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Sunday, September 14, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 67 - Marinho



Comandante Guélas

Colégio Militar

Esta estória é uma meditação lúdica sobre a realidade e a ficção, conceitos que não são nada óbvios, porque estão sujeitos a uma existência periclitante. As memórias do Colégio Militar não são lineares, nem fáceis de encaixar numa categoria única, pois o nosso futuro foi preparado com serenidade e sabedoria. Assim, a resposta do tenente Aparício, um meia-leca que ostentava num dos ombros uma placa para adultos a dizer “Comandos”, ao pedido do Minhoca para lhe assinar uma requisição, manteve a coerência:
- Tou-me cagando, mete na caixa!
Estavam ambos à beira de um ataque de nervos, o oficial por estar a tratar de um assunto não muito usual, um SOS do professor Cymas de Azevedo, que se queixava do comportamento indigno de uma turma, cujos alunos tinham passado toda a aula a imitar ruídos de animais:
- Não consegui dar matéria, parecia que estava no Jardim Zoológico, - explicava nos claustros.
As relações entre o docente e os discentes ainda estavam quentes, pois alguém gritou:
- Feio, estás com a franja nos olhos!
O tenente ficou a falar sozinho, pois o professor de História saiu a correr em direção ao primeiro andar. Por isso a resposta seca e zangada do Aparício mexera com o 280, trouxera-lhe à memória a embirração que o capitão Caetano tivera com o seu cabelo durante os procedimentos que anteciparam a saída do fim-de-semana:
- Não está em condições, tem de ir cortá-lo – informou o oficial comandante da companhia, no momento em que ele ia retirar da vitrina o cartão que lhe dava livre acesso ao exterior.
O cabelo, além de lhe tocar nas orelhas, roçava no colarinho da camisa, e ainda por cima à noite ia haver festa no Liceu Francês, e ele precisava desesperadamente de uma namorada, estava farto das “Ginas” e de esgalhar o frango na solidão das noites. Competência tivera o Peida-Gorda que tinha uma popa de fazer inveja, safara-se na revista, molhara estrategicamente o cabelo e assim conseguira mantê-lo afastado das zonas proibidas. O 280 fora atendido pelo Sabino, um barbeiro senhor de uma unha de dez centímetros, visível pelo canto do olho à medida que  desbastava. Assim, quando deu a ordem à turma saiu uma voz furiosa, comandando-a em direção aos claustros para mais uma manhã de aulas. Lá para os lados da Enfermaria deparou-se com um obstáculo na via, e a voz de comando não foi para os colegas, mas sim para o funcionário que ia acompanhado pela Listete e pela Cassilda, oficialmente roupeiras da quarta companhia, mas também mães de todos os Meninos da Luz:
- Ó Marinho, tira a peida da frente!
O Marinho já era colegial de pleno direito, cumprira o serviço militar na Luz como soldado-maqueiro, onde se especializara a curar todas as maleitas com Sais de Fruto, e por ser jogador de futebol amador do Benfica, participava sempre nos jogos entre alunos & cães. Ele sabia que os relacionamentos construíam-se dia a dia, e principalmente nos dias maus, mesmo quando estava cansado, sem paciência para aturar aqueles meninos vestidos de cotim, alturas em que lhe apetecia estar sozinho ou ir beber um copo com os amigos. Ganhou estatuto, por isso era agora um funcionário responsável por um geral, onde um professor  dava aulas utilizando os meios audiovisuais mais avançados da época, o retroprojector e os slides, que obrigavam a sala de aula a ficar na penumbra, facilitando assim o sono dos alunos. O Marinho chegou ao local de trabalho na altura em que a corneta deu o primeiro aviso, e esperou pela formatura e pela chegada do professor de História.
- Atenção turma, firme, siope, - gritou o chefe de turma quando chegou o docente.
Duas direitas volver e ficaram de frente para ele, pedindo autorização para os procedimentos militares seguintes.
- Podem entrar!
Foi a vez do funcionário atuar, ao mesmo tempo que a turma. O Marinho tirou o molho de chaves do bolso, e pôs uma no buraco. Tentou rodar… nada. Ajeitou a dita, e nova tentativa. Nada. Sentiu na nuca o riso silencioso dos alunos, e na alma o olhar penetrante do corpulento professor. Escolheu outra. Entrou, mas também não rodou, e para agravar a situação encravou. Nem para a frente nem para trás. Os alunos já se ouviam, as hipóteses de não terem aula aumentavam, a irritação do professor já era evidente. O ambiente estava tenso. De repente o docente de História avançou para o fâmulo, que lhe sentiu o cheiro da fúria, levado por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro da alma, e com uma patada escancarou as duas portas, que bateram com estrondo nas paredes. Tudo ficou calado, o vento, o pó, o Marinho e os alunos.
- Ó shoor agoraaa veja lá se arranja isto, não ééé! – Disse o docente, passando pelo funcionário assustado.