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Saturday, April 28, 2012

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 54 - Prevenção Rodoviária

Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Quando o Cabeça de Ananás, nickname posto pelo próprio pai da criança, que durante algum tempo também lhe chamou “Dois Cus”, nasceu, o avô Mene tornou-se no bisavô mais babado da Costa do Estoril, e depressa tomou em mãos a responsabilidade de, finalmente, conseguir educar com bons princípios morais este novo neto, uma vez que em relação aos outros tinha sido uma desgraça. Vivia sem esperança de continuidade, o “Quadro das Lamentações” , onde dava explicações de matemática e física aos netos, que acabavam sempre aos gritos e insultos, e com a intervenção musculada da Milu, estava ameaçado de extinção porque os neurónios do Peidão tinham atingido a redline. A esperança residia agora no Cabeça de Ananás, ou Dois Cus, como preferirem, que era um puto dotado de mais neurónios que os pais e os tios todos juntos, que passava o dia todo na garagem a brincar com o bisavô. Mas houve um dia, no meio de muitos outros, que o tempo ia parando! O avô Mene estava equipado a rigor, um soberbo penico da segunda guerra cobria-lhe a cabeça, apito colado aos beiços, com uma corrente de tampa de bidé a dar a volta ao pescoço, botas cardadas com solas esfomeadas e uma raquete de ping-pong pintada de vermelho e azul, as únicas cores existentes na moradia de dois andares, em cujo rés-do-chão ele era o cabeça de casal, enquanto que no de cima reinava a filha, e o “Dois Cús” em todo o logradouro. A cor vermelha forrava metade das torneiras do jardim, indicando que toda a água que por aí saísse debitava no contador do avô Mene. Por isso usava mais as azuis, da responsabilidade do genro!
- Aiiiii, - gritou pela centésima vez, indicando que o Cabeça de Ananás lhe passara novamente com os rodados por cima dos calos.
Estava tudo ainda muito fresco, na semana anterior ameaçara esganar o petiz que, seguindo a tradição familiar, aproveitara uma distracção e trancara-o no quarto das ferramentas, perdendo a chave logo de seguida. A Milu só deu pela falta dele quando o chamou pela enésima vez para o almoço, onde só se apresentara o Dois Cús, que comia alegremente um ovo estrelado, exclusivo desta bisavó, que só era atirado para a frigideira quando a manteiga atingia o ponto de rebuçado, ameaçando aevaporar-se, tendo ainda ousado comentar:
- Que irresponsabilidade, pedi-lhe para tomar conta do menino e nem para isso serve!
O avô Mene já espumava, mas de nada lhe valia. Pediu que lhe trouxessem o petiz junto à porta, e deu-se início às negociações:
- Se tu disseres onde escondeste a chave, dou-te um chocolate, - prometeu, com uma voz suave.
O Dois Cus deu umas coordenadas e a Milu correu para o andar de cima, e espreitou por detrás do sofá. Falso alarme. Chave, nem vê-la!
- Pensa bem, o avô não se zanga, até te dá um Lego, - tornou a prometer, mas desta vez com um canino de fora, que o Dois Cus não conseguiu ver.
Novas coordenadas, e a bisavó escada acima outra vez. Falso alarme, na casa de banho com o tampo transparente para baixo, uma modernice da Milu, só havia restos de uma mija descuidada.
- Se eu te apanho meto-te os dentes para dentro, - berrou o avô Mene, cravando as unhas na porta. – Isto já se tornou um hábito.
Tinha razão, trancá-lo era já um comportamento inscrito nos genes dos seus descendentes, que o dissessem o Peidão e as irmãs, que um dia o tinham encurralado no torreão da casa da Base das Lages, onde permanecera parte do dia a gritar por socorro para o exterior, enquanto a Milu se ausentara com os petizes para fazer compras no “BX” dos americanos, loja conhecida como “BIEX” pelos autóctones. A única chave que conseguiu abrir a porta cinzenta de pinho maciço foi um machado, a segunda ferramenta preferida do avô Mene, a seguir ao martelo. O almoço decorreu dentro da normalidade, com o Cabeça de Ananás, ou Dois Cus, nicknames da responsabilidade do pai, que se tinha atrasado nos estudos devido a uma “pneumonia dupla”, como se costumava justificar, que se transformara em tripla devido ao estado em que lhe tinha deixado o Cérebro, a correr de um lado para o outro, incluindo várias passagens por cima da mesa. Nos dias de hoje teria levado com várias doses de Ritalina, destinada aos irrequietos de antigamente, classificados nos dias de hoje com o pomposo nome de “hiperativos”. Após a refeição as duas crianças, uma de cinco e outra de setenta, rumaram para a garagem e foram acabar a brincadeira do polícia sinaleiro. Avô Mene a rigor no seu papel de autoridade e o Cabeça de Ananás a pedalar freneticamente no carro.
- Aiiiii, - gritou o polícia sinaleiro após a passagem dos rodados por cima dos calos.
E continuaram! Até que os “ais” do avô Mene foram substituídos pelos gritos alucinantes do Dois Cus, que obrigaram a uma descida fulminante da Milu à cave. O petiz tinha um galo do tamanho dum capão, e o avô Mene segurava em pânico numa lata de tinta vermelha que, segundo ele, lhe tinha caído da mão e, azar dos azares, acertado nos cornos do pequenito. A versão do Dois Cus era diferente, o polícia sinaleiro tinha-lhe atirado deliberadamente com o objecto à tola, após mais uma passagem por cima dos seus calos. A brincadeira ficou por ali, a verdadeira autoridade mostrou um cartão vermelho ao polícia sinaleiro!  

 

Tuesday, April 10, 2012

Camarada Choco 88 - Projeto Golfinho

Camarada Choco
Aventura 87

O nome do projecto metia respeito, mas nada indicava que se destinava a Desaparafusados. E a mítica equipa dos “Tubarões do Seixo”, cujo “i” era de uso obrigatório de cada vez que saíam para o exterior, não fosse alguma tia considerar tal nome uma afronta aos grogues de todo o mundo, há muito que já estavam a preparar-se para o derby. A fama era tal, que até jogadores de outros estabelecimentos para desaparafusados tinham abdicado das suas equipas de coxos, e preparavam-se agora para dar o seu contributo aos “Tubarões do Sexo”, perdão, falta o “i”, “Tubarões do Seixo”. O pai do Samecas não o queria deixar ir, porque da última vez regressara a casa sem parte substancial dos dentes da frente após um sprint fabuloso, que lhe deu entrada direta na “Caderneta dos Grogues”, que só terminou no poste da baliza adversária. A visão traíra-o! Mas o Samecas insistia em mostrar ao seleccionador a sua excelente forma física, com constantes flexões e acelerações, que passavam razias aos cantos e aos colegas.
- Se perdes peças outra vez, o teu pai inscreve-te no Grupo de Zombies do Vira-Bicos, e penduras as botas para sempre, - avisou-o o Stor Pobre, dando-lhe um majestoso empurrão, para testar o equilíbrio, argumento a que o progenitor se agarrava agora para não o deixar ir.
Mas como tudo era tática, estes apertões eram feitos na presença de todos, para assim servirem de apoio ao campeão, que nunca se estatelava. E a opinião de todos acabou por ser diferente da do pai, e assim o mítico “69” teve autorização para fazer parte da selecção da Escola Para Desaparafusados da Venteira, e rumar em direcção ao colégio com nome de descobridor. Mas um problema grave estava a afetar a moral da equipa: o estado lastimoso do Cristiano Ranhocas, o fabuloso Choco, cuja mãe se tinha enganado na medicação, e passara o mês a dar-lhe dois comprimidos SOS por dia.
- Um de vez enquanto, e só se ele lhe atirar um móvel mexicano para cima. É dose de elefante, - advertira o médico dois meses antes. – E se for tomado em excesso queima-lhe o resto dos fusíveis, e depois nem a Proteção Civil lhe vale!
O ponta-de-lança, que iniciara a carreira futebolística no século anterior, e fora inteiramente moldado pelo seu padrinho Stor Pobre, arrastava-se agora pelos corredores, com a língua a deixar rasto no chão como o caracol, e um olhar sensual.
- Vai, e ponto final, - disse o treinador, contrariando a opinião generalizada de que ele estaria possivelmente mais para lá do que para cá.
A novidade na selecção era o regresso do velho Kodac, agora um trabalhador incansável no bar dos médicos do hospital da zona, responsável pela limpeza dos cinzeiros clandestinos, que ele também ajudava a encher, e pelo esvaziamento dos restos das bejecas que forravam os fundos das garrafas que tinham de ir vazias para o vidrão. A justificação encontrada para a ausência ao trabalho da quarta-feira seguinte, foi a excecionalidade do evento, e uma forma de compensar tão empenhado trabalhador. E tudo isto saiu da cabeça da Dona Espatinha, após uma insistência permanente do padrinho de todos eles. A frente de ataque estava decidida: um Leitão que só carburava com doses maciças de nicotina, um Míope com queda para a travadinha e um Zombie! O meio-campo também era de sonho. Decidiu-se por um atleta em formato de Buldózer, o Gorilão, que só costumava parar quando o adversário ficava reduzido a um grafitti ou o mister ameaçava cortar no empadão do almoço. Na ala esquerda estava o coxo-mais-rápido-da-Brandoa, o Ládi Manquê, poeta nas horas vagas, e carregador oficial da mochila do velho Stor Pobre. A baliza estava entregue a um estrangeiro, o Moreira, um ex-rival do clube de Oeiras.
- O tamanho da equipa dos “Tubarões do Seixo” é decidido pelo treinador, pois todos sabem que é a única que possui regras próprias de funcionamento.
Foram escolhidos dois para a defesa, o Castelinho, que tinha mais perfil para rendas e bordados, e preferiu ficar no banco no papel de enfermeira, e a Chinesa Queque, cuja experiência em jogos viris se reduzia à tentativa diária de violação do Ládi Manquê.
O dia D chegou, e quando a primeira equipa adversária apareceu, o Stor Pobre apercebeu-se que eles eram aqueles chicos espertos que sabiam qual a baliza onde deveriam marcar golos, e eram exímios em passar a bola. Alteração de tática, tudo o que era Desaparafusado na assistência foi mobilizado, e obrigado a dar o seu contributo para a vitória dos “Tubarões do Seixo”, o único team que condensava em si todos os golos do encontro. Iniciou-se assim a partida com vinte contra cinco! A primeira interrupção do encontro aconteceu quando o Choco resolveu estacionar-se dentro da baliza adversária, impossibilitando o guarda-redes de defender essa metade.
- É a zona indicada no plano de jogo, - esclareceu o seu treinador, lembrando que “fora” era só para os outros, e quando ele indicasse ao árbitro, que também podia marcar golos pelos “Tubarões do Seixo”.
E quem não quisesse jogar nestas condições que fosse esgalhar para outra freguesia! A selecção de Futebol da Escola para Desaparafusados da Venteira, os míticos “Tubarões do Seixo”, regressou à base com uma taça nas mãos e a sensação de dever cumprido.

 PS.: O Samecas mal entrou em jogo desequilibrou-se e caiu, conseguindo in extremis dar uma pirueta e cair de costas!