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Tuesday, April 23, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 40 - 12 de abril de 2013


Comandante Guélas
Série Colégio Militar




No dia doze de abril do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e treze apresentou-se perante o busto do fundador do Colégio Militar, Teixeira Rebelo, o grupo de 1971, preparado para uma viagem por caminhos muito antes percorridos, conscientes de que iriam regressar ao passado:
19 (Bina), 61 (Ginho), 62 (Bessa), 69 (Fernandinho), 95 (Coiote), 96 (Boneca), 128 (Nhó Nhó), 136 (Judi), 157 (Becas), 191 (Peidão), 200, 240 (Rita), 246 (Joana), 257 (Soquetes), 270 (Perry), 278 (Chinês), 281 (Tofa), 299 (Camélia), 307 (Escalope), 328 (Cão), 329 (Grincho), 338 (China), 360 (Cebola), 398 (Morena), 407 (Moutinho), 466 (Cavalo), 488 (Smile), 525, 574 (Geada), 591 (Peixinho), 592 (Belfo), 598 (Bourbon), 599 (Manéli), 601 (Gordini), 607 (Six), e 666 (Zacarias).
Deixaram como testemunho da sua passagem uma original placa de mármore branca com os dizeres escritos em braile, para facilitar a leitura aos soberbos barrigudos. Mas antes foram presenteados com o grito de guerra colegial, executado por aquele que ostentara durante sete longos anos o número mais vergonhoso do Colégio Militar, número este que brevemente iria ser possível levá-lo à prática com a vinda das Meninas de Odivelas…mal estivesse construído o edifício prometido que as iria albergar nas noites frias de inverno, longe das cuecas da rapaziada:
 - Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz, - gritou o 69 com os pulmões ao rubro, apanhando todos desprevenidos, incluindo o primeiro diretor, que estava pela metade.
- Traz, Traz, - respondeu o coro.
- Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz, - insistiu o trovador, com as amígdalas a arranhar as beiças, obrigando o Galo a agarrar no chapéu.
- Traz, Traz, - respondeu a assistência, acordando de vez o Bina e o Six, que já só pensavam no famoso Amarelo, uma mistura dos ovos do Nunes, pai da mítica Rosa, com a carne do cavalo falecido após a última aula de equitação.
- Ala, Ala.
- Viva (ou Arriba)
- Ala, Ala.
-Viva (ou Arriba)
- ALLEZ, ALLEZ, À VOTRE SANTÉ, - estoirou o 69, mostrando ser um Viagradependente.
O 609 (Boneca), agora o vice do estabelecimento, informou o trovador, ao mesmo tempo que limpava os perdigotos da farda, que no Zimbório tinha sido declarado “Silêncio absoluto” desde manhã cedo, por causa dos exames nacionais (GAVE) que estavam a decorrer nas salas do primeiro andar, e por isso não seriam toleradas mais convulsões. A entrada no pátio, onde tinham feito tantos quilómetros com a arma no ombro, fez despertar memórias, o Gordini recuou a junho de 1976, altura em que foi contemplado com uma “Repreensão”, seguida de “15 pontos negativos “, uma modernice da revolução de Abril, por ter “permanecido num local incerto”. A ronda encontrara a sua cama vazia, juntamente com as do Cavalo (466) e do Baguinha (467). Teriam ido visitar as meninas do Bairro Alto que comiam tremoços ao mesmo tempo que os aviavam, costume enraizado na altura dos exames oficiais? Não, esses eram outros, estes tinham ido fazer uma visita de cortesia ao bar de oficiais nos claustros, um local tão afamado como Monsanto naqueles anos. As prendas eram mútuas, o coronel Galo presenteou os visitantes com uma imagem do dito de Barcelos, que lhe valeu uma salva de palmas, uma vez que o “Zacatraz” continuava interdito. E este curso foi tão especial, que do seu seio saiu o sucessor do famoso engenheiro Grijó, professor de Físico-Químicas, grande adepto das “bicicletas” (8 valores) e das “bengalas” (7 valores). No meio dos claustros, vestido a rigor, o Peixinho (591) trouxe à memória uma fuga abortada, dele e do Peidão (191). O Semita atrasara-se, como era costume, por causa de um jogo de Xadrez na sala de professores, e ao segundo toque a turma evaporou-se, seguindo a maioria o caminho lógico, excepto os dois artistas que, sabe-se lá porquê, acabaram interceptados pelo docente, e levados compulsivamente para a aula, onde foram confrontados com uma situação inesperada:
- Vou fazer chamadas orais, aleatoriamente, - informou o antecessor do 19 (Bina).
E o regresso ao passado continuou, pois ao subir em direção à capela onde o padre Valdemiro iria celebrar a missa para limpar o cadastro de 35 anos de pecados, o Cão (328) lembrou-se do dia em que o Cascão (436) atirou o seu dicionário de Inglês contra a marreca do Falcão, professor de matemática, que acabara de contemplar toda a turma com notas negativas, excepto o Becas (157), que levou para casa um “suficiente”. Como não podia deixar de ser falou-se da Rosa, tendo os visitantes sido informados que atualmente a poderiam encontrar nos serviços administrativos do SEFE. O padre era um dos convidados especiais, pois fora o responsável pela atribuição de uma das alcunhas:
- Quem é que me sabe dizer o nome de um dos reis magos? – Perguntara várias décadas antes numa aula de Religião e Moral.
- Zacarias, - respondeu a seco, e sem autorização, o 666.
- Zacarias… rua, - gritou, apontando para a porta.
Mas como esta data era de reencontro, o abraço foi fraterno e as palavras do religioso foram premonitórias:
- Rapaz, antevejo para ti uma passagem brilhante pela televisão!
Outro dos convidados foi o professor Mário Carmo, que veio munido da caderneta com o registo do desempenho escolar dos seus alunos, principalmente nas Cantigas de Escárnio e Maldizer, onde se podia ver a olho nu a discrepância assinalável entre o que contavam aos filhos (“um empenho escolar notável”), e a tinta vermelha que preenchia a maior parte dos quadradinhos. Apesar de não abordarem o assunto, a maioria lembrava-se da missão impossível a que um dia este docente se propusera levar avante, controlar a distribuição do reforço da manhã. A turma saiu, como habitualmente, da sala a correr, e mergulhou sobre o cesto repleto de carcaças com marmelada, levando lá para dentro o professor de português. Foi destas molhadas que saíram alguns dos melhores jogadores de rugby do país.
O ex-tenente Mota, agora presidente da câmara de Pombal, deu de caras com o aluno que o obrigara a elaborar o maior número de relatórios disciplinares, perdendo com isso tempo precioso para namorar dentro do seu Toyota: o Peidão ! Veio-lhes à memória a noite em que o carro do capitão Caetano foi fortemente castigado por um grupo de alunos, tendo ele de imediato dado caça ao 191, uma vez que as probabilidades de ter participado na fatwa eram muito grandes, e a estatística raramente se enganava, mas afinal o petiz estava inocente, coisa rara. Seguiu-se nova reunião, desta vez na biblioteca, que para o Peidão, mesmo com seis anos de Colégio Militar no lombo, foi uma estreia. Mais discursos, do Diretor e do Fernandinho, seguido da oferta dos visitantes, um soberbo prato do Sporting com cenas colegiais numa das bordas, e da reforma no lado oposto. Seguiram para a fotografia da praxe nas escadarias da enfermaria, já com o batalhão formado à espera dos ilustres visitantes, ocupando todo o espaço da parada.
- Oito? – Assustou-se o Camélia, ao contar o número de elementos do primeiro pelotão da primeira companhia.
A impossibilidade de calcar a bota do colega da frente durante a marcha, caso levasse o passo trocado, era uma realidade, pois estavam afastados uns dos outros vários metros, para assim poderem ocupar o espaço, que antes obrigava a formaturas em cima da relva. Quando o Comandante de Batalhão deu a ordem para o desfile, muitos regressaram ao passado, e tiveram atentos ao bater sincronizado dos calcanhares no chão, que equivaleria no seu tempo a vários treinos caso o som se assemelhasse a uma metralhadora. Mas de pelotões de oito só se poderia esperar a perfeição! Quatro companhias, quatro “Zacatrazes”, o último dos quais esteve em dúvida, porque o Tofa passou a saudação in extremis ao Gordini, que se escondera na fila mais perto do Amarelo, e não teve outro remédio senão imitar o 69, mas sem o efeito do Viagra. Seguiu-se a romagem para o refeitório, não sem antes o 601 voltar ao passado, na altura em que olhou para a quarta companhia. Em 1977, por causa de alguém que tentara acabar com o “enguiço das latrinas”, defecar do cimo da parede tentando acertar na retrete, e falhara, tinham sido contemplados com três dias seguidos de duras firmezas, que se revelaram infrutíferas, pois o atirador nunca se acusou: “Um por Todos, Todos por Um”! Mais “Zacatrazes” antes da refeição, agora vindos da parte do pessoal discente, que tentaram em vão imitar o 69, ficando a decibéis de distância. O Six pôde finalmente concretizar o sonho de um ano, emborcar metade de uma travessa de Amarelo, pois só mandou parar à décima quinta colher. Para ajudar na digestão plantou-se uma árvore comemorativa do regresso, e houve uma “visita guiada” ao espaço, onde todos se aperceberam que o campo de basquetebol tinha sido almofadado, em substituição do alcatrão com gravilha, que não aconselhava a muitas quedas. Enfim, outros tempos. A festa acabou no bar “ Spellig King”, onde o professor Pequito, que nunca esteve calado, revelando ser também um adepto das pastilhas do Fernandinho, acusou o Peidão de ser uma gralha.
- Continua a cheirar a cavalo, - disse o Morena quando entrou.  

Saturday, April 06, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 39 - O Fechar da Porta




                       Comandante Guélas

                                    Série Colégio Militar 



Para os Meninos da Luz a Rosa era diabolicamente bela, uma implacável provocadora, uma rapariga topo de gama, num espaço sem concorrentes. Por isto esta história oferece várias portas de entrada para um mundo de imaginação arrancado ao real e colado à pele colegial, onde o tempo é só um. Quando uma se abriu, a lateral que dava acesso à primeira e terceira companhias, saiu o Horrível, seguido do Peidão, do Gordini , do Peida-Gorda  e do Leitão. Como o 125 se auto-intitulava um predador, sempre cheio de histórias fantásticas com fêmeas durante os fins-de-semana, atirou:
- Patronilha, a tua mulher nem com uma almofada na cabeça!
 O vigilante poisou os discos de embraiagem da sua Java, que tinha os mesmos centímetros cúbicos que o provocador, e estava completamente desmontada no passeio, levantou-se e, a sorrir, deu o troco:
- É feia mas f… bem!
Risada geral, cumprimentos, e rumaram em direção aos claustros, onde iriam ter “Estudos” com o Didi, levando nos bolsos várias molas da bomba do vigilante Patronilha.   Passou por eles, em andamento acelerado, no seu soberbo Volvo azul, o engenheiro Grijó sendo saudado efusivamente pelos seus alunos:
- Semita, espero que morras, assim não tenho de ir estudar Física, - gritou o Minhoca, atirando-lhe um limão, e escondendo-se atrás da sebe da Enfermaria.
 Mas como a perícia do 280 não era muito famosa, o citrino esborrachou-se num vidro da janela da sala de leitura da terceira companhia. Na outra ponta da parada, vindo do futuro,  abriu-se com estrondo a porta de acesso à segunda e terceiras companhias, e o Gordo saiu a correr com o caixote de lixo na mão e colocou-o no meio da estrada, escondendo-se de seguida. Quando o À Nora  se preparava para mergulhar do armário para a cama do Puto da Fisga, cujas molas já estavam dobradas pelas bombas de outros, ouviu o chiar do carro do professor de Química e viu o contentor a espreitar pelas janelas. A porta da sala de música abriu-se com estrondo e o Escalope saiu a correr, perseguido por um Carioca em fúria decidido a fazer-lhe a folha. Nessa altura já os colegas apreciavam um estranho Ford Escort com o emblema das “Operações Especiais”.
- Amarelo?? – Interrogou-se o Horrível, o maior macho da Luz e dos arredores
Na última formatura a Terceira Companhia foi surpreendida com uma queixa insólita de um graduado:
- Alguém esteve a fumar na minha cama, e queimou o lençol, - gritou, com os óculos embaciados e boca a espumar. – Dou um minuto ao responsável para se acusar !
E porque quando havia “contradições” estas eram resolvidas com uma Firmeza, o Comandante da Companhia ordenou:
- Cócoras, - gritou o Mula. – Quem é que queimou a manta do Coirão?
Nada, o impasse manteve-se, como já estava previsto. Para que o espetáculo fosse convincente, houve necessidade de uns biqueiros, e outros mimos já habituais.
- Ninguém se acusa? Então vão ter que pagar o prejuízo, - sinal de que a tradição do “Um por Todos, Todos por Um” era muitas vezes confundida com outras tradições.
E como os gestos já estavam automatizados, cada graduado de uma estrela voltou o barrete ao contrário e recolheu o “donativo” na fila respetiva.
A festa acabou cedo, porque o tenente Frade, o proprietário do carro amarelo, estava de oficial de dia, e não era muito adepto destas actividades nocturnas. E estava garantido que no dia seguinte o som da corneta do toque da alvorada era trocado pela voz sensual da Janis Joplin, que causava modificações nas cabecinhas estremunhadas dos Meninos da Luz. As ideias de reforma permanente e de tradição não são incompatíveis: há as verdadeiras e falsas reformas, como há verdadeiras e falsas tradições e, sobretudo, muita ignorância da História.