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Monday, September 30, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 51 - O Triunfo dos Porcos






Comandante Guélas

Série Colégio Militar


“Para certas exclusões pode haver justificação, mas se não se trata de um curso que exija aptidão física, não estou a ver qual”
Reis Novais

("um dos mais conceituados constitucionalistas portugueses" - DN)


Neste 1º de dezembro de 2020 matavam-se vários coelhos de uma só cajadada, o Fábio, o primeiro presidente da República anão, aproveitava a cerimónia para vir inaugurar as novas camaratas para os alunos seus conterrâneos, erigidas no jardim do Palácio do Conde de Mesquitela, "enferma" para os antigos, onde durante muitos anos reinara o saudoso enfermeiro Valentim, uma espécie de professor Karamba, que curava tudo com aspirinas e sais de fruto,  obra esta desenhada à imagem do Portugal dos Pequeninos, que vinha ocupar o espaço que durante muitos anos fora exclusivo do lago, onde tantos atiraram tantos para o charco. Após o Tribunal Constitucional ter declarado que as regras de acesso ao Colégio Militar, no seguimento de uma notícia de um dos pasquins do regime, serem inconstitucionais por “exigirem testes físicos e psicotécnicos”, o número de candidatos aumentou exponencialmente, tendo obrigado a rápidas transformações arquitetónicas, que custaram milhões de euros aos cofres do estado, e a constantes acrescentos por força de providências cautelares que passaram a atirar o início do ano letivo para esta data, agora sem qualquer significado. O Edifício Berta, que a “Brigada Zacatraz” frequentemente grafitava com um “A”, destinado inicialmente ao sexo feminino, cuja construção não respeitara o projeto inicial, encurtando-o, para assim poderem ser desviados alguns milhões para uma offshore,  fora obrigado a sofrer várias alterações à medida que as exigências da sociedade civil faziam as primeiras páginas de todos os jornais diários. A primeira deu origem a várias camaratas para acomodar LGBTTTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), cujo primeiro “T” foi de imediato sujeito a uma providência cautelar que obrigou as “alunas indefinidas” a pernoitarem numa área provisória do picadeiro, onde ainda continuavam ao fim destes anos de reformas compulsivas. Mas a epidemia de providências tornara-se crónica, esperava-se agora, a qualquer momento, o veredito sobre o pedido de um novo espaço destinado às alunas com burka. E neste dia primeiro de dezembro a capa de um pasquim dava conta de uma nova polémica, a descriminação que os alunos de estatura normal tinham sofrido desde a aceitação de anões nas fileiras do ex-Colégio Militar, agora Externato Teixeira Rebelo, e futura Cooperativa de Educação e Reabilitação da Luz, uma ideia do brilhante constitucionalista Dr. Maom-erda Al-Guidar, um filho ilegítimo de mãe marroquina e do pai Branco, que os tinham definitiva e anticonstitucionalmente afastado do acesso ao título de “batalhãozinho”.
- Fiz tudo para que o meu filho, o 45, Cuecas de Barbie, ganhasse o título, fechei-o dentro de um microondas quando nasceu, racionalizei a comida, e mesmo assim cresceu tornando-se agora vítima desta discriminação inconstitucional, - queixara-se um pai no jornal das oito.    
E ainda por cima a mensalidade era menor, porque ocupavam menos, consumiam pouco, um ovo das galinhas do sucessor do pai da Rosa  fazia cinco amarelos, um pano do tamanho dum lençol normal dava para fazer um enxoval e bastavam camas iguais à do Kent nas camaratas.
- É com grande orgulho que venho declarar abertas as aulas, - principiou o presidente ao colo do seu ajudante de campo. – Este colégio é o espelho do país, os portugueses e as portuguesas esperam de vocês a continuidade do nosso esforço, e ao esforço dos nossos antecessores, a Aberta e o Alguiar, a quem desde já atribuo dois números e duas alcunhas honorários, tal como fizeram há uns anos atrás ao Aníbal, o 695, cujo silêncio o tornou um  aliado de peso das nossas reformas, respetivamente 901 e 902, a Padeira e o Pena Branca. Graças aos constitucionalistas visionários Reis e Otero posso hoje saudar a Companhia dos Coxos, ver marchar o pelotão dos Destravados, abraçar o Comandante de Batalhão, o 879, o Pega à Manivela…..
Felizmente a corneta tocou, o 191 (Peidão) e o 601 (Gordini) tinham uma apresentação à alvorada!

Wednesday, September 25, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 50 - Uma coisa chamada Fernanda


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Os lençóis levantaram-se com estrondo, levados por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, que não era do domínio do ar, mas do interior obscuro dos intestinos, com ligação direta ao cérebro. Seria real ou apenas uma alucinação o pungente pesadelo da “jornalista”, fruto de um estado psicótico atormentado pelos spots televisivos dos Meninos da Luz? Ouviu murmúrios que caiam uns sobre os outros, viu olhares hostis, medonhos e perversos, os pensamentos ficaram caóticos, excessivos, fantasmagóricos, estava ali e fora dali, distante com proximidade, num universo fragmentado no tempo e no espaço, com um clima de tensão no limite do insuportável, cheio de pássaros negros chocando no ar. Queixava-se de ter sido atacada por vibrações emitidas por uma barretina, alucinação causada por fumo ilegal, por isso ouviu uma tosse surda vinda das paredes do pardieiro, sentiu uma entidade estranha, viu então uma mulher lívida, de sorriso estampado na cara, com um olhar doce. Aproximou-se com a ganância que lhe era conhecida, mas esta transformou-se num homem com sotaque do Porto, calças apertadas a meio da barriga e um contínuo mascar de tabaco, que lhe atirou uma soberba cuspidela para dentro da cara lúgubre.
- Querias, - gritou-lhe o Menau. - Bai-te lá deitar ó calhau com olhos, tu és “a desonra dos valores essenciais da república portuguesa, um atentado à razão”, mesmo sendo eu monárquico.
- És um “híbrido escandaloso”, - acrescentou outro de nariz saliente, voz rouca, vinda do fundo, e cabelo amarelado, - uma bronca, nem uma bengala mereces. Na tua profissão, que é a mais antiga, umas dormem com o olho fechado, outras com o olho aberto, por isso nunca aprendeste a ser autêntica.
Fernanda tossiu uma tosse seca e nervosa, e esfregou, com rapidez e repetição, as mãos, que só sabiam escrever obscenidades, injúrias e insultos.
- “Criada na monarquia para os rebentos das elites do exército”, - leu o professor de Português, aproximando a cara da coisa. – Rebentos das elites?
- Sabes o que é um Jericoacéfalo? – Perguntou-lhe o professor de Físico-Químicas. - É o que tu és….um burro sem cérebro. O Rebelo criou o colégio porque estava preocupado com a educação das crianças e jovens familiares da sua guarnição.
Como é que uma pessoa, sem qualquer tipo de vocação, cuja educação se baseara no oportunismo, como ficara patente uns anos antes ao aceitar fazer o papel de namorada de um político, obrigando-a a inventar um sentimento que não sentia pelo género oposto, poderia agora dar palpites sobre o Colégio Militar?
- Sabes “porque é que ainda existe”? – Gritou o Ferrari, puxando-lhe por uma orelha. – São duzentos e dez anos !
Fernanda procurou um pensamento mais forte, pensou no ontem e no amanhã, mas o ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. O Ferrari, professor de português vindo do Além, porque as circunstâncias assim o obrigaram, pôs uma mão no bolso, tirou um maço de Kart, colocou um cigarro na boca e acendeu-o calmamente, atirando-lhe o fumo para a cara, ao mesmo tempo que torcia a coisa da coisa:
- Escuta, Fernanda, não passas de um peido e julgas-te perfumada a violetas!




Tuesday, September 17, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 49 - Bertolândia


Comandante Guélas

 Série Colégio Militar


O Externato Teixeira Rebelo preparava-se para comemorar mais um 1º de dezembro, a única cerimónia que ainda se mantinha, e agora a mais importante na agenda do país, depois da venda das Selvagens ao estado espanhol. Para trás ficara o fanatismo dos discursos desequilibrados de trincheiras, típicos de guerras de fação, onde só existiram ou defeitos ou virtudes, e tudo isto porque o Colégio Militar parara num ponto. Até o patrono mudara, Afonso de Albuquerque, modelo de vida e de ação, dera lugar a uma Berta, importada das ilhas, com duas pernas e sem manchas pretas.  No Zimbório perfilhava-se o batalhão, Escolta incluída, com os soberbos cavalos de pastelaria, prontos a galopar mal dessem ordem para introduzirem as moedas nas ranhuras. Na primeira companhia estava à vista de todos uma das  consequências da “Reforma do Alguidar”, aquele que não fora à tropa por sofrer de enurese, que o impossibilitava de ter a ereção matinal após o toque da corneta: na ânsia de trocar “valores” por “lucro rápido”, internacionalizara-se o colégio, e assim o batalhãozinho mostrava com orgulho o seu cromossoma extra no par vinte e um, porque fora confundido com um chinês. Ao seu lado estava o Perna de Pau, com o membro inferior direito nivelado por um tacão, que só tinha sido descoberto na terceira noite quando uma almofadada o obrigara a lutar descalço. Os elementos femininos do Batalhão da Luz estavam retidos na Brandoa, mais uma vez o autocarro que as trazia diariamente da Pensão de Odivelas, após a transformação do mosteiro em Centro Comercial, acusara o desgaste, e recusara-se a subir. Do edifício prometido só existia uma palete de tijolos e um aglomerado de ferros ferrugentos, os da primeira leva, antes do desaparecimento dos três milhões, um processo que continuava em segredo de justiça, apesar de todos saberem que os milhões estavam escondidos numa agência bancária algures a meio do Atlântico. Nos claustros a estátua em bronze da Berta, cuja biografia oficial a colocava ao lado de D. Nuno Álvares Pereira, por ter acabado com a “última limitação de género da República Portuguesa” (sic), continuava a sofrer atentados periódicos do “Grupo Zacatraz”, mas desta vez o tradicional bigode fora substituído por um furo na parte posterior, e um “A” no início do nome. A responsável atual, a Tânia Vanessa, que substituíra apressadamente a açoriana depois desta ter sido vítima de um “Ramalho” no Colombo, no mesmo sítio onde tinham saltado os dentes ao Proença, ato que os governantes tentaram em vão, depois de mudarem a lei várias vezes, classificar como terrorista, acabara de autorizar a constituição de mais uma companhia, a “Ala dos Namorados” que, segundo palavras da governante, “representa a simbiose definitiva entre a Cruz de Avis e a Barretina, ao mesmo tempo que promoverá o incremento de alunos no 1º ciclo a curto prazo”.  O tradicional toque da corneta, que regulou o tempo na Luz durante dezenas de anos, fora substituído pelas músicas dos “Caramelos com Adoçante”, a série do momento, patrocinada pela Fundação Cabral Branco, que também explorava o Restaurante “Os Caracóis”, nas instalações do antigo ginásio, uma das contrapartidas da agenda escondida. No palácio do conde de Mesquitela, onde tantos deveram tantas aspirinas a tão poucos, situava-se agora uma loja árabe, “al-Guidar”, de medicina alternativa, que vendia ervas aromáticas que punham os alunos em permanente estado de felicidade, para que ficasse bem patente a eficácia das mudanças, que tinham transformado o colégio no “Paraíso da Luz”, como dizia o panfleto distribuído em todos os semáforos da capital pelos romenos da “Cais”. Ao seu lado estava o bazar chinês, “A Xunga da Terceira”, com a exclusividade do enxoval da Luz, que incluía a célebre farda unissexo com Kilt cor de pinhão. A entrada do representante do governo foi anunciada, e quando o político se preparava para discursar, ouviu-se um toque de telemóvel:
-  Moçooo és um Jericoacéfalo….um burro sem cérebro!
Era a senha do “Grupo Zacatraz”, do meio dos espectadores saiu uma turba com mocas nas mãos, que se precipitou sobre o Dr. Sem Canudo de nome Alberto, arrastando-o para o primeiro andar, em substituição do tradicional Miguel de Vasconcelos.
O som da excelência a bater no chão duro ecoou pelo Zimbório, e acordou o Leninov, ucraniano, que entrara já com bigode, e tivera o mesmo impacto que o Sissé nos anos setenta.
- De pé na cama todo nu, - gritou-lhe um graduado com uma trincha na mão.
Sorriu, mesmo sabendo que no dia seguinte tinha "Apresentação à Alvorada" de "pano-cotim-pano", cama para fazer, e tudo isto em vinte minutos, caso não quisesse comer vários abrunhos por chegar atrasado à formatura.