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Friday, December 31, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 46 - O Dia em que Paço de Arcos parou



Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
Quem se encontrava perto do Bigornas estranhou, os seus olhos estavam diferentes, até os óculos pareciam desbotados, o olhar já não era meticuloso, estava desleixado, enquanto que o dedo médio da mão direita, que apontava com frequência para o teclado do telemóvel, estava murcho. E gaguejava! Mas o primeiro sinal de inquietação dos amigos foi o grandiloquente devaneio teórico, acompanhado de salamaleques, que os informou que o próximo jantar seria no Salão Nobre da Jomarte, extinta há mais de vinte anos, o local onde todos os paçoarcoenses costumavam mudar o óleo…das motas. A ocasião serviria também para apresentar a nova fotocopiadora, a mais avançada da Península Ibérica, que iria fazer descontos para estudantes e militares. E tudo isto foi dito em registo telegráfico. Notaram também uma estranha tendência para a rarefação, enquanto que o seu apurado sentido gráfico tinha desaparecido.
O Bigornas era um paçoarcoense de quem quase tudo se sabia sobre a sua educação, desde a colecção completa da “Gina”, até ao “Curso de Gestão” (114 volumes), passando pelo “Major Alvega”. A Jomarte tinha-o iniciado na leitura e no amor, fora um estabelecimento estonteante, efervescente, cultural e socialmente, conservado pela força poderosa das imagens, e tudo mudou quando um dia uma misteriosa Kika lhe entrou pelo estabelecimento comercial “adentro”, não para tirar a fotografia da praxe para o passe da Linha do Estoril, mas para o engatar no transporte de uma bilha de gás, desde a “Leitaria Vitória”, que vendia meio-gordo à taça, até casa. Tornaram-se companheiros, almas gémeas, amigos e irmãos, até que o gás acabou e a amante se evaporou. A sofisticada loja “Jomarte”, cujo lema era “traz que eu compro”, entranhou-se nas memórias da vila, onde só um museu a poderá agora transformar em arte. Todas queriam ter um tal vizinho à distância de uma braçada, porque os horizontes culturais deste ícone de Paço de Arcos eram cultivados… Casa-Jomarte-Pica.
O anticlimax de timbre dantesco aconteceu quando um som intenso saiu pelas calças e causou uma tensão dramática entre aqueles que compunham a mesa, e o Bigornas gritou com escárnio, em tom de desafio, indo por isso passar a noite ao Hospital da CUF. Durante a madrugada, que deveria ser de repouso, a luz vermelha do gabinete da enfermeira acendeu com estrondo, indicando que o Bigornas estava com alguma necessidade.
- Desculpe estar a incomoda-la, – disse o paciente da Jomarte, usando uma voz sensual, e continuou. – Importa-se de levantar-me o coiso?
- O “coiso”??? – Pensou a mocinha, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio por debaixo da bata, que lhe eriçou todos os pêlos adormecidos. – Seria que o paciente de meia-idade, anafado e caixa de óculos, estaria a convida-la para o deboche, a pedir-lhe que lhe tirasse o ranho à cobra?
- Vá lá senhora enfermeira, estou aqui às voltas e não consigo adormecer.
- O “coiso”, senhor Cruz? – Perguntou a senhora, já com a voz um pouco alterada.
- Carregue lá no botão para me subir a cabeceira, “faxfavor”.
Após satisfeita a necessidade nocturna, o Bigornas voltou à carga:
- E agora, já posso fumar um cigarro?
O que se pode dizer de mais seguro sobre o que se passou, é que a feijoada atingira o seu mais alto grau de condimentos, não sendo por isso ousado concluir que um “gigler” da bomba do Bigornas entupira, fazendo lembrar os velhos “rátés” dos peidociclos da Praceta. Mas bastou uma assopradela, bem colocada, no “coiso” do Bigornas, feita por pessoal experiente, para pôr de novo na estrada, sem restrições, este James Dean de Paço de Arcos. A “travadinha” do senhor Bigornas convidou a vila a retrospetivar a sua obra, tentando descobrir o lado poeta e metafísico desta personagem de culto da vila de Paço de Arcos, sem referências espaciotemporais precisas. E a sua Jomarte representou a força telúrica de um grupo, o seu potente folclore, visto como algo exótico e novelesco, que a prendeu a um circulo vicioso, a uma realidade que girou à volta do seu proprietário e que só teve um fim no horizonte: o trespasse compulsivo!

Saturday, December 25, 2010

Camarada Choco 71 - A Lamparina do Além


Camarada Choco
Aventura 71

Nenhum poder na Venteira, nem acima nem abaixo dele, pode desviar a vontade da Madrinha, quando ela aponta numa direcção. A tradição era para se cumprir, assim obrigava a Dra. Sem Canudo: o ofício com a data do jantar de Natal já tinha sido afixado no vidro dos Serviços Administrativos pela Fininha e as eternas zangas estavam suspensas, até à próxima convulsão da chefe…perdão, até ordens superiores! O Cabo Pilas ficou liso, imóvel e transparente quando soube que a festa tinha sido marcada para o dia vinte e dois, onde sete anos antes o destino o ia levando de encontro ao S. Pedro, tal como o George Clooney, mas fora devolvido com os caramelos espanhóis e tudo. E mais traumatizado ficara quando algum tempo antes o grilo do despertador tocara a anunciar a entrada na casa dos quarenta, precisamente quando estava na intimidade do lar a tentar tirar ranho-à-cobra …perdão…a fazer o TPC de Ráqui, tendo-se recusado de imediato a aceitar mais esta partida do destino. Por isso de cada vez que mandava a mensagem diária à musa inspiradora dos seus TPCs, assinava sempre no fim: “do seu admirador secreto, o 39 mais 1”. Mas esta história não diz respeito directamente a este fenómeno da Venteira, mas indirectamente, porque tem a haver com o seu irmão gémeo clandestino, o Petit Patapon, o único motorista da zona que guia em pé. E isto tudo devido à sua cara-metade, a Maga Patalógica, que resolveu comprar uma peça original para a sessão de “Troca de Prendas”, uma iniciativa da já lendária Dona Pilca, autora dos “Abafo Palhacinhos”, um sucesso comercial do século passado, que levara a Doutora sem canudo a trocar de carro…perdão…a comprar uma nova carrinha para os coitadinhos dos Desaparafusados. Os tempos eram de paz, de tolerância e por isso foi com ternura que a Dona Pilca recebeu o embrulho das mãos do Petit Patapon, carimbou-o e colocou-o no cesto das roscas, à espera da tão desejada meia-noite onde acontecia sempre um fenómeno igual ao da Cinderela.
- Que coisa tão pesada, - refilou, mudando logo para um sorriso Pepsodent, como mandava a ocasião. – Parece ser um sapatão.
- A minha dimensão não é proporcional às surpresas que dou, - exclamou o caga-tacos, irmão gémeo não oficial do mais famoso Cabo da Venteira, piscando o olho.
A prenda saiu a frio à Doutora Yogurte: uma soberba Lamparina!
- Meu Deus, uma “Lamparina dos Desejos”, - gritou com satisfação. – É desta que mando às urtigas a Dra. Sem…
- Não diga isso que hoje é pecado, - avisou a Dona Pilca, ao mesmo tempo que recebia de braços abertos mais um presunto…perdão, presente, desta feita da sua saudosa colega de trabalho, a Dona Piulia, continuando com voz delicodoce. – Estás maravilhosa, a “reforma compulsiva” está a fazer-te muito bem.
- Tenho três desejos, é só esgalhar a Lamparina, - disse a Dra. Yogurte à sua colega Raquete.
Deu um apertão tão forte, que de dentro do objecto saiu um som intenso, cheio de espíritos sem céu e sem terra, com muitos corpos e muitas almas, vindos de uma região povoada de sonhos, devaneios e ecos distantes.
- Epá, a feijoada que comeste estava com muito feijão, Yogurte, - retorquiu, escorreito, o Dr. Fininho, o senhor das verdades inconvenientes, que tinha vindo substituir a psicóloga sueca, vítima do Bicho da Fruta, balanceando com graça a taça de meio-gordo.
- Meu Deus, isto é um aviso dos céus, ontem sonhei que vários dos meus Desaparafusados tinham batido a bota, depois de lhes ter dado uma fatia de um dos semanais “Bolo de Baba” da Terapeuta Zézé, - gritou a Dra. Yogurte atirando a prenda do Petit Patapon para cima do colo da Piúlia, que já estava mais para lá do que para cá, depois de uma dança alucinada com o Padrinho do Choco.
Quando a “reformada compulsiva” tocou na lamparina esta acendeu-se como um isqueiro e o Nélinho aproveitou a chama para acender o dito cujo, acto considerado como de claríssimo pendor romântico pela ex-Senhora dos Bordados e das Pegas, que tirou a língua da boca e pousou-a com cuidado em cima da prenda da Dra. Yogurte, que estava a segurar a cabeça com as mãos. Mas como não podia dançar com a lamparina na mão, o açoriano poisou-a na mesa mais próxima, e ela ali ficou, mesmo quando a festa acabou. Já no exterior o que restava dos convidados foi confrontado pela dona do estabelecimento, que se recusava a ficar com aquela “Lanterna do Além”, acessório muito em voga nos cemitérios.
- Eu fico com a lamparina, pois já tenho cliente para ela, - disse o Senhor Pintor, pondo fim ao Jantar de Natal da Doutora Sem Canudo

Sunday, December 05, 2010

Camarada Choco 70 - O Comendador Rendas


Camarada Choco

Aventura 70

A Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois nem queria acreditar no que via quando entrou na sua sala: tinha pendurado na parede o retrato de um velho que parecia estar a convida-la para a luxúria. E a causa da morte da fotografia estava no canto superior esquerdo sob a forma de uma marca de pneus.
- Quem é que ousou pôr aqui este velho com ar duvidoso? – Perguntou a Sobrinha-da-Tarde- Número-Dois, sentindo um vento a puxa-la, e tendo uma visão imperfeita que lhe revelou um segredo de algo que poderia acontecer. – Velho tarado.
Resolveu investigar.
- “Comendador Rendas” - Leu em voz alta a legenda escrita à mão – e continuou. - Letra feminina…hummm.
- Letra feminina??? – Entrou de rompante o Nélinho com um arrebatamento eléctrico, revirando os olhos e engolindo as smarties que a irmã do Choco se preparava para comer. – Tropecei neste senhor hoje de manhã e resolvi trazer esta obra de arte para a sala mais indicada. É assim que a menina me paga os distúrbios que causo com frequência no seu espaço?
E para fazer jus à fama da sala que já era tão famosa como o Entroncamento, devido aos fenómenos para-normais, o novo inquilino também revirou os olhos.
- Já sei porque é que o Nélinho não pendurou o retrato na sua sala, - exclamou a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois.
- Então diga lá, – gritou o açoriano, ao mesmo tempo que apertava o gasganete à colega Minhota, tornando a revirar os olhos e a uivar, ao mesmo tempo que arrastou a bacia pelo chão, deixando rasto como o caracol.
- Porque passavam a ser dois a revirar os olhos!
O mistério estava lançado, seria o Nélinho a encarnação do Comendador Rendas? O acaso nunca poderia ter reunido na mesma rua dois artistas destes, era demais. Com tantos Aparafusados e Desaparafusados a cruzarem a rua do Gameiro, porque é que o velho tarado teria ido logo ter com um autóctone de uma ilha açoriana, perdida algures no meio do Atlântico? Não, só poderia ter sido por uma questão de afinidades, o Nélinho e o Comendador Rendas tinham sido atirados um ao encontro do outro, e quando o primeiro viu um rasto de pneus na testa do antepassado, apercebeu-se de que era um aviso de que se não o levasse para dentro poderia acontecer-lhe o mesmo, ou seja, os céus darem ordem ao Cabo Pilas para levar o carro para a Escola, e como ele só conseguia ver a estrada se guiasse em pé, era sempre um risco acrescido para os peões daquela zona, que o dissesse a Dona Pilca, a primeira vítima de um atropelamento do micro-machine da Venteira. Quando o Nélinho olhou para o retrato do Comendador Rendas ficou com a cabeça intermitente, cheia de intervalos e metamorfoses, que o colocaram num estado de expectativa, suspenso e inconclusivo. Teve uma visão do futuro e viu-se reduzido a algo espalmado na estrada, com um charuto fumegante a sair de um buraco indefinido. Acordou do transe, agarrou na foto e correu para a Escola de Desaparafusados da Venteira. Mas ficarem os dois na mesma sala não era aconselhável para a saúde mental da Brazuca. Haveria com toda a certeza uma corrida diária às smarties dos Desaparafusados, e isso não seria bom para as finanças da escola.
- Tarado, – gritou a Minhota ao aperceber-se que o Comendador Rendas também lhe estava a fazer gestos obscenos.
- Já não tenho idade para isto, – queixou-se a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois, ao mesmo tempo que era encostada à parede pela Cataró, agora em plena travadinha com os punhos cerrados em direcção à Obelix e a bexiga a largar a gasosa toda para cima das almofadinhas-para-coquilhas, a nova colecção de Natal da célebre Sala das Prendas e dos Fetiches.
O retrato a sepsia, devido às incontáveis mijas dos gatos da região, de um velho desconhecido, pendurado pelo Nélinho na sala da Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois estava a causar alucinações visuais aos elementos femininos da “Escola para Desaparafusados & Afins da Venteira” e a provocar rotações oculares incontroláveis no rapaz açoriano. Preparava-se uma manifestação à porta da sala, a Dona Gilette erguia um cartaz a apelar ao regresso dos “Bons Costumes” e ameaçava apresentar queixa, por escrito, à Sobrinha-da-Tarde-Número-Um. Mas quando se aproximou do retrato sentiu também ela um vento a puxa-la, teve uma visão imperfeita que lhe revelou um segredo de algo que aconteceria, suspenso na geografia intemporal das convulsões. Piscou o olho ao Rendas!
- Saiam daqui, – gritou desesperada a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois. – Eu não faço mal a ninguém, estou aqui sossegadinha mais a Transmontana e só me aparecem é malucos.
O mal foi cortado pela raiz, o Comendador Rendas foi directo para o contentor, e o Nélinho suspenso três dias para casa.