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Saturday, September 29, 2018

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 109 - Supertaça “Tarzan vai à cidade de Uber à procura do Preto”




O Comandante Guélas
 
Série Paço de Arcos
 
Futebol P.A. 40


Neste domingo a Supertaça tinha o nome “Tarzan vai à cidade de Uber à procura do Preto”.   Sempre que o Chico Boato entrava em campo havia magia no ar, e desde que reapareceu no Lagoas Parque, numa manha de nevoeiro, iniciou um processo de transformação que culminou num soberbo golo neste domingo, após ter tropeçado nos pés, num momento em que a pressão era enorme, e o território diminuto,
- Fininho, este é para ti, - gritou, apontando para o ar!
No resto do jogo limitou-se a passear na sua cabeça, como é costume!
Mas a ausência mais notada foi a do Preto, que mais uma vez disse que jogava e não compareceu e foi visto no aeroporto de Lisboa, com o mano Chico Sá, aquele que joga futebol com sapatos de Padel, ambos a lançarem um drone em direcção ao avião que trazia o Milhas da Finlândia, tendo-o desviado para Malta. O Futebol PA conseguiria assim mais uns domingos de descanso. Descanso foi o que não teve o Clark Kent, que teve de ir ao hospital mostrar as bolas da garganta, que tinham inchado após uma noitada com a Judite a alinhavar o telejornal. Mandou o mano Chico Marinheiro na sua vez que, vindo directamente da Escócia, prometeu jogar à inglesa, tornando a perder. O herói do jogo foi o Cabeça de Giz, que mostrou porque é que destronara o Brinca na Areia para a categoria de Zé das Cápsulas. Fica registado o susto que a geração de sessenta apanhou no momento em que uma bola louca, que acabara de ser manipulada pelo Chico Boato, lhe acertou com violência no coco, misturando-lhe momentaneamente os neurónios com a cevada armazenada. Todos se lembraram do dia em que o Choné caíra desamparado na grande área e ficara, durante alguns minutos, com B.I. desconhecido. O outro lado também tinha problemas,  o Godofredo, ou Pata Larga, parecia irmão gémeo do Chico Boato, mas com uma diferença, conseguiu sempre jogar ao sol.

Friday, September 21, 2018

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 108 -Supertaça "Por Mais que Batas Não Te Abro a Porta




O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 39


O jogo deste domingo foi inédito porque teve, pela primeira vez, duas vitórias e uma derrota. Apesar da equipa do Peidão ter perdido 8 - 7 frente à do Preto, que não a escolheu mas tem estatuto de representante, também ganhou, porque teve na sua equipa o Carlos da Tapada um atleta com um estilo de jogo parecido com o do Bill, mas ao cubo. E houve mais, muito mais! O Brinca na Areia casou-se, e isso reflectiu-se na performance. Mudou de nome, para o Futebol PA é agora o Zé das Cápsulas, tendo o lugar sido ocupado pelo filho número três do Ulki, o Cabeça de Giz!  Dez minutos depois do início do jogo o Carlos da Tapada já estava bastante debilitado fisica e psicologicamente, só conseguindo jogar à sombra. O Fininho, capitão e mister da equipa, recambiou-o para a baliza, e foi aí que tudo aconteceu com o único jogador do Futebol PA que só lava os pés de 2 em 2 meses, e que tem uma relação sadomasoquista com o futebol.
- Fui atraiçoado por uma visão de gambuzinos que voavam todos na vertical e desapareceram, - justificou-se ao sofrer o terceiro golo de rajada, agravando o sentimento de pasmo da sua equipa.
Para este veterano do Futebol PA, que todos pensavam ter desistido do desporto rei, mas que voltou miraculosamente no ano passado, uma espécie de Choné Renascido com sinal negativo, a grande área sempre foi um local escuro pintalgado por clarões brancos, que escondem o esférico, e que lhe põem o coco tão negro, que só vê espuma. O Carlos da Tapada revelou-se neste domingo num dos mais extraordinários casos de transumância futebolística: sempre que rematavam para a direita ele defendia para a esquerda; sempre que a bola vinha alta, ele mergulhava; sempre que precisava de se antecipar, recuava, com fumo a sair das orelhas. Por isso, quem ficar com o Carlos da Tapada, cuja alcunha foi agora recuperada, Chico Boato, um atleta que joga com as tripas, porque a luz que lhe ilumina a consciência é a mínima imprescindível para respirar, terá direito a escolher toda a restante equipa, formando os restos a outra metade. E mesmo assim a vitória nunca estará garantida!

Monday, September 10, 2018

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 107 - Supertaça Bastonário








O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 38


A escolha das equipas no Futebol PA é sempre metodicamente organizada, os atletas são cuidadosamente repartidos, apesar de no início do jogo haver sempre discussão:

- Peidão, foste outra vez enganado pelo Preto, a nossa equipa são só coxos, - gritou o Tio Kiki a babar-se de raiva, ou seria da velhice?

Dava-se inicio assim à época do Futebol PA, 41ª Edição, Ano Letivo 2018/2019, com muitas novidades: O Fininho apresentou-se com as chuteiras gamadas ao filho, o Peidão apertou-lhe uma vez, só uma, os atacadores, sendo depois visto a conseguir fazê-lo sozinho durante a marcação de um canto, cuja defesa do primeiro poste estava à sua responsabilidade; o Carlos da Tapada trouxe voluntariamente obrigado o rebento mais forte, que quis de imediato ficar na equipa nº 3 para poder continuar a dormir, entrando em pânico quando o informaram que naquele espaço não havia suplentes; o Brinca na Areia mudara de estado civil, e foi visto deitado numa sombra do campo a tratar dos oblíquos, coisa nunca vista na época de solteiro, quando costumava chegar atrasado e desequilibrar todo o jogo; o pai dele entrou em campo num sprint fabuloso sendo de imediato apoiado pelo Fininho:

- Com esse passo chegas no final do jogo!

O Clark Kent veio em formato Faisão, com o carrapito no cimo do coco, e fartou-se de fazer faltas, sinal de estava com problemas nos calces dos travões. O Ricardinho foi convocado por telemóvel e apresentou-se em campo dizendo que estava ferido no joelho, tendo realizado o melhor jogo da sua vida, provando que a máxima do Futebol PA se mantém actualizada: quanto mais coxo melhor! Houve lugar para jogo tático psicológico, quando o Caramelo acusou o colega de equipa, o Ulki Iam, irmão do Kenzo, de ricardíces, estando por isso a contribuir para a derrota da equipa:

- Não lhe ligues, ele é que não te passa a bola em condições, - disse o Fininho, um temível defesa direito.

E por causa deste apoio do adversário o brinca na areia Iam continuou no registo de ricardíces e a equipa dele perdeu o jogo. A mudança tática na equipa do Fininho tornou-se a arma mais eficaz rumo à vitória: o Carlos da Tapada foi para a baliza, saindo de lá o Espalha, que estava um passador devido ao boné transgénico da EDP, boné este que teve um efeito milagroso no primeiro. Na Supertaça Bastonário, que disse que vinha e não veio, jogaram os seguintes atletas: Fininho, Laranja, Brinca na Areia, Ricardinho, Peidão, Tó Zé, Clark Kente, Alfredo, Preto, Tio Kiki, Caramelo, Ulki 1 (Iam), Ulki 2 (Kenzo), Carlos da Tapada, Gui Palito (filho do anterior), Cabeça de Ananás, Dédé  e Espalha. Nenhum dos Taroulos se fez representar porque se mantêm no regime "Estudo para Exames"!

O próximo jogo será o “Torneio Por Mais que Batas Não Te Abro a Porta”.


Friday, July 13, 2018

O Comandante Guélas - Série ISEFL 5 - O Gato





Comandante Guélas

Série ISEFL 5


Os primeiros felinos a chegar à Lousã foram os famosos cobridores da Turma 2, o colosso Bezerra e o colossal Parrilha, que abancaram na esplanada do “Gato” com as garras de fora, prontos arranhar alguma fêmea mais atrevida. Mas acabou por lhes cair na rede o político Anselmo, que mostrou não estar habituado às rotundas, mais ovais do que na terra dele, acabando por bater o recorde da zona, a do primo surdo mudo do João Destravado:

- O vereador deu 7 de seguida sem ver a luz do dia, - informou mais tarde o Professor Doutor das Caldas.

Mas não ficou por aqui, telefonou para o 112 interno confidenciando não estar actualmente habituado a orientar-se no asfalto. O Parrilha enviou-lhe as coordenadas, uma fêmea a levantar dinheiro no multibanco junto ao “Gato”, que já tinha sido molestada mentalmente pelo socorrista. O almoço teve de ser momentaneamente atrasado devido a um telefonema urgente que o comendador vereador e professor nas horas livres, Arquiteto Anselmo, recebeu, de um barco turístico algures no Mediterrâneo:

- Os italianos não te deixam despejar a carga? Mohamed leva o carvão para o porto de Valência e não me chateeis mais, senão mando aí o Parrilha e vais direto para as Caldas onde te esperam trinta matulões com um lacinho nos … calções!

O mais politizado dos descendentes da turma 2 estava agora ligado a causas humanitárias, uma recordação do passado com mongas, como a construção de um condomínio fechado no Montijo para acolher o pessoal perseguido dos Somália Papers. O reformado Pedreta estivera pouco tempo na esquerda, pois a queda na falésia levara-o directamente para a extrema direita, sendo a Casal 125 uma prova da sua passagem pelos Hell Angels da Brandoa, com direito a fazer propostas libidinosas, em alemão, às enfermeiras que o trataram durante os dias negros. A Beta para homenagear o único isefiano da turma 2 que não esteve presente por estar a tentar afogar mongas na piscina do hotel, para poupar dinheiro ao SNS, desaparafusados estes que já tratam por tio o Corista quando o visitam na Beloura, pois o resto dos colegas estava em greve há mais de um mês, fez um soberbo bolo de bába, muito apreciado pelos presentes. Mas o Anselmo estava imparável, como é bem visível nas fotografias:

- Mohamed leva o “Aquarius” que não dá nas vistas, e vai ajudar os pobrezitos. Diz-lhes que és do “SOS 5000 euros”!

Foi notada a semelhança nas diopetrias de todos os carecas presentes, que prometeram solidariedade com o agora candidato do Montijo ao Prémio Nobel da Paz, uma vez que o da Literatura estava suspenso devido aos comportamentos libiniosos do Parrilha, que insistia em ter sido o melhor judoca e dançarino da Turma 2 do ISEF dos anos oitenta, cuja assistente ainda lhe estava a dever a gasolina. E para mostrar que continuava dono e senhor dos atributos exclusivos dum natural das Caldas, desafiou o comendador para uma corrida de paquetes, no próximo almoço, no rio Douro:

- Tu trazes o teu outro Repimpa, o “Lifeline”, e eu o meu rabelo, e vamos ver quem é o campeão aquático da turma 2!

- E é obrigatório levar uma musa na proa, como no Titanic, - desafiou o empresário de cruzeiros do Mediterrâneo, rindo-se com desprezo.

A sorte calhou a dois pesos pesados do ISEF, no Rabelo do Parrilha ia o atlético Jackes e no Repimpa do Anselmo o hercúleo Bezerra. Mas a Paula e a Guida aperceberam-se que algo não estava a bater bem com o Pedreta, pois repetia as frases duas vezes, e culpava o bolo pelo sucedido:

- Aposto que nos vai mandar as fotos do almoço duas vezes, e depois culpar o computador, - comentou a anfitriã.

Uns dias depois:

“Caro Pedreta, acabo de receber pela segunda vez as fotos. Pela experiência que tenho a lidar com malta do teu clube, deves estar a pensar que é a primeira vez. Estás no bom caminho, vejo que as atividades desportivas dos reformados aí da zona (Dominó e Pão ao Pombos) estão a fazer-te bem !
Um abraço

Stor Monga”






Friday, April 06, 2018

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 85 - O Milagre da Luz







O Comandante Guélas

Série Colégio Militar



Quarenta anos após a saída o curso de 1971/1978 regressou às origens. O Colégio Militar sempre foi um paradoxo, porque admitia a possibilidade de existirem alunos nas suas margens, que eram diariamente confrontados com uma realidade mais rica que as restritivas prescrições, por isso tinham a capacidade para inquietar este espaço dinâmico, em que o posicionamento de uns confrontava o de outros. O Menino da Luz não mudou muito desde o tempo das cavernas, por isso o Colégio Militar não é tão ambíguo, volátil, complexo e incerto quanto as histéricas gritam, pois sempre que as condições mudaram, eles ajustaram-se, por serem os únicos que continuam a ter o futuro no bolso. Apesar de cataclismos, mudanças e progresso, são sempre pequenas estórias que mudam a História, mesmo que pintem o mundo com sombras, dizemos sempre para não se afastarem da Luz, porque na escuridão de lá nunca houve dragões, havia descoberta, havia possibilidades, havia muita liberdade. Somos fruto do que vimos, do que vivemos e do que aprendemos.
- “Não salte, não salte, que já o vão aí buscar” – gritou o chefe da secretaria, que fazia parte da força de cerco.
Com ele estavam soldados da formação, vigilantes e rondas, atrás de um jovem Coelho com a alcunha de Cebola, e o estatuto de meliante. Os factos de uma estória talvez só se transformem em “factos” depois da estória acabar, porque no Colégio Militar aconteceu sempre o que tinha de acontecer!
Algures no Alentejo profundo, no Ano da Graça de dois mil e dezoito, um chaparro qualquer conta de novo a estória que lhe mudou para sempre a vida, ao mesmo tempo que engole mais um copo de tinto.
- Eu vi um fantasma, foi nos anos setenta do século passado lá para os lados da capital, quando trabalhava como ajudante nas cavalariças do Colégio Militar. 
A vítima involuntária do Cebola jurava a pé juntos ter-se cruzado, numa manhã de nevoeiro, na Azinhaga da Luz, enquanto levava um cavalo para os edifícios da Formação, não com o Desejado, mas sim com uma alma do outro mundo que se deslocava num galope rasgado, “sem pôr os pés no chão”, e com a cor branca da morte. Já não era a primeira vez que o 360 fazia uma visita de cortesia ao bar dos oficiais no Zimbório, acompanhado pelos restantes membros do gangue oficial do curso de 1971, o 240 e o 661, e por vezes alguns mercenários, onde vigiavam, penetravam, alambazavam e retiravam, tudo em segurança. Mas desta vez foi sozinho, era fim de semana, os meninos de coro tinham ido para casa, e precisava desesperadamente duma dose de tabaco e bolama. Quando se preparava para introduzir a chave na fechadura, uma novidade pois entrava sempre pela janela, apercebeu-se que o funcionário ainda estava lá dentro, o que o obrigou a fazer uma retirada estratégica para o primeiro andar, onde ficou de vigia, atento às movimentações do inimigo. Como o tempo de espera foi longo, adormeceu embalado pela imagem da Rosa, ambos entregues aos prazeres da carne sob o efeito dos produtos desviados da manjedoura dos cães. Foi acordado bruscamente pelo barulho de uma porta a fechar-se. O trabalhador estava de saída! Silencioso como um coelho, aproximou-se sorrateiramente do bar, que para ele já era uma toca, e entrou. Dirigiu-se de imediato ao balcão, decidido a apropriar-se ilicitamente do tabaco, que sabia estar guardado nas gavetas, alguns chocolates, sumos e bebidas espirituosas, para serem consumidos solitariamente ao final do dia. De repente ouviu um barulho de chaves a penetrar a frio na fechadura e os tomates caíram-lhe ao chão. O Coelho adolescente entrara em pânico! Se o destino o tivesse protegido, o roedor teria ficado quietinho atrás do balcão, porque o funcionário ia somente buscar o guarda chuva que estava à entrada da sala. Viu um vulto, através do vidro fosco que protegia o hall do vento, a saltar do balcão e também ele ficou com os ditos junto aos pés. Por breves momentos o silêncio deu-lhes a lentidão da eternidade! O intruso já não podia fugir por onde entrara, por isso correu para a casa de banho, decidido a sair pela janela por onde habitualmente entrava. Abriu-a, mas apercebeu-se que o caçador abrira outra, para tentar identifica-lo! Fechou-a, aguardando pela próxima movimentação do inimigo, que aproveitara a pausa para dar um alerta geral. Sentiu-o entrar na zona, e então saltou e fugiu para o edifício do 1º e 2º anos. À medida que progredia na fuga envolto numa conjugação de sentimentos bipolares, e espantava todas as vozes da cabeça, o Cebola tentava ter uma visão no horizonte, pois sabia que os perseguidores não estavam interessados em ouvir as suas razões, por isso foi-se tornando agudamente consciente das condicionantes agora impostas. Quando a porta blindada soldada por anos de ferrugem, que dava acesso ao sótão onde os funcionários guardavam peças soltas do fardamento, lhe apareceu pela frente, ele provou porque é que no Colégio Militar se podia fazer muito com muito pouco, especialmente quando os Meninos da Luz se encontravam desesperançados: derrubou o obstáculo com uma força interior maior num abrir e fechar de olhos, e nunca ninguém compreendeu como, ato que seria elogiado mais tarde pelo Dario no Conselho de Guerra formado para a ocasião:
- Este aluno merece um 18 a Educação Física!
O Cebola sabia que a sua posição vital não era a normal, por isso manteve a velocidade característica de um roedor perseguido, mesmo estando agora no topo de um telhado que parecia mais uma pista de esqui tal era a quantidade de musgo, com o Largo da Luz lá em baixo, à procura de uma saída. E ela apareceu, mas em forma de uma clarabóia do Portugal dos Pequeninos. O Coelho mergulhou de pés, mas a bilha encravou-o a meio caminho. Sabia que precisava de resistir a essa realidade precária, tinha de repensar a estratégia, o inimigo aproximava-se, sentia-lhes o lado disfuncional da alma por terem sido incomodados num fim de semana que desejavam de tédio. Abanou-se com violência. O ruído de tudo a desmoronar à sua volta tornou a queda lenta, sentiu a mescla de texturas do material que o acompanhava, e quando parou estava agarrado a uma tábua, envolto no pó branco do teto da sala de aula que acabara de colapsar. O instinto de sobrevivência, naquele momento de pausa, manteve-lhe a lucidez, mesmo estando pendurado. Balançou-se e quando abriu a mão sabia que uma falha seria fatal como o destino. Caiu num parapeito e saiu pela janela. Em baixo, muito em baixo só a Azinhaga da Luz estava vazia. À sua volta não havia gente estranha, mas uma gente que, por circunstâncias diferentes, foi obrigada a parar. A mente do jovem Coelho recusava-se a acreditar no que acontecera. Por isso graças a um impulso visceral, físico, avesso a planos, deixou os instintos tomarem conta dele. A divergência do roedor e dos soldados era, tal como na Alice do País das Maravilhas, mais de grau e forma do que de substância.
- “Não salte, não salte, que já o vão aí buscar” – gritou o chefe da secretaria, que fazia parte da força de cerco.
Como convivia diariamente com demónios, e isso representava um hino à amizade, atirou-se. A dor da queda foi atenuada por uma injeção de vida que o resgatou de imediato. Por breves segundos viu-se no refeitório da primeira companhia, e sentiu o vento do pedaço de puré que o 136 arremessara contra o 151, mas apanhara o funcionário pelo caminho, que gritara:
- Quem é que me acertou com a argamassa?
O protesto do Patronilha fê-lo sentir de novo o bafo do esquadrão de magalas que farejavam o seu sangue, por isso desapareceu como o vento pela Azinhaga da Luz abaixo! Cruzou-se com o jovem magala que puxava um cavalo e só parou junto a uma das janelas da quarta companhia. Junto a um lavatório viu o Primo Orelhas a fazer a barba. Gritou, mas reparou que não conseguia emitir som, perdera a ordem sintática. Atingira os limites da existência, existia mas estava com pouca vontade para tal, o seu brilho desaparecera, tinha nódoas de sombra e poeira no buço. Sentiu-se Bocage, a seca de poeta de quem o Ferreirinha gostava muito:
- Já Cebola não sou!
Não sabia que no seguimento do alerta lançado a partir dos claustros após ter sido detetado o intruso no bar dos cães, o Oficial de Dia convocara pelo microfone todos os alunos que tinham ficado naquele fim-de-semana chuvoso no Colégio Militar, para fazer a contagem. Quando o 200 ouviu o som de alguém a bater desesperado numa janela, viu o 260, cheio de lama e ensopado. Pediu ajuda e conseguiram trazer o Coelho para o conforto das latrinas, onde o ajudaram a lavar-se e a vestir o pijama. A partir daqui deu-se início às conversações para a entrega voluntária do meliante. O orgulho colegial ficou intacto quando se confirmou que o artista era da casa e não de fora, porque caso isso acontecesse teria de ser chamada a PJ Militar, que seria incapaz de compreender algo que o comum dos Meninos da Luz entendia. Teve uma pena institucional leve e uma “admoestação” severa do gangue, por não ter conseguido cumprir a missão, e privado assim a Associação dos Recoletores da Luz de manter ativo o posto de recolha!