado todos os dias, não com uma corneta estridente no altifalante, mas pela mamã através do telemóvel.
- Oube lá ó mocinho, tu percebes tanto do colégio como o sapo tem cabelo. Já viste algum? Ora aí tens! – Respondeu-lhe do Além um especialista na matéria.
A tradição dizia respeito ao antigos, àqueles que entravam ao domingo e saiam na tarde de sábado, ficando isolados do mundo, entregues à sua sorte e à dinâmica do lugar, que os tornava rijos. Eram os gloriosos tempos das pinturas genuínas com trinchas e todo o tipo de químicos, das intermináveis firmezas, das apresentações à alvorada, do “prazer” de comer umas bordoadas em frente à Companhia, por ter um vinco no lençol, ou o fato de treino desarrumado, ou ter chegado cinco minutos atrasado aos Estudos, e muitas, muitas outras atividades impensáveis nestes tempos de mudanças. Uma história de sucesso feita de rigor, de sensibilidade, de garra e de fé, enfim, de “engenho e arte”.
- Acho inaceitável que o pessoal da barretina concorde com o ultraje que é a fusão, - tornou a gritar o Bétinho, agora alcunhado de Cuecas de Buda, mesmo sendo proibido nicknames, para não traumatizar os petizes, que nunca tinha tomado banho num balneário com uma só torneira, onde a água gelada alternava com a água a escaldar, e cujo tempo para o serviço era apenas de vinte minutos, nem mais um segundo, a partir do qual tinha pouco tempo para se apresentar nas aulas na outra ponta do colégio, porque caso chegasse atrasado tinha garantidos uma dose de abrunhos na última formatura do dia.
- Ó pá, tu assassinas-me o colégio. Bai lá armar-te em durão para as saias da tua mamã, - exclamou do éter outra voz eterna.
- Este moço merece uma bengala, não pesca nada de nada, - reforçou um dos membros do Conselho dos Sábios.
No Colégio Militar tudo dependia da alma, uma alma maior, que crescera do convívio com os colegas, e com a paixão que este espaço despertava. Mas, apesar de tudo, não era a Luz que iria acabar, os outros é que seriam incorporados. Mudava-se, como muita coisa tinha mudado ao longo dos tempos, agora na formatura olhavam para os pombos, à espera de apanhar com uma poia, antes olhava-se de frente, como tudo na vida. O tradicional calcanhar a bater em uníssono, com raiva, no chão, fora substituído pela carícia plantar no alcatrão ("passo de biela e manivela"), pois agora ter calos nas solas era considerado antipedagógico por um estranho grupo chamado Associação de Pais. Quando os Pilões se apresentarem à porta de armas, todos irão ver a sua decadência, com os penachos murchos, substituídos por barrigas proeminentes, sinal de que continuam com abdominais fraquinhos, aqueles que uns anos antes tinham traumatizado o diretor, quando foi informado do chumbo coletivo nos testes físicos de adesão à Academia Militar. As Meninas de Odivelas apresentar-se-ão rijas, virão preparadas para o embate e decididas a mostrar que não irão deixar os créditos da Luz em mãos alheias, bater-se-ão pela barretina de igual para igual, pois são as pessoas que fazem o espaço e não o contrário.