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Monday, April 21, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 64 - Meninas da Luz / Meninas de Odivelas


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



“Não somos nós que decidimos a forma das coisas; mas as coisas em nós que decidem a sua própria forma” – Espinosa.

Estas estórias tornam o colégio ao mesmo tempo enigmático, límpido, silencioso e imenso. As nossas memórias são muito mais feitas de emoções do que realidades objetivas. Por isso o professor de Educação Física Isménio Tadeu contava sempre aos seus alunos que deixava o eléctrico arrancar para depois ir a correr apanhá-lo.
O calendário indicava vinte e cinco de abril do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e quinze quando o ministro Alguidar e a Dona Berta entraram numa Chaimite no Colégio Militar, para a inauguração do edifício que iria albergar meninas, a já batizada “Torre do Pecado”, que tinha custado o dobro do inicialmente previsto, e o tamanho era menor do que o planeado, sinal de que parte do dinheiro tinha ido parar ao bolso de alguém. Iam tensos, amedrontados, pois tinham ousado mexer no que de mais sagrado havia para os Meninos da Luz: as Meninas de Odivelas! Que tipo de meninas seriam estas? Continuavam a ser as musas de antigamente, mas mais perto, ou passariam a ser as Meninas da Luz? Pelo caminho deram de caras com um cartaz que dizia “ Aberta vais levar um Ramalho”, assinado pelo temido “Grupo Zacatraz”, agora na posse de um suporte informático capaz de convocar todos os Meninos da Luz (alunos, professores e funcionários) desde a fundação do Colégio Militar. O Alguidar sabia que iria deixar de ter proteção especial, o governo estava de saída, vinham aí as eleições, e com elas a vinda do Inseguro, que nem uma palavra dissera sobre estes dois lendários colégios de Lisboa. À sua espera no porto estava o 281, o Tofa, pronto para lhe dar mais um apertão. Quanto à Dona Berta, regressaria aos esquemas antigos nas ilhas do Atlântico, escondendo-se uns tempos na Graciosa para deixar assentar a poeira. Mal ela sabia que na ilha estava o 502! Quando iam a passar junto ao campo de futebol uma nova faixa dava-lhes as boas-vindas: “Meninas só existem umas, as de Odivelas e mais nenhumas”. E era verdade, os elos que ligavam estes seres ultrapassavam todas as ideologias, e já eram património da Humanidade. Em 1964 o Comandante de Batalhão, o 8, tinha ido ajoelhar-se, em traje de gala, em frente à diretora do Instituto de Odivelas, pedindo desculpas pela invasão do ano anterior, vésperas da comunhão, quando um dos inúmeros grupos expedicionários de Meninos da Luz, a coberto das trevas, e aparecendo não se sabe de onde, talvez do túnel, um tesouro imaterial do Colégio Militar, tinha atirado pedras às janelas das meninas, a convidá-las para o pecado, dando origem a um acontecimento semelhante ao da independência do Brasil: “O grito da Fernanda”! O susto da Dona Deolinda foi tal, que chamou de imediato a GNR:
- E tragam cães com coleiras cheias de alhos, tenho a quinta infestada de demónios, e quero que as meninas continuem puras para a cerimónia de amanhã!
Mas não foi preciso a presença das autoridades, os cavaleiros tinham feito questão de deixar os números escritos nas paredes do dormitório. Um telefonema para o oficial de dia bastou para que o Colégio Militar preparasse a cela aos fugitivos, pois o “bom filho à casa torna”. No dia seguinte a Comunhão das Meninas de Odivelas foi marcada pela ausência dos Meninos da Luz na guarda de honra junto ao altar, tendo sido substituídos pelos Pupilos do Exército.
- Sentimos a falta do Penacho empinado dos nossos cavaleiros, - confessou mais tarde uma das alunas, desabafando - "tivessem os meninos vindo à nossa camarata que nós não gritávamos!".
- O dos pilões é só pêlo! – Retorquiu outra.
O presente do Alguidar era uma pálida amostra do negrume do futuro que se aproximava. Por isso vacilou:
- Berta, achas que estamos seguros aqui?
- Fizemos um erro, mas agora temos de seguir em frente, - respondeu-lhe a açoriana, espreitando pela vigia.
A “Torre do Pecado” era vista como uma cápsula do futuro, enquanto o decreto que extinguia o Instituto de Odivelas não fosse revogado. Até lá os Meninos da Luz guardariam com todo o amor e carinho as suas musas, até ao dia D, em que elas regressariam à origem, com a Escolta a Cavalo e os Penachos verdes empinados.

Tuesday, April 15, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 63 - Os Demónios da Luz


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



- As nossas relações estão cortadas, - gritou a Dona Deolinda, – já não iremos mais às vossas festas, nem os convidaremos para as nossas.
Os Meninos da Luz tinham atingido o patamar da praga nas noites frias de Odivelas, estavam ao nível do Rhynchophorus ferrugineus que se saciam atualmente com as palmeiras do país, por isso era preciso desativar os demónios. Já não bastava o estranho “milagre” que tinha colocado em cima da secretária da diretora um frade das caldas em sentido, era agora o grito alucinante da pequena aluna Fernanda que atormentava os sonhos que a chefe máxima das Meninas de Odivelas dizia serem puros. Seria possível que os meninos desaçaimados do Colégio Militar tivessem finalmente encontrado o mítico túnel, que ambos procuravam com “engenho e arte”, eles escavando com as mãos o terreno junto à pista de obstáculos, e elas tentando deslocar uma laje junto à caixa onde repousava o rei, usando como ferramentas as suas pulseiras com o grupo sanguíneo, que no passado colocara os frades nas alcovas das noviças? Recuemos!
A revolução estava na fase da bandalheira, havia Durões Barrosos em todas as esquinas a gritar que a Albânia era o farol do socialismo, nacionalizava-se tudo o que mexia, só faltava as Meninas de Odivelas passarem a ser propriedade dos “operários, camponeses, soldados e marinheiros”. Por isso a segurança fora reforçada, havia patrulhas na quinta contígua ao mosteiro com ordens para dispararem contra os intrusos. Mas nada disto demovia os possessos Meninos da Luz cujo “ardor guerreiro” os impelia a tentar alcançar os ninhos das suas dulcineias, e ainda por cima com o Colégio Militar em formato de balda geral, onde a autoridade tinha atingido o nível mínimo, facilitando as fugas maciças da escola pública cujo Estado se tinha comprometido perante as famílias a guardar os seus filhos durante a semana. Conheciam todos os recantos, Odivelas e a Luz eram uma só entidade, como atualmente. E numa noite a presença destes jovens adolescentes chegou ao conhecimento das meninas do D. Diniz, provocando uma debandada geral da camarata, que deu nas vistas, porque mais parecia a manifestação do 1º de maio a seguir à revolução. Com isto a tia Deolinda ultrapassou a beira do ataque de nervos e tomou medidas excepcionais, mas nem essas conseguiram conter as visitas de cortesia dos cavaleiros da Luz. Estavam indomáveis! Teria aquela visita oficial, em que a Escolta a Cavalo viera da Luz até Odivelas, onde foi recebida em apoteose por meninas a acenar com lenços brancos da varanda que dava para o largo, acendido o rastilho? Teriam os Meninos da Luz confundido os lenços com cuecas, e estavam agora a querer receber os troféus? Quando o 147 espreitou através da janela da camarata feminina, deu de caras com o rosto angelical da Fernanda, e sentiu a flauta a arrebitar. Para a menina ele era o herói que a despertara do sonho de amor aos soluços, que lhe trazia agora relâmpagos, fragmentos curtos, súbitos clarões. Um brilho apagou tudo e um segundo depois a luz extinguiu-se. Primeiro deu um grito silencioso e deitou-se como se fosse feita de milhares de pedacinhos coloridos, agitada. Sentiu a sombra do pecado a movimentar-se no soalho e a aproximar-se de si. Na janela centenária viu um rapaz atlético, alto e espadaúdo, de olhos vivos, capazes de engolir o que viam, com um sorriso de marfim. Sentiu a respiração ofegante, um súbito calor subiu dos pés à cabeça. Mas a figura omnipresente da Senhora Dona Deolinda trouxe-a de novo à realidade, pois o grito que deu foi tão alto e assustador, que até a barbicha ruiva que sobrava dos restos do monarca se arrebitou com o barulho, assustando aquelas que calmamente fumavam um cigarro junto ao túmulo. O corte de relações entre o Instituto de Odivelas e o Colégio Militar foi imediato, a Dona Deolinda comunicou à direcção dos Meninos da Luz que a partir daquele momento deixaria de enviar delegações às festas deles, e eles estavam proibidos de assistir à grande seca da Abertura do Ano Letivo delas. Mas como os arrufos de namorados são sol de pouca dura, bastou uma delegação de alunos com caras de anjos deslocar-se ao Instituto de Odivelas e pedir formalmente desculpas à Diretora, para tudo ficar na mesma. Tinham sido feitos uns para os outros!



Friday, April 11, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 62 - Assalto a Odivelas


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


 
“Senhora Directora deveria ter uma dor tão grande, que quando mais corresse mais doesse e quando parasse rebentasse”.
A chefe máxima das Meninas de Odivelas nem queria acreditar no que lia. Alguém tinha colado um papel na porta, juntamente com uma forca em miniatura. Entrou furiosa no gabinete e deu de caras com um marsápio em loiça das Caldas da Rainha, que a convidava, em sentido, para o pecado, em cima da secretária. Mas havia mais: 50 papéis com exigências tinham sido estrategicamente espalhados pelo espaço educativo, onde se albergavam as Meninas de Odivelas, eternas musas dos cavaleiros do Colégio Militar. E para provar que tinham estado lá, conforme combinado, os Meninos da Luz escreveram os seus números num dos cantos da piscina: 89, 165 e 376! Recuemos.
Eram 21 horas de uma noite quente de junho quando três vultos vestidos com fato de treino, sapatilhas e capote passaram pela cerca de arame junto à pista de aeromodelismo e seguiram rumo à segunda circular, onde os esperava um táxi, previamente combinado. O plano iria ser cumprido à risca, cada Menino da Luz levava um pedaço de corda, vários panfletos imprimidos no colégio e uma obra de arte comprada durante uma visita de estudo. Tinham recebido das cúmplices um mapa detalhado do terreno das operações e quais as portas estrategicamente destrancadas. Levavam também uns bifes, e um frasco com éter desviado do botequim do Valentim. Foram deixados num descampado, onde se dirigiram à árvore assinalada no mapa, desenhado com muito amor pelas amigas enclausuradas, ataram os pedaços de cordas que traziam, e passaram tranquilamente o muro da quinta. Esconderam-se dos canídeos num buraco e aguardaram. O líquido trazido da enfermaria poderia ser usado em duas situações extremas: se o Diniz e a Isabel os detetassem, despejavam-no sobre os bifes; ou caso o camarada Punhetas tivesse uma recaída e resolvesse desviar-se do objectivo da missão e ir uivar para uma das camaratas, despejavam-no pelas suas calças abaixo. Dos canídeos nem sinal, o silêncio era total.
Às vinte e duas horas e trinta minutos do dia nove de junho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e sessenta e nove deu-se início à mais extraordinária aventura alguma vez protagonizada por Meninos da Luz e Meninas de Odivelas, numa simbiose passada da teoria à prática, que passará, a partir deste momento, de neurónios efémeros para o Éter eterno. O 89, o 165 e o 376 rastejaram cautelosamente até ao edifício, e dirigiram-se depois à porta assinalada. Rodaram o trinco, e esta abriu-se. Tinham acabado de entrar no espaço que fazia parte dos sonhos de muitos camaradas, que à distância faziam ranger as camas.
- Onde é que elas estão? – Perguntou de rajada o 376, quebrando o silêncio sepulcral do mosteiro.
O 165 tirou de imediato o frasco do bolso.
- A nossa missão é só uma, temos pouco tempo, o táxi está à espera, - alertou o 89.
Dirigiram-se ao gabinete da Diretora, pelo caminho foram colocando estrategicamente os panfletos com as reivindicações das suas musas, espetaram com raiva a forca na porta, colaram a carta e depositaram gentilmente o magnífico cacete em loiça das Caldas da Rainha, sinal de que a visita de estudo uns meses antes iria ficar para sempre gravada na memória destes adolescentes. Assim como chegaram, furtivamente se escapuliram. O dinheiro só deu para metade do percurso de regresso, tendo feito o resto a pé. Quando passaram de novo a rede, o relógio da Igreja da Luz tocava as doze badaladas.
No dia dez de junho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e setenta e um houve duas formaturas, à mesma hora, em locais distintos da capital, os Meninos da Luz preparavam-se para o desfile do Dia da Raça, enquanto as Meninas de Odivelas eram confrontadas com o conteúdo de cinquenta panfletos espalhados pelo internato:

“Exigimos que as bananas nos sejam servidas inteiras e não cortadas como habitualmente, e queremos que nos autorizem a trazer canetas de filtro grossas pois as finas só servem para a aula de Desenho.”

Ficou assim provado que o lema “Um por Todos, Todos por Um”, não era exclusivo dos Meninos da Luz, mas também fazia parte do código genético das Meninas de Odivelas. Ficaram privadas do fim-de-semana, e nem a PIDE nem a Polícia Judiciária conseguiram alguma vez descobrir o estranho caso do “Assalto a Odivelas”, que também fora visitado pelo 275, o 440 3 o 583 que, por falta de dinheiro para o táxi, fizeram o percurso de ida e volta em passo de corrida!

Sunday, April 06, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 61 - Os Fantasmas da Luz


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


A memória molda-se muitas vezes ao que gostaríamos que tivesse acontecido, mais do que aos factos reais. O Colégio Militar é um espaço sem tempo com uma luz suave, por isso esta estória passa-se num futuro próximo não tão longínquo do presente. Digamos que estamos num depois de amanhã onde todos os Meninos da Luz estão ligados em permanência numa grande rede. Estes tempos medíocres, viscosos, sujos, feitos de uma degradação transversal e endémica, onde apenas se valida o que é mensurável, que puseram à venda a alma dum colégio com 210 anos, obrigaram à tomada de medidas excepcionais.
- Perdi-me, mas reencontrei – disse o último convidado da reunião a chegar ao bar, estendendo os ossos ao colega mais próximo.
- O Marechal teria dado um bom ator, - retorquiu o 155 de 1912.
- Nunca iria chegar aos teus calcanhares.
A reunião no Speliking - Bar & Bistro decorreu num ambiente de grande confraternização, todos tinham vindo de longe, de muito longe, a pedido do fundador. Vieram por uma boa causa, tentar salvar o que se tinha construído durante longos e penosos anos.
- Todos compreenderam? – Perguntou o chefe com uma voz grave e sonora. – Pertencemos à “reserva de força moral” a que o 178 de 1894 sempre se referia de cada vez que falava do colégio.
- Uma Boiada na capital, e das grandes, ao bimbo do Alguidar e à pirosa da Berta,  - gritou o 24/1882.
- Berta não, (A)berta, como costumam escrever nas paredes os putos da Brigada Zacatraz.
- Nós podemos, agora somos omnipresentes, e quem se mete com o Colégio militar…,
-…obviamente leva, - exclamou o 398/1917, atirando um copo para o chão.
- PJ, - gritaram, ao mesmo tempo que uma figura apressada se materializava à frente de todos, desaparecendo de imediato de encontro a uma das paredes.
- Pensava que o Zé Pereira me ia apresentar a folha branca.
- A tecnologia não é perfeita, a programação tem erros. Mas já é bom estarmos aqui reunidos.
O menu tinha sido o eterno “Amarelo”, uma receita única de um local especial.
- O sabor melhorou a partir do momento em que as galinhas do pai da Rosa dos anos 70 passaram a pôr ovos mais saborosos. Atiravam-lhes semanalmente com o éter gamado ao Valentim, obrigando-as a uma sesta alentejana, - explicou o 178/1894.
- Na boiada que fizemos ao Alguidar no Porto, a figura do Moca teve um “bug” e a cabeça bateu-lhe na perna, - explicou o 266/1904.
- Mas mesmo assim partiu-lhe o perónio, - reforçou o 158/1846.
E não só, o ministro fora alvo de chacota no hospital que o recebera, porque dizia peremptoriamente no inquérito policial que alguém lhe gritara, “lava com água fria que isso passa”! O programa tinha sido melhorado, ia ser o fim dos governantes. A primeira data escolhida fora o 1º de dezembro de 2013, nos claustros, onde o ministro iria ser lançado do primeiro andar pelo Patronilha e esposa, tal como era anualmente o Miguel de Vasconcelos, mas o Alguidar andava com medo dos ratas do 1º ciclo e das Meninas de Odivelas, por isso limitou-se a aparecer na véspera à noite para beber um chá de camomila com o director, tornando-se assim no primeiro governante em 210 anos do Colégio Militar a não presidir às cerimónias. Sabia-se agora que os dois estavam reunidos no Forte de S. Julião da Barra, a pedido da Berta, perdão, (A)berta, depois do Tribunal de Contas ter condenado a senhora a devolver os vinte mil euros que desviara do dinheiro do povo, provavelmente destinado ao Colégio Militar, ao apresentar senhas de presença enquanto presidente de Câmara de Ponta Delgada. O espaço era conhecido de muitos Meninos da Luz, pois tinham frequentado a piscina durante as férias grandes na Feitoria, no século passado, onde puderam exibir os calções curtos de cor preta e listas brancas de cada um dos lados. Mas como refeição de antigos alunos não é autêntica se não se falar do passado colegial, a tradição manteve-se, desta vez através das novas tecnologias. Todos estavam agora na Enfermaria de olhos postos nos enfermeiros Valério e Valentim, distribuindo as doses de vacinas pelos alunos alinhados. O primeiro espetava as agulhas, à medida que as tirava da parede, e ainda hoje há quem diga que após o jantar do 3 de março quem entrar no espaço sente o cheiro do éter no ar e ouve a voz do sargento:
- Não te mexas, vou ter que endireita-la, senão o líquido não entra.
A experiência era um posto.
- Qual é o teu nome?
- Bazuca, - atirou o Penico de rajada.
- Basílio Horta, - respondeu o 144.
No Colégio Militar uma alcunha estava geralmente ligada a um acontecimento, e neste caso não era excepção. O Bazuca quase que ia destruindo a sala de Química, devido a uma experiência, digamos, um pouco exagerada!
Nos Claustros ouvia-se, no meio da penumbra, os gritos de contentamento dos alunos ao receberem a notícia de que o Pequito partira um pé, por isso tinham feito planos para os furos da tarde. Furos? Os alunos do 3º tempo da manhã nem queriam acreditar quando, após o toque da corneta a anunciar o início da aula, apareceu o urubu do professor de Francês a subir as escadas de muletas. Na Sala da Santa viu-se o Madiura a ser apanhado pelo Galo a apalpar a senhora, que há muito tempo contempla com orgulho o Largo da Luz. No Pátio dos Fâmulos o condutor do Diretor, o Barnabé, alinhava os carros usados, para venda. E o negócio era tão eficaz que o número de telefone do stand coincidia com o da Central do Colégio Militar, cujo operador tinha indicações para chamar o dono caso fosse algum cliente. Na biblioteca o 279  impunha o ritmo do andar bamboleante da funcionária.
- Metro e vinte, metro e dez…metro e vinte, metro e dez…
Mas…
- O seu comportamento é indigno de um Menino da Luz, - disse o oficial de dia, que acabara de entrar. – Vai imediatamente comigo.
Quando o tenente-Coronel Guerreiro, ex-aluno, foi posto ao corrente da situação, sentiu o fluxo sanguíneo dilatar as veias, os movimentos cardíacos e respiratórios aceleraram-se, os músculos contraíram-se, a boca entreabriu-se, o rosto ruborizou-se e os dedos grandes dos pés reviraram-se. Agarrou no telefone e gritou:
- Vou telefonar ao teu tio e dizer-lhe para vir aqui imediatamente. Mereces levar uma sova tão grande que te ponha coxo como a rapariga, para ver se gostas.
- Camaradas, podíamos ficar aqui eternamente a deliciar-nos com estas aventuras, mas o dever chama-nos – interrompeu o professor Alcatrão, colocando a vigésima beata no canto da mesa. - Espero por vocês na Azinhaga da Fonte!
Quando o Ford Escort Amarelo do tenente Frade, recuperado graças às novas tecnologias, parou junto a dois vultos sentados no passeio, todos reconheceram o senhor Cândido e o professor Tadeu.
A “Garoupa na Telha à moda do Porto”, que o Alguidar resolvera oferecer à (A)berta, foi trocada nas cozinhas do forte pelo Semita, que lhe pôs um colorido “Peixe Celeste”, confecionado com muito amor pelo Pintado.
- Vão afogar-se na própria merda!
- A Janis Joplin, que substituiu por pouco tempo a corneta depois do 25 de abril de 1974, vai ser a senha para avançarmos.
O resto da estória ficará à imaginação de cada um, mas para a dupla virulenta o fim será sempre trágico!

Tuesday, April 01, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 60 - Colégio Militar versus Mocidade Portuguesa


Comandante Guélas
Série Colégio Militar




O poder é efémero, o Menino da Luz é eterno! O Colégio Militar sempre teve estruturas reais, onde se pode entrar, tocar, sentir e cheirar, é um espaço construído por muitos, durante muito tempo. A partir de 1936 todos os estabelecimentos liceais passaram a ser centros da Mocidade Portuguesa, assim  declarava o Decreto – Lei nº 26.611 de 19 de maio. Todos? Todos não, um colégio lá para os lados da Luz nunca aceitou fazer parte da Bufa. Por isso um dia o governo decidiu instalar os “bufos” dentro do espaço do colégio, com fardas e tudo, mesmo sabendo que muitas vezes os encontros desportivos entre ambos acabavam à pancada. A glória de um colégio como o da Luz jamais foi linear e luminosa, os limites e as amarras são o cimento que lhe solidificou o meio. Como os Meninos da Luz sempre foram consistentes nas suas atitudes, ergueu-se uma onda de repúdio, a reação dos ex-alunos, entre os quais se contava uma significativa percentagem de oficiais das Forças Armadas e o Presidente da República, o 24 de 1882, e não honorário como o senhor Aníbal, o 695 de 2011, que não teve tomates para fazer frente ao Alguidar, que tinha por detrás o 694, o irmão do Six, ameaçaram fazer um “Ramalho” ao António de Santa Comba Dão, contemplado nos anos 30, também a título honorário, com medalhas de aplicação literária e aptidão militar e física. Começava assim a resistência ao invasor! Na aula de música o Carioca da altura pretendia ensinar o hino da Mocidade aos Meninos da Luz:
- Atenção rapaziada, lá, lá, lá vamos cantando e rindo, 1, 2, 3.
Silêncio!
- Então? Perderam a língua?
Nova tentativa, de novo o silêncio! O professor tudo tentou, até que chamou o oficial de dia, que nem com ameaças conseguiu demover a rapaziada. Houve detenções, que se prolongaram por um mês inteiro. Em retaliação os alunos colaram pequenos quadrados de papel nas janelas, “escritos”, sinal de que se alugava o Colégio Militar! Foi então nomeado um novo Diretor, o Réptil, que tentou cumprir e fazer cumprir as ordens impostas pelo subsecretário de Estado da Guerra. E nada melhor para tentar mudar os Meninos da Luz do que patrocinar a visita de estudantes da Juventude Hitleriana. Quando os copinhos de leite loiraços apareceram no refeitório com calções curtos e meias altas, mais pareciam os Ganços do Restelo, que atacavam nas esquinas, do que os arianos que o Adolfo pretendia. Foi a risota geral. O “cá vamos cantando e rindo” era incompatível com o “em campos de glória fulge”. E num campeonato de atletismo no Estádio Nacional o regime apercebeu-se da tensão durante a cerimónia de abertura. Um mastro dividia as duas formações, de um lado estavam os Bufos do outro os Meninos da Luz, e com a missão de comandar as duas o Diamantino, chefe de castelo:
- Atenção, sentido! – Ordenou, tentando engrossar a voz de adolescente.
A Bufa obedeceu, a rapaziada do Colégio Militar nem pestanejou. Suspense! As entidades oficiais inquietaram-se, trocaram-se olhares, o Réptil esboçou um sorriso nervoso, com um indelével toque de desassossego, sentiu o fluxo sanguíneo dilatar as veias, os movimentos cardíacos e respiratórios aceleraram-se, os músculos contraíram-se, a boca entreabriu-se, o rosto ruborizou-se e os dedos grandes dos pés reviraram-se. E eis que o Pissocas, que estava à frente dos atletas protegidos por exuberantes capotes, em contraste com os pintos de calções e camisola de alças que tremiam de frio, fez meia volta volver em câmara lenta, olhou com orgulho para cada um dos seus colegas e disparou com uma voz gritada:
- Atenção, firme, sentido!
O gesto foi acompanhado por um bater de calcanhares em uníssono, que ecoou pelo recinto. De seguida foi hasteada a bandeira da Mocidade Portuguesa, com os Bufos a cantar o hino, e os Meninos da Luz a gritar o “Zacatraz”.
Aproximava-se uma cerimónia muito importante, mas os ensaios mostravam que os Meninos da Luz eram indomáveis.
- Comigo e com o senhor Diretor, vai acabar a bandalheira, este colégio irá entrar nos eixos, - gritou encolerizado o Caifás, um tenente enfezado com os galões a brilharem ao sol. – Esta formatura está uma merda, ó Bastilha tire o número àquele mais alto, que está a gozar com a tropa.
E aproximou-se do adjunto, continuando o discurso:
- Fiquem sabendo que a Infantaria é a rainha. O cavaleiro quando perde o cavalo falta-lhe logo os tomates, já não dá um passo; o aviador se o avião não pega não levanta voo; o artilheiro se a peça avaria, fica a brincar com a sua gaita; o marinheiro mal põe o pé em terra enjoa, e quer ir logo às meninas. Só o Infante é que está sempre em condições de combater.
As formações de ordem unida, em que sobressaiam os batimentos em uníssono no chão dos claustros, tornaram o tenente no “Salvador do Colégio”. Mas por pouco tempo! A sessão de tiro de morteiro na Amadora com o 7º ano revelou-se um desastre, os obuses caíram longe da estaca pintada de branco espetada na colina em frente.
- Os caçanhos só sabem atirar com espingarda, - disparou o capitão Assírio, professor de Geografia e História.
- Eu com duas ou três bojardas das minhas peças, estilhaçava o alvo.
Sem vacilar perante a arbitrariedade de um poder efémero, na cerimónia de todas as decisões, com os responsáveis políticos e militares presentes, quando era suposto cantar-se o hino da mocidade o batalhão colegial cantou a “Portuguesa”, e quando lhes ordenaram “em frente marche” uns deram um passo para o lado esquerdo, e outros para o lado direito, criando o caos, da mesma maneira que uns anos antes os colegas presentes no funeral do Presidente Sidónio Pais foram os únicos militares que se mantiveram firmes na formatura quando terroristas atiraram petardos contra a multidão. Houve punições, e em resposta a elas levantamentos de rancho. O poder político apercebeu-se que não iria ganhar a guerra e recuou nas suas intenções.
- Eles não querem ser da Mocidade Portuguesa! – Explicou o Réptil ao  subsecretário de Estado da Guerra, que o tinha chamado.
- Se não querem, não vão ser!
Assim, o Colégio Militar foi o único estabelecimento de ensino público que não pertenceu à Mocidade Portuguesa.