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Saturday, December 22, 2007

Camarada Choco 51 - Um Jantar no Farwest

                          Camarada Choco
                                           Aventura 51

A festa já ia longa, o Vira-Bicos, o Cabo Pilas e a Psicóloga Loira ocupavam alegremente o piano e davam uma seca monumental aos clientes, cantando “Menina que estás à janela a ver o vizinho a mijar”. De repente entrou pela “Casa de Pasto” um branco em fuga, perseguido por dois pretos em fúria, precipitando os acontecimentos. Recuemos no tempo e deixemos estas típicas cenas de Massamá. Se não fossem estas almas caridosas, o “Gang do Trio Odemira” nunca largaria o piano e teria entrado pela madrugada a dentro a tocar à desgarrada o “Apita o Comboio”, com o Cabo Pilas a fazer de maquinista, da Linha da Caparica. Momentos antes o Virgulino, depois de ter mamado dois “Sumóis de Chouriço”, despejava “Phónixes” e perdigotos sobre os colegas, mostrando que este é que era o seu estado sóbrio. O pior foi quando quis exibir o seu papagaio e não encontrou a entrada da toca.
- Escondam-se debaixo da mesa, - ordenou a Afilhada da Tarde, a mais graduada do grupo, quando um dos pretos resolveu baptizar com uma garrafa de tintól a mona do branco.
- Chamem a Polícia, hou, hou, hou, - disse a Dona Pilca saltando para cima da mesa e começando a dançar uma Polka, com uma banana a fazer de microfone e um cabelo estilo sueca, depois de ter entornado por cima de si, com a emoção, o jarro de sumo de limão.
- Cala-te ò mulher, - gritou a Menina Tatrícia. – Mas isto são lá horas para cantares. Protege-te porque começou uma guerra e eu não quero perder-te. Preciso de ti para mais uma encomenda de 1000 pintos.
A lotação debaixo da mesa era de dez almas, mas devido à luta pela sobrevivência estavam lá trinta, muitas delas avantajadas. No tampo da mesa o Senhor Pintor gritava “agarrem-me senão eu vou-me aos africanos”, mas estava entalado entre várias frangas e não queria perder pitada da criação. A Pirolito aproveitou a ocasião e aplicou o que tinha aprendido na Bufoterapia, ficando o esforço documentado no cantinho de uma fotografia. Assim como entraram, os intrusos saíram, deixando no chão o cliente do INEM, que estava a ser sujeito a um intenso interrogatório do Cabo Pilas:
- Porque é que o senhor escolheu o “Porco Ibérico” como local de actuação? O piano está por conta dos “3 Estarolas Desaparafusados” e eu não pretendo largar-lhes as teclas tão cedo.
Lá fora a confusão no trânsito era caótica. A Fisio Raposinha tinha arrancado a alta velocidade em sentido proibido e por pouco não passara a ferro um agente da autoridade que estava de folga e com os copos. Para agravar a situação a Terapeuta Zézé ameaçava-o com um guarda-chuva chinês, caso ele insistisse em incomodar a colega. O Coronel Tapioca andava desesperado a reunir o rebanho tresmalhado, que tinha arrancado em várias direcções e arriscava-se a passar a noite num dos inúmeros bairros de sonho, que fazem da nossa capital uma típica região africana. As coisas amainaram com a chegada dos Robocops. O Cabo Pilas estava agora no exterior a tentar dar as coordenadas dos fugitivos, usando a longa experiência adquirida no bar do quartel de Queluz a servir penaltys aos oficiais, mas a polícia nem o via, nem o ouvia, porque estava muito escuro ao nível do passeio e as cabeças deles tocavam no topo dos candeeiros. Lá dentro os “3 Estarolas Desaparafusados” estavam agora reduzidos a dois, que insistiam em cantar “Eu vi um Sapo”, dedicado a um colega, mas agora dirigido ao moribundo.
- É para animar, - dizia o Vira-Bicos, dando uma entrada grátis para uma sessão de “Bufoterapia”, que incluía uma refeição de feijoada na véspera, no estabelecimento da Dona Espatinha.
- Agarrem-me que eu vou-me aos negritos, - gritava o Senhor Pintor a tentar impressionar as frangas, que agora se tinham aninhado no seu colo e lhe desestabilizavam o frango.
Lá fora a polícia já tinha um suspeito, um indivíduo fininho com um bigode de três pêlos, e semelhante ao “Topo Giggio”, que insistia em gritar “Phoonix”.
- Deve estar a avisar os blacks, - explicou o chefe. – Levem o lingrinhas para a esquadra.
Quem salvou a situação foi, mais uma vez, a Coronel Tapioca, que explicou ao graduado que o homem só tinha um neurónio e que a culpa era do anúncio da PT, que andava a desestabilizar os Desaparafusados. Debaixo da mesa a Chefe Bélinha desabafava com a Dona Sãozinha, explicando-lhe que, com a sua saída, os Serviços Administrativos estavam à beira do caos.
- Então e a minha sucessora?
- Está sempre estranhamente com a cara colada ao telemóvel.
- Se calhar a miúda está a precisar de óculos?!
- Óculos?!
- Pelo que me conta necessita, no mínimo, de 3 dioptrias e 1 Tegretol.
A pouco e pouco o ambiente foi regressando à normalidade, e as meninas retornaram às cadeiras ao som da “Garagem da Vizinha”, que o duo insistia em cantar, mesmo com os clientes a tapar os ouvidos.
- Preferia que os manos voltassem, a ter que ouvir estes Aparafusados com vozes Desaparafusadas, - queixava-se o Nélinho.
- Kodac, o que é que fazes aqui? – Perguntou a Psicóloga Morena aparecendo por detrás do Cabo pilas, que recuperava da emoção sentado na borda do passeio.
- Se a Doutora Sem Canudo estivesse aqui, eu tinha-a atirado cima dos manos e agora estávamos a comemorar o nosso 25 de Abril, - desabafava o Senhor Pintor.
- Ou então amanhã havia mais dois estagiários na nossa escolinha, - atirou a Pirolito, levantando uma das pernas.
Para a Dona Sãozinha e a Chefe Bélinha a noite já ia alta, pois quando a Coronel Tapioca fez a chamada ao pelotão dos Aparafusados, deu por falta das duas, acabando por descobri-las a ressonarem encostadas uma à outra debaixo da mesa.