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Saturday, December 22, 2007

Camarada Choco 51 - Um Jantar no Farwest

                          Camarada Choco
                                           Aventura 51

A festa já ia longa, o Vira-Bicos, o Cabo Pilas e a Psicóloga Loira ocupavam alegremente o piano e davam uma seca monumental aos clientes, cantando “Menina que estás à janela a ver o vizinho a mijar”. De repente entrou pela “Casa de Pasto” um branco em fuga, perseguido por dois pretos em fúria, precipitando os acontecimentos. Recuemos no tempo e deixemos estas típicas cenas de Massamá. Se não fossem estas almas caridosas, o “Gang do Trio Odemira” nunca largaria o piano e teria entrado pela madrugada a dentro a tocar à desgarrada o “Apita o Comboio”, com o Cabo Pilas a fazer de maquinista, da Linha da Caparica. Momentos antes o Virgulino, depois de ter mamado dois “Sumóis de Chouriço”, despejava “Phónixes” e perdigotos sobre os colegas, mostrando que este é que era o seu estado sóbrio. O pior foi quando quis exibir o seu papagaio e não encontrou a entrada da toca.
- Escondam-se debaixo da mesa, - ordenou a Afilhada da Tarde, a mais graduada do grupo, quando um dos pretos resolveu baptizar com uma garrafa de tintól a mona do branco.
- Chamem a Polícia, hou, hou, hou, - disse a Dona Pilca saltando para cima da mesa e começando a dançar uma Polka, com uma banana a fazer de microfone e um cabelo estilo sueca, depois de ter entornado por cima de si, com a emoção, o jarro de sumo de limão.
- Cala-te ò mulher, - gritou a Menina Tatrícia. – Mas isto são lá horas para cantares. Protege-te porque começou uma guerra e eu não quero perder-te. Preciso de ti para mais uma encomenda de 1000 pintos.
A lotação debaixo da mesa era de dez almas, mas devido à luta pela sobrevivência estavam lá trinta, muitas delas avantajadas. No tampo da mesa o Senhor Pintor gritava “agarrem-me senão eu vou-me aos africanos”, mas estava entalado entre várias frangas e não queria perder pitada da criação. A Pirolito aproveitou a ocasião e aplicou o que tinha aprendido na Bufoterapia, ficando o esforço documentado no cantinho de uma fotografia. Assim como entraram, os intrusos saíram, deixando no chão o cliente do INEM, que estava a ser sujeito a um intenso interrogatório do Cabo Pilas:
- Porque é que o senhor escolheu o “Porco Ibérico” como local de actuação? O piano está por conta dos “3 Estarolas Desaparafusados” e eu não pretendo largar-lhes as teclas tão cedo.
Lá fora a confusão no trânsito era caótica. A Fisio Raposinha tinha arrancado a alta velocidade em sentido proibido e por pouco não passara a ferro um agente da autoridade que estava de folga e com os copos. Para agravar a situação a Terapeuta Zézé ameaçava-o com um guarda-chuva chinês, caso ele insistisse em incomodar a colega. O Coronel Tapioca andava desesperado a reunir o rebanho tresmalhado, que tinha arrancado em várias direcções e arriscava-se a passar a noite num dos inúmeros bairros de sonho, que fazem da nossa capital uma típica região africana. As coisas amainaram com a chegada dos Robocops. O Cabo Pilas estava agora no exterior a tentar dar as coordenadas dos fugitivos, usando a longa experiência adquirida no bar do quartel de Queluz a servir penaltys aos oficiais, mas a polícia nem o via, nem o ouvia, porque estava muito escuro ao nível do passeio e as cabeças deles tocavam no topo dos candeeiros. Lá dentro os “3 Estarolas Desaparafusados” estavam agora reduzidos a dois, que insistiam em cantar “Eu vi um Sapo”, dedicado a um colega, mas agora dirigido ao moribundo.
- É para animar, - dizia o Vira-Bicos, dando uma entrada grátis para uma sessão de “Bufoterapia”, que incluía uma refeição de feijoada na véspera, no estabelecimento da Dona Espatinha.
- Agarrem-me que eu vou-me aos negritos, - gritava o Senhor Pintor a tentar impressionar as frangas, que agora se tinham aninhado no seu colo e lhe desestabilizavam o frango.
Lá fora a polícia já tinha um suspeito, um indivíduo fininho com um bigode de três pêlos, e semelhante ao “Topo Giggio”, que insistia em gritar “Phoonix”.
- Deve estar a avisar os blacks, - explicou o chefe. – Levem o lingrinhas para a esquadra.
Quem salvou a situação foi, mais uma vez, a Coronel Tapioca, que explicou ao graduado que o homem só tinha um neurónio e que a culpa era do anúncio da PT, que andava a desestabilizar os Desaparafusados. Debaixo da mesa a Chefe Bélinha desabafava com a Dona Sãozinha, explicando-lhe que, com a sua saída, os Serviços Administrativos estavam à beira do caos.
- Então e a minha sucessora?
- Está sempre estranhamente com a cara colada ao telemóvel.
- Se calhar a miúda está a precisar de óculos?!
- Óculos?!
- Pelo que me conta necessita, no mínimo, de 3 dioptrias e 1 Tegretol.
A pouco e pouco o ambiente foi regressando à normalidade, e as meninas retornaram às cadeiras ao som da “Garagem da Vizinha”, que o duo insistia em cantar, mesmo com os clientes a tapar os ouvidos.
- Preferia que os manos voltassem, a ter que ouvir estes Aparafusados com vozes Desaparafusadas, - queixava-se o Nélinho.
- Kodac, o que é que fazes aqui? – Perguntou a Psicóloga Morena aparecendo por detrás do Cabo pilas, que recuperava da emoção sentado na borda do passeio.
- Se a Doutora Sem Canudo estivesse aqui, eu tinha-a atirado cima dos manos e agora estávamos a comemorar o nosso 25 de Abril, - desabafava o Senhor Pintor.
- Ou então amanhã havia mais dois estagiários na nossa escolinha, - atirou a Pirolito, levantando uma das pernas.
Para a Dona Sãozinha e a Chefe Bélinha a noite já ia alta, pois quando a Coronel Tapioca fez a chamada ao pelotão dos Aparafusados, deu por falta das duas, acabando por descobri-las a ressonarem encostadas uma à outra debaixo da mesa.

Thursday, November 15, 2007

Camarada Choco 50 - Bufoterapia

                          Camarada Choco
                                          Aventura 50

Os Desaparafusados são “pau para toda a obra”, à conta deles vão aparecendo, por geração espontânea, técnicos para todo o serviço. São os responsáveis por uma nova modalidade de “corrida ao ouro”, que tem o pomposo nome de “Acção de Formação”, onde os responsáveis se apresentam com currículos vertiginosos cheios de “Licenciaturas no Togo”, “Mestrados na Guiné” e muitos diplomas ganhos na farinha “Pensal”. O antigo “Chá Tupperweare” foi agora substítuido pela “acçãozinha de formação”, que vai directa para o papelinho da “experiência profissional”. E tudo isto a pensar na recuperação dos Desaparafusados e na carteira dos Aparafusados. Seguindo a linha desta intelectualidade a funil, a minha pobre escolinha foi assim contemplada como uma novidade, a “Buffo-Terapia”, que permitia aparafusar o pessoal através de sons. Mais felizardos estavam os Aparafusados, pois a acção destinava-se exclusivamente à elite. Mas que sons poderiam sair das pandeiretas, se de muitas das bocas raramente se viam os dentes e os encéfalos estavam forrados de gases? Mas quanto a isto nós, os ilustres Desaparafusados, sabemos muito bem distinguir os Aparafusados que “vestem a camisola” e os que não têm “outro remédio”. E podem tirar todos os cursos que quiserem, que de nós só levarão “buffas”. Mas, voltemos à questão dos sons que fazem milagres. Pus-me a imaginar:
- Bom-dia senhores doutores Aparafusados, eu sou o Mestre Roque Gamanço e estou aqui para vos fazer um desafio, que é aproveitarem o vosso próprio meteorito intestinal para a reabilitação dos Desaparafusados….
- AROOOOOONC – arrotou um formando, abanando as orelhas.
- Santinho, - disse o formador e continuou. – Como já viram, os gases encefálicos também servem.
- Desculpe, mas saiu-me.
- Pum, Pum, - saudou outro, levantando a perna.
- Já estou a ver que compreenderam qual é o lema desta acção de formação: liberta o gás que há em ti!
O ambiente estava pesado, um dos formandos já estava com cara de cu.
- Mas que javardice é esta? – Gritou a Doutora Sem Canudo, interrompendo-me a meditação.
Tinha dado de caras com um vaso xungoso, cheio de lixo e com um pau carunchoso armado em rosa.
- É o Cantinho da Pilca, - explicou a Menina Tatrícia, não se escapando de levar um empurrão da colega de meia idade, que com o desequilíbrio caiu ela aos pés do touro.
- Dona Pilca, que porcaria é esta? Já não me chegavam os candidatos a “Buffo-Terapeutas” do primeiro andar, e agora é isto? Ainda vem aí uma inspecção e passo a ter três queixosos na fila da porta: a Pirolito, o Cabo Pilas e a Inspectora. Eu vou recolher os donativos do café, atender os queixinhas e quando voltar quero aqui um jardim suspenso.
Cinco minutos depois ninguém conseguía passar para o refeitório, pois a Dona Pilca tinha juntado todos os vasos da Venteira e erguera, com raiva, a Floresta Mágica Mongólica. Pelo caminho tinha dado um chuto na velha que insistia em pôr os caniches a cagar na floreira da entrada.
- Agarrem a Lolita, - gritou a Kalélé.
Mas foi tarde de mais. A Lolita embrenhou-se no matagal e não saiu pelo lado do refeitório.
- Não me digas que trouxeste uma planta carnívora, - disse a Pirosa.
- Mais uma dessas e deito fogo a isto tudo, - berrou a florista, ficando de imediato com um bigodão, sinal de que a tampa ia saltar a qualquer momento.
Mas havia ainda mais um problema grave: uma “Manifestação de Tísicos”, liderada pela padeira Tareca, que ameaçava partir a loiça toda se não lhe dessem a conhecer a já famosa “Lista dos Bichados”, gamada pelo poder intermédio, mas que conseguira deixar a culpa no colo do Trio Odemira dos Serviços Administrativos, a Sãozinha Júnior, o Pato Donald e a Madame Patológica. Só acalmou quando começaram a distribuir as fotos íntimas do pessoal, que iriam levantar a ponta do véu da “verdade da mentira”.
- Aiiiiiiiii, - gritou a Terapeuta Zézé ao confirmar que o pulmão direito estava meio-cheio de tinto branco da Luz.
- Alto e param os pincéis, - ordenou o senhor Pintor, - eu quero que me digam se morro com o pincel rijo, como sempre desejei, ou que a brocha vai cair de caruncho por causa deste bicho que anda aí à solta?
O caos desta típica aldeia gaulesa da Venteira chegara cedo. Seria um sinal do fim do mundo?

Friday, October 26, 2007

O Camarada Choco 49 - O Construtor de Sonho

                          Camarada Choco
                                           Aventura 49

Há um velho ditado no Oeste da Brandoa que diz: “ Se te dizem que esta obra foi feita por um Monga, desconfia. Eles geralmente pouco fazem!”
E é a pura verdade! Todos sabem disto, mas negam-no se lhes perguntarem, apesar de andarem sempre a dizer aos miúdos e graúdos que é feio mentir. Assim, se olharmos para um quadro numa exposição camarária de “pessoal diferente”, noventa por cento da obra foi feita pelo técnico responsável, tendo-se limitado o autor oficial a uma simples pincelada, que estragou tudo o que já estava feito, obrigando o Aparafusado a fazer umas horas extraordinárias, de borla, para repor a legalidade da obra. Se recebermos um postal de Natal assinado por um desaparafusado desconfie-se, porque noventa e cinco por cento do presépio foi feito pela auxiliar, pois geralmente a responsável pela sala estar sempre algures a fazer as eternas, e já famosas, avaliações, que lhe modificam sempre o formato do penteado. O desaparafusado, como diz a tradição, é sempre o responsável pelo único olho com que o Menino geralmente aparece na inspecção final, obrigando a Comissão da Perfeição a colocar-lhe o berlinde em falta, pois naquele espaço são proibidos objectos imperfeitos, porque ninguém compra. Passa-se o mesmo com os Pirilampos: as velhas analisam primeiro o bicho antes de largarem a moedinha! Muitas das vezes regressam no dia seguinte para o trocarem por outro mais “perfeitinho”. E tudo isto em nome dos Desaparafusados, que tanto amam. E sabonetes “made in monga” com imagens de santinhos? Eles nem entram na sala de produção, não vá deixarem escapar pedaços de baba, que transformariam o cheiro a “Rosinha Manhosa” em “Sebo de Mongólia”. Mas não é de “acessórios” que esta história irá tratar, mas sim de “tijolos”. E como sempre em tudo o que está relacionado com este Clube das Mil e Uma Noites, tem o dedo da Madrinha. Decidiu um dia que os técnicos tinham direito à sua própria vocação atirando, mal entrou na propriedade, com o Nélinho para o sótão, de encontro ao “cimento e ao chumbo”.
- Quero vinte mil carcaças de betão para amanhã, – ordenou.
- E ajudantes?
- Podes ir ao rés-do-chão requisitar colegas e traz também uns desaparafusados para fazerem número. Aliás, o projecto foi a pensar neles, como todos os que me sustentam.
O Nélinho fez uma entrada de Açor nos gabinetes das colegas, trazendo de arrasto a Terapeuta Zézé e a Fisio Raposinha, pondo-as no ninho e obrigando-as a meter as mãos na massa.
- Só vos devolvo os “Cartões de Ponto” quando fizerem o servicinho, – gritou, tirando a camisa.
- Mas eu tenho Clientes à minha espera, – disse timidamente, levantando um dedo, a Raposinha.
- Caluda, quem manda neste sótão sou eu, o Doutor Nélinho, Sobrinho-Neto da Doutora Sem Canudo. Vou até ao bar tomar o pequeno-almoço e aproveito para ficar para o almoço. Quando regressar lá para o fim da tarde, quero cinco paletes empacotadas. Lembrem-se que quem vos paga os ordenados e os subsídios da outra, – e apontou para cima, mudando rapidamente o indicador para baixo, quando se apercebeu que estava no sótão, – são estes tijolos de betão com prazo de acabamento. Dos Mongas não esperem receber nada, pois eles só são úteis para a isenção do IA e do IVA, e nem conduzir podem.
- Estou com falta de ar, - queixou-se a Terapeuta Zézé, tentando meter baixa médica.
- Eu já lhe curo a emoção. Eu só tirei a camisa para vestir a bata. Estava a pensar em paródia? Comigo “conhaque é conhaque, trabalho é trabalho”, mesmo que aqui só beba conhaque, ouviu? Vá, siga já para os tijolos!
A “Dança das Cadeiras” é uma constante neste estabelecimento de reeducação, e quem hoje está sentado amanhã poderá não ter assento. Enfim, modernísses!

Friday, October 05, 2007

Camarada Choco 48 - O pêssego da Brândoa

                          Camarada Choco
                                           Aventura 48
 
O produto secreto contra a sarna usado uns anos antes pela Protecção Civil, e que tinha deixado marcas na parede, estava agora a provocar os efeitos secundários, escondidos deliberadamente por quem pretendia tomar o poder: uma praga de estagiárias! E a situação era tão grave que elas ameaçavam ultrapassar o número de Clientes (nome pomposo atribuído agora aos Mongas). A cada dia havia uma novidade, elas apareciam por Geração Espontânea, eram de todas as formas e feitios, altas, baixas, gordas, magras, velhas, brancas, pretas, coxas, grávidas e……mongas! E tudo acontecera desde o momento em que a Doutora Sem-Canudo se auto-nomeara “Directora Geral”, com o correspondente auto-acréscimo de ordenado. E tudo dentro da Lei! As finanças estavam difíceis, metade do orçamento ia para a Folha de Pagamentos da Madrinha, que fazia colecção de cargos, como o major de Gondomar, e a outra parte esgotava-se nos almoços obrigatórios nos dias das reuniões às 10H00, na rua ao lado, diários, e que incluíam também o consumo de gasolina e gasóleo, caso se utilizasse o autocarro com a plataforma. Se a reunião fosse com as doutoras sem canudo do costume, a concorrência obrigava ao uso do “Machibombo com Elevador”, para que a Auto-Directora Sem Canudo da Venteira humilhasse as adversárias no momento em que lhes aparecia vinda do céu, tal qual um anjo. Mas um reinado destes tinha custos, muitos custos, e como a ambição era grande, e o mealheiro estava vazio, muito vazio, tinha-se de cortar nos bolsos dos outros. Daí esta invasão de estagiárias, de borla, escravizadas e que não tinham direito a reivindicações. A verdadeira história começa aqui!
A Beta do Samecas estava à beira do suicídio, o pau com que ele passara em direcção à casa de banho não tinha tido a influência das suas carícias. Havia monga no terreno e ela jurava fazer justiça com as próprias mãos, com a que funcionava e com a que estava gripada desde o nascimento. O Samecas estava em “estado de unicórnio” permanente, com o chifre a meio do corpo, e a cara dava a impressão de estar perigosamente perto da sensação de não ser aquele que acreditara ser. E tudo isto causado pela nova estagiária que resolvera sentar-se ao seu colo, contra todos os princípios que faziam dela uma aparafusada, dando-lhe de enfiada um ósculo violento no pescoço, arriscando-se a engolir um dos seus maiores quisto, o conhecido “Pêssego da Brandoa”. Estaria ela a usar novos métodos pedagógicos de reabilitação de desaparafusados ou seria ela própria uma estagiária monga, descoberta exclusiva da Doutora Sem Canudo, única directora com queda para este tipo de fenómenos do Entroncamento? Quando tentaram contactar com a responsável estava com um problema agudo entre as mãos: a Afilhada, agora com o nome próprio de Fidélia, recusava-se a trazer uma das carrinhas da colónia, alegando não ser a sua e ameaçando vir de burro. E nesse preciso momento a Bélinha, a irmã do Choco, estava congelada, em estado de Santinha, sinal de que a tradição epiléptica da família se mantinha. O brasão do Conde Chocalheiro, ilustre monga do século XVII, continuava a dirigir os destinos daquela ilustre família. À tarde a mães do Samecas reclamou as dentadas que o filho levava no lombo. Foi informada de que a responsável era a Belucha, a sua eterna noiva, agora possessa de ciúmes, pois o “Pêssego da Brandoa” estava-lhe destinado há muito, prometido para a Noite de Núpcias, e não seria agora uma estrangeira, e ainda por cima Aparafusada, que lhe iria roubar o seu “fillet mignon”. Por isso tinha decidido marcá-lo, da mesma maneira que ao gado, para acabar de vez com a concorrência.

Monday, June 04, 2007

Camarada Choco 47 - O Pirilampo Mágico


                         Camarada Choco
                                         Aventura 47

A notícia de que o Camarada Choco tinha atingido o topo da carreira de desaparafusado não fora novidade. As suas cuecas tinham-se metamorfoseado em pergaminhos, provas inequívocas de uma vida de sucesso. “Topo” significava que o Camarada Choco era o exemplo de uma vida dedicada à “diferença” e aos desprotegidos, ou seja, uma espécie de Robin Hood, que tirava aos ricos para encher a mochila. A consagração devia-se à importante intervenção do neurologista, que há meses andava a brincar com o conteúdo da tola do nosso herói, obrigando-o a ingerir todos os “drunfos” do mercado, principalmente aqueles que davam direito a viagens à volta do mundo. Enquanto o químico só dava para um fim-de-semana no Algarve para duas pessoas, o Choco passou meses a dar de caras com a Santinha, toda nua, querendo isto significar um estado de congelamento semelhante a um pacote de ervilhas do Continente, em promoção, tirado da arca dos faisões, protegidos, que o Pintor descobrira a voar por cima do espaço aéreo duma das reservas de caça do Alentejo. Demorava sempre meia-hora até regressar à temperatura ambiente!
Assim, quando os bilhetes do cruzeiro no majestoso paquete “O Elefante Branco” começaram a cair no Centro de Saúde, o senhor doutor chamou a família do Camarada Choco de urgência, facto que a mãe, mesmo desaparafusada, achou estranho, porque estava há vários meses a tentar encontrar o dito senhor, mas o raio do homem passava a vida em congressos nas ilhas Fidji. Ainda a progenitora mal tinha passado a porta do consultório e já a receita de dois contentores de “Tegretol GT 5500 Turbo” estavam nas suas mãos. Era desta que o Choco iria aparafusar de vez!
O “drunfo” do tamanho de um melão demorou a cruzar o esófago, mas graças a um piaçaba milagroso chegou ao seu destino. O primeiro sinal foram umas argolas de fumo que começaram a sair das orelhas. O segundo foi durante a primeira micção, em que o nosso herói levantou a perna e encharcou o cágado, que se preparava para ver a “Floribela”. O terceiro veio sobre a forma de um flato que apagou todas as luzes da casa. Aqui o Chefe da Família reagiu, pondo a mão no cinto de cabedal chinês e ameaçando fazer uma tatuagem na bilha do Camarada Choco. O quarto correspondeu a um arroto monumental, tipo trovoada, que rebentou com a energia do quarteirão, impossibilitando o chefe de família de ver o beijo carinhoso entre a Floribela e o Guarda Ricardo. A fúria do senhor Firmino foi tal que, com a pressa de tirar o cinto, deixou as calças, as cuecas e o conteúdo destas no sofá e despejou a energia em cima de um “abajour” chinês, pois confundiu a luz que o Choco emanava no topo da marmita, com o objecto mais caro da habitação, a Santa-Meteorológica, que mudava de cor conforme o clima. Quando as luzes regressaram à casa mais famosa da Venteira, já o Choco tinha desaparecido entre os lençóis, de cor de cartão, e piava agora baixinho.
- Respeitinho é muito bonito, - disse orgulhoso o Chefe Silva. – Lá por ser adulto, não faz o que quer.
O Jardel foi o único que compreendeu o dono, respondendo com um aceno da cauda. Entretanto, o fumo que se foi acumulando nas entranhas da cama do nosso herói, já colara os lençóis ao tecto.
Eram vinte e quatro horas quando as badaladas da torre da igreja coincidiram com o ladrar do relógio de cuco que o pai do Choco tinha comprado nesse dia, em promoção, na loja do senhor Koçá Ky Buda. Nem mais um segundo passou quando o efeito do Tegretol GT 5500 Turbo atingiu a fase do “redline”, ou seja, o Camarada Choco iniciou a ópera pimba ,“O Rebarbado de Sevilha”, com as cordas vocais ao máximo e o escape em “ponto-de-rebuçado”. Tudo vibrava, a Santa-Meteorológica não conseguia fixar a cor, o canídeo Jardel iniciou um uivo digno dos melhores lobos da Brandoa, a mana Bélinha vestiu a cara-de-cu que costumava levar para as colónias, e a mãe (por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, e neste caso uns genes especiais) telefonou assustada para os tele-táxis da Guarda. Quanto ao chefe máximo da tribo, começou-se a notar uma comichão anormal do bigode, que alastrou para uma explosão de raiva que atacou o Choco com o cinturão de cabedal da Indonésia, só parando quando o nosso herói adormeceu à custa de tanta “bordoada”.
- Modernices, são só modernices. O doutor enche-me o miúdo de remédios, mas ele só adormece à maneira antiga, - disse orgulhoso, recolhendo aos aposentos.
Só alguns dias depois e vários concertos interrompidos, é que o doutor se apercebeu de que a dose destinada a parar com as “travadinhas” cerebrais , punha o nosso herói fresco que nem uma alface sem ter necessidade de passar pelas brasas. E isso o Firmino não tolerava!

Monday, April 23, 2007

Camarada Choco 46 - Silêncio, ia-se cantar o fado !


                           Camarada Choco
                                          Aventura 46
 
- Mil?! O Salão Nobre dos Bombeiros só dá para mil ?! – Perguntou uma das afilhadas da tarde, a candidata número um ao lugar da Madrinha, a Afilhada Fotocópia.
- Chega ao décimo otário e as inscrições acabam – atirou a pequena, mas atenta, Lolita e afastou-se em passos em rápido.
- A única coisa que sei é que saíram da sala 15 pintos e 8 galinhas, e dinheiro nem vê-lo, - lamentou-se a Dona Pilca, atirando mais uma vez a agulha para cima de uma pobre galinha, feita com os restos das últimas cuecas do Choco.
- Mas eu estou aqui a falar de CULTURA e você a debitar assuntos do galinheiro. Mil lugares é pouco para a surpresa que estou a preparar para a Madrinha. E ainda por cima com caldo verde, chouriço do “Lidl”, Pão Torrado dos chineses e acima de tudo Couve da Brandoa, para dar um ar chique à festa. Vai ser o dia da minha consagração aos olhos do Poder, como angariadora número um para a nova mama….perdão…..a nova Unidade Hoteleira. A Nova Geração nunca me ultrapassará !
- Galinha, a Galinha, se chega à Madrinha, - disparou a Lolita, desaparecendo na sombra.
- Já estou a ouvir os sons das guitarras a ecoarem pelo Pavilhão Atlântico, o Caldo Verde a excitar as línguas dos ouvintes e as Couves da Brandoa a forrar as almas dos artistas.
- Gases, isso são é gases, - disse a Lolita, esfregando as mãos.
- Sou ou não sou um génio, Pilca ?
- Quinze pintos e dez galinhas, e a massa, nem vê-la ! – Queixou-se a senhora de meia idade, remexendo no caixote de lixo, não fosse algum garnizé ter fugido.
- Ó mulher, mas estou eu aqui a falar de Cultura e a senhora só se preocupa com ninharias ?!
- É melhor uma galinha na mão, do que dois fadistas a voar ! – Cuspiu a Lolita.
Mas o pensamento da Afilhada Fotocópia já estava noutra dimensão, ao nível duma alucinação visual, em que se via a agradecer à multidão, que enchia o Pavilhão Atlântico. Mas, numa olhadela mais atenta, todos tinham a cara do Cabo Pilas, o único otário que tinha pago o bilhete. A Afilhada Fotocópia corria então em direcção à caixa das esmolas e deparava-se com o dinheiro do militar, em escudos. E quando os olhos se viravam de novo para a assistência, os Pilas esfumavam-se, e ficava somente o original. Entrava então no palco o Pitrongas, acompanhado pelo Choco, com uma guitarra chinesa sem cordas, e começava a festa:
- Eu já fui ao…..e ele deu-me…..foram duas e três, todas duma vez.
Na plateia era servido o Caldo Verde, vindo directamente das entranhas do Monga mais chinês da Escola, tal como aconteceu na aventura número vinte e um. No exterior, junto ao povo, a Dona Pilca e a Menina Tatrícia vendiam alegremente as suas soberbas Galinhas e os seus Pintos atrevidos, tendo os bolsos a abarrotarem de euros, tendo junto a elas a Madrinha e dar-lhes beijinhos e a coçar-lhes as costas.

- NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOO……….., isto não me pode estar a acontecer. Uma Doutora com Canudo não pode ser ultrapassada por meia dúzia de Pintos e umas tantas Galinhas?! Juro pela vida dos mongas que os fados vão ser cantados.

(Entretanto, algures numa habitação, uma utente acabava de terminar o curso e rumava agora para uma vida melhor.)

- São gases, - diagnosticou a Lolita , a única que conservava ainda o juízo que Deus lhe dera.

Tudo foi interrompido pela Doutora Sem Canudo que avisava pela chegada da televisão e pelo início das filmagens:
- Quero todos os trabalhos dos nossos queridos desaparafusados na Sala de Visita da minha Afilhada da Tarde, a número dois.
- Mas de momento só estão disponíveis as Galinhas e os Pintos da Dona Pilca e da Menina Tatrícia, - informou a Afilhada Fotocópia.
- É única coisa que há. O pessoal aparafusado é pouco e os desaparafusados estão todos reformados desde que nasceram - informou a Lolita.
- As senhoras da capoeira vão todas para a Sala das Porcas dar milho aos pombos e no local das filmagens só permanece o pessoal do canudo, - ordenou a Dra. Sem Canudo, compondo a mesa e iniciando o discurso. Todas estas aves foram feitas pelos desaparafusados, com o acompanhamento pedagógico das minhas queridas afilhadas…perdão…especializadas. Como podem ver, a criação é toda diferente, as Galinhas estão mais viradas para a Didáctica e os Pintos gostam muito de Pedagogia!

Wednesday, March 21, 2007

Camarada Choco 45 - No Reino do Leão





                         Camarada Choco
                                          Aventura 45
 

O convite chegou via fax, como já era habitual, mas quis o destino que  não fosse parar ao caixote do lixo, como era habitual. Mesmo vindo da Federação dos Pseudo-Deficientes (F.P.D.), os chamados “Meninos Desaparafusados da Linha”, que enchiam as escolas dos aparafusados, mas que muitas vezes eram recambiados para as cooperativas, para assim não chatearem os senhores professores da primeira classe do comboio do Ensino. E era com parte destes que o Estado se representava nas olimpíadas, abrindo os noticiários com a enchente de medalhas de ouro.
Mas desta vez a resposta foi “SIM”! De peito, ou costas erguidas, consoante o modelo do atleta, iríamos defrontar o Leão no seu Estádio. A Seleção começou de imediato a preparar-se para o embate. As Novas Tecnologias do Marketing foram postas em ação, tendo em vista arrasar com a concorrência. De “Ping Pong” só um entendia, o Brazuca, a nova aquisição da Cooperativa, descoberto numa obra, que tinha substituído a escola. E como era clandestino, talvez fazendo-se passar por desaparafusado conseguisse o tal visto milagroso. Era isso o que a simpática mãe esperava, para depois o tirar rapidamente dali, antes que a peste o contagiasse. O convite dos pseudo - clubes de desaparafusados, muitos dos quais mais aparafusados dos que os pseudo - aparafusados das escolas oficiais, às genuínas escolas de genuínos desaparafusados servia só para a estatística, porque em vez de meia dúzia de gatos pingados a fingir de deficientes, contariam com uma centena de desaparafusados de todos os calibres, daqueles que nenhuma entidade oficial convida, excepto se houver eleições. A nossa missão era vencer e convencer, mostrar que éramos os “Tubarões do Seixo”, nome mítico que levava sempre o “i” de cada vez que saiamos para o exterior. A tática tinha como elemento principal o Cascão, um superdesaparafusado que passava a maior parte dos dias a falar com as moscas. A chegada foi apoteótica, a cada “Tubarão do Seixo” aplicou-se uma camisola da loja dos trezentos com as palavras indicativas do local de origem: Venteira! Os primeiros leões foram de imediato informados pelo Stor Pobre de que iriam ser cilindrados e ao campeão de Portugal aconselhou-se a mudar de profissão. O Tubarão tinha vindo massacrar o Leão. Para o aquecimento foi destacado o Cascão, que começou de imediato a tentar acertar nas moscas com a raquete. Não precisava de bola ! O Brazuca foi mandado sentar, não precisava de aquecer, os anos de treino em casa com os primos eram suficientes. A prestação do superdesaparafusado provocava risos jocosos aos adversários, que viam esta prova como um passeio no parque.
- Mas eles são mesmo deficientes – desabafou um anão coxo com o Leão ao peito.
O Cascão continuava o seu aquecimento, tentando acertar nos insetos virtuais que ocupavam o seu espaço aéreo. Para impressionar o “inimigo” foi enviado para uma das mesas um par desaparafusados africanos da Brandoa, que de “Ping Pong” percebiam pouco…muito pouco…nada, absolutamente nada, mas mesmo assim eram melhores, muito melhores, que o Cascão. Chamavam-se Lali e a Vaisnessa ! O primeiro ainda tentou acertar na bola fantasma, materializada pelas informações que o olho maroto dava às poucas partes do cérebro que não tinham saído após a queda do penhasco na sua ilha, que lhe abrira o coco ao meio, e que tinham sido substituídas pelas poeiras que se acumularam durante o longo processo de cicatrização. Apareceu já assim, graças aos protocolos de saúde que davam a possibilidade de colocarem os feridos nos aviões com destino a Lisboa. E depois os professores e os outros técnicos é que se tinham de desenrascar, porque os médicos pouco ou nada informavam. Quanto à Vaisnessa, os dotes de jogadora também não eram grande coisa. Ao lado os felinos riam desamparados.
- Mas eles são mesmo deficientes, - tornou a dizer o anão coxo com o Leão ao peito.
A estratégia estava montada, os leões iriam cair que nem uns patinhos. Mais um par tomou de assalto o aquecimento: o Gorilão e o Monga Romeu. Acertaram cinco vezes em mil, o que não convenceu o anão coxo com o Leão ao peito:
- Mas eles são mesmo deficientes !

Primeiro Jogo

Leão versus Tubarão

A partir deste momento só o Brazuca nos representava, os outros não passavam de simples engodo. O primeiro representante do felino era o já célebre anão coxo, que se dirigiu para a arena com um sorriso de vencedor absoluto e bastaram poucos minutos para regressar à bancada ainda mais pequeno e duplamente coxo.
- Só isto ? – Perguntou o Brazuca, compondo a popa.
- Foi sorte de deficiente, - justificou-se o marreco zarolho, o próximo da lista. A eliminação do anão já tinha aberto uma brecha na jaula do Leão. O treinador observava agora com atenção o nosso Tubarão. O jogo demorou algum tempo, mas o marreco também foi com os burros. A situação estava grave. As luzes apontavam para o Brazuca. Foi a vez do Stor Pobre entrar em cena e arrasar com a concorrência. Alvalade não chegava aos calcanhares da Venteira. O treinador dos Tubarões colocou-se junto do treinador dos Leões e explicou toda a metodologia de treino.
- Está a ver aquele ali, - e apontou para o Cascão, o célebre caçador de moscas. – O Brazuca quando nos veio parar às mãos (dois dias antes), estava naquele nível.
- Espantoso ! – Admirou-se o representante dos felinos. – Que trabalho fantástico.
- Das 8 da manhã, às 8 da noite. O Stor Rico abre a porta e a Dona Pilca fecha-a. O Brazuca nem almoça, é só treino, só treino. O Cascão iniciou agora a sua carreira no “Ping Pong” e no final do ano estará ao nível do nosso campeão e para o ano virá aqui disputar a taça (caso houvesse algum milagre, pois estava assim desde que nascera há 14 anos, vindo diretamente da pipa que era a barriga da mãe, que no teste de amniocentese dera vinho tinto branco de Belas). Nos "Tubarões do Seixo" há centenas de mesas espalhadas pelos corredores, ocupadas durante todo o dia. A culpa é do Porres que, desde a chegada ao topo, Trabalho e Competência passaram a ser temas obrigatórios.
O Brazuca limpou tudo e obrigou o Leão a ficar de gatas, com o traseiro à disposição do Tubarão. A única foto oficial foi tirada debaixo da bandeira verde, com marcação incontestável na primeira página do jornal oficial de Alvalade.

Friday, March 02, 2007

Camarada Choco 44 - As Lágrimas da Doutora



                          Camarada Choco
                                           Aventura 44

Habituados ao insólito, os “Cerciamos” (habitantes da Cooperativa de Reabilitação para Desaparafusados e Aparafusados) prepararam-se para o apocalipse, onde tudo daria lugar há insanidade e há loucura. Uns ainda se espantam (a minoria) porque não acreditam, outros porque estão cansados, outros porque receberam uma oferta melhor, talvez uma oferta que não pudessem recuar, ser afilhadas e, como consequência, mais prósperas e felizes. O abraço da ex-Doutora Sem Canudo à Dona Pilca e à Menina Tatrícia, fez transparecer um estado de alma, que criou uma vibração nas vozes de todos os presentes. Era o culminar de um amor caprichoso, tumultuoso, de encontros e desencontros, de desejo, sensualidade e ausências (o estado “santinha”, exclusivo desta Instituição). A um canto, discreta, estava a Dona Gilette, elemento cada vez mais raro nos colectivos dos desaparafusados. Atenta, paciente, formosa mas não segura, à espera da sua vez para vender o único produto possível da sua sala de quiabos: frasquinhos de compota de Baba e Borra de Monga, que lhe possibilitariam, segundo pensava a própria, comprar um talhão junto à Casa Forte da Madrinha.
As lágrimas da Doutora Madrinha eram ali ouvidas a tocar nos tacos, ao vivo e a cores, sem piano, em pequenas doses de crocodilo, repetidas tantas vezes quantas o montante entregue. A concentração, o esforço e a boa disposição imperavam na sala. Mas não em todos os cantos. O intrépido gaulês, o Senhor Pintor, denunciava a situação, propondo um novo olhar, que era sempre pessoal. Assim, estes jantares de Natal não serviam apenas para reconstruir novas alianças do passado, mas antes criar espaços para novas afilhadas. Foi o momento de um encontro privilegiado, onde se pressentiu o pulsar comum dum saco azul subterrâneo, por debaixo dumas saias, quase invisível, interior.
A geração de afilhadas é uma tendência que se tem vindo a desenvolver e a que todos devem estar atentos, por ser claramente favorável a quem desejar fazer umas colónias.
- No meu dia de anos nem um beijinho me deu, nem uma lágrima verteu. Só consegui os dez minutinhos finais da jorna – resmungou o Senhor Pintor, afastando, do fato comprado nos indianos da Praça de Espanha, um pêlo encaracolado. – Alguém haverá de ser responsabilizado por isto !
O ritmo alucinante do beija-mão era pontualmente interrompido por uma fotografia, enquanto que no corredor se tentavam adivinhar as prendas, não fosse alguém receber uma pega da Sala dos Têxteis. A Madrinha estava sempre presente, na forma como comíamos, nas palavras que usávamos, propositada ou inadvertidamente. Mas, com a Madrinha há sempre muitos “mas”…
- A “clave de Sol”, onde está a minha “clave de Sol”, que comprei nos chineses com o dinheiro dos vossos almoços….vossos não, meus almoços. Ninguém sai daqui se a “clave” não regressar há minha propriedade. Mas uma parte da plebe estava mais preocupada em guardar nas carteiras as velas, do que no discurso da “Madrinha de Algumas”. O jogo do arremesso dos porta-guardanapos foi bruscamente interrompido pela chegada, não programada, da companheira do Camarão.
- Estás proibido de jogar com a progenitora do Tremelga.
Era o segundo cartão amarelo da noite ! O jogo prometia aquecer, a Madrinha já não gritava só pela “clave de Sol”, mas também pelas “velas com a Santinha”. Nem os beijinhos das novas afilhadas conseguiam controlar a “baba de fúria”. E nestes momentos tudo vem à memória, até a garrafinha do vinho do Porto descoberta no armário da Psicóloga Loira. Mas o pior ainda estava para vir !
- A “Passarinha”, roubaram-me a “Passarinha”, - gritou a Dra. Madrinha Sem Canudo, deitando fumo pelas orelhas, sinal de que os segmentos estavam prestes a gritar.
- A “Passarinha” da madrinha ? – Perguntaram em coro as novas afilhadas, levantando-se com dificuldade da mesa de Natal. – Nós vamos investigar, já temos suspeitos. Acalme-se Madrinha que volta para casa coma sua “Passarinha”, a “Clave de Sol”, as “Velas com a Santinha” e todas as outras porcarias….
- Tatrícia – interrompeu a Dona Pilca, tentado abafar a última palavra da sua colega chinesa com um valente empurrão, que a atirou para cima do Cabo Pilas, que caiu desamparado no chão. – Queres dar cabo do posto que tanto nos custou a ganhar ?
E no meio disto tudo veio de novo à memória da Doutora Madrinha Sem Canudo a garrafa de vinho do Porto. Agora compreendia ela as razões de tanto “farróbadó” naquele gabinete. E escusava a Psicóloga Loira explicar que fora alguém que lhe pedira para guardar o produto e ela esquecera-se. As melhoras dos clientes não se deviam a palavras sábias, mas sim aos vapores do vinho do Porto. Era um tratamento fraude !
- Qualquer dia é o Nélinho a ser eleito Afilhado, - continuava a resmungar o Senhor Pintor. – Vou-me vingar em alguém ! – E levantou-se apressadamente da sala, desaparecendo nas entranhas do edifício.
Algum tempo depois ouviu-se um barulho metálico vindo do andar de baixo e para os lados do Bar. Todos se precipitaram escadas abaixo, pensando ser o Muro que apanhara de vez o Porres. Mas não, o arrastar de metal pelo chão era mais para lá. Pararam a escassos metros quando deram de caras com o Senhor Pintor a expulsar um armário do seu estabelecimento de pintura.
- Na Sala de Artes não se produzem sandes, sandoscas, croquetes, pastéis de bacalhau, mas sim telas com Nódis e outra bicharada – informou o Dr. Pintor, com o fato dos indianos já todo amachucado.
- O meu Sobrinho…o senhor Doutor Pintor Sem Canudo tem razão – confirmou a Dra. Madrinha Sem Canudo, tentado resolver a situação embaraçosa, recorrendo às palavras mágicas.
- Dá-me a impressão de tenho de acelerar a produção das minhas compotas, - atirou a Dona Gilette. – Ainda saio daqui hoje afilhada !
- Sobrinho ?!! Eu fui promovido a Sobrinho ?!! – gritou o Pintor, abraçando-se à Tia.
- E para provar a afeição que tenho por si, convido-o a acompanhar-me a um Curso de Formação de Power Point, que não me vai servir para nada, mas não dou o meu lugar a ninguém.