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Tuesday, February 21, 2012

Camarada Choco 85 - O Santo e as Pecadoras


Camarada Choco
Aventura 84

Esta história escreve-se devagarinho, umas linhas aqui, outras ali, por vezes volta-se, porque é o resultado de uma estranha e intensa relação entre Aparafusados e Desaparafusados. Mesmo quando a descrição da relação é cruel no retrato, acaba sempre por vir à procura do outro lado, capaz de justificar as decisões que os levaram para sítios inesperados, porque para eles o tempo é para ser vivido e não desperdiçado. Comecemos por uma ponta: a mudança do Choco! Cedendo aos estranhos instintos da pedagogia, deslocaram-no para a sala do Nélinho, mais propriamente para uma mesa junto à porta, pondo assim em jogo um dos princípios sagrados da Teoria do Caos, que diz que uma bufa na Venteira  pode ter sido a causa do Tsunami no Japão.  A Prima da Prima, filha da maior cuspideira da Venteira, que costumava deixar rasto como o caracol, neste caso em forma de soberbas escarretas, gritava como uma desalmada no Boeing da Kidzania, porque não estava nos seus planos escolares ir para o México. E os berros foram tantos e tão altos, que acordou a auxiliar Mosca Morta, que tinha acabado de tomar um Vomidrin para não enjoar durante o voo.  Berros também era o que mais se ouvia na Escola para Desaparafusados da Venteira, pois a Madrinha Sem Caneco aparecera da baixa, de surpresa, a frio e sem preliminares, e verificara que uma das Afilhadas da Tarde lhe tinha mudado a decoração do estaminé, incluindo mongas e tudo. E foi no meio deste momento de enorme tensão, com gente irrequieta a espreitar pelas portas, que a entrada da Menina Tatrícia na sua própria sala foi barrada pela Russa da sala da Dona Gilete, uma sumidade em matéria fiscal na Caixa de Previdência.
- Esta sala já não é toda sua.
- Não é minha? – Perguntou a humilde Tatrícia, reparando pelo canto do olho que a Dona Pilca se escapulia sorrateiramente para a sala antes da outra dar a resposta.
- Fui destacada para a sala junto ao refeitório, mas a dona do espaço barrou-me a entrada entupindo a porta com um chinês monstruoso de bata azul, alegando que já estava servida com a  Barrote Croquetes. Sugeriu-me que ocupasse esta, que está quase sempre vazia desde que a Pirosa mudou de apartamento. E já sinto que tenho o perfil indicado para a missão.
De repente a distância entre a Russa e a Menina Tatrícia foi forçadamente aumentada com a entrada repentina da Pirosa, que as empurrou à bruta.
- Com licença, tenho que ir ao armário buscar umas luvas!
- Também tu Pirosa? – Gritou a vítima. – Mas ninguém me pede para entrar na minha sala?
O olhar da Pirosa enquanto abria o armário foi dado com tanto desprezo, que a Menina Tatrícia julgou estar num sonho, e por isso afastou-se para ir fumar um cigarro com a Transmontana, que acabara de atirar, por brincadeira, um vaso à cabeça do Nélinho, que pensou ser a Brasileira do Minho a responsável pela agressão, estando agora numa convulsão  de abuso.  Pelo caminho, a agora Gata Borralheira da Venteira, tentou fazer uma necessidade fisiológica mas foi impedida pela Kalélé que tinha acabado de barrar o acesso ao local.
- Se queres mijar, vais ao terreno dos gatos, - gritou-lhe a prima, pelo lado da espécie, do Obama, dando-lhe uma ajuda técnica violenta, que a atirou para cima do Manelinho, que ia com o Cabo Pilas ao colo, num jogo de empurrões e ternuras,  perseguido por duas fêmeas, uma cor de baunilha e outra cor de chocolate.
- Não dês cabo do nosso Tenente Cafetão, precisamos dele para mais uma reunião no primeiro andar - gritaram, puxando uma perna ao Cabo Pilas.
- Vou parti-lo todo, - prometeu o Nélinho, revirando os olhos e dando uma passa no seu charuto.
Não longe dali tocou o telefone nos serviços administrativos:
- Escola para Desaparafusados da Venteira, fala o Porres.
- Venho informá-lo que a vossa Tremelga anda a costurar para fora com o meu Joaquim, e por causa dela fiquei sem Televisão Digital Terrestre, - disse alguém de rajada.
Na Escola para Desaparafusados da Venteira já não havia fé, nem crença, apenas actividade, e da grossa. E tudo porque tinham ousado mexer no que de mais sagrado havia!