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Wednesday, November 29, 2006

Camarada Choco 43 - A “Caixa do Choco”

                         Camarada Choco

                                          Aventura 43

A contagem decrescente para retirar algo ao Camarada Choco tinha começado e já estava a influenciar a Instituição de Reeducação para Clientes Desaparafusados.

24 horas antes
Na sala do senhor Pintor reinava a confusão. Havia tesouras, martelos, cadeiras, pregos e outros objectos pedagógicos, pelo ar. O espaço artístico tinha entrado em auto-gestão após a saída do chefe, para uma exposição de 5 pinturas rupestres feitas por mongas estrangeiros, oriundos da Azinhaga dos Besouros. A excursão levara uma carrada de desaparafusados, fundamentais para a estatística final, para uma visita de cortesia, mesmo com o gasóleo a preços proibitivos, mesmo para os mongas, a uma amostra feita por uma técnica com um currículo a roçar o terceiro mundo, mas com bons contactos na nossa querida e muito estimada Instituição de Solidariedade Duvidosa.
- O que vem a ser isto ? – Insurgiu-se o senhor Pintor ao entrar no seu espaço cultural e a dar de caras com o Betão de sapatão em punho, a ameaçar esmagar de vez o Kodac. – Ou paras já ou vais ter com a mana, - ameaçou, usando uma voz de trovão, igual à que usara no Ralys em 1975, durante o assalto dos comandos.
- Com a mana não, eu não sou monga !
- Sempre que saio daqui o caos toma conta do meu estabelecimento. E ainda por cima fui apanhar uma seca. Eu e todos os mongas.
20 Horas Antes
A voz da Dona Pilca ecoava, mais uma vez, pelo estabelecimento.
- Ó Faísca, tira a mão dos meus guardanapos.
- Mas eu só queria levar um para casa, - desculpou-se a funcionária destravada.
15 Horas Antes
- Porra, - gritou o Virgulino, ao testar o cartão Multibanco no relógio de ponto. – Estou liso, o meu dinheiro desapareceu todo.
Na secretária o som estridente de uma campainha chamava a atenção da Doutora Sem Canudo. No monitor do Pato Donald a imagem de um saco azul ocupava todo o écran.
- Estou rica, estou rica, já posso receber os subsídios de Directora auto-nomeada, de Descoordenadora de Coordenadores, e de tudo aquilo que eu quiser.
10 Horas Antes
Quando o Vira-Bicos entrou na Cerci, quase que chocou com a Dona Espatinha e a sua monstruosa abóbora e os vinte mongas que a carregavam, incluindo uma bica quentinha que levava à cabeça. Tinha catado a cadeira eléctrica do Bacalhau, aproveitando uma ida dele e do Pitrogas ao cagatório, e atrelado a resma de desaparafusados que se preparavam para descansava no seu bar, para darem uma ajuda ao motor que não aguentava com tamanho dinossauro.
- Sai da frente ó marmelo, que eu só para na Direcção, - gritou, fazendo estalar no ar um chicote de marmeleiro.
- Epá, mas o que vem a ser isto ? – Insurgiu-se o peão, abanando com a deslocação do ar.
- Vou a caminho dos “Pontos” !
- “Pontos”?!
- Então não sabe que foi criado o “Cartão Canudo”?
- “Cartão-Canudo”?!
- Quanto mais prendas se der à Auto-Directora, recebe pontos neste cartão, e é só descontá-los no C.A.A.G.T.. Com esta abóbora e com o cafezinho que trago à cabeça, levo para casa uma caixinha de “Bollicaus” que foram com o Pedro Álvares Cabral e regressaram.
- C.A.A.G.T. ?! O que é que quer dizer?
- Cadeia de Armazéns da Afilhada !
5 Horas Antes
No primeiro andar a fila estava compacta. Os mongas tinham sido abandonados à sua sorte, a peregrinação à Torre de Babel ( Sala Canudo) entupia o corredor. O Porres tinha mandado reforços para controlar o trânsito, o agente Pato Donald não parava de autuar.
- Trouxe-lhe uma almofada feita de restos de piúgas e uma pega tirada a ferros dumas cuecas pretas do Choco, com o buraco onde estava o emblema do Benfica. – Ofereceu a Dona Piulia.- O Mano manda este quadro do Noddy.
- 15 pontos !
- Tenho aqui um painel de azulejos a retratar a vida árdua dos nossos clientes, - ofereceu a Dona Pilca.
- Mas estão todos a dormir ? – Constatou a Doutora Sem Canudo.
- É por isso que eu disse “árdua” !
- 7 pontos !
4 Horas Antes
No novo gabinete de uma das Afilhadas da Tarde, a própria tentava explicar à Faísca as vantagens de se inscrever num curso pós-laboral para alforrecas, podendo assim ganhar um canudo novinho em folha.
- Não sei, não sei, já não sou capaz, a minha cabeça está sempre em curto-circuito, - queixava-se a funcionária. Qual é a vantagem ?
- A vantagem ? Verá quando for à terra. Deixará de ser a “Faísquinha das Ovelhas” e passará a ser a “Doutora Faísca” !
- Como a outra ?
- Sim, como a outra!
- Alto e pára o baile, - interveio a Doutora Sem Canudo, dando um “basta” no trabalho árduo dos “Sacos para Presentes”, mais uma parceria, desta vez entre Logistas e Desaparafusados. E como já era tradição, os Aparafusados (daqui para a frente chamados “Chineses”) realizavam o trabalho escravo durante as várias semanas que faltavam até ao Natal, e quem ficaria com os louros, como sempre, eram os desaparafusados, agora promovidos a clientes e a estatística para a Segurança Social. O subsídio nº 34 da Doutora para os presentes dos familiares estava assim garantido.
- Cara Afilhada da Tarde, a Dona Faísca não precisa de mais habilitações, a sua formação em ovelhas, cabras e galinhas é mais do que suficiente para tratar do nosso rebanho de quiabos. E assim poupamos dinheiro !
- Mas….
- Nem “mas”, nem “meio mas”, a ideia de dar formação às nossas chinesas está fora de questão. Vou até decretar uma “Fatwa” a proibir mais canudos na minha Instituição, mas primeiro tenho de voltar para o trono, porque o povo espera-me.
3 Horas Antes
- Tenho aqui dois garrafões de “Gerupiga” do meu avozinho, - ofereceu a Terapeuta Zézé, esticando os braços.
- 300 pontos, uma calculadora chinesa e um pacote de leite só com um mês de atraso. Seguinte !
- Tenho aqui uma caixa de pauzinhos de gelado, para poder fazer talas iguais às que fazia no século passado.
- Óptimo, óptimo, assim faço de conta que endireito os marrecos e poupo dinheiro. Dou-lhe 400 pontos !
- Quatrocentos ?! – Indignou-se a Zézé. – Dê-me de volta os garrafões que eu trago-lhe uns troncos de árvore para endireitar cabeçudos.
- Pronto, pronto, dou-lhe mais 100 pontos.
- O quê, o que é que estas pindéricas são a mais que eu ?! – Interrompeu a Dona Piulia, retirando as pegas.
- Ok, tome lá mais 200 pontos e desampare-me o trono. Veja lá se não mete baixa !
2 Horas Antes
A situação estava a começar a ficar fora do controlo. Todas as enteadas queriam passar ao estatuto de afilhadas, e até já ameaçavam derrubar o trono, comprado com o já lendário subsídio do ar-condicionado. Pediram-se reforços !
- Os pontos não são tudo na vida. Voltem amanhã, - gritou o Porres, tentando controlar a situação.
- Os pontos são tudo o que temos, o resto é trabalhar e ganhar como chinesas ! – Queixou-se a Dona Gillete, encostando à parede um quadro de um Santo Mongol, vindo directamente de uma loja chinesa da Brandoa profunda.
- Porres, venha imediatamente aqui, - ordenou a Doutora Sem Canudo, dando ordem de “Stop” às peregrinas. – Que ideia é essa de os pontos “não serem tudo na vida” ? Não vê que assim tenho as chinesas felizes e ainda me levam as porcarias que teimo em coleccionar. Já tive de dar um cartão amarelo às minhas afilhadas da tarde por causa da triste ideia da “Formação” e agora é o senhor ? Mande-as de regresso ao trabalho, porque os clientes já estão a dormir há muito tempo e assim não há cartões para o Natal.
1 Hora Antes
- Posso entrar ? – Perguntou o Vira-Bicos.
- Já não há pontos, - atirou de rajada a Doutora Sem Canudo.
- Trago uma ideia, é de borla, mas dar muita guita.
- Guita ?! – Perguntou a Mãe-Natal Sem Canudo, levantando-se e tocando com os olhos no peito sensual do artista do “palco-monga”. – Adoro clientes que cagam pepitas de ouro…perdão…perdão…dos coitadinhos dos desaparafusados. Faço tudo por eles !
- Tenho um projecto para uma Filarmónica-Monga, que irá tocar em todas as Festas de Natal, em todos os Centros Comerciais, desde as montras dos talhos até ao Palácio de Belém, o mesmo que toca a Filarmónica de Berlim, ou seja, “Let it Snow”.
- Posso ? – Interrompeu a afilhada, trazendo ao colo a sobrinha.
- Saiam todos, tenho de ir avaliar a bebé.
- Avaliar, tia?! Outra vez?!
- Avalio todos os bebés que apanhar pela frente, as vezes que forem necessárias. Não é por acaso que também sou Doutora em Intervenção de Prevenção.
- “Intervenção de Prevenção”?! Intervenção Precoce !
Mas a bebé já tinha memória e pirou-se da tia, fugindo para o único local da Cerci onde a Directora Auto-Nomeada ainda não ousava entrar: na sala da Chefe Bélinha!
- Então e a Filarmónica ? – Perguntou o Vira-Bicos, levantando a perna para deixar passar a criança em fuga.
- Sim, sim, mas também quero que toquem o “Adeste Filetes” daquele rei…
- O “Adeste Fideles”, do Dom João IV, - corrigiu o artista.
- Sim, sim, tirou-me as palavras da boca, e também o “Lengeri à l’éter de Bude”…
- O “Lovange à l’Étérnité de Jesus”, de Messiaen…
- …foi o que eu disse…e também quero a “Obratória da Páscoa”…
- …”Oratória de Natal”, de Bach…
- …e também o “Concerto de flatos pêra a notché du Natálio”…
- …”Concerto fatto per la notte di Natale”, de Corelli. Ainda falta muito ?
- Quero tudo isto para a Festa de Natal !
- Com tantas ideias, como já é tradição, quem vai acabar por tocar no palco é o Pai-Natal do Bar ! – Atirou o Vira-Bicos, já com fumo a sair das orelhas.
Mas a Doutora Sem Canudo estava noutra, preparava-se para montar uma emboscada à pequenita, colocando-se junto à porta da Chefe Bélinha. Mal sabia é que a pequena já tinha sido evacuada pela janela e ameaçara a tia de agressão, caso a trouxesse de novo para as mãos da Inquisição.
0 Horas
Mas o problema do dia não eram estas ninharias. O assunto era sério, o Camarada Choco tinha sido levado para o hospital, porque insistiam em separá-lo do seu sinal nas costas, em forma de santola. As interrogações existenciais eram muitas ! A Cerci estava, pela primeira vez na vida, suspensa num limbo angustiante. Será que na altura em que lhe puxassem a Santola, o Choco se comportaria como um frade das Caldas e ficaria com o cano em sentido ? Ou o sinal seria uma tampa que, depois de aberta, se revelaria uma autêntica “Caixa de Pandora”, de onde sairiam milhares de choquinhos, que tomariam de assalto a Cooperativa ? O Porres estava preocupado ! Os critérios para a sua selecção como Presidente estavam a anos-luz das qualidades de um Choco, quanto mais de mil. E se ao ser retirado, o sinal ganhasse vida e gritasse para o Choco, “papá” ?
Para o médico apenas representava retirar mais um carrapato a um marreco, mas para a Humanidade da Roque Gameiro talvez representasse a abertura da “Caixa do Choco”. Sairia de lá tudo o que ele amealhara ao longo da vida ? Haveria um ataque sangrento, estilo “Guerras dos Mundos”, mas em vez de máquinas seriam cuecas pretas com o símbolo do Benfica, que se colariam para sempre nas bacias de todos os Aparafusados e Desaparafusados; e atrás delas resmas de faluas vermelhas nº 50, que tomariam conta dos pés de todos, incluindo as patas das cadelas. Conseguiria o Arrasta-a-Pata deslocar-se com as barcaças ao longo dos vastos corredores ? E o Primo do Choco, reconciliar-se-ia com o Stor Rico, visto agora serem irmãos gémeos ? E o Stor-Rico passaria a fazer pisca com as faluas, de cada vez que trouxesse a trotinete ? O “suspense” adensava-se.
Na sala de cirurgias a equipa fora apanhada de surpresa pela visita inesperada da Santinha, que obrigara o Choco a mumificar-se junto à entrada do ar condicionado. Mas havia mais ! A identificação do paciente tinha sido feita por fotografia e eles não sabiam quem era a mãe, a filha ou o filho. O progenitor, o senhor Fininho, foi chamado de urgência, para lhes indicar a sua obra prima, mas até ele já estava com dificuldades.
- Da última vez que o vi chegava-me aos joelhos e agora já estão os três do mesmo tamanho. A culpa é dos “gémeos” “Tricas Cólicas”, - disse o pai, tentando impressionar a equipa médica, mostrando assim ser um empresário intelectual.
- O serralheiro destravado quis dizer genes do “Treacher-Collins”, - esclareceu baixinho a enfermeira. – A mãe tem, os filhos herdaram. É por isso que parecem todos uns chocos.
- Então, como é que vamos resolver isto ? – Perguntou o médico, olhando para o relógio.
Só havia uma solução: fazer uma amostra aos três.
- Mas isso é uma violação da varanda alheia, - indignou-se o Fininho, abrindo os braços e protegendo o cardume.
O ar frio do aparelho começara a ter efeitos no comportamento do paciente. O único gene congelara e começara a aparecer gelo nas orelhas.
- Nhi, nhi, - balbuciou o Choco.
Só o telefonema de um cliente conseguiu tirar o Virgulino do Bloco Operatório.
- Mas eu volto depois de fechar a varanda, - ameaçou.
Com as calças pelos joelhos foi fácil identificar o cobridor, através de uma estalactite torta e nervosa.
- É este. Ponham os outros lá fora e vamos despachar a operação, antes que o maluco volte.

Tuesday, October 17, 2006

Camarada Choco 42 - Dias de Mérito

                           Camarada Choco

                                            Aventura 42
À porta da Escola para Desaparafusados & Afins, dez pirilampos de cor azul e com o tamanho do Arrasta-a-perna…perdão….Supervisor de Manutenção, intimidavam os trabalhadores, que iam lentamente chegando para mais um dia de trabalho.
- Hoje é o Grande Dia da entrega das estatuetas com os “Dias de Mérito”, - informava a afilhada da Dra. Sem Canudo, trajando o fato do casamento, já realizado.
Os critérios de selecção eram rigorosos, não fosse essa a imagem da gestão do Estabelecimento de Reeducação. O tapete vermelho estendia-se em direcção ao novo Espaço Desportivo, local de distribuição das comendas. O povo estava nervoso ! Na parede destacava-se um aviso: “é obrigatório o uso de identificação. Não é autorizada a presença de elementos estranhos neste “estaminé”. A segurança actuará em caso de desobediência”. E a força bruta não olhava a meios para estancar os intrusos: o Pato Donald barrava a entrada aos prevaricadores. De vez enquanto, tal qual um alarme de supermercado, lá se ouvia o barulho de uma corneta de feira, alertando para a passagem de um infractor. Entrava então en cena o Supervisor de Manutenção, que tentava deter o indocumentado, caso a perna permitisse a perseguição, o que não se passava a maior parte das vezes. Mas nem tudo eram espinhos ! A cultura tinha chegado aos desaparafusados: estava agora a descoberto uma zona pré-histórica, constituída por um conjunto giríssimo de calhaus. Teriam vivido nesta zona homens das cavernas ? Mongas cavernosos ? Porres e Virgulinos com uma tanguinha e um osso na cabeça ? Todos olhavam desconfiados para o primo do Choco.
- Parece um “crómanhôn”, - disse o Vira-Bicos, escrevendo a ideia no caderninho de planeamento de espectáculos. – Vou pô-lo no palco neste Natal, junto aos manos.
No bar a Dona Piulia explicava às colegas as razões para a sua esperada vitória.
- Vejam bem, “mérito” vem do latim, que significa “médico”. Ora a que tem mais “curriculum” para os “Dias de Médico”, sou eu. E já me doem as costas. Espero que não atrasem a festa, porque senão ainda meto a centésima baixa do ano.
Nos Serviços Administrativos o Porres esclarecia os seus assalariados que as suas ausências permanentes aos fins-de-semana, apesar de ganhar um extra para estar presente, não entravam nos critérios de selecção para o “mérito da Venteira”.
- Um homem com estas qualidades todas, Supervisor de Manutenção, Motorista Semanal e de Fim-de-Semana e Presidente, será sempre um vencedor, - dizia, com o peito inchado e a pata torta.
O Cabo ultimava a saída dos “Chips”, tentando que não se repetisse a cena das célebres “Folhas de Pagamento”.
- Ou eles saem depressa, ou o Pato Donald vai passar o dia a tocar a corneta.
O programa não era informático, tinha-se optado pelo modelo tradicional, mas muito mais fiável: o Pintor e o seu Bando ! Os B.I.P.R.I (Bilhete de Identificação Para Reeducadores de Inadaptados) silenciaram o pato e trouxeram um pouco de calma à zona da entrada.
- Estava a ver que tinha de ir a casa buscar a caçadeira e apagar o pato, - desabafou o Pintor. – Depois dava-o ao Stror Rico que o transformaria no melhor arroz da Península Ibérica.
Tirando o Choco, que congelara junto a uma das estátuas da entrada, tudo estava nos conformes. Tudo ?! Tudo não ! O Kodac tinha atribuído ao Pintor a profissão de Pintor e ele queria mais.
- Pintor, só Pintor ?! O meu grau académico é Pintor Formador Cobridor……enganei-me, foi a emoção….escreve só Formador, e enquanto o cargo não estiver oficializado no Cartão de Utente da Escola, não pincelo. Palavra de Escultor !
- Escultor ? – Interrompeu a Dra. Sem Canudo, agora convertida em Directora Geral de Mongas & Acompanhantes (D.G.M.A.).
- Escultor?! Eu disse Escultor ?! Queria dizer Formador, - emendou o senhor Pintor, de nome próprio igual ao do pai do Pitrongas, o que causava uma certa confusão na cabeça do pobre do Cliente-Monga (Climongas), levando-o muitas vezes a chamar pai ao Pintor e a dar-lhe os bons-dias em grego.
- Na minha LEI (Lei Geral Acanucada) não há lugar para “Formadores”, excepto se a minha afilhada o necessitar. O senhor mantém-se exclusivamente “Pintor”, e daí não sai, - ordenou a Dona do Espaço, conhecida entre os Mongas (Educativa) e Clientes (CAO) como a Dra. Sem Canudo.
Mas o Pintor era um homem feito com barro do século passado, tinha genes do Viriato e ripostou:
- Aqui , na Lei da República, eu sou “Pintor- Formador”.
- “Lei da República” ?! Essa eu também já comprei e não diz respeito aos mongas.
- Então, diz respeito a quem ?
- Amanhã, amanhã respondo….Kodac põe lá o “Formador”….”Lei da República”….disparate….a Lei sou EU. Tenho rapidamente de alterar os Estatutos, porque senão perco o tacho para sempre e vou ser obrigada a trabalhar na profissão que já deixei há vinte anos.
A monotonia foi interrompida por algo transcendental. O Porres entrou a andar normalmente no corredor de acesso ao novo Pavilhão Desportivo.
- Então agora já não mancas, ó coxo ? – Perguntou o Betão, a nova “cocluxe” da Cerci, com um volume de voz igual à da sua alma gémea, o Stor Pobre. Tinha entrado como Cliente, era mano da Piulia, mas muito melhor que a irmã, que ocupava um cargo de Supervisora de pegas e tapetes de Arraiolos inacabados, e sem data marcada, porque no turno da manhã começavam a montá-los e no turno da tarde era precisamente o inverso, tudo isto tendo como base filosófica o “Grande Livro Pedagógico da Doutora Sem Canudo”.
- Esqueceu-se que é coxo, - disse a Dona Gillete à sua colega mais nova.
- Eu bem te dizia que ele era coxo da cabeça – retorquiu a Dona Tosta, erguendo os braços em sinal de triunfo.
Seria este um segredo que se escondia atrás de muitos outros ? A passagem repentina de Condutor de Mulas para Supervisor de Manutenção, após a vitória numas eleições, introduzira na Cooperativa de Solidariedade o fantástico e trouxera o género lúdico contagiante que era apanágio de todas as outras “Escolas Para Desaparafusados”, o célebre “fui o primeiro a chegar, só saio dentro de uma caixa e deixo cá a família”. Entretanto, a proprietária massacrava, mais uma vez, a cabeça da Chefe Bélinha.
- Os teus subordinados andam a fazer as coisas fora do penico. À roda do cesto de papéis, que comprei a peso de ouro com o célebre subsídio para o ar condicionado, está cheio de papéis acastanhados com grainhas de uvas e caroços de azeitonas. Na minha secção isto é impensável, pois registo tudo em vídeo.
A conversa é interrompida por um sonoro flato, seguido de uma tosse forçada.
- Este deixou rasto ! – Gritou a Lolita, saindo detrás duma coluna.
- O que é que fazes aqui, Lolita ? – Perguntou exaltada a Directora auto-eleita, virando-se para a cliente.
A folga nas válvulas do Supervisor de Manutenção já era tema de conversa entre os mongas, agora chamados clientes com a Reforma da Segurança Social, e incluía também os que não falavam.
- Espero que a culpa agora não seja minha, não fui eu que o contratei – disse a Chefe Bélinha.
- Todos somos responsáveis pelo Supervisor. Por este andar qualquer dia passa para Cliente.
No andar em baixo ouviu-se de novo o som de uma corneta. Era o Stor Rico, vindo directamente do “Café Central”, a coxear. Nova corneta, novo coxo, desta vez a Terapeuta Zézé:
- Esqueci-me da identificação no “Condor”. O senhor Segurança Pato Donald pode esperar um pouco, porque eu vou perguntar ao Nélinho se já trouxe as malas da nossa magnífica excursão ao Algarve com os Mongas. Ficava naquele barco para sempre, depois de atirar pela borda fora todos os clientes.
- Mas para a próxima vez não tentes imitar a cena do “Titanic”, e ir abrir os braços para a proa. Tive de trazer mais um deficiente, desta vez uma coxa, - disse o Nélinho.
- Este Nélinho é tão insinuante que me faz acreditar no improvável, e desejar que seja real. Vou já meter uma baixa !
Na parede junto à Sala dos Têxteis, um cartaz do Departamento do Saco-Azul, situado na área do Treino Social, anunciava uma novidade:

“Aforro – Monga, se ainda acreditas que tens futuro aqui, investe numa poupança feita à imagem deste local, com garantias de retorno em mini-tijolos para barragens e tubos de ensaio para casamentos. E caso haja funerais, os nossos mongas estão aptos para tudo, são uma autêntica mina de ouro. Não há petróleo no Beato, mas em compensação a Venteira está cheia dele. A qualidade do produto é garantida pelo trabalho escravo dos funcionários e o descanso permanente das pepitas. Com os seus investimentos estão a garantir a Família e os seus Descendentes”.

Um pouco mais à frente outra novidade!

“Vá ao Parque Aventura da Bolacha, junto ao Bar Azul. Veja a magestosa videira do Virgulino; toque no pinheiro do Vira Bicos; sinta a frescura da erva daninha do Porres; prove um croquete da Duna; e muitas outras surpresas”.

Na porta de entrada o Choco continuava entregue às delícias da Santinha, que se apresentava, como de costume, em trajes menores, ou melhor, completamente pelada, influenciando assim os humores da cabecinha. Estes encontros libidinosos tinham sempre acontecido no balneário da piscina, quando ele tentava calçar as meias, que teimavam em entrar pelas orelhas; queria vestir as cuecas, amarelas à frente e castanhas atrás, como mandava a tradição, mas o nariz não deixava. A Santinha toldava-lhe a razão, ou melhor, os vestígios dela, e arremessava-o contra os prazeres da carne, neste caso um chouriço mal amanhado, com bolor, e torto, muito torto. A única parte do corpo mumificado que se movia eram os olhos, que seguiam o “show” da Santa, deixando-o numa posição convidativa: de cu para o ar ! Os glóbulos oculares estavam agora na nuca, porque a atrevida fugira para a pala, e acenava ao Choco com algo da Noruega. Estas cenas tinham sempre hora marcada quando estava no balneário, que coincidia com a presença de um velhote dotado de um fabuloso par de tomates. O reformado bem tentava chegar à roupa, mas o fato de treino estava sempre mais perto do nosso herói e ele temia ser atacado. Das poucas vezes que conseguiu alcançar as cuecas, vesti-as rapidamente, mas era tarde quando se apercebia que eram as do Choco, as pretas do Benfica. Nestas alturas já a carrinha ia longe.
Noutro canto o Pintor fazia contas ao prejuízo. De todos os “Noddys” e “Autoretratos” encomendados, foram poucos os que lhe tinham pago o serviço, sendo a mais caloteira a Patinho. Mas o sucesso era tanto, que houve quem quisesse uma pintura recatada, ou pelo menos era o que o artista tinha pensado. Felizmente que não tinha caído no conto do vigário dos pôr-do-sol africanos !
A afilhada tentava mostrar serviço, vendo nisto uma hipótese de promoção.
- É obrigatório o uso do Cartão do Cliente.
- Cliente ?! –Interveio a madrinha, - de Trabalhador da Doutora !
- Era o que eu queria dizer, de Trabalhador da Doutora.
No WC mais perto o Stor Rico olhava desesperado para o nascimento da sua careca.
- Não, não, logo agora que estou um tubarão-martelo. Se fosse há meio século atrás ninguém me agarrava, o cabelo estava pelos ombros, o bigode batia-me na testa, ia e vinha às Berlengas a nado, e ainda trazia um carapau com 30 Kg entre os dentes, depois de ter subido a Serra da Estrela dez vezes com a bicicleta do João da Fruta, e ter martelado várias suecas pelo caminho. Agora o meu ritmo é igual ao da Vespa.
Enquanto isso o Stor Pobre tinha acabado de levar com um cartão amarelo da Chefe Bélinha, por ter chamado coxo ao Porres.
- Eu não quero faltas de respeito para com o Arasta-a-Pata, - disse com autoridade.
Entretanto, as reclamações chegavam à mesa do Cabo Pilas. A afilhada da tarde, que só aceitava a Dra. Sem Canudo como madrinha quando todos saiam, reclamava:
- Então elas não são Especializadas e no cartão diz que sim. Eu não andei dois anos a comprar a Farinha “Pensal”, para agora estar ao mesmo nível das oxigenadas. Gastei um dinheirão até me sair o diploma.
- A mim saiu-me na “Cerelac”, - picou a Abelha Maia. – Ontem fui pela milésima vez ao Ministério e elas fazem poucas horas. Vou massacrar a Chefe.
O dia da Chefe Bélinha tinha nascido torto. Ela bem tentava atirar água em todas as direcções, mas os focos de incêndio iam reacendendo: o Stor Rico tinha um cano roto, a Abelha Maia mongas a mais e as colegas minutos a menos e o Stor Pobre tinha acordado com a carga toda e não largava os calcanhares ao Coxo….ao Arrasta-a-Pata…ao Deixa-que-eu-Chuto….
Finalmente ouviu-se uma corneta a sério, era o Castanheira a anunciar o início da festa de entrega dos “Dias de Mérito”. No vasto Recinto Desportivo, com capacidade para sete Mongas de 50 centímetros e dois Clientes de 1 metro e trinta centímetros e não mais do que 45 quilos e trezentos gramas, coube toda a Escola. No espaldar, a Dra. Sem Canudo anunciou os contemplados: Dona Piulia, o Supervisor de Manutenção e ela própria. Quanto aos restantes, aconselhou-os a esforçarem-se mais e a verem neles um exemplo a seguir.

Thursday, September 14, 2006

Camarada Choco 41 - Director’s Cut

                        Camarada Choco

                      (parte 3 da triologia "O Cabo das Tormentas" - O regresso do Cabo)
                                                     Que foi censurada na Europa

                                      Aventura 41

- Mas não era com isto que contávamos ? – Perguntava indignada a Menina Tatrícia à sua própria sombra, ao tomar conhecimento de que o Cabo pilas se tinha apresentado ao trabalho. – O homem, além de não ter dado o berro, mudou a cor para roxo. Tenho de ir avisar a Pilca.
A entrada na Sala das Roscas foi tão repentina, que passou por cima da educadora, dando-lhe uma panada no penico onde borbulhava a cera, que foi aterrar na cabeça do novo elemento, o Canivete Suíço 2, que ameaçou ir chamar o pai e o seu Mercedes, comprado com o saco azul que faz parte do fardamento dos fiscais de obras da Câmara Municipal. Um dos pingos continuou viagem e aterrou nas calças do primo do Choco, o motorista militar, que ameaçou de imediato o culpado com o pau que tinha dentro do carro:
- Deve ter sido um dos doutores ou doutoras, invejosos da minha grande afinidade com o camarada.
Aquele de quem o primo do Choco desconfiava estava longe, muito longe, a tomar o pequeno almoço, desde as oito da manhã, altura em que abriu a porta da Cerci à Dona Pilca, no sítio mais recatado da Venteira, o “Café Central”, na companhia da sua misteriosa companheira.
- O que é que queres ò mulher ? – Perguntou a Dona Pilca, assustada com a entrada intempestiva da colega.
- Nem imaginas quem é que voltou?
- Desembucha, que eu ainda tenho de pintar vinte azulejos para a Cremesse da Doutora e quinze tubos de ensaio para o Casamento Real da Afilhada.
- O Crómio!
- O dos “Morangos com Açúcar”?
- Qual “Morangos com Açúcar”, o Cabo, o Pilas, o maldito.
- O Pilas?
- Sim, o Sapo!
- Não te assustes, tenho tudo controlado e pronto para caso ele sobrevivesse, - disse calmamente a Senhora das Roscas, levantando-se e abrindo o armário, de onde tirou um boneco. – Preparei-me para este dia com o “Curso Intensivo de Magia”. – E mostrou um boneco de palha. – Apresento-te o Gonorreias!
- Bruxaria? Vê lá o que é que vais fazer.
A Dona Pilca afastou as revistas, deitou de barriga para baixo (decúbito ventral) o Gonorreias e enfiou-lhe, com todo o prazer estampado no rosto, uma agulha pelo “olho” dentro.
- AIIIIIIIIIIIIII – gritou o convalescente, lançando uma mão desesperada ao cagueiro, passando a coçar-se sofregamente.
- O que é que se passa, Kodac? – Perguntou a Psicóloga morena, aparecendo pelas costas do Cabo.
- São as cruzes, são as cruzes – respondeu a vítima, voltando-se para a colega.
- Chico?? Enganas-me sempre de cada vez que te vejo de costas. Mas estás com dores aí? O Coração é lá em cima.
- Se substituíres o “o” pelo “u”, vais ver que em mim não notas as diferenças, - tentou acalmar a colega.
Entretanto na Sala das Roscas.
- Mas isso funciona! – Exclamou sorridente a Menina Tatrícia, tirando da caixinha outro alfinete, espetando-o de imediato na parte frontal da bacia do Gonorreias.
O Pilas tirou as mãos do cagueiro e lançou-as sofregamente à fruta, dando uma cabeçada no vidro da secretaria, que assustou o Pato Donald, que foi a correr em pânico para o colo da assistente da Dona Sãozinha, obrigando-a a ficar com o telemóvel colada à vista esquerda.
- Digam-lhe que eu não estou cá, e só volto amanhã – gritou o Porres escondendo-se debaixo da secretária. - Assim, talvez ele se vá embora e só volte para a semana.
- Quando ele se misturar com os utentes nem vão notar, -exclamou a pupila da Dona Sãozinha, atirando o Pato para dentro do armário. – O Porres por arrastar uma perna e a cabeça foi logo para motorista. Isto está a ficar lindo! E não nos podemos esquecer que a Sem-Canudo está agora ao leme principal.
- Não tarda nada o barco encalha – respondeu o Porres, espreitando pelo vidro.
O Pilas estava parado, sem convulsões, e preparava-se para bater à porta.
- Vocês são indecentes – protestou a Pirosa. – Eu não quero meter-me nas vossas jogadas, mas o que estão a fazer ao senhor Cabo Pilas é desumano. A natureza já lhe deu aquele ar sapudo, o Coração atraiçoou-o, tiraram-lhe a sala, e agora vocês querem o quê?
- Sete palmos abaixo da terra – respondeu firme e com convicção a Senhora das roscas, tirando o Gonorreias das mãos da protestante e cravando-lhe uma tesoura na barriga.
A reacção do visado foi dada pelos intestinos, que soltaram um sonoro flato, que fez estremecer a porta dos serviços administrativos. O Pato Donald, que saia calmamente dos arquivos, deu um sonoro berro tipo corneta e foi enfiar-se na trincheira do Porres. Mas houve mais consequências. A orquestra sinfónica dos “Mongas com Açúcar” deixou de tocar o “Milho Verde”, a Doutora Sem Canudo riscou o cheque azul e a psicóloga morena ficou com o cabelo estilo carapinha, que levou o Gorila da Educativa a chamar-lhe “mana”.
- Epá, temos aqui um cavalo ! – Zurrou o primo do Choco, coçando a fruta.
- Devem ser os efeitos secundários dos remédios. Eles falavam em pequena flatulência.
- Pequena flatulência, Kodac ….Pilas, Pilas? – Perguntou indignada a Psicóloga Africana. – Penso que o colega não está nas melhores condições para se apresentar ao trabalho. Isso que o Cabo largou já está ao nível de um atentado suicida.
- Pôs-me em frangalhos as cuecas, - queixou-se o Pilas, desapertando o primeiro botão da braguilha.
- Eu não quero saber das suas intimidades – protestou a Psicóloga Morena Africana.
Mas nisto entra, sem aviso, a Psicóloga Loira e o Virabicos e acende um isqueiro….
- Não…….não……- ainda alertou a Assistente Social ,-cuidado com o Metano…..
A explosão foi tremenda!
No átrio só ficou de pé o Pilas, rijo que nem um chouriço nervoso. Façamos a descrição dos restantes elementos presentes:
- O cabelo da Psicóloga Loira foi parar à cabeça do Vira-Bicos, que passou a Cozinheiro – Sueco.
- A Psicóloga Morena, que já tinha sido vítima do primeiro flato do Cabo pilas, que a transformara em Psicóloga africana, herdou o bigode do Porres e passou à condição de Identidade Indefinida.
- Uma das tias que passava naquele momento, vinda directamente de um cabeleireiro, com um penteado tipo abajour, levou com as ondas de choque e ficou estilo hippie.
- A Senhora dos Têxteis saiu do estado letárgico e disse: “pode entrar”!
O Porres levantou-se e tomou uma atitude:
- Tirem o anãozinho mágico daqui antes que ele destrua o edifício.
Na Sala das roscas a Pirosa tentava separar as colegas e alcançar o Gonorreias.
- Parem, parem com essas maldades, coitado do Sapudo.
- Coitado? – Gritou indignada a Dona Pilca. – Coitada é de mim que sou uma vítima desse maldito sapo.
E novo ataque, agora um prego de aço, que penetrou no boneco de palha e furou-o de lado a lado. Parecia a partida de um Grande Prémio. O Pilas arrancou com o rabo a arrastar pelo chão, em direcção às entranhas da Cerci, deixando rasto no chão como o caracol. Quando o Porres se levantou já o Cabo não constava.
- Respeitinho é muito bonito. Eu sou o Presidente!
Pelo caminho atropelou a Dona Piulia, que meteu de imediato baixa.
- Não, não, não, - tornou a gritar a Pirosa, tirando de novo o Gonorreias das mãos das piranhas. – Vocês ainda o vão matar. Não viram que o pigmeu já ia a deitar fumo negro do escape?
- Cala-te ó mulher, não venhas para a minha sala dar-me lições de moral – impôs-se a Senhora das Roscas tirando o boneco de palha das mãos da beata, e arremessando-o contra a parede.
O arroto que o Cabo Pilas deu no bar foi tão grande, que atirou ao chão todos os noddys da sala do Pintor. Até o Lampreia enfiou vários murros na perna esquerda, preparando-se para um remate.
- Ouviste o urro do pequenote ? – Perguntou em desespero a Pirosa, agarrando no Gonorreias e atirando-o para fora da sala. – Eu não quero ter como amigas duas assassinas. É meu dever tirar-vos do caminho do Mal.
O anãozinho mágico de palha aterrou aos pés da Dona Piulia, que olhou para ele e disse:
- Olha uma pega. O que é que ela faz aqui no corredor? – Pegou nele e guardou-o na Bata.
A um bolso de uma bata chegam sempre os odores de quem a usa.
- Eu queria um pastelinho de bacalhau ? – Pediu o Cabo Pilas à Dona Espatinha.
- Um pastel de bacalhau?!
- Cheira a bacalhau. Como é daqui que se enche o maior saco azul da Doutora, pensei que tivessem aumentado a oferta.
- Francamente senhor Cabo, isto aqui ainda não é uma taberna. Tem de ir ao médico ver o que é que se passa com o seu olfacto.
Mas o Pilas estava noutra! Tinha o nariz apontado para o ar, à procura de um novo odor. Na outra ponta do corredor a Dona Piulia tinha-se escapulido, com o sinal de emergência ligado, para um canto do exterior.
- Mas aposto que está a cozinhar couves e feijão preto ? – Insistiu o Cabo Pilas.
- Couves e Feijão?! Francamente senhor Cabo, eu penso que o senhor deveria continuar com a baixa.
- Onde está o Gonorreias, Pirosa? – Perguntava desesperada a Dona Pilca, removendo todos os caixotes do lixo.
- Não sei, mas mesmo que soubesse não te dizia, bruxa malvada.
- Se não vai a bem vai a mal – gritou a Senhora das Roscas agarrando numa tesoura e correndo para a porta da sala. – Onde é que pára o Cabo Maldito?
Por vezes os céus estão atentos. Quem parou a marcha da Dona Pilca foi a ex-loiraça do Castanheira, que levou um encontrão tão grande, que foi projectada contra um dos móveis que a Doutora mandou trazer dum contentor junto à Azinhaga dos Besouros, para o Pintor o transformar à imagem desta Cooperativa de (in)sucesso.
- Vou tratar de ti, minha pequenina, - gritou a Pirosa, arrastando a Dona Pilca para a sala.
Entretanto…
- Trá-lá-la, trá-lá-lá – cantava o Nélinho no momento em que passava ingenuamente junto ao pesado amarelado que se encontrava tombado a obstruir a entrada da Sala das Roscas.
Mas nesse momento a ex do Castanheira acordou e fixou o açoriano.
- Ah então foste tu que me abalroas-te, meu bombom das ilhas. É agora que te vou encher a boca toda!
O resto são cenas íntimas, que nada têm a ver com o nosso querido Cabo Pilas.

Thursday, August 03, 2006

Camarada Choco 40 - I Have a Dream!

                          Camarada Choco
                                                              Aventura 40

O primeiro sinal chegou pela manhã e fez-se silêncio absoluto na sala principal da Cooperativa: a impressora oferecida por um benemérito que fizera uma limpeza ao sótão de sua casa (e pensava que assim iria ter um lugar aprazível lá em cima ), mas que fora paga, e bem paga, por um projecto de apoio aos marrecos sem marrecas da câmara, debitava as célebres folhas de pagamentos, que durante muitos anos tinham sido feitas pelas saudosas mãos da sempre presente Dona Sãozinha, sem erros, e que foram depois substituídas, após a entrada da Doutora Sem Canudo, por um programa informático para traineiras da Somália.
Rostos ansiosos e corpos inquietos pelo sufoco da constante mongalhice contabilística, davam o tom a um ambiente de drama anunciado, criado pela necessidade absoluta de suprir dificuldades na atribuição de subsídios africanos: 10% do ordenado para não vir passear ao fim de semana com os mongas; 80% para quando se atingir a coordenação da própria coordenação descoordenada.
E finalmente a Folha de Pagamento debitou a categoria da funcionária contemplada: Paquete, com farda e tudo!
A notícia depressa se espalhou, a função passava a ser despejar os cinzeiros, os cheios e os vazios, e entregar bicas nas salas, com um horário de cinquenta horas semanais.
A ditadura acabara, a revolução dos cravos finalmente chegara à Cooperativa, 30 anos depois da outra. A contemplada tentava, desesperada e usando os mesmos modos de expressão da Papoila, a careca da sala do Milho Verde, voltar à posição anterior, mas a situação fugia-lhe ao controle. A máquina oferecida, mas comprada com um chorudo subsídio, que sustentava os 10% e os 80%, confirmava o veredicto.
- E ainda vou ter que comprar a farda, porque aqui as manias da Direcção são pagas pelos funcionários.
Tentou ainda uma última manobra:
- Eu é que mando, eu sou a proprietária deste espaço, a super-coordenadora de mim própria e dona de vocês todos - e ameaçou dar ordem à máquina para mudar a categoria de todos os insubordinados.
Mas o poder estava nos corredores e a contra-revolução não tinha apoios. Tentou fazer um apelo ao Presidente, mas este estava a tentar desentalar o filho da retrete e a meditar sobre a sua nova categoria: de Super-Intendente passara a apanha-croquetes. Lá se iam os 10% para não fazer nada ao fim-de-semana.
- Decreto que tudo o que aquela máquina debitar é ilegal, - tentou, mas o povo não deixou. – Isto é tudo culpa daquela contabilista que fui buscar de borla à Mitra, mas é ela a única que consegue manter o meu subsídio de super-dotada para descoordenar. Não posso mandá-la embora porque senão ainda acabo no Tarrafal.
Tentou reagrupar as tropas no Bar, mas a situação piorou quando deu de caras com 4 Noddys e uma Musa Pelada num sofá de pele de zebra, na sala do Pintor.
- Pornografia na minha quinta?
- Mas com que direito é que uma simples paquete ousa entrar por este espaço cultural, sem pedir licença? - Levantou-se o senhor Pintor, um ex-candidato ao Festival da Canção da Casa do Gaiato, agora promovido a Maioral da Roque Gameiro pela máquina marada. – Finalmente a justiça aos cinquenta anos, não andei todos estes anos a estudar e a pincelar damas para ganhar menos que o analfabeto do Presidente & Companhia. Vá imediatamente despejar os cinzeiros, sua pirosa armada em galo, os cheios e os vazios, senão apanha com um processo disciplinar por desobediência ao Maioral, senhora ex-doutora Sem Canudo, actual funcionária da categoria Paquete com Farda!
A Lei era a Lei, mesma para quem pensava que estava acima dela. A nova trabalhadora não teve outro remédio senão ir limpar as conchas e as tampas dos frascos de compota. Quanto ao ex-Pintor, escoltou-a até ao contentor, montado no cavalo da sala 4 da Educativa. Ainda pôde ver a contabilista estrábica a entrar de rompante na Secretaria, para tentar substituir o software africano por um chinês, ambos pagos a peso de ouro por um projecto para dar ar condicionado aos mongas.
- Depressa, restaure-me a categoria – gritou desesperada a Paquete com Farda mas Sem Canudo, enquanto abria a tampa verde e se cruzava com o Apanha Croquetes. – Temos de reconquistar o Poder.
- A culpa é sua, está sempre com esquemas marados.
- Não se esqueça que foi com “esquemas marados” que passou de “Instrutor de Mulas Coxas” a “Supervisor de Mongas e de Tudo o que Não Mexe”. Veja lá se quer retornar à profissão que deveria ser de toda uma vida, mas que graças a mim, e à minha astúcia, se transformou numa Lotaria.
- Acalme-se, acalme-se, estava só a brincar – acautelou-se o “apanha croquetes”, pensando no futuro. – Para condutor de mulas não volto!
Entretanto noutro canto da Escola o Cabo Pilas acabara de saber que tinha sido promovido a ajudante da cabeleireira na Sala das Roscas.
- Vais começar por derreter a cera com o bafo, ouviste anãozinho reformado, - ordenou-lhe a agora Madre Superior, a implacável Dona Pilca.
- Mas eu já não tenho bafo para apagar as velas, sou um deficiente das Forças Armadas, - lamentou-se o ex-militar, apoiando-se no ombro da Senhora dos Pincéis.
- Tira daqui o coto, ó meia-leca, e toca a trabalhar. Nesta sala és igual aos teus colegas das roscas. Tens dez minutos para preparar a cera. Já há clientes na sala de espera.
- Mas como é que isto aconteceu, ainda ontem era o Doutor Cabo Pilas e hoje sou o Chico da Cera?
- Cala-te pigmeu e toca a trabalhar!
Por cima deles, a funcionária da lavandaria, a Dona Tremelga, acabava de saber que estava aos comandos do barco e tinha rapidamente de dar um rumo à Instituição de pouca Solidariedade e de muitas cunhas.
- Eu? Porra, mas a P_ _ A da Dra. Agora é paquete e eu é que tenho de tomar conta desta M _ _ _ A ? F _ _ _ - SE o raio do azar. Ao menos vou deixar de lavar as cuecas do P _ _ _ _ _ _ _ O do Porres !
A anarquia instalava-se lentamente, até os têxteis tinham mudado de mãos. Agora era o Vira-Bicos que fazia rendas para fora e pegas para dentro e o Nelinho estava aos comandos da máquina de cozer. Quando à Dona Piúlia era a única que continuava mais para lá do que para cá, mas agora nos Serviços Administrativos a tirar fotocópias em branco.

TRIM, TRIM, TRIM,
tocou o despertador na casa da Doutora!
- Que pesadelo, chiça. Ter tantos tachos está a dar cabo de mim!

Friday, April 28, 2006

Camarada Choco 39 - O Cabo das Tormentas (Triologia) - III



                                                   Camarada Choco
                                             Parte 3
                                     O regresso do cabo 
                                         Aventura 39

A bonança tinha regressado e a Dona Pilca deitara a beatice para trás das costas e entregava-se agora à luxúria dos parafusos; a sua colega de martírio, a Menina Tatrícia, enterra para sempre os remorsos e dedicava-se agora ao fabrico e exportação de sabonetes. A vida corria calma, para trás ficaram os dias loucos dos remorsos.
Mas a sorte ia mudar!
Algures na Escola de Reeducação de Desaparafusados, a psicóloga da área educativa estava ao telefone com uma encarregada de educação desaparafusada de um desaparafusado, tentando convencê-la que o cabelo do filho já não cabia na carrinha e que o cheiro atingira a redline, enquanto a mãe esclarecia que o marido, enquanto estava sóbrio, era um pai muito atento à educação do filho, tal como ela, que fora incomodada só para lhe dizerem isso. Ameaçou deixar de receber os subsídios se tornassem a acorda-la às onze da manhã.
Trim, trim…
Levantou os olhos do telefone e procurou a assistente da dona Sãozinha. Não estava.
- Que maçada, vou ter que ser eu a abrir a porta – refilou, arrastando-se até ao visor.
- Kodac? A esta hora da manhã? – Pensou, - que grande balda, entra às horas que quer – e carregou no botão.
Pouco depois um pequeno vulto compacto espreitou pelo vidro.
- Kodac, isto são horas de chegar à escola? – Perguntou de rajada a assistente da assistente da dona Sãozinha, levantando os olhos para o recém-chegado.
Ficou muda, abriu os olhos, recuou, deixou cair o telefone e, após um longo silêncio, cumprimentou:
- Bom dia Cabo Pilas, bem-vindo ao lar, doce lar.
O regresso do Cabo foi efusivamente recebido pelos alunos profundos da Educativa, e por dois coices da Papoila no armário da Dona Gillete, que deu um berro tão acústico que fez abanar as roscas da Dona Pilca e derreter os sabonetes da Menina Tatrícia.
- Meus Deus, senti um frio a subir-me pela espinha – resmungou a ex-beata Pilca.
- Epá, que grande arrepio – exclamou a ex-beata Tatrícia, rasgando a folha da revista “Maria”.
- …on…ia – respondeu, finalmente, o ex-ausente.
- Então, estás melhor?
- …elhor…que…unca!
- Estou a ver, estou a ver. Se me permites, Kodac…perdão…Pilas, vou continuar a falar com esta mãe.
- …ou…umprimentar..o…essoal.
Ao longe a Dona Pilca começou a pincelar a mesa e a coçar freneticamente a cabeça.
- Pilca, acalma-te – gritou a própria. – Que estranho, mas o que é que se está a passar? Estava tão bem.
Noutra sala..
- Estás a comer o sabonete, Tatrícia – avisou a assistente.
Toc, Toc,Toc – bateu o cabo na primeira porta do CAO.
Nada!
Resolveu abrir a porta e…
- …on…ia – cumprimentou.
- Bom-dia, bom-dia, bom-dia – respondeu uma das destravadas, abanando o corpo e trincando os dedos.
A Dona Gilette levantou a cabeça e avisou:
- Kodac, o que é que fazes aqui? Devias estar a pintar um Noddy.
Quando as lentes do bazar chinês finalmente conseguiram focar-se na cara do intruso, a senhora deu um pulo:
- Cabo Pilas? O senhor por aqui?
- …á…tou…om, ….do….melhor. Só….eria…dar os…ons….dias.
- Bom-dia também para si.
- Bom-dia, bom-dia, bom-dia, repetiu novamente a destravada.
Não houve tempo para outros cumprimentos, porque o Cabo seguiu viagem para a porta ao lado.
- Hoje não acerto com nenhum sabonete – queixou-se a Menina Tatrícia. – Não sei o que é que se passou comigo. Estava tão bem, se calhar é a “síndrome da santinha”, do Choco.
Quando o Cabo chegou aos têxteis, ouviu o berro da Dona Pilca.
- Mas o que é que se passa comigo? Nem consigo pôr uma rosca…e estes calores…este tremor – barafustava
- …on…ia – saudou os desaparafusados dos Arraiolos.
Ninguém se mexeu. Estavam todos mais para lá do que para cá, como do costume.
- …mas..o…que é que se passa? Estão…odos…alucos?
Seguiu viagem. O berro da Dona Pilca fez com que a Menina Tatrícia se precipitasse em ajuda à sua amiga de martírio. Assim, quando chegou à sala dos sabonetes, a assistente, que estava tão absorvida nos novos sapatos de pele de sapo desaparafusado, nem levantou os olhos, e limitou-se a responder-lhe ao cumprimento:
- Bom-dia Kodac.
Entretanto…
- Então, o que é que te aconteceu ó mulher? - Perguntou a Menina Tatrícia, entrando de rompante na Sala dos Parafusos.
- Estou com calores, muitos calores.
- Menopausa?
- Devo estar a ficar mais desaparafusada. Isto pega-se!
- Eu hoje também não ando a bater bem. – Confessou a Menina Tatrícia, sentando-se ao colo da Tininha.
Faltavam três metros para o Pilas atingir a porta da Sala dos Parafusos!
- Há qualquer coisa que não bate certo. Eu pressinto algo!
Toc, Toc, Toc, ouviu-se na Sala das Roscas. Ninguém ligou. Os comportamentos da Dona Pilca tinham-se agravado. De gatas no chão, coçava a orelha com a perna esquerda.
- Ó mulher, comporta-te, - gritava desesperada a Menina Tatrícia, tentando trazer à realidade a colega de infortúnio. – Eu já te tinha dito para não abusares das tintas chinesas. Agora deu nisto, o que é que te irá acontecer mais?
O destino por vezes é “madrasto”, e quando no passado há uma mancha negra, neste caso um Cabo, a vingança dos céus poderá ser terrível. Nem várias idas a Fátima atenuarão a ira celestial.
TOC, TOC, TOC, insistiu o ex-militar, não de Abril, mas de outro mês qualquer.
A orelha da Dona Pilca já deitava fumo, e um bigode republicano cobria-lhe a face.
- Outra vez esse sinal – gritou agora a Menina Tatrícia, um pouco assustada. – O “mustache” só aparece quando…
- Ele anda aí, ele anda aí – berrou a senhora da Sala das Porcas, pondo-se em pé em cima de uma das mesas e dando um biqueiro num dos alguidares, que continha o trabalho matinal das operárias.
- Ele anda aí, o fantasma do pequenote regressou para nos atormentar.
A Menina Tatrícia tinha-se sentado e, com a mão na testa, lamentava-se:
- O bigode republicano da Pilca não deixa dúvidas, é um sinal dos céus. É como o algodão, não engana. O Cabo regressou!
Lembrou-se então que, na Zambujeira do Mar, durante a peregrinação a Fátima, uma voz, vinda de um bode, lhe dissera:
“Se à Pilca um “Mustache” republicano lhe aparecer, é sinal do retorno do meia-leca.”
TOC, TOC, TOC, insistiu o retornado e prosseguiu:
- …ão …sur…dos…
- Entre – autorizou a Dona Pilca, já recomposta.
- …on…ia..
- Kodec? O que fazes aqui? – Perguntou a educadora.
- É ele, é o Belzebu Minorca! – Gritou a Dona Pilca, agarrando-se à Menina Tatrícia que, com o encosto, engoliu um sabonete de canela.
Quanto ao Cabo, desistiu de cumprimentar os colegas, e foi-se apresentar à proprietária do espaço, a especialista das especialistas, que o colocou no primeiro andar, longe dos pecados terrenos do rés-do-chão!

Sunday, April 23, 2006

Camarada Choco 38 - Enchia-te a Boca

                                                     Camarada Choco
                                           Aventura 38

De tempos a tempos o tema vem à superfície: o conceito de “normalidade”!
Quem estiver mais de cinco anos nesta actividade de tentar “reeducar” um destravado, irá aperceber-se, durante as muitas visitas ao shopping local, que há mais gente com os carretos gripados do que com as válvulas no sítio. Isto quer dizer que o Partido dos Desaparafusados tem maioria absoluta, e o direito constitucional à “normalidade”, passando nós, a minoria, a "totós". Sendo assim, porque é que um “desaparafusado” quererá ser um “tótó”? Só se for parvo! E parvo é coisa que os desaparafusados não são. Prova disso é estarem sempre na mesma, graças à parvoíce dos totós: a interrupção oficial nas férias, que faz com que ele recuperem o estado anterior!
Concluindo, os “normais” de ontem são os “mongas” de hoje, e assim se atingem os célebres Objectivos Gerais do Ensino, sem se ter mexido uma palha. A “reeducação” é mútua!
No meio de toda esta onda filosófica está de novo o nosso Nélinho, que ainda não encontrou o seu caminho e, por tentativa e erro, lá vai conseguindo sobreviver. Safou-se dos têxteis para ir cair direitinho nas garras da madame Castafiore, uma leoa de circo reformada, já com pouco pêlo nas costas e uns caninos em falta, mas com uma fome demolidora. Tudo começou assim:
Vinha o Nélinho aos pulinhos, na sua ingenuidade açoriana, a pedir colinho a todas as fêmeas que encontrava, excepto nos têxteis, quando foi localizado, ao longe, muito ao longe, pela ex-felina brazileira, que um dia quis ser domada pelo Castanheira.
- Oh meus Deus, um tenrinho no meu dia de anos? – E escondeu-se atrás de um dos vasos da terapeuta Zézé. – Ainda bem que trouxe uma camisola verde, o tenrinho vai pensar que sou uma palmeira e engulo-o de uma só vez, - e acariciou a planta.
- Trá-lá-lá, um cogumelo, trá-lá-la, - cantarolava, na sua inocência, à medida que se aproximava da panela.
- Ui, ui, ui, até já pingo – gritava baixinho a felina, ao mesmo tempo que fazia ao tronco da planta o mesmo que os cães fazem com as pernas dos donos. – Vem, vem aqui ter com a mamã, meu “mon chérri”.
Nisto!
- Nélinho – chamou uma voz com sinais de “alta monguice”.
Voltou-se e…
- Senhora Doutora Sem Canudo ??? O que é que eu fiz?
- Porra, tenho concorrência – barafustou baixinho a tigreza. – Mas ela nem pensa que vai mordiscar este pedaço de picanha, e ainda por cima açoriana, alimentada a erva.
- Não se assuste Nélinho, eu só quero dar-lhe os “bons-dias”. Pode continuar.
- Obrigado.
- Ai vem ele, é agora, é agora que lhe vou encher a boca toda.
E ajeitou as prateleiras para o poder receber condignamente.
- Nélinho – tornou a chamar a Doutora Sem Canudo. – Eu acompanho-o, também vou ao bar, mas encher o saco azul.
- Bolas – gritou baixinho a ex-brasileira de cabeça oxigenada. – Bolas queria eu, é porra, grande porra, eles vêm para aqui, tenho de me esconder.
E mergulhou para o vaso, que ficou estilo “Torre de Pisa”, com os fundilhos a apontarem para o tecto. Mas o volume era tal e a vegetação tão rasa, que o “bumbum” não coube. Quem safou a situação foram as calças verdes do Bazar Chinês.
O par aproximava-se e a pulsação da felina já era sentida nas bordas do olho. Teve sorte, porque a doutora topou algo, mas deixou o assunto para mais tarde, porque o problema agora era a conta do gás, e precisava do dinheiro das bicas. Ao passar pelo vaso, a “proprietária” do espaço só disse “olha uma abóbora, a terapeuta Zézé vai ter que me explicar este método de estimular mongas, porque de vegetais também eu percebo. Na minha altura usávamos paus de gelados para criar rabanetes”.
- A mim parece-me mais um cagueiro…perdão…a parte traseira de uma daquelas vacas que tenho no quintal, lá na ilha – disse timidamente o Nélinho.
- O quê? Se eu digo que é uma abóbora é uma abóbora e não se discute.
E seguiram viagem.
- Abóbora? – Resmungou a dona Castafiore. – Um miminho destes uma abóbora? Mas ela pensa o quê? Ganhaste uma batalha, mas não ganhaste a guerra. O Nélinho vai ser meu, custe o que custar, nem que seja à força.
E saiu de traseira, visto ser impossível fazer inversão de marcha.
- Olé – gritou o Castanheira, desviando – se do pesado, - por pouco a madame atracava como o Pitrongas, de popa.
- Contigo atraco de qualquer maneira, meu motorista maroto. Até arrotavas.
- Cuidado com a língua, que eu agora tenho responsabilidades – avisou o Castanheira, desviando – se de mais uma marcha atrás.
- Ainda te puxo o travão-de-mão, tigrão – rosnou a sex(o)genária, mostrando os dentes, os que tinha e os que não tinha.
- Mas afinal o que é que a senhora está aqui a fazer, atrás do vaso e de cócoras?
- Estou à caça de um pitéuzinho que circula por aí. Se ele passar junto a mim dou-lhe uma dentada na maçaroca.
Foi o instinto que fez com que o Castanheira protegesse com as mãos as partes baixas.
- Tem calma meu motorista maroto, que eu agora já não quero chouriço rançoso. Quero é salpicão rijo.
- Oh minha senhora, estamos num local público cheio de desaparafusados e esses comportamentos não são dignos de uma idosa como a senhora. Se a sua filha a vê nestes preparos, o que é que irá pensar?
- Nada, ela é das mais desaparafusadas e é por isso que ouve o milho rei o dia todo.
- Já vi que não lhe posso dar um pouco de juízo. Vem aí o Porres.
- O Porres? Não gosto de cacete velho, é só côdea.
O Castanheira não queria encontrar-se com o chefe, porque senão cravava-lhe logo para fazer a outra volta, e por isso abandonou o local. Preferia a companhia dos desaparafusados genuínos.
O Porres vinha mais inclinado do que era habitual e em excesso de velocidade (talvez duas vezes a barreira do caracol). A posição dava-lhe uma panorâmica do chão e toldava-lhe a visão frontal. O choque foi inevitável. Deu-se um encontro de titãs!
- Ui,ui,uiiiiiiiiii – gritou a matrafona, agarrando-se freneticamente ao presidente. – Se não consigo petiscar um açor, sirvo-me de um torresmo.
- Porres – gritou a Doutora Sem Canudo, que estava de regresso com os bolsos cheios e com o Nélinho. – O que é faz aqui deitado? Deu-lhe um treco?
No meio da confusão que se seguiu à colisão, a tigresa tinha-se escapulido de novo para o vaso, e permanecia agora quietinha, tentando passar despercebida. E conseguira! No chão estava o homem que se intitulava o mais poderoso da Roque Gameiro, com o bigode colado ao chão e a perna marota no ar.
- Caiu uma das pedras, o muro está a colapsar, fujam – gritou.
- Nélinho, ajude o seu chefe que eu tenho de ir esconder o dinheiro na gaveta. Se o veêm exigem-me o dinheiro das refeições. Depois diga à terapeuta Zézé para me explicar a razão desta abóbora, - e tocou no enchumaço – e ainda por cima está podre. Ela precisa da aprovação de uma especialista em arranjos de vasos para desaparafusados, ou seja, EU.
- Canalha, outra vez a chamar abóbora a este bem-bom – resmungou baixinho a felina do “Circo Xunga”, tentando encolher a cintura pélvica.
Mas a uma acção há sempre uma reacção, e ao recolher a bunda, os músculos abdominais contraíram-se, apertaram os intestinos salientes e um som seco ecoou pelo corredor. O Porres, que já estava na vertical, atirou-se ao chão e gritou:
- Vêm aí mais calhaus.
- Nélinho, francamente, eu sei que lá nas ilhas vocês ainda vão atrás das vacas, mas aqui há muitas casas de banho – gritou a Doutora Sem Canudo.
- Mas eu…
- Nem “eu”, nem “mas”, recolha imediatamente ao refeitório e sente-se junto aos seus colegas, até nova ordem.
Num instante tudo voltou ao normal e o silêncio voltou ao corredor do tanque, excepto ao vaso, que abanava freneticamente. E não era por acaso. A predadora estava entalada entre os ramos e estava com dificuldade em meter a marcha-para-trás. Não foi graças a Deus mas sim ao Pitrogas, que estava de passagem, e deu-lhe uma ajuda, tendo ainda tempo para transmitir um “bons-dias” em grego.
- Cumprimentas mais uma vez e o prometido passa a ser devido.
Mas não houve tempo! A matrafona acelerou para o refeitório e, sem perder tempo, atirou-se ao Nélinho, gritando:
- Vou-te ENCHER A BOCA TODA!
Do Nélinho só se ouvia "haêga, haêga". Só dois baldes de água é que conseguiram acabar com a refeição.

Wednesday, March 22, 2006

Camarada Choco 37 - O Retorno do Camarão

                                                        Camarada Choco
                                                                      
                                                                 Aventura 37
Portugal,

Vinte e um de Dezembro do Ano da Graça de Dois Mil e cincoAlgures a meio de uma manhã cinzenta um lamento corta a rotina da escola de mongas:

- Estou na miséria, vou ficar sem o último milhão – dizia a vítima, encostando a cabeça no ombro esquerdo do senhor Pintor, que pincelava num Noddy com a mão direita.
-Calma Camarão Reformado, calma, - dizia o artista dando um jeito com o ombro, tentando sacudir a cabeça do crustáceo para o lado do Bibi.
- Isso são gases – interrompeu a Lolita, passando em alta velocidade atrás do seu Castanheira.
- Calma ?? Então vou passar de uma vivenda para um T-10 com vista para o mar e tu dizes para ter calma, - chorou o ex -Stor Rico, agora monetariamente muito abaixo do Stor-Pobre, agarrando os colarinhos do pintor, obrigando-o a desenhar, involuntariamente, um cacete de elefante ao pobre do Noddy. – Não vou poder trocar de Mercedes…sou um pobretanas, vou ficar a ser conhecido como o Chixarro. Acabou-se o Camarão Reformado.
- Calma, calma ò Petinga….Camarão reformado….
- Viste, viste, até tu já olhas para mim e vês uma Petinga. Já todos se aperceberam do meu estado de miséria absoluta – queixou-se, puxando o bigode, que já se colara à testa. – A isto chama-se azar, sou um pobretanas azarento, sem futuro e já sem carteira da “Cartier”. Para o próximo ano só poderei ser cliente dos chineses, a minha alimentação vai ficar reduzida a arroz. Acabaram-se as lagostas, vou só poder comer ao pequeno-almoço um pratinho de torresmos e um penalty.
- Não exageres Petin…Camarão, vai ver que tudo se há-de resolver.
Ficou a Escola a saber que a ausência do ex-Camarão Reformado ao jantar de Natal se deveu ao facto de não ter dinheiro para comprar a prenda para a troca final.


Três de Janeiro do Ano da Graça de Dois Mil e Seis

Um potentoso Mercedes entrou a chiar no parque da escola e saiu de lá, tal qual um felino, um Casanova de bigode, já temperado, com um bigode digno de um Camarinha e uma cor a roçar o beduíno. Os olhos de lince escondiam-se por detrás de uns charmosos óculos de Sol “Lacoste” e os pêlos do peito esvoaçavam ao sabor do vento matinal.
- Camarão Reformado, Camarão reformado – gritou o Pintor de uma janela do primeiro andar, onde tentava secar um Noddy de cócoras a aliviar-se junto a uma azinheira. – veste a camisola, estás no trabalho e não no Passeio Atlântico.
- Na escola ?? – Perguntou assustado o ex-miserável, olhando para todos os lados.
Tal qual um golfinho, regressou ao bólide , conseguindo ser mais rápido do que o próprio bigode, que ficou à espera junto a uma das colunas.
- Assim sim, Camarão Reformado, - disse o pintor, e continuou. – Espera aí, tu estás diferente.
- Achas?
- Estás diferente do ano passado? Já não és Reformado!
- Correcto, agora sou de novo o Camarão dos anos vinte, passei a tomar o pequeno-almoço às 8H30 e não às 10H30 como antigamente.
O Stor Rico tinha recuperado de novo o estatuto e mais, muito mais, deitara para trás das costas o título de crustáceo reformado e enfrentava de novo as ondas do prazer, com o seu mastro em riste e a bandeira do Benfica na ponta. Tinha vencido a miséria e estava agora mais novo e atrevido, disposto a voltar ao século passado e aos seus ânus de glória. Até lá teria de palmilhar, em marcha atrás, o Passeio Atlântico, para assim tentar reduzir a idade dos 500 mil quilómetros para os 30 mil. Sem camisola e com os pêlos ao vento e os olhos a cortar as fêmeas, que antes não passavam de fantasmas.

Thursday, March 16, 2006

Camarada Choco 36 - A Queda de um Anjo

                                                     Camarada Choco

                                                                 Aventura 36

As dores eram insuportáveis, as hemorróidas invadiam o cérebro, indo por-se às cavalitas das artroses, da caspa e dos caracóis. Os pastorinhos não eram nada em comparação com esta mártir da Roque Gameiro, que tinha iniciado o calvário na Pedro Álvares Cabral e feito o estágio na Brandoa.
- Meu Deus, dá-me um anjo, envia-me um sinal qualquer, que me apague este fogo. Aceito qualquer coisa, até um anão, desde que tenha uma tromba funcional.
Entretanto junto à secretaria.
- Dino Meira? O senhor é o Dino Meira? – Perguntou a subordinada da dona Sãozinha, indo a correr para o vidro da secretaria.
- Mas que histerismos são estes aqui nas minhas instalações? – Impôs-se a D. Sãozinha, levantando os olhos das folhas de pagamentos.
- Mas é o Dino, chefe! – Justificou-se a moça.
- Dino? O meu nome é Nélinho e venho apresentar-me directamente das ilhas. – Interrompeu o desconhecido, agora com identidade.
Na Venteira todas as conversas chegam aos têxteis, mais cedo ou mais tarde. A mártir levantou-se, a custo, equilibrou-se nos tamancos, com muita dificuldade, pôs uma mão nas cruzes e dirigiu-se para a porta, pondo a cabeça de fora.
- Milagre, milagre, os céus ouviram-me e enviaram-me um Anjo, com mistura de Açor e Marco Paulo.
As dores passaram, a face coloriu-se e dançou um tango com o tição que estava dormindo, que acabou também por ter um gostinho e cantar um fado.
A emoção aumentou quando a Dra. Sem Canudo, como é tradição, tomou conta da situação, mesmo sem saber nada do assunto, e encaminhou o noviço para a sala de Arraiolos.
- É meu, é meu, o anjinho é todo meu, - gritou a mártir, dando uma palmada numa aluna, que executou de imediato três pontos cruz seguidos, sem convulsões. – Este ninguém mo tira, foi-me enviado pelos céus, como dizia o horóscopo do “Borda d’Água”.
Dito e feito.
Se o Nélinho se ausentava, tinha de justificar o tempo, segundo a segundo. E a situação agravou-se quando interceptou o anjinho a falar para as ilhas:
- É uma quarentona com cara de uma …monga…de vinte!
Só ouviu “quarentona” e “cara de vinte”. Foi de mais!
- Com cara de vinte, eu?? E que mais coisas eu tenho com 20 anos ? – Interrogou-se baixinho, dando cinco pontos cruz seguidos, também sem convulsões, quebrando o recorde da sala.
Findo o telefonema, o Nélinho aproximou-se da porta.
- Aonde pensa que vai? – Levantou-se de imediato a “guarda do anjo”.
- Vou à sala ao lado pedir um lápis.
- Eu também vou! Maria, toma conta da sala.
E a cena repetiu-se o mês inteiro. Onde o Nélinho fosse, a Mancha ia atrás. Só parava á porta da casa de banho, porque o Anjo se trancava antecipadamente. Por vontade dela fazia tudo nas retretes exteriores. Dessas vezes o Nélinho ouvia, além das arranhadelas na porta, o desabafo:
- Adorava sacudi-la!
E foi numa dessas procissões que deu de caras com o Ambrósio caspa encravado na retrete.
- Só me faltava esta, - queixou-se, - assim o Nélinho tranca-se outra vez.
E foi o que fez. A mancha ficou de novo à porta. Nisto entrou uma das madrinhas do choco, e não ganhou para o susto quando um roteweiler saiu de trás duma retrete e lhe barrou o caminho.
- Onde é que pensas que vais, piranha?
- Eu vou lavar as mãos!
- vais, vais. O que tu queres sei eu, mas fica sabendo que o Nélinho é meu, TODO MEU E SÓ MEU. EU VI-O PRIMEIRO.
- Tu já pareces a papoila, qualquer dia estás a ouvir o “Milho verde”, dentro da piscina de bolas.
Por detrás da porta o Nélinho tremia que nem varas verdes. Como é que iria conseguir sair. Espreitou e viu uma careca.
- A predadora está aqui ou é a Papoila? – Pensou.
CRRRCRRRR
Um som de algo a ser arrancado do solo distraiu a fera e obrigou-a a ir dar apoio ao Ambrósio, que estava a ser içado das entranhas do cagadouro, trazendo este colado ao rabo e deixando escapar por baixo um formosos cagalhões.
Foi o suficiente para o Nélinho escapulir e desaparecer no meio dos paninhos.

“Não pare, Não escute, Circule, Perigo de Morte” , é a tabuleta afixada na porta dos Têxteis!

Camarada Choco 35 - INDEX

                                                   Camarada Choco
                                                                Aventura 35

- Espanha, isto aqui é Espanha.
- Não, essa palavra não – gritou a Dra. Sem Canudo, interrompendo a aula de Bisca lambida…perdão…Apoio Psico Pilas Gógico , do Cabo mais famoso da Venteira, e continuou. – Atenção ao Bacalhau Pascoal, ele está traumatizado. Desde que a namorada se ausentou para Espanha que o homem se sente um genuíno cornudo. Ninguém o segura em casa, até já atacou o cão da vizinha, confundindo-o com um castelhano.
- Então vou falar do Benfica e do Sporting – disse, titubiante o cabo mais cabo de Portugal.
- Não, essa palavra também não, - alertou novamente a Dra. Sem Cascalho…perdão…sem Canudo. – O colega dele, o Bode, vai contar tudo à mãe e ela depois massacra-me toda a noite ao telefone.
A conversa foi interrompida pelo cumprimento do aluno mais brilhante da Instituição, que fazia questão de dar os “bons-dias” em linguagem estrangeira, depois de ter ido com o Vira-bicos a uma Convenção de Mongas na Alemanha.
- “Broche”, - atirou secamente, com o ar duro dos nórdicos.
A Dra. Sem Canudo estava tão preocupada com o seu Bacalhau, que nem ouviu o “Bom – Dia “ em grego.
- “Chupa-me o Pau” – disse com sapiência o Pitrongas, avançando de imediato para uma saudação em francês, “minete”. – E rodou a língua tão depressa, que se engasgou e tossiu. Como monga com uma formação pessoal das melhores, pediu desculpa pela interrupção das saudações, e justificou. – É um pintelhinho.
Mas o caso da fuga da noiva do Bacalhau para terras de Castela ocupava toda a mente da doutora mais Dra. De Portugal.
Recuemos no tempo.
A noiva do Bacalhau Pascoal nunca deveria ter saído da Azinhaga, nunca lhe deveriam ter tirado os piolhos que trouxera no primeiro dia, e o cheiro a ranço deveria ter sido conservado. O sabão “Macaco” e a escova do piaçaba roubaram-lhe a alma, puseram-na pelada de odores corporais das barracas. E não satisfeitos com esta lavagem existencial, resolveram levá-la para os cavalos em cascais, onde as tias a transformaram numa “dádinha”, mais correctamente, numa “monga dádinha”. De Cinderela a prazo passou a Princesa definitiva, e isso mexeu com a Carolina Caracol. Depressa passou a olhar para os colegas de cima de um pedestal, enterrando para sempre a vista deslumbrante que tinha da barraca da coxa do buço. O Choco já não servia para noivo, o Bibi era muito velho, o Porres era deficiente motor, talvez o Bacalhau fosse o indicado, enquanto fosse proprietário do Ferrari. Mas, o anjo vermelho que morava no seu ombro esquerdo, em substituição dos Pediculus Capitis , dizia-lhe diariamente que ela merecia mais, muito mais, talvez um príncipe árabe!
E o Ferrari do Bacalhau pascoal deixou de ser uma mais valia. A Carolina Caracol…a Dra. Carolina Caracol merecia muito, muito mais. E resolveu dar corda aos sapatos, à traição, deixando para trás o seu Bacalhau, agora reduzido a um miserável deficiente de Cacilhas, e não a um Príncipe da Noruega, como antigamente.

Wednesday, March 15, 2006

Camarada Choco 34 - De escravo a Senhor


                                                     Camarada Choco
                                                                      
                                                                    Aventura 34

Para os lados das Artes Gráficas estava instalada a revolta. As paredes testemunhavam a indignação geral:

“Libertem o Choco”

“Abaixo a Escravatura”

“Pintor para a Forca”

“O Choco para a Sala das Madrinhas, já!”

As relações entre o estudante universitário Choco Silva e o Pintor, tinham atingido a forma de uma Guerra Total, e cada um usava as armas que tinha. O Choco tinha-se transformado numa fábrica contínua de pastéis e agora presenteava o patrão com todo o tipo de queques, bolas de Berlim, Pirâmides e Cornucópias. Era só vê-los descer diariamente pela cadeira abaixo, ajudados muitas vezes por sumo de laranja. Já não se sabia onde ficava o WC e as Artes Plásticas. E, devido a toda estas confusão, o impensável aconteceu: o Porres entrou um dia apertadinho na Escola e urinou para dentro de um cinzeiro tipo Dali, pensando que era a sanita:
- Fui pelo cheiro – desculpou-se ao senhor Pintor.
Tinha-se atingido o ponto zero das Relações Humanas. O dono da sala já tinha os cabelos todos brancos de tantas preocupações, e o Virgulino numa manhã de nevoeiro comunicou à doutora que tinha visto uma ovelha junto ao bar.
- Chega ! – Gritou desesperado o Pintor, ordenando à dona Espatinha para pôr fraldas ao infractor.
Foi a gota final que fez entornar a taça ! A notícia espalhou-se, como era costume, à outra ponta da Instituição de Educação e Reabilitação, e as Defensoras dos Direitos Humanos puseram-se em marcha, em defesa do senhor Choco Silva.
- Libertem o Choco, - ordenou a sargenta que comandava as hostes.
- Agarrem-me, senão eu atiro-me à ovelha, - gritou uma fundamentalista mongâmica.
- Não têm mais nada para fazer, do que perturbarem os meus caracóis ? – Perguntou, indignado, o patrão das Artes Gráficas, batendo com a porta, e arremessando para cima da multidão o Virgulino, aproveitando para acusar o Choco do lançamento do membro da Direcção,
Lá dentro o Choco atirara-se com os lápis de cor a uma folha A4 e desenhara a sua revolta: um Batatoon com duas grades em cima. Antes de o enviar às suas libertadoras, assinou a obra com um brigadeiro. Foi a histeria colectiva. A sargenta recebeu a carta e mostrou a obra à multidão. Foi de imediato enviado um poney-express aos confins do edifício, que entregou o desenho a uma Comissão de Sábias.
- Meu Deus, ele é um génio: um Batatoon, duas grades e um brigadeiro fedorento ! Ele faz um apelo ao Mundo Livre para a sua libertação !
- Tirem o Choco dali, e já ! – Ordenou a doutora.
No dia seguinte o mártir apresentou-se na nova sala e foi recebido como um herói. A amizade era tanta, que o Choco abriu os braços e pediu:

- NHI NHI, NHI NHI !

E o urinol portátil foi de imediato colocado na sardanisca marota do ex-Escravo, e agora Senhor de uma sala na parte mais in da Escola.

Camarada Choco 33 - O cabo das Tormentas (Triologia) - II


                          Camarada Choco
                                                                        Parte 2 

                                                         As Duas Peregrinas

                                                            Aventura 33

Depois do relato arrepiante do pesadelo de dona Pilca, que lhe fez crescer um bigode tipo alentejano, e em que a pecadora contou que tinha caído num caldeirão cheio de Pilas com sabor a “Mon Chérri”, as peregrinas da Roque Gameiro não conseguiram fechar mais os olhos e aproveitaram a ocasião para se confessarem.
- Eu fui muito velhaca para o Cabo – desabafou Dona Pilca. – Vou-te contar um segredo. Fui eu que o convenci a participar no bailado “O Lago dos Cines”.
- Bailado “O Lago dos Cisnes”!?? Estás maluca ó mulher, acorda, vê lá se atinas. Aquilo que eu vi na festa foi o bailado “O Charco dos Sapos” – gritou-lhe madame Tatrícia, levantando-se.
- Ajoelha-te ó pecadora. Tu também tens culpas no cartório – berrou a agora alentejana, puxando-a pelas calças.
- Eu!?? Mas o que é que eu fiz ao maçarico?
- Tu!?? Tu gamaste-lhe a sala, e não só.
- Eu não fiz mais nada – disse a agora dona da sala do Pilas, atirando fumo, com desprezo, para a cara da colega de peregrinação.
- Ai não? Ai não? Quem é que o convenceu a entrar no bailado e lhe disse que tinha o aspecto de um Cisne?
- Um Cisne, aquele Morcego?
- Vá lá, diz que é mentira – desafiou a alentejana. – Não te esqueças que estás em peregrinação e que, se pecares outra vez, vais parar a um caldeirão cheio de morcegos com sabor a sebo.
- Ok,ok, eu disse-lhe que ele era parecido com um cisne, para o tentar fazer esquecer da sala. Mas foi com boas intenções. Agora responde-me a esta: é verdade que ele desmaiou no camarim, antes do espectáculo e tu recusaste-te a fazer respiração boca a boca? Não te esqueças do caldeirão de morcegos!
- Sim. Sim, é verdade. Ele estava ali todo esticadinho, a precisar de oxigénio, mas eu olhei para ele e vi um batráquio.
- Podias ter-te lembrado daquela história em que uma princesa beija um sapo e ele transforma-se no Carlos de Inglaterra.
- Torresmo por torresmo, prefiro o Nacional.
- Ó amiga – desabafou a peregrina Tatrícia, pondo-lhe o braço para cima. – Somos umas pecadoras genuínas. É melhor recomeçarmos a caminhada. O Cabo é o nosso tormento!
E disto isto levantaram-se, ajoelharam-se e rumaram em direcção à Lua que, felizmente para todos, estava para Norte. Meia hora depois um camião tentou atropelá-los, tendo-as confundido com dois coelhos.
Ao amanhecer chegaram à Península de Tróia e, devido ao facto dês estarem de joelhos, só pagaram meio bilhete, preço estipulado para anões, marrecos e crianças.
- Ó Pilca, mas isto não é ilegal numa peregrinação?
- Ilegal? Ilegal porquê?
- Porque quem anda é o barco e não nós.
- Ó Tatrícia, querias que nadássemos de joelhos? Ainda algum pescador nos confundia com duas santolas e íamos directamente para a panela.
- Isso não era nada em comparação com o que fizemos ao Peixe-Balão.
O diálogo das duas mártires foi interrompido por uma senhora que lhes perguntou:
- As meninas fugiram de alguma Cerci?
- Cerci, acha que nós temos cara de andarmos numa Cerci? – Indignou-se a dona Pilca.
- Acho, acho, só numa Cerci é que os utentes têm um tamanho desses e bigodes.
- Pois fique sabendo que na nossa Cerci há uma educadora que elimina qualquer pêlo mais teimoso e não deixa vestígios, arrancando até as beiças, se for preciso.
A situação estava escaldante! Uma pequena multidão cercava agora as pecadoras da Roque Gameiro e havia quem ameaçasse chamar as autoridades. A dona Tatrícia levantou-se e tomou conta da situação:
- Calma, calma, eu sou a auxiliar responsável pela reeducação, um pouco difícil, desta anoa de bigode e estava só a ensiná-la a rezar.
Foi trigo limpo! O pessoal dispersou e o barco chegou ao destino. Mas, a vida não estava fácil para as pecadoras. Uma gaivota mais atrevida resolveu despejar o seu conteúdo intestinal sobre a miss Pilca, acertando-lhe em cheio no bigodão. O odor a maresia embrenhou-se pelo nariz sensível da peregrina e alterou-lhe os circuitos cerebrais. Nova alucinação!

O Cabo ocupava agora o lugar da Doutora sem Canudo e a Doutora sem Canudo era o Cabo. A Cerci era um quartel, onde todos andavam fardados. Junto a si passou o Soldado Raso Choco, que estava de faxina aos cães e a si próprio, levando na mão uma travessa recheada de croquetes, que deixou na mesa da entrada do Quartel General.
- Tenente Pintor, é favor de se apresentar no gabinete do Comandante, o General Cabo Pilas.
A conversa foi rápida e incisiva, o Pilas queria que o oficial das Artes Gráficas o pintasse num quadro tipo D. Sebastião, tendo ao seu lado os dois canídeos em posição de combate: de um lado o Virgulino com a máquina de corta relva em riste e do outro o Porres em calções tipo Batatoon. Ainda conseguiu ver a Alferes Espatinha a passar com o seu pelotão de Mongas e a gritar:
- Esquerdo, Direito, Ope dois, esquerda,direita, Ope dois….quero ver todos a marchar direitinho, nem que para isso fiquemos aqui o dia todo.
No dia seguinte ia haver desfile do Batalhão no exterior, com a presença do Grande Minorca, o Generalíssimo Cabo Pilas. No ginásio o Coronel Stror Rico com Bigode tratava da saúde aos magalas mais atrevidos. Noutra ponta do quartel o Major Stror Pobre sem Bigode, inspeccionava o cano do Choco, não fosse ele disparar inadvertidamente durante o desfile. Na sala ao lado a Capitoa Sobrinha da Doutora dava os últimos retoques, com catana, aos bigodes dos mancebos. Era a azáfama geral! O ditador não queria falhas na formatura, todos tinham de ser esculpidos à sua imagem.

A alucinação foi interrompida por uma velhota que, dirigindo-se às peregrinas, lhes perguntou:
- As senhoras podiam dar-me um autógrafo?
- Um autógrafo? – Indignou-se a beata Tatrícia. – Mas, a que propósito lhe vou dar um autógrafo?
- As senhoras não são as célebres meninas do Sado?
- Meninas do Sado!??
- Aquelas senhoras que lavram a terra com as unhas dos pés e têm carrapatos atrás das orelhas.
- Estás a ver ó Pilca? Por tua culpa andámos há dias a arrastarmo-nos pelo Alentejo e o resultado é este: as nossas unhas dos pés estão enormes, os carrapatos invadiram os nossos corpos, as hormonas alteraram-se e os pêlos descontrolaram-se. Agora somos famosas!