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Wednesday, February 17, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 24 - Chefe-Bigodes versus Mac Macléu Ferreira



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 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
Ia o chefe Bigodes calmamente na sua “Casal Boss”, na rua Lino de Assunção, quando ao seu lado apareceu o célebre Mac Macléu Ferreira numa “Zundapp 50” com escape de rendimento, óculos ao vento e cabeça ao léu.
- Alto e pára o baile, – gritou o agente da autoridade para o motociclista rebelde, que o ousara provocar.
- Vai-te catar ó Bigodes. Aposto que não me apanhas? – Desafiou o infractor.
- O quê, dúvidas da minha “Boss”?!
- Julgas que esta “Zundapp” é aquela com “cranage e banco de competição”, feitos com restos dos caixotes do Manel da Fruta, em que eu subia a minha rua, com a ajuda dos pés?
- Ainda tenho na secretária as queixas dos teus vizinhos, a protestarem pelo barulho do teu escape de rendimento às 5 da manhã. Hoje vais pagar por tudo!
E deu-se início à perseguição mais famosa de Paço de Arcos. À frente Mac Macléu Ferreira desafiava a autoridade, atrás a autoridade tentava apanhar o Fangio de Paço de Arcos. Para trás ficara a passagem de nível, aproximava-se agora a rotunda da Estação. Mac respeitou a Lei e foi pelo lado certo, o representante da Lei desrespeitou a Lei e foi pelo lado errado, tentando barrar a corrida ao nosso herói. Quando o da “Zundapp” viu o da “Boss”, atirou-se para cima deste e simulou um acidente gravíssimo. Ficou no chão a queixar-se da tentativa de assassinato, que só podia ser político! As testemunhas, que estavam à espera da camioneta para o Pimenta, chamaram a polícia e acusaram o Bigodes.
- Assassino, onde é que já se viu um agente da autoridade em contra-mão? Coitadinho do rapazinho loirinho, e ainda por cima “caixa-de-óculos”, ia morrendo. Assassino!
A “Boss” foi no porta-bagagem toda amassada, e a “Zundapp” estava rija que nem sarda. O Chefe pediu desculpa ao cidadão Mac Macléu Ferreira, vítima de abuso da autoridade, fez-lhe continência, e avisou o Bigodes de que o ia amassar quando chegasse à esquadra.

Tuesday, February 16, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 23 - Pitrongas versus Torpedo



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Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

As relações entre o Torpedo e o Pitrongas foram sempre muito conflituosas. Mesmo depois do primeiro ter tido um ataque cardíaco enquanto bebia água na sarjeta. O segundo insistia em subir a rua José Ferrão Castelo Branco em vez de ir dar a volta por Caxias. A teimosia era tanta, que teimava em vir sempre a cavalo da sua Honda 50 de cor preta, desenhada para gente normal e não para um flamingo de um só neurónio. E o mais grave era que o barulho do escape apanhava sempre o Torpedo em sono profundo, um canídeo com um acordar difícil. Nestas ocasiões encaminhava-se estremunhado para o passeio, agachava-se e esperava pela ave rara.
Taka Taka Taka
Roncava a dita do Pitrongas, que atingia a vertiginosa marca de 30 Km/h. Mas havia um problema. O canídeo chegava aos cinquenta, fruto de muitos treinos durante as fugas ao motorista da quinta ao lado, o senhor Manuel, quando cinco dos seus dez donos resolviam encher a porta da Sesaltina de lixo e carregar na campainha.
Taka Taka Taka Taka
O escape parecia agora uma charanga, sinal de que o Pitrongas estava perto da curva, já com o pisca direito ligado, que indicava ir dar uma seca à tia. A simbiose mota/condutor dava o aspecto de um morcego e as pernas em abdução pareciam asas. Os ramos das árvores dobravam-se com a força do vento. O Torpedo absorveu um largo trago da sua baba, enquanto que na outra ponta da rua o pai do João da Quinta deu um gole no vinho carrascão, que era a única maneira que tinha para se manter vivo. Tudo se demorava: o barulho do escape do Pitrongas e o bater ansioso do coração do Torpedo, com a boca tingida pela raiva e as lágrimas a escorrerem-lhe pelo focinho, fruto de um ódio de estimação. Até que uma sombra esguia, projectada pela luz do candeeiro da retaguarda, se estampou no passeio. Era o anúncio de mais uma noite estragada para o Pitrongas. Quando a mota e o flamingo se aproximaram da curva, não eram mais do que uma mancha escura que fazia lembrar um sapateiro viúvo com uma luz laranja, estilo pirilampo, a piscar para a direita. Os olhos do Torpedo concentraram-se na figura rabiscada do motorista. Nesta pequena curva, que tinha logo uma contracurva e um entroncamento no meio, havia naquele momento um conjunto de tensões. Quando o cheiro do Davidoff do Pitrongas chegou ao nariz do rafeiro, os seus neurónios entraram em curto-circuito. Uma raiva profunda perpassou-lhe ao longo da coluna vertebral, eriçando-lhe os pêlos, ao mesmo tempo que o intestino entrou em terríveis convulsões, cujo barulho era abafado pela charanga do Pitrongas. Foi a potência do escape do canídeo que o atirou, de boca aberta, de encontro ao tornozelo do costume, o esquerdo, e lhe arrancou, como já se tinha tornado hábito, parte da meia da marca “CD”.