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Monday, September 29, 2008

Introdução na Terra do Comandante Guélas




Na Terra do Comandante Guélas

Introdução



“Os velhos gostam de dar bons conselhos para esconder que já não estão em estado de dar maus exemplos”

La Rochefoucault



Onde é que estavam os adolescentes no 25 de Abril?
Tudo começou em 1975, quando os cartazes da “Maioria Silenciosa” foram queimados à pressa junto ao depósito de água no Alto da Loba. O João da Quinta ainda foi a tempo de acender um cigarro mata-ratos da marca “Definitivos”, cujo fumo lhe despertou o único neurónio, alertando-o para a grande oportunidade que tinha aqui para arranjar um emprego compatível com o seu estatuto de filho do caseiro do Leackoque. Depressa acreditou que era um sinal da sua defunta avó Sesaltina! Alguns dias depois, na Comissão de Moradores, realizada no Pavilhão Desportivo de Paço de Arcos, no Pimenta, alguém interpelou a mesa para que proibissem os moradores do Alto de Paço de Arcos de votarem nas propostas, por morarem em chalés. Do meio da multidão levantou-se o grande Ratinho Blanco e lançou a questão da sua vida, que marcaria para sempre os destinos da vila:
- Então eu, que vivo na Pedreira, também vou ser impedido de votar, pois a minha barraca também tem as características de um chalé?
Foi o segundo sinal!
O contra-ataque veio sob a forma de uma manifestação que se iria realizar no dia seguinte, com partida na estação de Paço de Arcos, e rumo ao Alto, onde vivia a burguesia.
A guerra tinha começado, preparava-se uma recepção apoteótica aos invasores. No dia seguinte, e segundo informações dos espiões do Alto, só apareceu um manifestante no local de encontro que, com vergonha e medo, apanhou o comboio para Oeiras e foi pregar para outra freguesia.
Nesse dia o glorioso Comandante Guélas declarou a independência e fundou a República Independente do Alto de Paço de Arcos, com anexação imediata da Terrugem, a pedido da sua padeira e ideóloga mais famosa, a Doutora Quitéria Barbuda. A bandeira foi hasteada e o Comandante ordenou a mobilização geral. Assim nasceu o Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos (G.M.R.C.P.A.), cuja missão era formar o indivíduo, a família, a sociedade e o Estado de Paço de Arcos, e posteriormente o “Guélanismo”, a unidade entre os territórios de Oeiras, partindo depois para a conquista do Mundo. Foi o relançar dos Descobrimentos, tendo agora como ponto de partida a Praia Velha. Cada indivíduo iria palmilhar a terra, individual ou colectivamente, tendo como missão transmitir os valores, através de palavras ou actos, da sua nova pátria. Foi declarada a verdade oficial, que dizia que era um facto científico que Deus criara o “Paçoarquiano” quando bufara o “sopro da vida”, tendo Quitéria Barbuda sido criada da costela do Comandante Guélas, enquanto que os seus inimigos descendiam dos macacos, mas a sua evolução fora negativa.

Wednesday, September 17, 2008

Camarada Choco 62 - A Outra




                          Camarada Choco
                                          Aventura 62

Informação aos leitores.: a Dona Pilca foi a banhos e como tal estará ausente desta história, que é para maiores de dezoito anos.
- Kodac, o que é que fazes aqui fora? – Perguntou a Psicóloga Morena, vinda por detrás.
O homem virou-se.
- Pilas? Desculpa Cabo Pilas, mas esse teu pescoço engana-me sempre.
- Pilas?! Mas isso é maneira de abordar um desconhecido?
- Estou confusa, se calhar tive um AVC e nem dei por isso. O senhor não é o Kodac, não é o Cabo Pilas, então o que é que faz aqui junto à porta da Escola de Desaparafusados da Venteira, ex-Brandoa?
- Mano, mano, - gritou alguém duma das janelas do primeiro andar.
A Psicóloga olhou para cima e viu o Cabo Pilas a acenar para o desconhecido. De início pensou que o seu colega estava a alucinar, talvez tivesse tido mais uma travadinha igual à dela.
- Ma…ma…ma…no, no, - chamou alguém vindo por detrás do chalé da água.
- Kodac? Mas que grande confusão, vocês são todos do mesmo tamanho.
O mano dos manos, que eram manos só no fenótipo e não nos genes, contou que tinha sido despedido de motorista do Portugal dos Monguinhas, e que a Doutora Sem Canudo, sempre atenta às promoções, o contratara por metade do preço.
- Pior que o Porres é impossível, - desabafara na altura no seu café, o “Bar Azul”.
O novo motorista Pilas nem queria acreditar quando a filha clandestina do Stor Rico, retinta e desaparafusada, o chamou para o informar que era tão feio e por isso não fazia o seu género:
- Houve lá ó princesa, tu não tens espelhos lá em casa? – Respondeu-lhe já à beira de um ataque de nervos.
Mas, no fundo do corredor aconteceu algo que alterou por completo a confusão que se instalara à porta da quinta da Madrinha. O Esgalhador acabara de aparecer à porta da casa de banho com as calças arreadas e a fruta a badalar ao vento. O Stor Pobre, o mais ajuizado deste mundo de Desaparafusados, incluindo os Aparafusados, viu a figura imprópria do “abafador compulsivo do seu próprio palhacinho” e entregou-o, em mão própria, na sala respectiva, a da Outra. As colegas, que estavam alegremente a pôr roscas nos parafusos, pararam a produção e nem queriam acreditar no que viam. Afinal o colega não tinha aquilo que parecia ter todos os dias: um cacete tipo alentejano! Não passava de uma ervilha, e seca.
- Ai filho, e eu a pensar que eras o maior génio desta sala. Tanta altura para nada! – Desabafou a Outra, puxando as calças do seu mongalhão para o local certo.
As colegas continuavam a rir. O Esgalhador olhava agora para a multidão por cima dos óculos e procurava desesperado um buraco para se esconder, mesmo sendo um Desaparafusado. A sua tutora, a Outra, estava encostada à parede, com o cotovelo direito apoiado no corrimão e a mão a suportar a cabeça.
- Tantos anos a fazer publicidade ao meu Esgalhador, mas afinal ele estava a coçar somente uma borbulha. O que é que irão dizer as minhas colegas, que os têm mais baixinhos, mas com valentes chourições? O Esgalhador não me poderia ter feito isto.
Mas o artista já estava em fuga, passara por cima de vários colegas e ninguém parecia segurá-lo. Ninguém? Havia uma heroína, a Menina Tatrícia, que o colou a uma cadeira. Pelo caminho a Afilhada Doutora com Canudo, chefe suprema de metade do Rés-do-Chão nos dias pares, sendo os ímpares exclusivos da Madrinha, ainda tentou uma abordagem pedagógica, mas ia caindo do alto das suas faluas, as mais indicadas para manipular mongas.