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Tuesday, September 20, 2011

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 50 - Simplesmente Anoa


                                 Comandante Guélas


                                             Série Paço de Arcos
 
Quando a mãe do Pitrongas ficou com o Pinto só para si, depressa se mudou de armas e bagagens para a vivenda do velhote, e num abrir e fechar de olhos pôs um par de patins à governanta, uma concorrente perigosa, substituindo-a pela Anoa, um caniche em forma humana, que necessitava de um banco para fazer a salada de tomate e muitas outras refeições. A nova criada tinha por companhia o Tareco, um gato castrado que para ela era mais cavalo e companheiro. Mas o trabalho da Anoa não se resumia só à cozinha. Nas horas vagas era os ouvidos e os olhos da patroa. Nestas ocasiões montava então vigia na porta do jardim e nada lhe escapava na vizinhança. Quando o senhor Zé da Fruta apitava, lá se aventurava a atravessar a rua e, na companhia de outras sopeiras das redondezas, aproveitava para aumentar o rol de informações, que diligentemente entregava à chefe no final do dia. Até que um dia a rotina se alterou por completo, quando o Vaca Prenhe regressava a casa no carocha dos pais. Por momentos os dois olhares cruzaram-se e fixaram-se. Das orelhas do rapaz, que tinha acabado de ser pai do Cabeça de Ananás,  saiu fumo preto, um sinal inquietante. Pôs prego a fundo, subiu com metade do carro o passeio, decidido a transformar a meia-leca numa bonita toalha de bidé. Quando a Anoa se apercebeu que tudo aquilo era real e não um pesadelo saltou, no último segundo, para a proteção da ombreira do portão, tendo sentido ainda a deslocação do ar do bólide, que lhe levantou a saia tamanho Barbie. O exemplo foi terrível, o Graise imitou o mano, mas com mota, e desafiou os amigos. Estava assim lançado um novo desporto, o “abafa a anã”, que pôs a Maria em estado de alerta permanente e perto do suicídio, da borda do passeio. Não tinha descanso, a qualquer hora do dia arriscava-se a ser passada a ferro, tanto por quadriciclos como por motociclos. Reagia a qualquer barulho, passava a vida a correr para a proteção do jardim. Já nem a carrinha do senhor Zé da Fruta era um lugar seguro. Parecia o cão do Pavlov! E o risco aumentava quando a patroa, uma obsessiva compulsiva pelas limpezas, e mãe do único adolescente com um neurónio da Costa do Estoril,  a mandava ir varrer o passeio, depois de ter deixado o vasto jardim a brilhar. Mal via o carocha preto, que estava em constante sobe e desce, ao longe, abandonava tudo, incluindo a sombra, e corria para trás do vaso com o manjerico. Para a obrigar a sair da toca, o Graise e o Peidão, o adolescente mais bem comportado da vila, arranjaram uma estratégia infalível: passaram a trazer os sacos de lixo da vizinhança e a despeja-los dentro e fora do logradouro do Pinto, pondo a mãe do Pitrongas à beira de um ataque de nervos, e a Maria em estado de limpeza permanente. As razias aumentaram, o alvo estava num vai-e-vém constante, e qualquer dia a vila acordava com a toalha de bidé espalmada no alcatrão. E eis que um dia a Anoa resolveu acusar o irmão do Graise e do Vaca Prenhe, cunhado do Peidão, o único nas redondezas com um cromossoma extra no par vinte e um, de atirar o lixo para dentro do logradouro…às três da manhã. Quando soube a novidade a patroa agarrou na criada meia-leca e irrompeu pelo almoço dos vizinhos, apontando o dedo acusador ao último dos dez irmãos, que confundiu a Maria com um Peru, que para ele representava o Papão, e fugiu para debaixo da mesa. O Vaca-Prenhe ainda tentou atirar as culpas para cima do desgraçado do cunhado, mas foi de imediato posto no lugar de onde não tinha saído:
- Que miséria a acusar um menino tão educado e com bons princípios morais, que não se pode defender. Tenha vergonha do que diz! – Gritou a mãe do Pitrongas agarrando na Anoa e virando as costas aos vizinhos.