
Aventura 64 - “Levanta-te e Anda”
Esta é a história que nunca vos contei porque a ligação entre a memória onde estava guardada e o exterior, esteve durante muitos anos bloqueada, como uma espinha na garganta, sinal de que a minha tola por vezes pensa direito, mas por sinapses tortas. E tudo isto devido à conjugação de dois acontecimentos raríssimos, tal como o meu síndrome: o regresso do meu Padrinho e o retrocesso, do também meu, conteúdo encefálico micro. Vamos por partes. A Lurdes, uma ministra raríssima, trouxe consigo uma ainda maior raridade, o Valter, que nem para colega nós queríamos, e passaram para lei uma verborreia avassaladora e demagógica, que prometia a nossa ida para a escola dita regular e um canudo de “engenheiro” alguns meses depois, tal como o outro. E devido a isto o meu Padrinho acabou enrolado, como os surfistas nas ondas, e teve de nos abandonar abruptamente, a frio. Ficámos órfãos, entregues à nossa sorte, ninguém do ministério nos quis continuar a treinar. Mas eu sabia que o meu herói não nos iria abandonar. Telefonou, escreveu, refilou, massacrou, ameaçou, até que as tias, antevendo irem ter um ano lectivo pior que o da Lurdes, enviaram-no de regresso, sem remetente. A chegada do meu Padrinho coincidiu com mais um retrocesso da minha tola. E o milagre aconteceu! Antes que tudo se apague com uma “santinha”, resolvi partilhar mais esta aventura fascinante. O herói dá pelo nome de Marioneta, apesar de ser macho, é um bronzeado compulsivo, e quando chegou à nossa querida casinha, vindo directamente de um dos muitos condomínios fechados africanos da Amadora , trazia preso ao cagueiro uma cadeira de rodas do fim da monarquia. Ainda tinha passado pelo Centro das Tias junto a Alvalade, mas mal se aperceberam que o sagui de tenra idade iria transformar-se num gorilão com mau aspecto e cheiro a catinga permanente, capaz de denegrir a imagem impoluta daquela instituição para mongas caucasianos com futuro e responsáveis por muitos tachos, depressa arranjaram um motivo para o pôr a milhas dali. E o local para casos raros que davam muito trabalho, era sempre o mesmo, a nossa querida escolinha. Uma semana após a chegada do Marioneta, entalado numa cadeira de rodas, estilo sardinhas em conserva, apareceu uma equipa de tias para impressionar o meu Padrinho e a Chefe Bélinha, e assim lavarem as mãos como Pilatos. Depois de muitas palmadas técnicas, abanões pedagógicos e medições futuristas veio o veredicto estilo Professor Karamba:
- O Marioneta nunca irá andar.
Dito isto arrumaram a tralha, depois de se aperceberem que já estava na hora do almoço, razão principal para a visita de cortesia, e fugiram dali como o Diabo da Cruz, não fossem ficar impregnadas com o cheiro nauseabundo de babas e borras, não sem antes prometerem ir enviando na volta do correio o material indispensável ao desenvolvimento harmonioso do Marioneta. Como já era tradição tudo chegaria fora de horas, e o meu Padrinho, que já sabia disso, não perdia tempo com aquelas ninharias, optando sempre por improvisar e adaptar, tudo em benefício do Marioneta que lá ia crescendo e evoluindo a olhos vistos. Desde arrastar pelo chão, até mergulhar num tanque, passando por cavalos e acabando numa bicicleta construída por ele e pelo Castanheira, com peças encontradas num ferro velho, que permitiram ao Marioneta fazer milhares de quilómetros nos corredores da nossa querida escola, preso ao bólide com fita de embrulho, muito mais segura do que as faixas, utilizando os curtos movimentos que fazia. O Marioneta mais parecia que estava nas tropas especiais, como os Comandos seus vizinhos.
-Hás-de andar, a bem ou a mal, - prometia-lhe o meu Padrinho, que também era dele, ou melhor, de nós todos. – As p… das tias não hão-de ficar a rir-se. Ficam só com os mongas brancos de boas famílias que não lhes dão trabalho e ajudam na estatística do Centro, que à conta disso ganha os subsídios todos e mais alguns, permitindo assim manter a quota de tachos e mordomias.
Para o Stor Pobre era uma questão de orgulho, a sua escola que recebia sempre o lixo das tias, iria ser pioneira na reciclagem. E o milagre aconteceu, não se sabe se por obra do meu Padrinho ou pela breve passagem de um homem barbudo com uma túnica branca: o Marioneta um dia levantou-se e nunca mais parou. Passa agora todos os dias por mim, sorridente e com um speed proporcional ao seu andar balanceado, já próximo da idade adulta. Se a lei da Lurdes e do Valter se mantiver, nunca mais os futuros Marionetas tirarão o cu das cadeiras, porque na outra escola só interessa o Português e a Matemática. O resto continuará a ser lixo como até agora!





