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Saturday, March 14, 2015

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 72 - Fogo Posto


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


As estórias do Colégio Militar são para ser mantidas debaixo de olho, o que elas são e o que elas têm para contar, mas estão todas ancoradas em realidades comprovadas, são estórias de rapazes que se cumpliciaram para lá dos silêncios. Para muitos deles a vida colegial não tinha nada de maravilhoso, porque não fora por suas vontades que estavam ali. É por isso que o Colégio Militar sempre teve um lado sedutor, porque temos um orgulho da pertença, e um lado sinistro, porque conseguiu muitas vezes transformar alunos normalíssimos em pessoas intoleráveis a partir do momento em que lhes deram funções de comando, passando a ficar assombrados pela emanação de desejos recalcados. Apesar de as novas “Meninas da Luz” estarem tão orgulhosas da farda que vestem, cujo desejo em dias de festa é tirar uma fotografia com um antecessor, muitas têm ainda de superar obstáculos, mas como o “ardor guerreiro” ainda faz parte do hino, levantam com orgulho a bandeira de todos nós. Uma viu um dia o sonho tornar-se realidade, o camarada pôs-lhe a mão por cima do ombro, e o telemóvel registou para a eternidade aqueles sorrisos sinceros e aquele orgulho na casa renovada. Mas a amiga não teve a mesma sorte:
- Não tiro a fotografia, o Colégio Militar deve ser só para rapazes, - respondeu a seco o ex-aluno quando viu que o seu sucessor era uma menina.
Por momentos todos ficaram em silêncio, incrédulos, trocando olhares indignados, ao mesmo tempo que olhavam para os olhos brilhantes da camarada. Mas valeu a prontidão de outro ex-aluno, que se aproximou dela, e disse em voz alta:
- Tiras comigo, o número é o que menos interessa!
A Menina da Luz aprendera que ali também havia gente desta, “koninhas”, para quem o Colégio Militar deveria ser imutável, esquecendo-se que era na sua imperfeição que cabiam todas as grandezas e todas as decadências. Por isso recuemos para um sábado de manhã dos anos oitenta, e entremos numa turma à beira de um ataque de nervos, com a saída de fim de semana no pensamento, desesperada com o tempo que parecia ter estagnado na aula de física do Semita, agora um velho professor em fim de carreira. Tinha sido recebido como habitualmente por um contentor do lixo a barrar-lhe o Volvo azul, a seguir à curva da quarta companhia, por isso não se apercebeu que os alunos acabavam de encher a calha que estava debaixo da mesa do 61 cheia de papel e alguém  ateara fogo. Depressa o fumo envolveu o camarada, transformando-o no Desejado mas, antes que virasse frango assado do Ricochete, envolveram-no com muito papel e, quando já estava em formato de múmia, pegaram nele e saíram da aula com as sirenes ligadas:
- Ti,nó,ni…ti,nó,ni…
O engenheiro Grijó nem queria acreditar, os alunos dos anos oitenta eram uns selvagens, quando comparados com os das décadas anteriores, porque em vez de fugirem ainda no exterior quando ele se esquecia das horas a jogar xadrez na sala de professores, esta rapaziada de agora abandonava o barco já em movimento, mesmo com ameaças de bengalas, bicicletas e afins:
- É gado, é gado, - gritava o Semita tentando controlar a turbe com o ponteiro, que saia em debandada do curral,…perdão, da sala de aula.
Para os “koninhas” cenas destas nunca aconteceram, mas mesmo que sejam uma realidade deveriam ficar para sempre enterradas no buraco mais fundo das nossas almas e connosco ao pó voltar. Mas porque no Colégio Militar o tempo nunca foi desperdiçado, continuemos, dizendo que a alcunha do Galo, professor de Geografia fora ganha na Escola do Exército por ter um bivaque que parecia uma crista, informação que serve de interlúdio à próxima cena dos anos setenta.
- Hoje vamos fazer uma Chamada Escrita, - informou a frio o professor de História e Geografia, de apelido Azevedo e alcunha “Feio”, que viera substituir o padre Peixoto, pousando a pasta em cima da mesa.
- Mas isto é à traição, - ripostou o Horrível, deixando cair o tampo da carteira.
- Os alunos estudiosos estão sempre prontos, - disse o Feio, começando a distribuir as folhas.
Quando retornou ao estrado verificou que os alunos tinham apenas preenchido os cabeçalhos. Por momentos trocaram-se olhares, de gozo os dos alunos, de raiva o do Feio.
- Olhem que eu dou um zero a todos! – Gritou, limpando com um lenço o suor da testa.
Nada, os discentes estavam irredutíveis. Aproximou-se do chefe de turma e perguntou-lhe:
- Então, não sabes nada?
Logo este, o 191, repetente. Não obteve resposta! A tensão estava no ar, o professor Azevedo ajeitava os tendões do pescoço que pareciam cordas repuxadas. Por fim cedeu:
- Então, quando é que querem a chamada escrita?
À noite o barulho na camarata era ensurdecedor, assim como o cheiro, apesar da corneta já ter dado o toque para as sombras e para os silêncios. Foram infrutíferas as várias tentativas para acalmar as hostes, por isso o graduado não teve outra solução senão abrir as luzes e dar ordem de sentido. Ia haver festa brava, nada que se assemelhasse aos métodos do 202/1901, de alcunha o Selvagem que, segundo relato no livro do 291/1934,   costumava resolver os problemas disciplinares pendurando os ratas de cabeça para baixo num galho duma árvore. “Impensável”, dirão os Koninhas, “não no meu colégio”. Prossigamos!
- 278, vamos fazer a ronda – chamou o oficial de dia.
- Sim meu capitão.
E como era habitual no colégio, o graduado acompanhou-o aos quatro cantos do espaço, que se dizia “educativo”, incluindo às cavalariças lá para os lados da formação. Todos faziam parte da família da Luz. De regresso às companhias, o oficial convidou o aluno a acompanhá-lo ao bar, a Soca, e por aí ficaram no meio de cafés e bebidas espirituosas até altas horas da madrugada. Após o derradeiro whisky ainda houve tempo para um último comentário:
- Sabes 278, muitos dizem que o capitão Caetano é isto e aquilo, eu sou duro quando tenho de ser, mas também sei ser vosso amigo!
Com estas breves estórias não fingimos ser o que não fomos, recuperamos sim as memórias sagradas e preciosas que nos abrem as portas do Colégio Militar, relembrando-nos que somos exilados do nosso passado.