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Monday, December 07, 2015

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 76 - Adeus Colégio, Olá Colégio



O Comandante Guélas
 Série Colégio Militar

Os tempos de hoje não são os tempos de ontem, por isso os tempos vividos raramente são os desejados. O Colégio Militar já não é o que em tempos foi e nunca mais será o que era. Depois de muitos anos em que se pensou que iria morrer, ele renasce, qual fénix que se ergue das cinzas, e mostra o seu poder através destas estórias. Assim, o Alguidar proclamou a noite de domingo, 13 de Setembro de 2015, com a arrogância do conhecimento, saturado de vertigem política, não sabendo que é a consciência da ignorância que faz avançar o mundo:
- Hoje é um momento histórico!
Dizia então o ministro que cem meninas iriam dormir, pela primeira vez, nas instalações do Colégio Militar, desde a sua fundação em 1803, tendo as mais velhas direito a quarto individual, e as mais novas a camaratas de dez camas. Santa ignorância, o 75 já tinha levado para uma cama, montada na sala do Carioca, a Margarida, que havia de ser jornalista, que Deus a tenha, sua convidada para o Chá Dançante; e também para os lados do campo de aeromodelismo já tinha havido um encontro amoroso entre Meninas de Odivelas e Meninos da Luz. O Alguidar, segundo um dos seus muitos assessores, era um homem de apetites complicados, que queria sempre isto e aquilo, nunca estava satisfeito, senhor de um traseiro melancólico que geralmente decorava, na praia, com uma tanga onde se desenhava um Rambo. Desde que o 281, o Tofa, e outros Meninos da Luz, quase lhe tinham dado um ramalho na Invicta, andava sempre alerta, ao contrário do Bivar que, umas décadas antes, em estado de cio, resolvera levar uma amiga para o gabinete e, com as luzes acesas, brincaram aos polícias e ladrões, ele de botas altas e ela de cuecas atrevidas, com o Chico porteiro a assistir desesperado, naquela noite fria, a tentar desviar as atenções dos cidadãos, ao mesmo tempo que telefonava desesperado para o Maná, agora no papel de oficial de dia, o tenente Ananás, a beber umas bejecas na Soca, pedindo-lhe para avisar o sub que o seu filme só para adultos estava a ter transmissão direta para os meninos rebarbados. Quando o ministro puxou a bandeira do colégio e mostrou ao mundo, um milhão e duzentos mil euros depois, a placa que oficializava a entrada das Meninas de Odivelas no espaço anteriormente reservado aos Meninos da Luz, acabava de convocar o passado. “Momento Histórico”? Momento histórico era se tivessem encontrado o túnel que os ligava a Odivelas, que as traria de manhã para as aulas, e as levava ao fim do dia de regresso ao ninho, com a rapaziada desaçaimada no seu encalço. Com este gesto encerrou o Colégio do Semita (“Psché moço, num monte de esterco fazes nódoa”); do Moreira (“Bós sois piores que os ciganos”), o barbeiro Sabino (com a sua fabulosa unha de 10 centímetros, que o pessoal via pelo canto do olho quando lhes cortava cuidadosamente o cabelo); a roupeira Cassilda, casada com o Labareda, irmão de outro vigilante, o Badalo; o Bivar com o cio a cavalgar no gabinete atrás de uma visita, com o Chico Porteiro desesperado a ver a festa; o Patronilha e a sua fabulosa Júlia, que nem com uma almofada na cara servia para excitar a imaginação dos imberbes; acabou a Rosa; foi-se a prateleira de sonho da Antonieta; o Bata (Bata-Man), adeus Falcão (“piu, piu, és burro”), Menau (“eu cá não sou bingativo, mas quem mas faz paga-mas”), o padre Valdomiro (“Baldomijo”), Dom Dom, Pato Marreco, o tenente Mota, o Camões, Lufas, o Marinho, o Ferreirinha, o Fufu, o Didi, o Pina Lopes (“se marcares o alvo num mapa com o lápis rombo, as bombas caiem ao lado”), o Pequito, o Galo (“ó ordenança o meu cavalo já está arreado?”), o Teatcher, o Mexicano, o tenente Aparício (“tou-me cagando, mete a requisição na caixa”),  o PV1 e o PV2 (“Eh pá, esse desenho está mais feio do que a ponta da teta de uma preta”), Dores, Porky, Carioca (“ó C. lambe-me a pichota”), o Jaiminho (“Quem é que te mandou desmontar”?), Perdigão (“xisto com pernas”), o Bisnau, o Teatcher, o tenente Frade, o padre Américo (“daassseeee”), o Dias Gago (“ó-ó-ó di-di-as-ga-ga-go”), o Pato Marreco, o Tabi (“ó T. chupa aqui”), o Pop, o Isménio Tadeu (“deixo o eléctrico arrancar para depois ir atrás dele e apanhá-lo”), o Animal, o Santola, o Feio, o Gunga (“alguém sabe desenhar um infinito de joelhos?”), o padre Peixoto, o Valentim (“ó senhor aluno tome lá dois supositórios de Buscopan que isso passa”), o Caspa, o padre Castelão,  o Coelho, o João Pequeno, o Nunes (pai da Rosa, que fazia a ronda da noite), o Dias Gago, o Santos, o Fixó, o Meia-Lua, o Abílio, o Miranda (“bom dia menino”), o escultor Brito (o Judas) o Zé Pereira, o Augusto Violante, o Leonel, o Carlitos, o Rosário, o Dentinho. E como no Colégio Militar todos fazem parte do Batalhão, até equinos, que lá deixaram os ossos, são parte das memórias de muitos: Salame, Nono, Tangerina, Rata, Quadrado, Alfange, Eusébio, Patacho, Vapor, Quirina, Cabeça de Mula, 48, o Flipper, assim como as aventuras a eles associados, como a ida ao Campo Grande pela Segunda Circular, com os cavalos à carga pelas bermas de areia, assustados com os carros que lhe passavam razias, tendo um deles chocado uma rede, e outros feito ski nos paralelepípedos mais à frente, e tudo isto com meninos fardados de cotim em cima do lombo; ou descer em fila as bancadas do campo de futebol; ou ir atacar os colegas da esgrima que treinavam no exterior, com uma carga de fazer inveja ao John Wayne. Enfim, coboiadas impensáveis nos dias de hoje onde a rapaziada está ligada por GPS às mães, que no Colégio Militar antigo não passavam da Porta de Armas, perante o olhar autoritário do Chico e o olhar baboso do Bivar, enquanto os filhos estavam no outro extremo da capital, numa qualquer sessão contínua no Olímpia, chegando uns a trazer alguns cartazes que foram afixados na vitrine que ostentava os pontos do “comportamento”; ou a vender bilhetes forjados na tipografia para o “Genesis”, à porta do Pavilhão Dramático de Cascais. Nunca terão o prazer de ver um professor de equitação, de óculos escuros, a entrar de De Tomaso Pantera amarelo e a acelerar até ao picadeiro como se estivesse no autódromo do Estoril, como fazia o Cabedo. Tivessem os Meninos da Luz de hoje posto a mesma cabra que puseram na sala do mestre escola, o Mosca, no gabinete do Alguidar, e ela também teria comido tudo o que havia no gabinete, incluindo os papéis das decisões…e as cuequinhas do ministro, e agora o Comandante do Corpo de Alunos, tal como fazia o Estorninho, continuaria a poder puxar as orelhas de uma turma inteira e a ameaça-los de que iriam ficar detidos no fim de semana, porque pôr um rádio com o volume ao máximo debaixo do estrado onde o professor de Geografia, o Raposo, ia dar aula, era inadmissível naquele colégio com tantos pergaminhos, onde se incluíam as requisições amarelas (“1 camisa de vénus verde”), que obrigava o Manuel, baixinho e com dois dedos curtos numa das mãos, a saltar com destreza, tal como os “Gafanhotos” (“o Dario é o Einstein da Ginástica, consegue transformar merda em matéria” – Reis Pinto), o balcão da cantina, e correr furioso atrás do requisitante. Fica a imagem do Zé Pereira (41 anos de serviço) a deslocar-se a todo o vapor, com um bloco de notas na mão, em direcção ao prevaricador que ousara atirar um copo ao chão, provocando o tradicional grito “PJ”, confrontando-se sempre com um pagamento solidário (“1/50 avos de um copo”). Juntam-se a estas memórias o Datsun 120Y azul-escuro, cheio de mossas, do Perdigão, o Toyota bege do tenente Mota, o Vauxhall Viva, guiado por uma bóina, o Fiat Mirafiori do Dores, o Volvo azul do engenheiro Grijó, o Ford MK1 azul cueca do Chulógrafo, o Citroen Dyane do padre Viana, e muitos outros bólides colegiais. Estamos num tempo em que para se ganhar uma barretina basta saber tocar à gaita, e fazer disso profissão; ou ter o feitio de um coelho, e depois inscrever as crias no colégio. Mas não se encerra uma época sem contar que o tio Zé Júlio, cujo posto era tenente-Coronel, entrou um dia na Soca à beira de um ataque de nervos, com os pés da mesma cor dos do Sissé (o primeiro mano do batalhão), as calças civis a arrastarem pelo chão e todo ele a tresandar ao perfume da Dallas Cowboy, a dama do Bairro Alto que fez as delícias de alguns meninos que se encontravam nos “5 Estudos” para os exames do 5º ano do Liceu, no longínquo ano de 1976, e arreou de imediato no aspirante Costa que se descontrolara a rir, ao mesmo tempo que o encharcava com remédio para a “Tinha”, estragando-lhe a camisa de marca. E esta estória encerra com o Ananás, que um dia foi ao baile de gala fardado de capelão e andou de mesa em mesa a distribuir bênçãos.
O Colégio Militar continuará a definir hierarquias e domínios, mas mais do que isso, continuará a criar espaços de amizade, solidariedade, aprendizagem, iniciativa e coragem, mesmo que nos tempos modernos o 83 seja agora o 283, depois de ter estado ausente um ano noutro colégio por ter medo dos descendentes da Salame. A Luz foi mais forte do que tudo!







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