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Monday, December 08, 2008

Camarada Choco 64 - Amor de Perdição





       Camarada Choco 
                                            Aventura 64
A história repete-se, os Desaparafusados por vezes têm amores platónicos por Aparafusados, e não olham a meios para atingirem os fins, que nunca sabem quais são. Um Aparafusado apaixonado, estilo Vira Bicos, colhe um Mal-Me-Quer e começa de imediato a ladainha do “bem-me-quer” , “mal-me-quer”, sendo o veredicto guardado para a última pétala. Os Desaparafusados são diferentes, cada um usa a sua estratégia. Esta história envolveu o Pitrongas, o melhor aluno da Venteira, que percorrera todas as salas do rés-do-chão, desde a número um, a turma dos quiabos, onde aprendeu o “Milho Rei” de trás para a frente, para os lados e do avesso, transitando num ápice para a sala de nível dois, a Biblioteca do Nélinho, onde se especializou em “Ginas” e “Sabrinas”; na turma seguinte, a dos “embrulhos”, ensinaram-lhe a empacotar presuntos chineses, tendo terminado este ciclo na número quatro, com retoques em báus , pinceladas em anjinhos e modelagem de pacotes. Ganhou o Bacharelato em Cartonagem. Como continuava a mostrar excelentes capacidades avançou para a licenciatura, tendo iniciado os estudos na Sala das Roscas, onde mostrou especial apetência por parafusos, gostando muito de lhes colocar as anilhas grossas. Pediu transferência para as Artes, onde efectuou um curso intensivo de Teatro para Sonâmbulos, com o implacável Vira-Bicos, colega de escola do Batatoon. Mas a sua consagração foi quando se cruzou com o maior pincelador da Brandoa, o famoso ex-Cunhado do Choco, responsável pela cadeira “Arte de Pintar em toda a Tela”. Pelo caminho cruzou-se com o Stor Pobre, que lhe transmitiu uma sensação de dever cumprido, a quem os invejosos acusaram de lhe baralhar a alma. Foi num passo vagaroso e saboreado que se apresentou no espaço do mestre Pintor, que lhe deu como primeira grande responsabilidade pôr o Benfiquista Bacalhau a verter águas. Mas esta sempre foi uma missão ingrata, pois o colega nunca queria só esvaziar a Bexiga, e nunca se soube o que acontecia na altura em que os dois se trancavam na casa-de-banho. Quando se preparava para mudar para o ensino superior, no primeiro andar, começou a ter comportamentos dignos de um Desaparafusado do Tojal: todas as noites, após o “noddy”, fechava-se no quarto e fazia com os calos o que o Vira Bicos fazia com o Mal-Me-Quer. Com esta fixação nos pés, o Pitrongas arriscava-se a criar uma pausa na sua fulgurante carreira académica e, desse modo, apagar da memória uns pés com calos, o único ponto em comum com os Aparafusados. Na sua cabeça desfilavam enigmas, logros, mistérios, embustes, traques, equívocos, ecos, reflexos, paradoxos, que lhe riscavam ainda mais a alma e depenavam a existência. Todos os sábios, que abrangia quase toda a Cerci, tentavam desvendar o porquê deste amor de perdição do artista inacabado pelo Stor Pobre. Tinha atingido com brilhantina no cabelo o estatuto de boneco de ventríloquo e atirava agora todo o fenomenal trabalho académico pela pia abaixo, porque resolvera enveredar por um amor não correspondido, que lhe estava a dar cabo dos cascos. O que é que ele veria naquele Stor Pobre, careca, com falta de dentes, folgas nas juntas, que urinava sentado, e outras mazelas da terceira idade?