Saturday, January 30, 2010

Turma 2





O Regresso – Parte III



O Instituto era Superior e situava-se numa das zonas vermelhas da capital, a Cruz Quebrada, atravessada pelo inebriante Jamor. No ano de 1981 apresentaram-se na Turma 2 vinte e seis indomáveis estudantes, vindos dos quatro cantos do país, tendo sido atribuído o número 1 a um careca traficante de fotocópias e o número 26 a um avatar que gostava mais de ir treinar abdominais com a Marreca de Monsanto, do que exercitar a cambalhota nos colchões do stor Palmada.

No dia 9 de Janeiro do Ano da Graça de Nosso Senhor de 2010 tornaram-se a encontrar num restaurante da Capital com decoração alentejana. Quando flanquearam a porta a alma do velho Xarope não aguentou dar de caras com uma vara de alentejanos em cima de um palco, todos coladinhos a grunhir em voz alta e a roçarem-se uns nos outros num movimento balanceado ora para a direita ora para a esquerda e gritou:
- Morte aos panilas, - ao mesmo tempo que era vítima de uma convulsão traiçoeira, que o obrigou a placar, tal como o tinha feito no século passado ao seu colega Bruxedo, o grupo de reformados da apanha da bolota.
Os gerontes nem tiveram tempo de guardar as dentaduras e acabaram por cair em cima do assessor Anselmo, que se tinha escondido atrás das cortinas para que não fosse confundido com aquela trupe de trapezistas capaz de lhe arruinar a sua carreira política, construída à sombra da Lurdes e do Valter, obrigando-o a voltar para a escola, de que fugia como o Diabo da Cruz. O homem das Caldas aproveitou o caos e tomou conta do palco, aproveitando o momento para mostrar aos clientes a sua já lendária queda para a dança, tão bem classificada na já longínqua cadeira temática. O proletário Pedreta já ressonava a sono solto e só acordou quando um jarro de tinto e cinco dentaduras se despedaçaram na zona do seu córtex occipital direito, lançando de imediato uma série de impropérios , em chinês, sinal de que a queda sofrida há vários anos das Torres Gémeas da Fonte da Telha não estava suficientemente cicatrizada. O Chaparro, devido ao seu porte atlético estilo “Damatta”, nem a perna esquerda conseguiu mexer e assim permaneceu entalado na cadeira ao lado do Lopes, agora tão careca como o número 1 da Turma 2. Em frente destes estava o eclético Bezerra, recordista absoluto de e-mails, que agora só conseguia exprimir-se numa linguagem Itálico-Australiana, à mistura com o velho “Carago”, responsável pela sua comissão de serviço forçada nos Açores. O Barroso nem queria acreditar onde se tinha metido, agora que era o presidente dos espadachins da Cova da Moura e por isso fingiu que estava incontinente, aproveitando-se da idade como desculpa, e escondeu-se na casa de banho das senhoras, mais propriamente junto da sua colega Carocha. Quanto ao Catedrático de serviço, o Gil, não do Parque das Nações, mas do Jamor, aproveitou a pausa do jantar para elaborar mais um teste, com que iria lixar os alunos no dia seguinte. O Renato e o Roxo já tinham acabado a observação daquele estranho jantar de confraternização do Batalhão de Pinos e Cambalhotas e esperavam agora pela confirmação da nota dada pelo Quim, que deu finalmente um “Excelente” ao dançarino das Caldas, que lhe permitiu acabar a Licenciatura e ainda ter tempo para telefonar para o seu gerente da conta nas Caldas, para acrescentar o título de “Doutor” nos cheques que iriam ser emitidos no dia seguinte. As meninas, agora umas belas velhotas, especulavam sobre o paradeiro da amiga Valverde, tendo a stora Matos informado o Conselho de Anciões, que de imediato registou em acta, que a colega fora vista numa traineira lá para os lados da Mauritânea pelo Chico, agora dono e senhor de um veleiro atracado na marina de Oeiras. As storas Nascimento, Loureiro e Amado fizeram tricô a noite toda, sinal de que já tinham entregue os papéis para a reforma. Foi notada a ausência do stor Bruxedo, vítima de uma estranha troca de e-mails entre o Chaparrão, dono e senhor de Beja, e o proletário laranja de nome Pedreta, de Palmela. Este pedira ao outro a morada electrónica do stor-monga, mas fizera-o já depois do suíno da torre da Igreja ter tocado as badaladas da meia-noite, altura em que o Chaparrão, apesar de estar num Conselho Pedagógico, já se encontrar encharcado em sumo de uva, acabando por trocar o endereço e dar-lhe o do Aníbal, que compareceu no jantar com a Maria e os batedores, pensando ir encontrar-se com o Zézito para ambos discutirem o Orçamento de Estado. Quando o Anselmo o viu foi a correr ao seu encontro, chamando-lhe “colega”, mas escorregou numa dentadura tresmalhada e teve de agarrar-se à primeira dama, acabando ambos por cair no chão, um por cima do outro, como nas aulas do professor Palmada, onde o stor das Caldas brilhava com o seu cinturão azul e com o barulho das suas cambalhotas, que impressionavam sempre a Glorinha da cantina. A festa acabou com o Chaparro a ser levado para casa pelos verdadeiros colegas, numa carrinha de caixa aberta, com o Xarope a correr atrás e a gritar:
- No meu Algarve não entram panilas!
O judoca mais graduado deste gang, que ostentava um soberbo cinturão negro comprado no chinês, acabou a noite rodeado por moldavas, contando-lhes a sua comissão na Cruz Quebrada, onde se destacava a graciosidade como jogador de Rugby, a leveza de dançarino, a invencibilidade no judo, a flutuabilidade na Natação, a potência no Andebol, a impulsão no Basquetebol e outras características mais íntimas que só contaria àquela que o acompanhasse no Mercedes até à serra da Malveira, altura em que a obrigaria a pagar a gasolina, tal como o tinha feito à professora que ousara chumbá-lo na cadeira de dança do 2º ano. Foi notada a ausência da gestora Oliveira, presa no trânsito em Tóquio.

Comandante Guélas




A Visita de Cortesia à Mercearia “Aveirense” de Silva & Sousa Lda.

Rua dos Fornos, nº 17ª/17B e 17 (números em metal) ou 17/17ª e 18 (números a tinta)

Em 1975, devido à crise de pretos (com a abolição da escravatura fugiram para África), os gangs em Paço de Arcos eram constituídos por brancos. Numa noite, já de madrugada, a Padaria “Aveirense” foi visitada por uma destas turmas, constituída por gente muito importante do Portugal actual. Recuemos umas horas, para tentarmos perceber o que levou aqueles “meninos de bem” a fazerem uma visita de cortesia à célebre Padaria. A noite ainda era uma menina, e a festa na sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos ia de vento em popa. O irmão mais velho do primeiro marido da Tita-dos- Pés-Sujos, controlava a música, e debitava freneticamente os vinis gamados aos amigos, fazendo abanar o edifício. Até já um “Paçoarquiano” tinha dado um golo numa cerveja de litro, que estava escondida debaixo de uma mesa, mas em vez de cerveja bebera mijo, e do rijo, procurando desesperado os autores de tão alegre acto. Dois pigmeus de blusões negros, vindos de Porto Salvo, estavam parados junto ao Salão de Dança e tinham colocado os seus capacetes no chão, um em cima do outro, num local de passagem.

- Quem se atrever a tocar-lhes, morrerá – ameaçaram, coçando os tomates.

Nem dito nem feito! O nosso querido Milhas já se tornara no convidado mais chato da festa, pois ultrapassara a fasquia das cinco “bejecas” e andava perdido na dança, à procura duma vítima. Quando se cruzou com os capacetes deu-lhes um chuto à Eusébio, atirando-os para o meio da multidão. O anão mais próximo nem teve tempo para o homicídio, pois o Milhas agarrou-se de imediato a ele e levou-o para a dança, talvez confundindo-o com a “Huga Huga Lagosta”. Entretanto, o Velhinho conseguira deitar a mão a uma caderneta com senhas de produtos que estavam junto ao homem da caixa, e estava a distribui-las pelos amigos. A azáfama no Bar era enorme, os produtos esgotaram-se num instante.

- Isto é que foi um grande negócio, vendemos tudo! – Disseram os responsáveis, fazendo um sinal com o polegar para o colega que estava na outra ponta da sala, mais propriamente na caixa.

Mas festa em Paço de Arcos não era festa, sem uma carga de Litopol (Ácido Muriático+Litopol). E, como sempre, foi fatal! A noite já ia longa quando o Gang foi arejar para o exterior, encostando-se à “Padaria Aveirense”. O pior foi quando as bexigas começaram a apertar e a vontade para mijar atingiu a “redline”. A pouco e pouco os membros do Gang viraram-se para a parede do estabelecimento comercial e começaram a verter águas. Os que tinham só parede, para a parede olharam, mas os que ficaram com as janelas à frente da cara, depressa descobriram que a loja estava recheada de guloseimas, que davam muito jeito aos estômagos vazios. Cinco minutos depois, o Gang de brancos estava ao balcão da “Aveirense”. Mais cinco e já todos corriam em várias direcções da vila, levando nos bolsos rebuçados do Doutor Bayard, Sugus, Chocolates “Sombrinhas”, queques, amendoins, favas fritas, Vinho Rosal, Rebuçados “Bola de Neve”, Tabaco, e tudo o mais que viesse à rede. A única pista foi dada por uma testemunha anónima que viu um indivíduo, às três horas e dez minutos, com um caixote de produtos à cabeça, junto à linha do comboio. Consta que era o célebre Focas das Docas!

Tuesday, January 19, 2010

Comandante Guélas



A Lenda do “General sem Medo



O ano de 1975 foi pródigo em movimentações militares e em Paço de Arcos também as houve, sendo no entanto proporcionais ao tamanho da vila. O avô do Peidão e o pai do Bajoulo eram generais da conhecida “brigada do reumático” e estiveram durante todo este ano de prevenção contra quaisquer movimentações de indivíduos suspeitos, que se aproveitavam dos calhaus-com-olhos para falarem em nome deles, ou melhor, para gamarem e ocuparem em seu nome. Quando se soube que um grupinho de artistas estava a preparar-se para investir sobre os chalés do Alto de Paço de Arcos, estes dois militares da velha guarda prepararam-se para o confronto final. Houve movimentações de armas, electrificaram-se as janelas, ou melhor, pintou-se o sinal de “Alta Tensão”, as agulhetas das mangueiras foram mudadas para aumentar a pressão e passaram a ostentar as armas, principalmente perante aqueles que espalhariam depressa a notícia. O primeiro a dar de caras com os “canhangulos” foi o guarda-nocturno, uma espécie de profissional liberal, que só assaltava as casas dos que não lhe pagavam a dízima, e não passava recibo. A estatística comprovava a realidade e isto não tinha nada de política, mas a política nesta altura conturbada tinha as costas muito largas. Mas o guarda-nocturno foi envolvido no assunto de uma maneira indirecta. Tudo aconteceu numa tarde de Verão, quando um jardineiro informou o avô do Peidão de que uma criança de tenra idade estava a assaltar a casa das duas alemãs que, devido a serem muito forretas, não tinham pago o quinhão e ainda por cima estavam ausentes do país. Foi a oportunidade de ouro para este militar, e foi também aqui que começou a lenda do “General sem Medo do Alto de Paço de Arcos”. O herói agarrou no pistolão e rumou ao encontro do bandido. Deu de caras com ele a tentar arrombar um armário cheio de caramelos, com uma enxada. Ao avistar o cowboy da terceira idade o puto mijou-se nas calças e rendeu-se de imediato. Foi visto por todos com os braços no ar e as calças molhadas, indo atrás de si, com o canhão da segunda guerra em riste, o velho “General sem Medo”. A notícia depressa se espalhou pela vila, e até o guarda-nocturno deixou de ser visto por aquelas bandas, havendo quem dissesse que se tinha reformado. Mas a história não ficou por aqui. O petiz ficou detido na casa do militar enquanto este entregou à criada uma ordem de serviço para que ela telefonasse ao Chefe Bigodes, enquanto fazia guarda ao perigoso malfeitor. A uma certa altura o general, para ganhar mais pontos para a sua fama tenebrosa disse, em voz alta, que pretendia dar um tiro na perna do petiz, para ele aprender a lição mais consistentemente. Nova mija, mas desta vez no sofá da casa, obrigando à intervenção imediata da autoridade máxima do rés-do-chão, a esposa, que deu ordem de marcha ao marido, porque caso o não fizesse o rapazito ainda lhe sujaria a sala toda. Após isto ofereceu um lanche ao Zézinho do Telhado e deixou-o voltar para casa, ainda a tempo de ver mais um episódio do “Kimba”.








Sunday, January 10, 2010

Comandante Guélas - Série Quitéria Barbuda


O Voo do Cisne

O motivo era forte porque no dia seguinte o Rui B tinha de apresentar-se, não na tropa, mas no altar. E sem falta! A despedida tinha de ser inesquecível, para que décadas depois ainda fosse relembrada, numa altura em que os membros do Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos (G.M.R.C.P.A.) fugissem destas recordações como o Diabo da Cruz, não fossem perder a autoridade sobre os filhos que eles querem agora que sejam doutores e engenheiros. Em vez de um bolo com velas, porque não se tratava de um aniversário, alugaram um soberbo Mini-Metro com 400 Km e foram testá-lo para a Quinta do Loureiro em Cascais, onde actualmente se ergue o “Cascais Vila”, em homenagem a estes seis aventureiros. Mas antes da acção os seis magníficos foram abastecer as barrigas, que ainda não mostravam sinais de gravidez, para o bar “O Cisne”. E eis que, depois de várias “loirinhas”, o Rui B desafiou os amigos com a pergunta que iria ficar para sempre nas suas memórias:

- Quem é que quer voar ?

- Voar?? – Interveio o único do gang com vocação jornalística.

- Voar num Mini-Metro, - respondeu o noivo.

E pegou de imediato numa caneta desenhando o plano de voo no tampo da mesa. Assim, explicou Tintim por Tintim aos cinco candidatos a aviador o que lhe ia na alma. Na Quinta do Loureiro havia um terreno baldio com três socalcos e a ideia consistia em acelerar a fundo o bólide, levantar voo no primeiro e aterrar para lá do terceiro. Simples, de fácil execução e sem riscos, pois a máquina não pertencia a nenhum deles. O desafio era tentador. Para co-piloto ofereceu-se o Bigornas, o Escoto levantou o braço para escrever a peça jornalística e como fotógrafo ficou o Zé. O Nuno M responsabilizou-se pela logística do “ground force” e pelo controle do “take-off” e o Miguel R pela confirmação do “landing”. A deslocação até ao local da acção foi feita em câmara lenta, não por se tratar de um filme, mas porque a cerveja já circulava em grandes quantidades por aqueles corpos ainda roliços. A máquina, que não tinha sido feita para voar, segundo constava no manual de instruções, foi colocada na linha de partida e todos se prepararam para o lançamento, não do “Vai e Vém”, mas só do “Vai”. O Escoto entrou para a rectaguarda, atrás do banco do piloto-noivo, mas teve de ficar dobrado, pois o carro não tinha sido desenhado para jovens arraçados de girafa. Ao seu lado estava o Zé Fotógrafo, resvés com o tejadilho, e com a máquina fotográfica pronta a registar para memória futura toda esta epopeia, não dos irmãos Wright pioneiros da aviação, mas dos futuros, e já célebres pelas secas que davam aos clientes no balcão da Jomarte, irmãos Cruz. À frente, no lugar do morto, sentou-se o Bigornas, cuja cabeça ocupava grande parte do tablier e tapava o ângulo de visão do mano. O Rui B rodou a chave e o motor começou a roncar. Mas ainda houve tempo para um brinde. O Bigornas atestou os “flutes” da Atlantis com Dom Perignom e todos rezaram para aterrarem em segurança e continuarem a beber na boda do dia seguinte. O Nuno M ergueu o copo e brindaram:

- À nossa saúde, que está garantida, e à vossa que está periclitante, - desejou o Miguel R.

- Vamos a isto, - gritou o jovem girafa. – Nem consigo mexer o pescoço.

Cada um ocupou o seu posto, o Rui B carregou com raiva no acelerador, o Nuno M ergueu o “flute” e de imediato baixou o braço com violência, dando início à grande aventura paço arcoense a seguir aos Descobrimentos. O Mini-Metro de propriedade indefinida, mas alugado a uma empresa com nome na praça, começou a rodar, de início com velocidade mais baixa que o triciclo do senhor João da Fruta, mas depois lá se aproximou da velocidade supersónica da “Deusa”, o soberbo Dyane do Mac Macléu Ferreira, mas nessa altura já estava junto à rampa de lançamento. O Escoto já tinha o pescoço a 180 graus, o Bigornas comprimia com a cabeça o mano no vidro de trás, e o dedo indicador da mão esquerda do Zé colara-se ao botão de disparo, inundando o interior com flashes ininterruptos, o que levou o piloto a gritar:

- Entrámos numa zona de turbulência.

As rodas largaram o chão, o segundo socalco foi sobrevoado, mas já o mesmo não aconteceu ao seguinte, pois o Mini-Metro “bateu inteirinho a meio” (palavras do noivo) e só parou quando deu de caras com um muro, que impediu que o voo se prolongasse para a Marginal. O embate foi tão violento que a mistura de cerveja e Dom Perignom dos passageiros saiu-lhes pelas orelhas e estatelou-se nos vidros da viatura, tornando ainda mais turva a visão do piloto, que teve dificuldades em parquear a viatura, deixando a incumbência entregue ao piloto automático. Deu-se um apagão em toda a tripulação. O primeiro a chegar ao local da colisão, não foi o que estava mais perto, o Miguel R, pois encontrava-se em estado de choque com a razia que o aeroplano lhe fizera, mas sim o mais afastado, o Nuno M, que no início conseguira chegar mais depressa ao primeiro socalco, conseguindo ainda ver o Escoto a dar uma volta de 360 graus com a cabeça. A caixa e a direcção do Mini-Metro alugado com 400 Km morreram ali mesmo, e a carcaça foi abandonada com a caixa do Dom Perignom e os flutes da Atlantis como testemunhas.



Friday, December 25, 2009

Comandante Guélas - Série Quitéria Barbuda





Queques com cheiro a merda


A excursão tinha como destino, para variar, a Estalagem do Farol, mas desta vez com uma variante, Litopol. Tudo iria depender do comportamento do Max. Mais uma vez não teve o bom senso de deixar entrar aqueles meninos de “boas famílias” paço-arcoenses. Fez mal, muito mal. Transformar alcoólicos…perdão…acólitos, em diabinhos não era muito aconselhável. Com o acesso ao espaço de dança barrado, tiveram de ficar pelo bar, que estava cheio de queques que debitavam “você” a torto e a direito. O Pontas e o Peidão não queriam, mas a culpa foi toda do Max. Entraram na casa de banho individual, um abriu o saco com o pó de nome Litopol e o outro despejou o Ácido Muriático. Como de costume o conteúdo começou em efervescência, o saco foi colocado atrás da retrete e o duo saiu calmamente. Sabiam que o efeito só começava a sentir-se cinco minutos depois. Sentaram-se junto ao Rodrigues, o dono de tudo. Ainda tiveram tempo de ver o Espiga e o C. Gomesl, meninos do Coro de Santo Amaro de Oeiras, a entrar no bar, super-queques e à procura de uma mesa. Mas tudo se precipitou como o habitual. Um cheiro a merda repentino abateu-se sobre o espaço e todos olhavam com preocupação uns para os outros. Ninguém ousou levantar-se pois tornava-se de imediato suspeito. E ter fama de bufar-se como um elefante não caia nada bem naqueles queques de Cascais. O cheiro crescia e o C. Gomes olhava para todos os lados com um ar indignado. Até que não aguentou mais o cheiro a queque e a merda misturados:
- Peidaram-se, algum de vocês peidou-se à grande e à francesa, - e olhou de cima para baixo para os meninos e meninas de bem. - Seus porcos, vocês andam a comer feijões e favas o dia todo.
- Quem deu este peido com toda a certeza que deixou molho e está colado à cadeira,, é por isso que não se levanta, - reforçou o Espiga.
A debandada foi geral, a sala ficou vazia num instante, o Litopol fazia jus à sua tradição. O Max já tinha sentido o cheiro e tentava disfarçar com “Haze” que foi substituído por “Xeltox” quando o outro acabou. A mistura tornou-se irrespirável, o Pontas teve de mostrar solidariedade ao Rodrigues:
- Selvagens, são uns selvagens, - revelando uma promissora carreira política.
- Isto é inadmissível, mas eu já seu quem eles são, - disse-lhe o astuto Rodrigues.
- Sabe?
- Eram aqueles que estavam ali em pé a caluniar os meus clientes. O cheiro só apareceu quando eles entraram.
- No hotel do meu pai eram tomadas medidas drásticas, - disse o Pontas.
- Hotel?
Então o Pontas contou-lhe ser filho do proprietário de quase todos os hotéis de cinco estrelas da capital, incluindo a típica "Pensão Moreira", e à conta desta fábula tornou-se convidado Vip do Rodrigues, com bar aberto em todos os recantos da Estalagem. A partir daqui passaria a ter direito a continência do Max, que lhe abriria a Porta para ele não sujar as mãos e a mesa reservada junto à janela panorâmica, para assim poder abri-la e facultar acesso aos seu gang de caucasianos de boas famílias. Ainda houve tempo para ver um casal de gringos a chegar à estalagem cheio de malas e a fugir em pânico quando se aperceberam do cheiro estonteante a merda, no mesmo táxi.




Saturday, December 12, 2009

Na Taberna da Milú





Os "Bocas de Palhaço"


A insistência fundamentalista da importância dos números no futuro, coloca muitos assuntos nas margens da escola, que praticamente não os vê, a não ser a certas horas mortas. E quando os encontramos temos agradáveis surpresas. Faltavam cinco minutos de um último tempo lectivo de uma tarde de Inverno. A Sara estava encostada à rede, num sítio onde a luz do projector tinha dificuldade em chegar. Chorava baixinho porque estava com medo.

- Medo? – Perguntou-lhe o Stor Miguel.

Medo do que o Trinca-Espinhas, uma raridade num mundo de gordos, lhe contara debaixo duma das tabelas de basquetebol.

- É por causa do “Gang dos Palhaços”, - respondeu com timidez.

O Stor teve um “Flash Back”. O dia que agora chegava ao fim fora pródigo em acontecimentos. O colega Jorge tinha sido confrontado, pela primeira vez, com uma “travadinha” do seu aluno monga, que incluíra babas, bufas, mijas e ruídos do além, que o obrigaram a dar colinho fofinho a um africano com cheiro a tudo o que as moscas mais gostavam, e de quem os colegas fugiam. Era a estranha política desta “inclusão” que não apresentava uma ideia, um desígnio, uma estratégia, uma ambição, uma esperança. Quando a colega da equipa especial chegou, com o “SOS” na mão, um tubo para enfiar directamente no buraco do olho caso o abanão ultrapasse o tempo de validade, o Peixe Espada Preto já tinha retomado os estudos e o stor Jorge tentava livrar-se de alguma da baba pegajosa e enxotava as moscas que agora também não o largavam.

- Anda um gajo a dar aulas para isto, - desabafou.

No dia anterior, também já lá para o fim, o stor Miguel, depois de uma observação rápida à turma de “currículos alternativos” do colega Rui descobrira que a todos aqueles alunos escolhidos a dedo faltavam carradas de neurónios, e havia uns que desconfiava terem só areia, mas para isso teria de lhes fazer um furo na cabaça. Ficava-se pelos comportamentos, como girar os olhos compulsivamente, lamber o chão com apetite, estar sentado sem qualquer movimento, ou seja, características que numa Cerci os recambiavam para a sala dos “quiabos”, com apoio extra de todos os técnicos disponíveis, e com passagem obrigatória pela sala de Snoezelen. Mas voltemos ao assunto dos palhaços. Como a Sara insistia no perigoso gang, o Trinca-Espinhas foi convocado e confirmou a história, um amigo, de uma amiga, da vizinha, prima de uma tia tinha sido vítima destes perigosos colegas do Batatoon, e ele pedira satisfações à familiar, que lhe confirmara a tragédia. E disto isto desatou a chorar, fazendo com que o stor abanasse os ombros:

- E os meus mongas é que são os malucos! – Desabafou desaparecendo na escuridão.

O dia tinha sido pesado, até o chefe com tendências centrípetas tinha tido uma convulsão no início da reunião, quando anteviu, estilo “2012”, uma catástrofe para a zona:

- O que vai ser desta escola quando eu sair?

Esta visão talmúdica do mundo contrastava com os pensamentos dos presentes que, caso tivessem sido tornados públicos, mostrariam uma “Mega Festa”, tão ao gosto do chefe, mas desta vez não com carácter de frete, mas sim como manifestação de um desejo colectivo já há muito prometido, mas ainda não concretizado. O dia findou com a resolução de um mistério que andava a tornar-se um caso obsessivo para a menina Rosa: tinha sido apanhado em flagrante um dos membros do Gang dos Mijões, que insistiam em mijar contra a parede dos chuveiros, em vez verterem águas na retrete. O stor Miguel sugerira substituir o cheiro por lixívia da pura e dura, para lhes apagar o rasto, mas fora informado de que a ASAE proibira tal produto no recinto escolar. Enfim, modernísses.

Thursday, December 03, 2009

Camarada Choco








Aventura 64
- “Levanta-te e Anda”


Esta é a história que nunca vos contei porque a ligação entre a memória onde estava guardada e o exterior, esteve durante muitos anos bloqueada, como uma espinha na garganta, sinal de que a minha tola por vezes pensa direito, mas por sinapses tortas. E tudo isto devido à conjugação de dois acontecimentos raríssimos, tal como o meu síndrome: o regresso do meu Padrinho e o retrocesso, do também meu, conteúdo encefálico micro. Vamos por partes. A Lurdes, uma ministra raríssima, trouxe consigo uma ainda maior raridade, o Valter, que nem para colega nós queríamos, e passaram para lei uma verborreia avassaladora e demagógica, que prometia a nossa ida para a escola dita regular e um canudo de “engenheiro” alguns meses depois, tal como o outro. E devido a isto o meu Padrinho acabou enrolado, como os surfistas nas ondas, e teve de nos abandonar abruptamente, a frio. Ficámos órfãos, entregues à nossa sorte, ninguém do ministério nos quis continuar a treinar. Mas eu sabia que o meu herói não nos iria abandonar. Telefonou, escreveu, refilou, massacrou, ameaçou, até que as tias, antevendo irem ter um ano lectivo pior que o da Lurdes, enviaram-no de regresso, sem remetente. A chegada do meu Padrinho coincidiu com mais um retrocesso da minha tola. E o milagre aconteceu! Antes que tudo se apague com uma “santinha”, resolvi partilhar mais esta aventura fascinante. O herói dá pelo nome de Marioneta, apesar de ser macho, é um bronzeado compulsivo, e quando chegou à nossa querida casinha, vindo directamente de um dos muitos condomínios fechados africanos da Amadora , trazia preso ao cagueiro uma cadeira de rodas do fim da monarquia. Ainda tinha passado pelo Centro das Tias junto a Alvalade, mas mal se aperceberam que o sagui de tenra idade iria transformar-se num gorilão com mau aspecto e cheiro a catinga permanente, capaz de denegrir a imagem impoluta daquela instituição para mongas caucasianos com futuro e responsáveis por muitos tachos, depressa arranjaram um motivo para o pôr a milhas dali. E o local para casos raros que davam muito trabalho, era sempre o mesmo, a nossa querida escolinha. Uma semana após a chegada do Marioneta, entalado numa cadeira de rodas, estilo sardinhas em conserva, apareceu uma equipa de tias para impressionar o meu Padrinho e a Chefe Bélinha, e assim lavarem as mãos como Pilatos. Depois de muitas palmadas técnicas, abanões pedagógicos e medições futuristas veio o veredicto estilo Professor Karamba:
- O Marioneta nunca irá andar.

Dito isto arrumaram a tralha, depois de se aperceberem que já estava na hora do almoço, razão principal para a visita de cortesia, e fugiram dali como o Diabo da Cruz, não fossem ficar impregnadas com o cheiro nauseabundo de babas e borras, não sem antes prometerem ir enviando na volta do correio o material indispensável ao desenvolvimento harmonioso do Marioneta. Como já era tradição tudo chegaria fora de horas, e o meu Padrinho, que já sabia disso, não perdia tempo com aquelas ninharias, optando sempre por improvisar e adaptar, tudo em benefício do Marioneta que lá ia crescendo e evoluindo a olhos vistos. Desde arrastar pelo chão, até mergulhar num tanque, passando por cavalos e acabando numa bicicleta construída por ele e pelo Castanheira, com peças encontradas num ferro velho, que permitiram ao Marioneta fazer milhares de quilómetros nos corredores da nossa querida escola, preso ao bólide com fita de embrulho, muito mais segura do que as faixas, utilizando os curtos movimentos que fazia. O Marioneta mais parecia que estava nas tropas especiais, como os Comandos seus vizinhos.
-Hás-de andar, a bem ou a mal, - prometia-lhe o meu Padrinho, que também era dele, ou melhor, de nós todos. – As p… das tias não hão-de ficar a rir-se. Ficam só com os mongas brancos de boas famílias que não lhes dão trabalho e ajudam na estatística do Centro, que à conta disso ganha os subsídios todos e mais alguns, permitindo assim manter a quota de tachos e mordomias.
Para o Stor Pobre era uma questão de orgulho, a sua escola que recebia sempre o lixo das tias, iria ser pioneira na reciclagem. E o milagre aconteceu, não se sabe se por obra do meu Padrinho ou pela breve passagem de um homem barbudo com uma túnica branca: o Marioneta um dia levantou-se e nunca mais parou. Passa agora todos os dias por mim, sorridente e com um speed proporcional ao seu andar balanceado, já próximo da idade adulta. Se a lei da Lurdes e do Valter se mantiver, nunca mais os futuros Marionetas tirarão o cu das cadeiras, porque na outra escola só interessa o Português e a Matemática. O resto continuará a ser lixo como até agora!

Thursday, November 26, 2009

Na Taberna da Milú




“Piolhos Crónicos”

Será isto Educação? Educação não é certamente e a Escola não deveria bater assim.

O espaço abundava em clichés, frases feitas, repetições sem conta, incongruências e contradições, vómitos de banalidades, pessoas que acreditavam ter mais conhecimentos do que outros e por estarem num posto hierárquico superior achavam-se no direito de subestimar os subordinados, apesar da vida exigir muito a compreensão, ou seja, manigâncias de uma Lurdes ressabiada, que um dia fora ministra e quando aluna usufruíra das “passagens administrativas” da Revolução dos Cravos, que incluíra saneamentos de professores que ousavam ensinar, quando na altura a política era a da farra. Foi no meio deste cataclismo pedagógico, agravado por stors com tendências centrípetas, que a dona Tulipa alertou para o facto dos bichinhos serem “enormes”, “assombrosos”, “opulentos”, transformados em “elegantes”, “espectaculares” pela pedagogia do quinto grau do Valter e da Lulu. A escola era assim obrigada a matriculá-los para que a mãe não sofresse mais um trauma, como o do ano anterior, e proibisse a filhinha de pôr os pés no espaço, que de “educação” tinha muito pouco, obrigando os “stores” a reuniões intermináveis e à destruição de várias florestas da região para as transformar em resmas de papel, que dariam lugar a relatórios sem fim, incluindo aquele que descrevia a cerimónia do hastear da bandeira verde, que declarava a escola “amiga do ambiente”. Os “pediculus humanus capitis” unidimensionais redemoinhavam como palhas, sinal de que também sofriam da doença da moda, a PHDA, Hiperactividade com Défice de Atenção, antigamente chamada FA, “Falta de Educação”, que se curava com umas boas EGA, “Estaladas Grátis Apropriadas”, substituídas nestes tempos modernos pela célebre Ritalina, uma droga cara, paga, como sempre, com os impostos do povo e comprada aos amigos pelos decisores. E como a Florzinha não parava, os bichinhos mais dotados seguiam-na, enquanto que os com mais dificuldades despenhavam-se contra o solo, sinal de insucesso garantido. E para resolver esta injustiça social, a menina apresentava-se muitas vezes de chapéu, fizesse sol ou chuva, fosse de dia ou de noite, para assim segurar o fluxo incessante da bicharada, aumentando-lhe o “sucesso escolar”, tão desejado na “estatística a martelo”. Diziam as crónicas que a família fundira-se há muito com o emaranhado de “pediculus humanus capitis”, que se projectava à sua volta, tornando-se no elemento ordenador daquele núcleo, cujas formas enchiam todos de energia. Aumentava assim o valor do Rendimento Mínimo da família da Florzinha, porque com toda esta política de face oculta os seus piolhos tinham adquirido o estatuto de estudantes e como tal mereciam ter direito a uns “cosques”. Pertenciam assim à iconografia do ministério que tinha atingido o cúmulo do ridículo com a insistência fundamentalista da importância dos números na cabeça dos petizes. Com estas metas traçadas, a Florzinha merecia o nome no “Quadro de Honra”, porque os “pediculus humanus capitis” eram aos milhares!