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Saturday, April 23, 2005

Camarada Choco 26 - Um dia de Raiva

                          Camarada Choco
                                         Aventura 26

O dia começou com o Gelatina a fazer um soberbo Caravaggio na fralda, no momento da chegada da tia Mágui.
- Este miúdo tem uma praxia grossa da bacia. Executa o modelismo na perfeição. Vai ter futuro – disse, babosa, do alto da sua pedagogia, ao mesmo tempo que registava o fenómeno da Venteira no Plano Educativo Individual, e comia a bolacha das 9H41, sinal de uma metodologia à prova de “balda”.
O pensamento foi interrompido por um barulhento flato, emitido pelo Trovão.
- Um “Dó Maior”, um perfeito “Dó Maior”, com molho – exclamou, de novo orgulhosa, a Tia Mágui e continuou, - este tem queda para a música.
Naquele espaço educativo não havia lugar para mandriões. Iniciava-se o trabalho com o nascer do Sol e regressava-se a casa com o nascer da Lua. O excesso pedagógico era tal, que dois alunos já tinham “batido as talas”, não sem antes terem entregue as suas teses à funcionária-madrinha, que as entregou de imediato à dona Sãozinha, para darem entrada na Instituição, para assim poderem ser avaliadas pela tia Mágui.O sucesso da Sala dos Quiabos já tinha passado a soleira da porta, e despertava agora a inveja alheia. E para agravar a situação o Pascoal tinha tido uma convulsão tão chique, que espetara com os calmantes e a papa numa parede, acompanhados de um verde profundo, dando um toque artístico ao Graffiti.
- Isto é demais, - gritou a colega do lado. – Se estes vão para Belas Artes, os meus irão para Matemáticas.
E saiu em direcção ao gabinete da coordenadora, exigindo-lhe a compra de réguas, esquadros, transferidores e borrachas verdes. A tia Mágui não iria ficar a rir-se. Naquela sala, a partir das 14H00, passaria a ensinar-se Matemática Aplicada, em vez das Revistas Pirosas da manhã, a todos os destravados, desparafusados e afins, custasse o que custasse. Entretanto, a tia Mágui dava carinhosamente um pouco de bôla ao seu pupilo Trovão, que tinha resolvido abrir as goelas, e presenteara os colegas com uma ária digna dos melhores trovadores da Praça do Comércio. A cada demonstração cultural da sala da tia Mágui, respondia a vizinha com uma nova tabuada. Já se tinham quebrado 3 réguas, 2 transferidores e um dos mongas só dizia “Hí, hí, hí”, pois tinha encravado uma das borrachas verdes nas cordas vocais.
- Eu sinto que este me quer dizer algo de grandioso, mas a borracha não deixa, - confidenciou alto, de maneira a que o som chegasse aos ouvidos da vizinha, que comia agora, às 16H38, um quadradinho de chocolate preto, para compensar a sopa sem batata.
- Caravaggio, esta fez um Caravaggio, milagre, milagre, a sala da tia Mágui é uma fábrica de milagres – gritou a dona Sãozinha, que julgava que ia em direcção ao bar, mas fora traída pela idade, ao ver o pastel que a Bábá tinha atirado contra um papel em branco das tarefas executadas pela manhã na sala ao lado, e que agora escorria melodiosamente, deixando um rasto amarelado e subtil de uma soberba escarreta.
Isto foi o suficiente para se quebrar mais uma régua na sala ao lado.Entretanto, na outra ponta da Escola, o Pintor espumava com o coração da irmã do Choco nas mãos, sinal de que iria ser pai novamente de um caniche.Os registos da tia Mágui já ocupavam uma resma, enquanto que na sala ao lado tudo tinha emperrado na tabuada dos zeros e no puxão que um aluno tinha levado nas partes baixas, de uma colega mais atrevida.Para ajudar à festa, o Stror Rico com Bigode desmaiara aos pés da dona Sãozinha, que já tinha sido reencaminhada para o sítio certo pela Dona Tété. O dito senhor tinha tido um encontro do 4º grau com umas borboletas em cima duns gostosos presuntos. A visão fizera-o recuar aos anos da malandragem e a costura das calças ameaçou quebrar-se, pois com o bigode colado à testa, tudo era possível.
- Só me faltava esta, - queixou-se a Dona Visitação, tentando esconder as já célebres folhas de pagamento. – O Stor Rico com Bigode está mais para as borboletas do que para as notas e isto é grave, muito grave. O homem vai ter um treco, e logo dentro da minha loja.
A funcionária de escalão inferior disfarçava, olhando para as bolachas. A tia de outra sala tirou o blaiser do Pai-Natal, com que costumava vir para a Escola, e tapou as pernas da colega, para evitar que o fogo alastrasse a todo o colega.
- Eu vou mas é tomar um cházinho – informou a Dona Sãozinha, passando por cima do (in)docente.

Tiiiiiiiiii Tiiiiiiiii

- Estou? – Perguntou a dona das borboletas.
- É para informar a senhora que recebi as suas mensagens e estou apto para si e para a do blaiser do Pai-Natal.
O telemóvel queimava, a tia atirou-o para a retrete mais próxima, que se situava na casa de banho junto da sala 1 dos quiabos seniores, onde se encontrava, como de costume, a Papoila da careca, que evitou que o aparelho mergulhasse nas águas acastanhadas. Antes disso o telélé tinha passado uma razia à chefe da secretaria, que ainda teve tempo para dizer:
- Gente que vive à conta dos ordenados milionários dos maridos muda de telemóvel todos os dias.
- Apanhei um choque – justificou a docente.
Do outro lado da linha continuava o garanhão que ouvia espantado os gritos da Papoila.
- Calma, calma que eu vou já para aí. Eu aguento com as duas.
- Meu Deus, até parece que estou numa casa de doidos – gritou desesperada a Chefe Máxima dos Serviços Administrativos, correndo para o seu cházinho.
Chocou violentamente com a dona Pilca que andava à procura do serrote do 327.
- Números desses só nas folhas de pagamento – respondeu, já um pouco alterada a dona Sãozinha.- Vá mas é trabalhar.
A Instituição estava à beira do precipício. Todos rezavam para que a Doutora não aparecesse, mais uma vez, a declarar o dia como de Cargas e Descargas!





Saturday, April 16, 2005

Camarada Choco 25 - O Cunhado do Choco

                        Camarada Choco
                                        Aventura 25

O 25 de Abril seria , daqui para a frente e até à eternidade ( se Deus lhes tivesse dado esse direito ), um marco duplamente feliz para a mamã do Choco: o dia em que, devido à democracia e à liberdade, tinham sido legalizados os casamentos entre indivíduos com os cromossomas gripados; e o dia em que a sua Bélinha lhe havia comunicado estar grávida de um pintor, estando assim em perspectiva a perpetuação do cromossoma-coxo-dominante, auxiliado agora por um pincel das melhores espécies, que daria, com toda a certeza, lugar a uma brocha de cabeça larga. A emoção era tanta, que o “Jardel”, o único membro da família com os ditos ( cromossomas ) no sítio, resolveu expulsar excrementos pelo ânus, deixando um “brigadeiro” junto aos pés da dona.
- Maroto, pensaste o mesmo que a dona ! – cacarejou a futura vóvó, tirando do bolso um papel higiénico, que servia como recibo na loja do seu amado esposo. Mas, quando se preparava para embrulhar o “pastel da Venteira”, um golpe de vento fez voar a factura e o presente foi sofregamente agarrado pelos lindos dedinhos, que embalaram durante anos o casal de choquinhos. O Tempo parou repentinamente: a dona do “Jardel” olhava desesperada para as unhas, acabadas de arranjar no canil dos “Invisuais do Comércio”, e não conseguia expressar algum sentimento. Saiu a galope da porta da Escola, e ninguém conseguiu saber o que é que aconteceu ao resto do “Danquecas”.
À tarde a mãe levou a Bélinha à genecologista e contou-lhe a novidade:
- A minha filha está à espera de uma brocha de cabeça larga – e apontou para o ouvido da rapariga.
Os muitos anos de trabalho com a família Choco faziam desta médica uma expert em raridades.
- Está grávida?
- Sim, sim, tem o bucho cheio com uma brocha de cabeça larga.
- Meu Deus, mais chocos ?? – gritou a médica, pondo as mãos na cabeça.
- E sabe quem é o pai ?
- O SENHOR PINTOR – respondeu orgulhosa, em maiúsculas e a negrito, e continuou. – é o homem indicado para a minha filha, é quem eu sempre desejei – e meteu a mão no bolso, à procura da fotografia do futuro genro.
Mas só conseguiu encontrar parte do maldito “brigadeiro”, que aproveitou a saída para lançar o seu inebriante odor.
- De gravidez não há vestígios, mas parece-me haver indícios odoríficos de uma valente feijoada – disse secamente a médica.
- É pena, e eu que gosto tanto daquele pintor tão charmoso. Deve ter cá um pincel – e agarrou-se à perna da mesa. – Não sei se a doutora já reparou, mas a minha filha é deficiente – informou a dona do “Jardel”, pondo a mão do bolso no ombro da médica.
- Deficiente!? Quem diria, uma menina com um ar tão arguto – gritou desesperada, empurrando-as para a porta e encerrando de imediato o consultório.
Na rua, a mãe pôs a mão no ombro da filha e disse-lhe:
- Tens de ter paciência – aconselhou a mãe. – O pintor há-de ser nosso... teu, só teu. – E dito isto foi engolida por uma alucinação visual, que a levou para um campo da Brandoa rural. Em cima dum monte o pintor, com o pincel em riste e os caracóis ao vento, escarafunchava numa tela do tamanho do horizonte, fazendo um “Picasso” semelhante à sua amada. No vale, a quinhentos metros de distância, a musa gritava pelo seu cobridor:
- Árlos...Árlos...meu mor...Árlos...Árlos...meu hintôr hamádo.
A um sinal dum burro os dois seres precipitavam-se sedentos de amor...mas a convulsão acabou e a mãe voltou à Roque Gameiro, tendo por companhia as auxiliares responsáveis pela reeducação da sua Bélinha.
- Então, como é que está a sua filha ?
- Na mesma, mantém-se deficiente, como o irmão. Gravidez, nem pensar, está sequinha, a médica não encontrou aquela cola branca pegajosa. E eu que estava tão desejosa de ter um netinho branco com caracóis. Vou ter que comprar um caniche !