miguelbmiranda@sapo.pt

Friday, December 27, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 54 - O Marechal responde ao Escalope


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

Amigo Escalope, permite-me que cite o padre António Vieira no início desta humilde carta: “As outras histórias contam as coisas passadas, esta promete dizer as que estão por vir”.

Caro aluno 307, do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e setenta e um. Foi com muito agrado que recebi a tua carta natalícia manifestando grande preocupação pelo futuro do Colégio Militar, escola que eu criei com muito orgulho, e que tenho acompanhado desde a fundação no átrio da entrada, mesmo estando pela metade. A santa, que está por cima e que vocês se fartaram de apalpá-la, deixando-me orgulhoso da vossa destreza física, vê mais longe e mantem-me informado. Uns continuam a saudar-me, mas a maioria nem me liga, sinal dos tempos! As mães agora dizem que os meninos estão sujeitos a apanharem uma tendinite devido aos gestos de repetição a que a continência obriga. Sintoma de que a maioria dos meus sucessores estão mais preocupados com as suas estrelas do que com o futuro dos Meninos da Luz. Mas os antigos saúdam-me sempre!  O colégio nasceu, disse muito bem o 92, do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e trinta e quatro, na mesma altura em que os franceses invadiam o país, e os governantes fugiam com o rabinho entre as pernas, deixando no reino um exército miserável, fruto de uma política de defesa negligente, pois tinham preferido gastar o dinheiro em obras faraónicas inúteis, tal como agora no Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e treze. Gastámos depois muito mais dinheiro no aluguer do Exército Inglês, que nos obrigou a vender os anéis , e a dar o que restava aos invasores, mas cumpriu o papel que deveria ter sido nosso: a defesa da pátria portuguesa.

Camarada Escalope, estás apreensivo com a vinda das Meninas com a Cruz de Avis ao peito para o espaço dos Meninos da Luz? Então não foi na tua geração que se atingiu o auge na demanda do túnel que finalmente iria pôr à disposição de ambos uns e outros? Durante várias semanas muitos dos teus camaradas cavaram feito loucos o que julgaram ser a entrada escondida para o Paraíso, deixando no local vestígios biológicos, não aqueles de quem a maioria está a pensar, mas sim partes de unhas,  que continuam no local como testemunhos desta geração que deu muito ao colégio, e irá dar agora em mais um momento difícil. Relembro-te alguns dos heróis que nunca desistiram da causa, mesmo quando foram corridos à paulada pelo Moca e pelo Meia-Lua: o Pitosga (485), o Horrível (125), o Peidão (191), o Cabedo (124),  o Loira (667), o Gordini (601), o Six (607), o Becas (157), o Peidão (191), o Xoxo (652), o Bétis (653), o Barrada (664), e tantos outros  que “qualquer alma farão segura e forte”, valor este transmitido pelo Ferrari. Imagina-os se tivessem a combater um inimigo! Agora que elas caiem de paraquedas têm medo? Todos juntos poderão vir ainda a ser muitíssimo melhores! Um colégio não é apenas aquilo que é, mas também o que parece aos olhos dos outros. Poderás sempre dizer que em França nenhuma secretária de estado com problemas existenciais íntimos ousará tocar na Maison d’Education de la Légion d’Honneur, uma escola feminina pública em regime de internato, fundada em 1811, e que funciona num mosteiro medieval dedicado a São Dinis. Na minha época andámos em constantes mudanças, ultrapassei todos os obstáculos, tal como o vosso 591 (Peixinho) os cavaletes nas aulas de equitação, ao contrário na sela. O Colégio Militar manteve-se “firme e hirto como uma barra de ferro”, palavras de um hipnotizador do vosso tempo chamado Professor Alexandrino, o equivalente no palco ao Professor Comandante-chefe das Forças Armadas, a quem um dia alguém teve a infeliz ideia de atribuir-lhe um número, 695. Ambos sabemos que o artista que tomou esta decisão estava unicamente a pensar na sua promoção, do que na hipotética defesa do Colégio Militar por parte do senhor Silva. Nem do colégio nem do país, pois digo-te que se algo de semelhante aos acontecimentos do início do século XIX se repetir, será o primeiro a dar corda aos sapatos, tal como fez na altura o rei.

Camarada Escalope, talvez a vinda das Meninas com a Cruz de Avis ao peito sejam os reforços de que o Colégio Militar precisa, uma espécie de “ato falhado” do Alguidar & Pandilha,  um gangue que já fez tanto mal ao país, obcecado por adolescentes e apoiado por jornalistas com a mesma tara. Isto de misturar vícios com decisões políticas nunca deu frutos no passado. Espero por ti no próximo almoço de curso, e estou desejoso de ouvir novamente o vosso 69 (Fernandinho), um COMANDANTE com letra grande, a berrar o Zacatrás, que me abanou os ossos, pois ele é um dos poucos que o faz com alma e coração. E diz ao Bina (19), o herdeiro do vosso Semita, um pilar fundamental da educação que recebestes, que dê o grito de guerra:
- Moçooos…neste país uns políticos dormem de olhos fechados, outros de olhos abertos!
Camarada Escalope, o vosso trabalho é descobrir o que está disponível, talvez os vossos vestígios biológicos, e o que pode ser feito em nome do colégio com tão preciosas relíquias. Todas as expectativas estão sobre vós, e a sensação que tenho na base do busto é que há muito para fazer. Têm de mostrar que podem cumprir os objectivos num curto espaço de tempo, caso contrário haverá desmobilização. Obriguem os putos a engolir as vossas unhas, pois o código genético que elas contêm com certeza que os irão pôr a marchar do nascer até ao pôr-do-Sol, como na vossa altura, com os resultados sobejamente conhecidos e aprovados por mim. A crise do meu, nosso, Colégio Militar, abriu as imaginações às catástrofes e às distopias.
Caro 307, “contra os canhões marchar, marchar” ! Ponham, sem medo, os putos e as mães a marchar a semana toda, e o futuro será de esperança.
 E para terminar, Camarada Escalope, têm de rever a placa do vosso curso, ela deverá destacar-se, e não confundir-se com o estuque da parede, pintado com a tinta do Patronilha, que dava muito jeito nas pinturas!
Um abraço fraterno deste Marechal que vos estima muito
António Teixeira Rebelo
 

Monday, December 16, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 53 - A Nossa Luz


Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Vale a pena contar os acontecimentos da vida dos Meninos da Luz, porque se reconhece neles um significado decisivo e profundo. No século XIX por causa de um artista com um Q.I. igual ao do Alguidar, o colégio foi momentaneamente extinto. Por isso é preciso ir resgatar ao passado as palavras adequadas ao momento:

- “Verticalidade, meus meninos, é o que se exige, quanto mais se dobra a espinha mais o rabo fica a jeito!”

São detalhes tão delicados e preciosos que nos preenchem o encantamento que sentimos por este espaço. O lendário estabelecimento militar junto ao Largo da Luz era uma instituição sui generis, onde os alunos eram conhecidos pelos números, e os cães e os cavalos pelos nomes. Mas havia mais excentricidades!

- O Colégio Militar é o único local do país que canta o hino nacional a 6 vozes, - dizia com orgulho o meia-leca do professor de música narigudo e com careca avantajada, encostado ao órgão, em cima dum estrado, que fazia a vez de tacões.

O Carioca não estava com toda a certeza a pensar no 324, que tinha grande dificuldade na despalatização, e que nunca conseguira retirar a humidade das camaratas das cordas vocais, encravando com regularidade a língua no “entre as brumas da memória”, cantando “entre as brumas da mimória”, levando sempre o docente, atento a coisas mínimas, a um esbugalhar de olhos, um vociferar para dentro, seguido de uma fúria tão grande que levava o padre a pecar de imediato, com dois chapadões à maneira.

- Pior do que tu só aquele tenente-coronel pequenino, escuro e enrugado, que só faz merda, - desabafou um dia.

Mal ele sabia que este gesto inconsequente iria ter repercussões para toda a vida do sub-Diretor, pois este acabara de entrar no panteão das alcunhas: Olho-do-Cu!

Por isso, só uma minoria servia para aves canoras, estando as canas rachadas arrumadas, a excentricidade maior, no Canto Coral, que no resto do país significava elite.

- Encontrámos um cavalo na serra de Monsanto, e pensamos que vos pertence, - informou o guarda da GNR quando o Oficial de Dia atendeu o telefone.

E era verdade. Havia sempre confusão de cada vez que os cavalos eram levados para as aulas de equitação. No Largo da Luz seguiam em procissão bichos com os carretos gripados, em direção à Azinhaga da Fonte, no fundo da qual entravam no colégio e no respetivo picadeiro. Davam coices nos soldados, nos colegas e faziam riscos nos carros. Por isso às vezes extraviavam-se!

Só um colégio com o lema “Mente Sã em Corpo São” é que foi capaz de dar ao país adultos com tanta qualidade como o Gordini, o Peidão, o Escalope, o Zacarias, o Cão, o Leitão, o Pitosga, o Beterraba, o Six, o Maneli, o Coiote, e tantos, tantos outros que “por obras valorosas “ merecem pertencer à “Ínclita Geração”.

- Não se mexam, - gritou o enfermeiro Valério à medida que espetava as agulhas nos Meninos da Luz alinhados.

Seguia-se o colega Valentim com uma seringa atestadinha de produto, distribuindo uma dose a cada rapaz. De novo o Valentim para recuperar o material e desinfectar, com o mesmo algodão, a zona de penetração. Por isso uma das provas de admissão consistia em inspecionar a fruta dos petizes, para ver se era normalizada, uma modernice que se estendeu às leguminosas do país muitas décadas depois.

- Ó puto, julgas que eu estou aqui porque quero? – Perguntou ao futuro 191 o soldado ajoelhado à sua frente, com um tomate em cada mão, quando ouviu o riso do candidato. 

O 601 levava tão a peito o parágrafo oitavo do “Código de Honra”, “ser generoso na prática do bem” que, em vez de requisitar egoisticamente solarina “Coração” para dar brilho aos botões enfiados na Tala, instrumento que os separava do pano da farda, para não a manchar, escreveu na folha “Camisas de Vénus”, possivelmente para distribuir pelos colegas. O senhor Manuel é que não compreendeu o gesto e por isso saltou o balcão e correu atrás do artista, disposto a fazer-lhe a folha. E um dia até requisitou a Rosa!

Quando o padre Castelão chegou à aula de Religião e Moral, já com atraso, deu de caras com o 78 a fazer a vez de professor, sentado na secretária, e a abanar algo para os camaradas:
- Estas são a chaves do Céu!
Acabou o dia na barbearia com uma carecada.

Dizer a verdade e não mentir era um mandamento sagrado e incondicional do Colégio Militar. Não havia nenhuma circunstância, nenhum pretexto, nenhuma conveniência, nenhuma motivação para mentir. Mentir implicava a rejeição da dignidade da Luz. Foi com os olhos postos nos 10 mandamentos que o 413, actualmente a residir no Algarve em formato hippie, arriou com tanta força no 191, que “até me doeu”, disse mais tarde o 120. Felizmente o  mandamento nove estava suspenso desde a fundação, tal qual como o quinto mandamento do Moisés, e por isso todos os procedimentos tinham decorrido dentro da lei. Uns minutos antes a algazarra na camarata era tanta, que obrigara o graduado a medidas extraordinárias. Acendeu as luzes e com o mandamento cinco (“ser verdadeiro e leal, assumindo sempre a responsabilidade dos seus atos”) no pensamento, gritou:
- Quem não está a falar, lá para fora.
Saíram vários, incluindo o 31, que estava a decorar a matéria em voz alta, e que segundo as suas convicções safava-se graças ao quatro, “dedicar à sua formação todo o seu esforço e inteligência”, que o excluía da categoria de ruído. Felizmente nem todos iriam ter direito a ceia, duas estaladas bem aviadas por desrespeito à corneta, que já declarara há mais de meia hora que o tempo era de silêncio. Na semana anterior não fora assim, por causa de um artista que se deitara de cuecas, um desrespeito aos procedimentos militares, todos tinham tido direito a uma dose. E foi durante o ritual de preparação para a festa que o 191 fez uma pergunta, por gestos, ao 120, que lhe respondeu na mesma linguagem. Azar, o 413 estava raivoso e interveio de imediato:
- Estás a falar, apresenta-te, - sinal de que iria ter direito a uma entrada.
O 191 lembrou-se do mandamento dois, “dignificar a farda que enverga”, no caso o pijama, e interveio, assumindo as responsabilidades, fora ele o responsável pelo gesto ruidoso do colega.

Circulava a informação de que o vinho das refeições, outra excentricidade, além de água também continha cânfora, destinada a açaimar o íntimo. Mas não é isso o que a literatura da especialidade diz! Talvez esteja aqui encontrada a explicação do porquê das “Ginas” terem estado durante longos anos no top das preferências, mesmo com a concorrência feroz do livro de estudo de português que dizia “piscis conas funderunt”, sinal de que ensinar línguas mortas neste espaço educativo desenvolvia tudo menos o intelecto.
Nestes tempos marchava-se para todo o lado, o “esquerdo direito, op dois, esquerdo” era o que mais se ouvia, seguido de continências o dia todo. E como de início a confusão de fardas e patentes era uma constante, o 502 e vários colegas saudaram um dia com aprumo um inspector da carris que entrou no eléctrico impecavelmente fardado para pedir os bilhetes aos passageiros.
 

Wednesday, October 30, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 52 - Simplesmente Vapor

Comandante Guélas
Série Colégio Militar
O Vapor


- É o Gui que vai mandar na Força dos Estabelecimentos Militares de Ensino, - ordenou o Alguidar, levantando-se e pondo-se em bicos dos pés.
O silêncio pesava. O Tó sabia que todos sabiam que ele era mais um daqueles ministros que nunca comandara nada, e que agora tinha tido a oportunidade da sua vida, negada uns anos antes pela “enurese”, declarada por um atestado semelhante ao da sua licenciatura. O país tinha um político em processo de “transferência”, deslocava sentimentos do passado, ausência de pilão ao despertar, para pessoas do presente.
- Mas senhor ministro, os outros já cá andam há mais tempo.
O assunto estava a transformar-se num jogo floral, com barricadas e trincheiras, o poder usara e abusara de inépcia política, assumindo o confronto como forma de vida, os do outro lado, estavam fechados no seu mundo, perdendo a capacidade de entender o que os rodeava. Todos faziam poucas tangentes à realidade, havia adagas e espadas a tilintar.
- Quem manda sou eu, está decidido, o gordinho vai comandar.
O fundamentalismo instalara-se na Luz, já nem o pin escapava, havia quem os quisesse tirar àqueles que no  passado tinham dado luz à gloriosa Luz, o Moca, o Patronilha, o Miranda, o Semita, o Carioca, e aos que com orgulho e competência os substituíram, mostrando que o local estava sempre para lá de formatados conceitos estéticos. A “Geração Calimero”, alimentada a Suissinhos, que nunca provara um amarelo feito com bifes da testa e ovos do pai da Rosa, saídos do interior das galinhas desmaiadas com o clorofórmio que alguns tinham desviado ao Valentim e arremessado para cima das aves, pedia uma revolução, e quando escutavam nos ipod o Pequeno Saul, o seu líder incontestado, apetecia-lhes bater em alguém. Por isso esta estória merece um ponto parágrafo.
O passado com estórias continua a ser uma memória útil, onde certas decisões eram difíceis de tomar, mas representavam um grande ato de coragem. O Vapor era um equino rebelde, acreditava na possibilidade de escapar ao sentido único do seu tempo, que o reduzia a uma simples cavalgadura militar, com direito a número mecanográfico e a documento oficial de existência. A oportunidade surgiu num 3 de março e abalou as convenções, o Vapor fez uma insurreição do espírito que deixou no éter, e nas memórias de muitos, a sua marca, não com “engenho e arte”, que isso era exclusivo da rapaziada, mas sim com “engenho e ferradura”. O Colégio Militar era detentor do mais antigo título de legitimidade na arte de receber figuras ilustres e iria mostrar, mais uma vez, que estava de boa saúde. Preparou-se com “ardor guerreiro” para a visita de um português que uns anos antes enfrentara, durante uma campanha eleitoral, os tiros de uma pistola, subindo para o tejadilho dum carro, tal qual um “doirado pomo brilhante”, tornando-se no alvo perfeito:
- “Não tenho medo”, - gritou para a turba que o esperava em Évora, no longínquo ano de 1976, deixando para sempre um risco na superfície da cidade alentejana.
Por isso tinha à sua espera a meio da estrada da Luz a Escolta a Cavalo, onde se incluía o célebre Vapor. Os cavalos envergavam fato de cerimónia, assim como os Meninos da Luz, que só podiam pertencer a esta elite com as “lides do estudo” alcançadas. E eles montavam como mais ninguém! Quando o barulho dos cascos de encontro aos paralelepípedos se tornou audível, o comandante engrossou a voz e:
-  Batalhão…firme…sentido!
A sinfonia das botas e das armas dos alunos juntou-se ao ritmo dos equinos, e ao carro que trazia o presidente.
- Ombro arma, - continuou.
O Mercedes parou junto ao monumento, e o Vapor encostou de imediato a garupa à porta por onde a excelência pretendia sair.
- Apresentar arma!
E apresentadas ficaram, pois careciam do consentimento do visitante para regressarem aos ombros. Quando o presidente quis abrir a porta do bólide, esta esbarrou com o traseiro roliço do Vapor, que espreitou através do vidro. O bípede sentiu a fúria de seguir em frente, mas o quadrúpede tirou-lhe o cavalinho da chuva, parecia querer fazer-lhe a folha. Por causa do impasse, a maioria dos militarzinhos encaixou o cão nos cintos e aliviou o peso das armas, que já estava a tornar-se insuportável. A pressão interna na porta do Mercedes preto era igual à pressão externa. O Vapor estava inamovível. Por breves instantes o Gordini fez a revisão da matéria dada:
- Qual é a unidade padrão da pressão? – Perguntara uns tempos atrás o Semita ao seu colega Peidão.
- É o Rascal! – Respondera a seco o colega, provocando o riso da turma.
- “RASCAL”???? Moçooo, sabes o que é um Jericoacéfalo? É o que tu és….um burro sem cérebro, - e deixou cair o ponteiro no coco do 191, – ao mesmo tempo que se virava para a turma. – Nesta aula uns dormem de olhos fechados, outros de olhos abertos.
- Esta cavalgadura não vai ficar a rir-se, - pensou o ilustre visitante exasperado, empurrando a porta com raiva, riscando o vidro com as estrelas.
O equino foi apanhado desprevenido, afrouxara o flanco depois de sentir os esporins a picarem-lhe a barriga, e perdera a primeira batalha.
- A mim ninguém me pára, - disse orgulhosamente o presidente quando sentiu a cabecinha ao vento.
Compôs a farda, ajeitou o chapéu, e olhou com desprezo para o Vapor, que espumava por todos os poros. Mas este já tinha feito os cálculos, e por isso disparou de imediato um soberbo coice, decidido a fazer a folha ao intruso. A direção das ferraduras estava correta, o queixo do inimigo era o alvo, o local previsto para a aterragem indefinido, mas uma mão invisível protegeu ambos de um destino cruel, o bípede safou-se de ficar com a cara ainda mais à banda, o quadrúpede de ser transformado em bifes no jantar seguinte e o colégio de alterar o sentido da História. A partir deste momento o visitante registou para sempre nas suas memórias que o único vento de uma tempestade inesperada, veloz e aterradora, com o cheiro da humidade da palha apodrecida, não do domínio do ar, mas do interior obscuro das cavalariças, fora sentido na Luz.