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Wednesday, March 24, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 29 - Simplesmente Ginja


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Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
Desde aquela tarde em que o Ginja subiu ao interior da roulote dos santos gémeos de Paço de Arcos, o Pierre Pomme-de-Terre e o Mocho, o primeiro fast-food da Costa do Estoril, imitado mais tarde pelo Mac Donald’s, rapazes de uma vida tão variada e ocupada, a vila nunca mais foi a mesma, tudo se alterou. Como cliente número um tinha direito a um prémio, ideia mais tarde copiada pelo IKEA, que consistiu num cachorro duplo, com salsichas adquiridas na Casa do Adro, e registadas no “Livro de Fiados” em nome do Palitó, o barbeiro que uns dias antes tinha adquirido ao Pierre Pomme-de-Terre uma soberba caçadeira com os canos dobrados, que o vendedor garantira servirem para “caçar coelhos nas curvas”. As consequências desta salsicha extra estão ainda por contabilizar, mas é um facto que o senhor Ginja nunca mais deixou o serviço da causa pública, mantendo inalterada a sua aparência física. O tamanho do enchido depressa chegou aos ouvidos do único capitão de Abril da vila, que pensava que não existia nada mais poético do que ter um gostinho com um imberbe ao pôr-do-sol. E este adolescente multifacetado, com uma linha melódica no andar e uma percepção global da vila, tinha todas as qualidades para ser o “elo perdido” da fonte de que sempre bebera. Dentro deste militar frágil, brando, meditativo, de tempos lentos, noites mal pisadas e cuecas rendilhadas, estava atravessada na garganta uma enorme espinha chamada Estalinho, que o obrigara a passar uma noite solitária em plena serra da Malveira. Tudo se precipitou quando o velho militar soube que a trufa em forma de adolescente tinha os dias contados no continente, e um bilhete de regresso ao quartel nos Açores. Era agora ou nunca! Mas onde raio se metera o filho do tio Chico? O Peidão, um rapaz com queda para as causas humanitárias, soube do desespero do amigo e prontificou-se a levar o convite ao Estalinho, que estava a banhos na piscina do Forte de São Julião da Barra, local de acesso restrito, que obrigava sempre o Ginja a ir no porta bagagens do mini da mãe do Peidão. Quando o Estalinho, um macho lusitano, recebeu a carta secreta do militar teve um ataque de caspa e quis rasgá-la, acto prontamente impedido pelo amigo, o mais sensato adolescente alguma vez nascido e criado na Costa do Estoril. Se o Estalinho não respondia à proposta veloz do amigo de meia-idade ele, Peidão, responderia em nome do Estalinho. Dito e feito:
Aceito
Local: “Farta Pão”
Horas: 20H35
Quando o militar recebeu de volta o papel entrou num transe dedicado à satisfação desenfreada dos vícios da luxúria e da gula, antevendo já o Estalinho a explodir-lhe nas mãos. O dia seguinte foi longo, muito longo, prolongou-se para lá das 23 horas na serra da Malveira, esperando e desesperando em vão pela sua bombinha de Carnaval que nunca chegou, atitude esta que levou a um corte de relações abrupto. Foi nesta altura que o Ginja apareceu, tal qual um D. Sebastião, envolto em prazeres interditos pela moral puritana da Paróquia, praticando uma panóplia de actividades clandestinas, que atraíram de imediato o militar, esquecendo, como que por milagre, o maldito Estalinho. Mas este adolescente era diferente, muito diferente, curioso, muito curioso. A cena seguinte desenrolou-se na Régua após uma atribulada descida do rio Douro. Os guerreiros instalaram-se num bar de apoio da piscina do Clube de vela, graças à excepcional diplomacia do militar, que também fazia parte da tripulação, e desfrutaram de umas merecidas férias. O Ginja deu logo nas vistas com os seus ousados mergulhos, pondo as fêmeas da fauna local em delírio. E uma delas destacou-se da matilha. Apaixonou-se de imediato pelo Apolo de Paço de Arcos, que a convidou para uma saída nocturna, mas logo ali surgiram dois constrangimentos: o irredutível pai da noiva e o ciumento militar. O segundo contentou-se com umas irresistíveis massagens dadas pelo nosso herói, que usou como creme repelente de mosquitos, e o primeiro foi ultrapassado com uma visita inesperada do pretendente à casa do sogro. Vestiu a melhor roupa disponível, usou o mesmo creme como brilhantina e o resto ficou a dever-se à sua já famosa prosa, capaz de arrasar com qualquer um. O velho caiu na lábia e a noite foi passada à borda da piscina, com promessas de uma vida futura numa mansão na paradisíaca Terrugem. A compra do vestido para o casamento foi logo ali marcada para a tarde do dia seguinte, sabendo já o artista que iria embarcar na carreira da manhã rumo a Lisboa.

Tuesday, March 23, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 28 - O Burro da Pradaria



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Comandante Guélas

Série Quitéria Barbuda

O João era um adolescente que só admitia no seu quintal cães com pergaminho e quando resolveu que tinha chegado a altura de cruzar a sua pastora alemã, escolheu o cão que era praticamente do Peidão, o Bugio, um soberbo macho da mesma raça, inimigo juramentado do Torpedo, o maior rafeiro do Alto de Paço de Arcos, propriedade do célebre gang dos dez manos, que tinha uma raiva compulsiva ao Pitrongas, um flamingo da raça humana. No dia D o João tapou o ganha pão da sua pastora com uma perícia lenta de artífice, pois desde que ela entrara no cio ele via pesadelos no horizonte com rafeiros sinistros, que roubavam virgindades num latir , e dirigiu-se para a toca do Bugio, pronto a enfrentar o desafio dos limites. A cadela foi à trela, com disciplina severa de prisioneira. Já se via dono e senhor de uma soberba ninhada de arianos, subversivos no melhor sentido, abafadores de gatos, de rafeiros e de carteiros. Mas a vida sempre fora mais imprecisa do que parecia. Resolveu passar pela praceta para também ele desfilar os seus genes, desta feita castelhanos. A zona borbulhava, alguém tinha gamado o cachimbo da mota de um inimigo de Caxias, e estavam todos frente a frente para o combate, um já se encontrava na fase do “agarra-me se não eu mordo”, mesmo estando solto, e as meninas iam-se sentando para assistir à luta de galos…galitos cocós! A namorada do Graise distraiu-o com a sua sensualidade e a cadela entrou no jardim para se aliviar. Ao fundo, muito ao fundo, o Fiorde, um rafeiro aristocrata, dormia a sono solto, até que as contingências da fisiologia canina chegaram ao seu olfacto de cão de rua e o despertaram para a realidade. Havia uma fêmea a chama-lo para a perdição e ainda por cima no seu território. Ainda mal se levantara e já uma precoce encharcava o pano de cozinha que fazia a vez do lençol. Quando a pastora alemã o viu nem queria acreditar que o semelhante se dirigia para si em cinco patas, com a extra a arranhar o chão. Fez de imediato uma inversão de marcha e preparou-se gulosa para o embate. O cacete do Fiorde dobrou quando deu de caras com o saiote e o rafeiro arregalou os olhos. Tentou todas as manhas do Kamasutra, mas o chouriço teimava em dobrar, para desespero da fêmea. E quanto mais tentava mais desesperava, as meditações viscerais toldavam-lhe a razão. Mudou então de estratégia. Lembrou-se da máxima do seu avô, o Piloto, que dizia que enquanto tivesse língua e dedo não havia cadela que lhe metesse medo. Afocinhou de imediato, e com tanta força que acabou por esfrangalhar o cinto de castidade, ficando com o caminho livre para o pecado. A pastora até uivou ao sentir o Fiorde todo dentro de si, pois a galga era tanta que ele parecia que tinha entrado sem despir o fato. Foi nesse momento que o dono deu pela falta da sua preciosa cadela e no estado em que os dois já estavam nem sabia quem era um e quem era o outro. Teve de ser agarrado pelos amigos, porque o que lhe ia na alma não era benéfico para a saúde do experimentado Fiorde. Entretanto, no alto de Paço de Arcos o Bugio já substituíra a dama pelo vagabundo do Bóbi, o cão do Zé dos Porquinhos, senhor de uma soberba cauda encaracolada, que lhe facilitava sempre o caminho para a luxúria. E a cena passava-se, como já era hábito, na relva e perante o olhar reprovador do avô do Peidão, um general que vociferava sempre quando se deparava com estas cenas de sexo explícito. O Bóbi reclamava sempre quando o Bugio não o respeitava, mas não tinha outro remédio senão aceitar as contingências da natureza, que fizera um pequenino e o outro um matulão, com um rosnar que o mantinha em sentido e sem hipóteses de fuga. Quanto ao João, que estava imobilizado, não teve outro remédio senão esperar que o Fiorde soltasse a sua pastora alemã, acabando o dia a rezar para que a traição não vingasse. Mas vingou. Algum tempo depois uma nova ninhada deu os primeiros passos à luz do dia e depois de distribuídos pelos novos donos, dois canídeos se destacaram desta improvável união, o do Milhas, o Sinai, o único com um tufo a meio dum olho, que iria ter um conflito permanente com o gang dos dez irmãos, seus vizinhos, e o cão do Zé Pincel, cujo nome não ficou para a história, a não ser as suas enormes orelhas que o baptizaram para sempre como o Burro da Pradaria.


Sunday, March 14, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - 27 - Rocky Vargas


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 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos 
Após o fim da comissão de serviço nas tropas especiais dos Pára-quedistas, onde foi ajudante de cozinha, o Conan Vargas fez uma entrada de leão em Paço de Arcos, tentando assim impressionar todas as fêmeas que tivessem a sorte de se cruzar com ele. Ainda tentou fazer os exames nacionais do 2º ano do Curso Complementar dos Liceus, mas não conseguiu, mesmo depois do Pontas lhe ter dado as provas, que tinham sido gamadas uns dias antes e andavam a circular por todo o país. Mas o treino de Rambo que circulava nas suas veias levou-o para outras paragens, o Circuito Nacional de Boxe da décima divisão, onde valia tudo, até tirar olhos com as luvas calçadas. Pediu ajuda aos amigos para os treinos e montou um ringue na garagem da casa da mãe. O primeiro a enfrentá-lo foi o Graise. Em cima de um escadote o árbitro Chico Sá deu o sinal para o primeiro “round”, através do som estridente de um despertador. O Conan tinha soletrado um livro técnico da modalidade na véspera e aplicava agora os gestos técnicos aprendidos, através de abanões malandros da cabeça, enquanto que o adversário não conseguia parar de rir. Reclamou com o árbitro a atitude anti-desportiva do Graise e distraiu-se. Levou dois directos e três ganchos, todos a seco, e o despertador tocou. Quis repetir o combate, mas não foi autorizado. Limitou-se a esperar pelo próximo cliente, que tinha acabado de descer do escadote e estava a calçar as luvas. Em altura encontrava-se agora o árbitro Peidão a dar corda ao relógio, que teve o cuidado de perguntar ao Conan se queria descansar um pouco, ao que ele respondeu “não”, porque aquilo não era para meninas. Não disse mais nada, o apito tocou e o Chico Sá enfiou-lhe a mesma dose que o mano, dois directos e três ganchos, mas com uma pequena variante, os últimos foram todos molhados. E nem teve tempo para abanar o capacete. Quis a desforra, mas os amigos recusaram-se, com receio de lhe porem em risco o futuro no Circuito Nacional de Boxe da décima divisão.
Noutro canto da vila de Paço de Arcos, o Focas das Docas treinava afincadamente a mesma modalidade, para entrar no mesmo campeonato. Mas os treinos de combate eram feitos com membros de outros gangs. E foi numa dessas ocasiões que deu tudo para o torto. Era noite, e alguns membros do Gang de Paço de Arcos estavam em ronda pelas capelinhas habituais, quando resolveram ir verter águas numa discoteca de rabichotes, cujo nome era “Finalmente”. Estavam descontraidamente nos urinóis a despejar as cervejas, quando deram de caras com um desconhecido que estava a tirar-lhes as medidas aos cacetes:
- Ó boneca, se continuas a olhar para o que não é teu, mijo-te para as pernas, – avisou o Focas, tentando acertar-lhe de longe.
A Fofinha ficou tão ofendida que saiu a correr e foi fazer queixa ao segurança. Quando o Ganguinho ia a sair do estabelecimento comercial, foi barrado por um calmeirão, que se identificou como o Rui Nazi, e lhes pediu explicações sobre o sucedido com a Fofinha. Não teve tempo para mais nada, pois o Focas presenteou-o com um gancho tão colocado, e na máxima potência, que o atirou, em voo, de encontro a uma montra, que não resistiu ao embate e se desfez em mil pedacinhos, tendo o Rui ficado a dormir no seu interior. O Focas estava agora apto para subir ao ringue e trazer muitas alegrias e taças para o Comandante Guélas.
Foi numa noite fria e chuvosa que os dois tubarões iniciaram a sua participação no Circuito Nacional de Boxe da décima divisão. Local do ringue, Talaíde ! A claque era numerosa e a sala um pouco apertada. O aspecto era de cortar à faca, todos temeram pela vida do Conan Vargas, o ex-Pára-Cozinheiro. Quanto ao Focas, o azar estava do lado de quem o iria enfrentar. Aviou todos os que se atravessaram no seu caminho e levou a taça para casa. Do Conan não se pode dizer o mesmo. Logo no primeiro combate resolveu abanar o capacete e comeu inúmeros secos e molhados, até ser raptado pelos amigos, que o levaram directamente para casa. Na manhã seguinte lá apareceu no café e quando estava suficientemente rodeado de fêmeas, presenteou-as com o filme de uma formidável noite em que conseguiu vencer todos os concorrentes por K.O.

Thursday, March 11, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 26 - De Cascais a Paço de Arcos na Deusa


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 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
Ainda a noite era uma menina e já cinco paço-arcoenses, de boas famílias, tentavam entrar na boite “O Farol”, pelo lado do mar. E tudo por culpa do Max (o porteiro), que não os tinha deixado entrar pelo lado legal. Mas (e as epopeias começam sempre por um “mas”), nessa noite o Rodrigues (o proprietário) resolvera ir descansar a bebedeira para o lado errado (costumava estar no Bar, ao cantinho, junto ao Escalar, o maior peixe do aquário, que o Pacheco costumava aprisionar num copo em cima da mesa – um peixe muito rijo), e deitara-se junto ao sofá da janela panorâmica de entrada da malta paço-arcoense. Caso tivesse fechado, o Pacheco entraria pela porta legal e puxaria os ferrolhos. Mas nessa noite estava tudo ao contrário! E foi por causa disso que o nosso muito estimado Mac Macléu Ferreira acabou a noite à beira de um ataque de nervos (ao contrário do rally da TAP, nas célebres noites da Penina, onde fora dormir para o Hospital de Cascais). De cada vez que um dos artistas tentava entrar, dava de caras com a focinheira do tio Rodrigues, que estava mais para lá, do que para cá. Era indecente!
- Olha, uma luz aqui em baixo, – alertou o estudante Focas, descobrindo uma pequena porta de madeira.
Durante tantos anos, tantos paço-arcoenses tinham subido pela janela panorâmica nº 1 e nunca haviam reparado naquela humilde portinha. E como a rotina é sempre a grande inimiga da segurança, tinham-se esquecido de apagar a luz (talvez com a pressa ou com a mudança de empregado, para pagarem menos).
- É o armazém e está cheio de bejecas, – informou à rapaziada o estudante Pontas.
Esqueceram-se do Rodrigues e passaram a atenção para o armazém. Cinco minutos depois, já o estudante Focas forçava a entrada com uma humilde barra de ferro.
Crash – Crash
Um mundo de loirinhas passou a sorrir para aqueles devotos estudantes. Mac Macléu Ferreira ficou estático de prazer, antevendo já outra passagem pelo Hospital de Cascais, para receber mais uma dose de glicose. Mas depressa voltou à realidade e anunciou:
- Vou buscar a Deusa (um fantástico e robusto Citroen Dyane – que saudades!).
Antes da Deusa foi atestado um Peugeot que acabara de chegar com mais paço-arcoenses. Dava para todos, respiravam os ares da Liberdade, e o Rodrigues não passava de um porco fascista, explorador de estudantes do povo trabalhador, mesmo que fosse filiado no PCP. Deusa atestada e aí foram, rumo à Pátria do Comandante Guélas.
Dentro do bólide nem se respirava, devido à Tara. Estavam no Verão e, por isso, o tecto ia escancarado. Faziam-se contas! Mac Macléu Ferreira queria 50%, alegando ser o proprietário do veículo de transporte. Deu-se início a um grave problema laboral. Depois do 25 de Abril, todas as profissões tinham sido legalizadas, incluindo a de Estudante-Ladrão. O patrão tinha direito a 20%, igual a todos os outros. E a gasolina, quem a iria pagar?
- A tua mãe, – informou o Pontas.
O barulho da mesa redonda foi interrompido pelo estilhaçar de uma “bejeca”, de encontro à estação do Tamariz. Mac Macléu Ferreira nem queria acreditar no que ouvira.
- Quem é que atirou a garrafa? – Perguntou, largando as mãos do volante, voltando-se para trás, e reduzindo para terceira, a 110Km/hora.
A Deusa abriu a boca, gritou desesperada, mas continuou, implacável e severa.
- Garrafa!? Qual garrafa? – Questionou o Bajoulo, mostrando uma grade cheiinha, enquanto escondia a outra atrás do Peidão.
- Pareceu-me ouvir o barulho de uma garrafa a partir-se, – respondeu Mac Macléu Ferreira, pondo de novo a quarta, desta feita a 112Km/hora.
- Além de míope, estás a ficar surdo – informou o estudante Focas, ao mesmo tempo que arremessava a segunda “bejeca” para os pés de um casal de “camones”, que apreciava as noites de verão de S. João do Estoril. Ainda o Mac Macléu Ferreira se preparava para tirar, novamente, as mãos do volante, reduzir para terceira a 114Km/hora e virar-se para trás, e uma granizada de “bejecas” se precipitava de encontro ao castelo, que aparecia sempre depois de S. João. Os óculos do Mac, os olhos e a barba eriçaram-se e tentaram comer vivos os autores de tão vil acto.
- Para a próxima paro o carro e saem todos, – ameaçou Mac Macléu Ferreira, antevendo uma noite de luxúria com a última grade de loirinhas. Mas as suecas queriam mesmo sair! A última abandonou a Deusa à entrada de Paço de Arcos, indo no seu encalço a grade vazia. Quanto ao Mac Macléu Ferreira, estava em estado de choque, devido ao barulho ritmado de “bejecas” de encontro ao passeio, a partir de S. Pedro. A curva foi feita à velocidade do costume, 120 Km/hora, com o pessoal de fora e a ajudar à inclinação. Que grande Deusa! Outros tempos, outra geração, com muita sorte ao volante.

Monday, March 08, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 25 - O netinho de oiro da Dona Ludres

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Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

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O segundo sobrinho do Peidão nasceu como o primeiro, o Cabeça de Ananás, contra todas as probabilidades, pois naquela altura não passava pela cabeça de nenhuma menina de bem, caucasiana, acabar o liceu grávida. E para desespero da Dona Ludres, senhora absoluta da “Casa do Morro”, e contra toda a estatística, ambas as filhas fizeram-na avó mais cedo do que ela alguma vez sonhara: aos 38 anos! A mais velha de um artista com cabelo de caniche a tocar nos ombros e chinelos ortopédicos, cujas unhas riscavam o chão de tijoleira da sogra e a outra de um cabo, da mesma arma que o sogro general, que logo na primeira apresentação, depois de ter sido autorizado a entrar pela porta da cozinha, fez aquilo que ninguém daquela casa conseguira, sintonizar o vídeo da Dona Ludres. Subiu tanto na consideração da generala, que a partir daí tinha sempre, todos os domingos, um rolo de carne à sua espera. O Polifemo, nome com que passarei a referir-me ao filho deste cabo atrevido, meu sobrinho mano, passou a ser criado segundo os cânones da Dona Ludres, ou seja, a fazer tudo o que lhe apetecia, sempre com as costas quentes da vóvó. O outro, o Cabeça de Ananás, estava entregue a outra esposa de um general, a Milu, mãe da Ludres, e a educação era similar, deixando o pobre do Peidão, um menino de oiro de verdade, e agora tio destas duas aves raras, à beira de um ataque de nervos, tentando transmitir alguns valores a estes ciclopes prematuros. A primeira aventura do Polifemo, que levou o tio Peidão a pôr-lhe as mãos no pescoço, sendo salvo in extremis pela avó Ludres, foi quando ele partiu a pata da cadela pequenina, encontrada a vadiar lá para os lados da Ota, dando como desculpa que caiu em cima dela. O netinho de oiro da Dona Ludres estava nesta altura, e assim se conservou durante muito tempo, com o formato de leitão, razão para esmagar qualquer animal que se cruzasse com ele, mas o Peidão desconfiou que ele enfiara um biqueiro na Nazaré, só para mostrar quem é que mandava ali. A vóvó jurou sempre que não, o coitado do petiz estava a correr com a bicha e ela entrelaçara-se nos seus presuntos, obrigando-o a uma aterragem forçada nos paralelepípedos do jardim…com o canídeo pelo meio. Este incidente fez a Dona Ludres rever toda a educação do petiz, visto que o cabo não mandava nada e a filha estava sempre na garagem a pintar quadros, nesta fase aproveitando os trapos que o avô deitara para o lixo, como telhados das barracas desenhadas. Seria uma visionária, uma Pintora Ecológica? Retornemos à reeducação do Polifemo. A generala decidiu que ele iria esgalhar para um piano, para assim gastar parte das energias na cultura. Já se via, orgulhosa, a assistir ao primeiro concerto deste netinho de oiro: a tocar juntamente com a Banda da Força Aérea, para ela e para as amigas, na varanda da sua casa, com o Tejo como testemunha! Mas o que está nos genes é para seguir o seu destino, e o piano ainda existe, após ter resistido às investidas do verdadeiro general que tentara fazer dele uma bancada num dos quartos da cave, com torno e tudo. Quanto ao pianista, passou a usar as mãos para outras coisas mais agradáveis, incluindo a célebre cena do jipe, que lhe ia custando a estadia no planeta. Estaria agora a tocar harpa numa nuvem qualquer perto de si…e a cuspir para cima das velhotas. A história é simples, o papá, ex-cabo e agora professor de uma universidade, pedira emprestado ao sogro o seu jipinho de estimação, para ir buscar um cadeirão que a sua esposa, que insistia em pintar soberbos quadros, agora aproveitando as caixas de ovos do Continente como telhados para as mesmas barracas, comprara no IKEA. Após o serviço foi interceptado pelo Polifemo que se prontificou a devolver o carro ao avô, para que o pai pudesse ir descansar da árdua missão que a mulher lhe confiara. O cabo torceu o nariz, pois o currículo do filho ainda tinha muitas letras a vermelho, mas como o jipe também não era seu e a sua tripa estava a fazer barulho, lá entregou as chaves ao Polifemo, agora um “adulto responsável”, pensou. Quando o netinho de oiro entrou na última curva antes da garagem do avô, perdeu o sentido mais sóbrio da realidade e da sua proporção, colocando o acelerador a beijar a carpete. Nem a curva o fez mudar de ideias, os neurónios estavam amontoados na nuca e das orelhas sairam espessas nuvens de fumo. O jipe de estimação do avô Jorge, general da Força Aérea, levantou voo quando sentiu o murete, deitando-se de seguida de perninhas para o ar. Quando o Polifemo acordou, com o barulho de um líquido, pensou que iria transformar-se num conguito, que lhe valeria uma expulsão da casa da Dona Ludres, tal qual como o Teodorico Raposo da “Relíquia” do Eça de Queirós. Como a Dona Patrocínio das Neves, perdão, Dona Ludres era avessa a modernices, pois para semelhanças com um conguito já lhe bastava o cabelo do Cabeça de Ananás, estilo carapinha, mas que ela insistia ser da raça caniche, o netinho de oiro fugiu do local do crime e entrou em pânico na casa do Tio Peidão que, mais uma vez, teve de se conter quando deu de caras com o veículo do papá, que se encontrava ainda longe da cena. E para acabar, só mais um pormenor: a Dona Patrocínio das Neves, perdão, a Dona Ludres, que estava sempre a dizer mal do jipão do general e a elogiar o seu Nissan, entrou em estado de choque e passou a noite toda a clamar pelo “meu jipe, meu jipe, meu jipe, o que vai ser de mim ter que ir às festas das minhas amigas, não no jipão, mas no traste do Nissan”!