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Tuesday, May 16, 2017

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 94 - Solo Sagrado


O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 25


O Futebol P.A. está para Paço de Arcos, como a Cova da Iria para Fátima: tem um apelo especial! A estória deste domingo solarengo tem o seu início na zona dos bancos para os atletas, e o protagonista é um dos jogadores com a mais baixa maleabilidade mental, o lendário Milhas:
- Que é feito do Fininho, faltou aos dois últimos jogos? – Perguntou ao contabilista Peidão, que acabara de receber uma dívida assinalável da família Laranja, e confessava que já não tinha espaço em casa para guardar tantas malas recheadas, estando por isso à espera que o sobrinho da Uber lhe desse o contacto do seu primo na Suíça, agora que o tio de todos renascera.
A preocupação seria sincera, ou uma estratégia para saber se iria ter mais um domingo agradável? A chegada do Tio Mino do Incha Padel deu-lhe a resposta! Mas este dia fica também assinalado pelo regresso de mais um membro da família Choné, o Morgado, o único que foi autorizado a entrar na Austrália e fazer um estágio especial com cangurus. Confidenciou-nos que descobrira que o pai era o único atleta do Futebol PA da família que já não jogava, mas continuava a dopar-se, e que iria continuar ligado à modalidade, mas agora na venda de cachecóis e couratos. E o Morgado apresentou-se em campo só com uma chuteira, oferecida pelo pai e pertencente ao Taroulo, quando tinha doze anos. O pai do Clarke Kent foi o jogador deste domingo, levou para casa um “'hat-trick”, fruto de várias convulsões inesperadas à boca da baliza adversária. Mas o filho, na ânsia de despachar a bola, e não dominá-la, como é costume, deu um potente biqueiro e quase que liquidou o Fininho, seu companheiro de equipa, acertando-lhe em cheio no coco. O jogador caiu no solo a ouvir o Carrilhão de Mafra a tocar o “adieu adieu aufiderzin goodbye”, viu passar o Craveiro Lopes a puxar um carrinho com o material que ia vender para a porta do mercado da vila, com uma tabuleta escrita pelos seus vizinhos a dizer, não o seu nome, mas “caralho”, que lhe gritou, “levanta-te rapaz, ainda irás marcar muitos golos”, seguido de uma nova carrilhada, que desta vez trouxe o hino rejuvenescedor:
"É motorista
e o preto preto branco
Precausa da criação
Precausa da sua direita
comigo é uma canção

Eu vou pelas estradas,
estradas de corrimão.
Estava lá o Charlot
 a cantar a nova canção

Mas qui tudo, mas qui tudo
Mas qui tudo da criação
estava lá o Charlot
 com 2 franguinhos na mão!

É Motorista
E o preto, preto banco
Precausa da criação
Precausa da sua direita
Comigo é uma canção

Eu vou pelas estradas
Estradas de corrimão
Estava lá o Charlot
Com dois franguinhos na mão

Mas qui tudo, mas qui tudo
Mas qui tudo da criação
Estava lá o Charlot
A cantar a nova canção

É Motorista
E o preto, preto branco
Precausa da criação
Pré causa da sua direita
Comigo é uma canção

O último acto foi a saída intempestiva do Tio Kiki, que abandonou o jogo alegando que ninguém lhe passava a bola, mostrando assim a sua ignorância futebolística, porque num jogo de 13 contra 13, num campo de 9, o jogador não pode esperar que lhe passem a bola, mas sim fazer pela vida, roubá-la, tanto a um adversário como a um colega, para assim conseguir jogar.



Wednesday, May 10, 2017

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 93 - Eu às vezes trabalho!


O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 24



- Tenho “bicos de forma”, - tentou justificar o Taroulo, quando foi confrontado com os 19 anos e a fraca prestação desportiva.
Ninguém queria saber da sua vida íntima, mas havia agora uma possível justificação para nunca marcar golos quando estava ao ataque e deixar entrar tantos quando era guarda redes. O vício de “chotes” de proteínas que ía buscar não se sabe aonde, nem era preciso saber, para poupar o pai do desgosto, eram com toda a certeza os responsáveis pela sua silhueta de Barrancos, excepto a cor. O que valia ao Futebol P.A. é que o Focas do Incha Padel tinha ido em peregrinação lá para os lados de Fátima e prometera tentar limpar os pecados desportivos de todos os atletas das duas modalidades, que poderiam assim regressar aos respectivos campos livres de lesões.
- Gamaram-me o relógio, gamaram-me o relógio, - gritou um idoso a meio da noite, acordando repentinamente metade do pavilhão, onde dormiam os atletas da Cruz.
O Focas viu interrompido o seu diálogo com o Chico argentino, onde ele lhe tentava explicar que não tinha poderes para tirar nódoas da alma, perante a insistência do jogador de Padel para que reabilitasse o Cociolo e o Conan. Tinha tido dificuldade em adormecer no meio de “avés Maria”, roncos e bufas, e era agora acordado por um peregrino com Alzheimer que, além de ir em direcção a Porto de Mós em Lagos, acusava os colegas de oração de lhe terem gamado o “Timex”. Trivialidades religiosas!
- Chiu, chiu, - interveio uma velha, atirando com a dentadura para cima de um paraplégico, que viu nisso as beiças do Chico beato e por isso declarou mais um milagre.
E foi esta a revelação que fez com que o Focas tomasse consciência de que os seus amigos quando comparados com estes caminhantes eram uns meninos, e não precisavam de salvação alguma, porque nunca tinham sido tentados a pecar. Por isso deixou de peregrinar e limitou-se a treinar até Fátima.
Foi mais um domingo atípico, onde a ausência do Fininho se reflectiu na conflitualidade dos jogadores, tendo a equipa que perdeu 3 – 6 ganho a partida, depois dos respectivos descontos legais. Só os três do Brinca na Areia reduziram para empate, e tudo graças à Lei da Arrogância (“três dribles seguidos de golo é gozo, e o brincalhão desconta cada golo na sua equipa”); mas o Milhas, que mais uma vez não estava de feição, resolveu meter mão à bola na sua grande área, dizendo no entanto que esta ressaltara na perna da Maria Adelina, uma das seis raparigas da Amélia da Terrugem de Cima, vizinha do Craveiro Lopes e da Quitéria Barbuda, que lhe aparecera, acusando-o de ser o responsável pela sua nova gravidez:
- Este agora é teu, - gritou-lhe, aproximando a boca desdentada da cara do infeliz, que sentiu o cheiro a maresia.
E caso não abrisse os cordões à bolsa teria o mesmo destino dos outros dois, um abandonado numas escadas de um prédio em Cascais, e o outro no meio das ervas na quinta do Leacoke. Conseguiu ainda ver no meio do seu caos efectivo e existencial o Espalha, o Peidão e o ausente Fininho a rirem-se na sua cara, mudando então o alvo da acusação para o atleta do meio, que estava à baliza, mas que ele sabia  que não a iria defender. E mais intempestivo ficou quando viu o guarda redes da equipa adversária a sair mais cedo:
- Vai para um comício do Isaltino, - respondeu alguém quando questionado.
Levantou as sobrancelhas, em sinal de que o mundo lhe devia alguma coisa e não pagava, e gritou:
- Foi buscar mais uns cosques! – Esquecendo-se de que fora um dos raros paçoarcoenses que assinara um abaixo assinado contra a construção do Oeiras Shopping, para salvar a cultural “Casa Dáni”.
O Micro Mac, e não Mini Mac como andam a insinuar, deu três chutos na bola e saiu a coxear, fazendo lembrar as breves carreiras do Graise e do Tom,  por terem chutado em bolas virtuais  durante a fase de aquecimento, e a do Preto no Incha Padel, tendo a cena assustado o Maninho Ensina, que esteve todo o tempo a jogar numa partida só dele, optando por fazer o aquecimento no final do encontro, quando ficou em campo a fazer exercícios de ballet. O Brinca na Areia mostrou mais uma vez estar a passar uma fase complicada, que teve a primeira manifestação quando o pai Laranja lhe cortou uma bola (“limpinha, limpinha”) e ele protestou com estrondo, parando o jogo e marcando um livre indeterminado, que deu em golo, e fez nascer uma nova lei, já aprovada pelo dono do campo, o Espalha de Morais e assinado pelo dono disto tudo, o Tio Mino: Lei da Transmutação da Falta por Omissão (TFO) – “Quando não se discute previamente, e com tudo aos berros, se é livre direto ou indirecto, e a bola entra na baliza sem tocar em alguém, é golo”! Para juntar a todas estas questões legais, está na forja a criação da “Lei Biblot”, que irá proibir a presença de jogadores de metro e meio nas grandes áreas, para que não ocorram acidentes de viação susceptíveis de provocar uma TFO. É por isso que a ausência do Fininho nestes dois últimos encontros está já a criar uma certa tensão no Lagoas Parque, estando o Focas agora com uma missão bem definida, queimar um Fininho em cera lá na fornalha de Fátima, para que ele regresse rapidamente à competição. E para terminar, o Bil mandou informar que esteve presente, mas a trabalhar, no balneário!

Friday, May 05, 2017

O Comandante Guélas- Série Paço de Arcos 92 - O Chouriço Andante


O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 22

Neste domingo, véspera do dia do trabalhador, a ausência do Fininho reflectiu-se de imediato, não na bolsa do Peidão, de quem ele foge como o Diabo da Cruz, mas nos níveis de Coenzima Q10 dos jogadores, que baixaram drasticamente, tendo por isso tido implicações no fluir da partida, que tomou um rumo inesperado, com alterações comportamentais evidentes:
- O Caruncho parece uma salsicha andante, - protestou o Taroulo, um jogador anarquista da categoria dos presuntos,  com tendência para a despersonalização, após a sua equipa ter sofrido o terceiro golo consecutivo.
 Esta era uma das novidades, o Caruncho voltava aos relvados, saíra zangado com o mito desportivo da vila, e ficou mais contente quando soube que ele não iria estar presente. Aproveitara a ausência dos pais no Algarve para gastar o dinheiro, que o Graise lhe deixara para o Mac, no vício, porque o Futebol P.A. já faz parte da cultura paçoarcoense, são 40 anos e muitas gerações com incapacidade para discutir com civilidade. Por isso de tempos a tempos o Choné aparece no campo, como uma espécie de Papão, para que as novas gerações o vejam e decidam jogar à bola. A outra novidade foi a presença de um refugiado, um jovem pediu asilo ao Futebol P.A., fugia do pai que o queria levar para o Incha Padel, a “modalidade dos velhos”, e por isso foi aceite como o primeiro “refugiado desportivo”. O Futebol P.A. aprofundava assim a sua veia humanitária e definia como objectivo contratar o Guterres para uma das balizas.
- O meu nome é Micro Mac, - disse o candidato a asilo desportivo.
Quando o jogo já estava balanceado para a vitória da equipa escolhida pelo Cabeça de Ananás, o Carcaça desfez as dúvidas, marcou um golo fabuloso e gritou com um estado de alma atmosférico com um sentimento carnal:
- É para ti Fininho! – Limpando as lágrimas com os cotovelos.
  Por isso fica evidente nesta breve estória que o Tio Mino ganha sempre, mesmo não jogando!

Wednesday, April 26, 2017

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 91 - As Bolas do Fininho


O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 22

Quando o Fininho sentiu o esférico, embalado por um biqueiro do Zé Miguel, bater-lhe violentamente nas bolas, soltou uma tosse surda e passou a ver tudo desfocado, desproporcionado. Tateou no escuro, tentando encontrar algum interruptor que lhe acendesse uma luz. Quando acordou deu de caras com o Presidente da Câmara Municipal de Baião de 1940, Joaquim Cabral, que, por o ver com as mãos na fruta, o informou:
- Caro senhor, é penálti por ser o autor da introdução de um Pangásio, gamado do aquário do menino Élinho, na ribeira de Barcarena!
Regressou à realidade quando ouviu um amigo desabafar que, se fosse no tempo dos Maristas, já estaria a ser socorrido por aquele cujo ganha pão fazia eco de cada vez que a bola o atingia com uma violência idêntica a esta. Há dois caminhos para a relação de cada jogador com o Futebol PA, um de aceitação das regras do Fininho, por decorrência da importância, o outro o da tentativa, infrutífera (por não estar ainda legislada), de aplicar o Direito à “herança desportiva genética”. Foi isso que aconteceu quando o Brinca na Areia reclamou grande penalidade, por ter laranjas no seu código genético, após ser agarrado, para não progredir com bola para a baliza, pelo todo poderoso Tio Mino, que lhe respondeu:
- Estás doido, eu posso agarrar, vai fazer queixa ao papá!
Foi um jogo que decorreu dentro da normalidade, a equipa do Fininho perdeu por 10 a 3, mas levou a vitória para casa, houve mais uma alteração das regras de contagem (“Lei do Resultado Relativo”), tendo a equipa adversária perdido dois golos de cada vez que marcava um, para não ser arrogante! Mas o jogo só seria normal se o Bill mantivesse a tradição de prejudicar a sua equipa, esperança que caiu por terra quando marcou um golo aos adversários. Ainda tentou justificar-se com uma visão da Irmã Lúcia com a cara do Rato sentada na trave da baliza adversária, com uma boina à Che Guevara, acenando-lhe com dois caranguejos-peludos-chineses, um em cada mão, que o distraiu:
- E quem deu o biqueiro foi o irmão dela, o Chico Marto.
A influência de Fátima no Lagoas Parque foi evidente, o Milhas recebeu elogios, e o Fininho só mandou vir com o seu colega de equipa, o Carcaça, ateu, chegando a invocar o seu nome durante um contra ataque sem bola, quando foi solicitado por aquele a passar-lhe o esférico. Estas estórias mostram-nos que as emoções oscilam muito no Futebol PA, sente-se uma harmonia, uma paz e uma serenidade que não se encontra noutras atividades desportivas. Por não ter nada disto no Incha Padel o Conan Vargas, o mais promissor jogador da modalidade a seguir ao Cociolo, meteu baixa, não se sabe se por sarampo ou psiquiátrica!

Friday, April 14, 2017

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 90 - Profissão de Fé

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 21



Ainda o galo, descendente das galinhas da mãe do Chato Louco, não tinha anunciado um novo dia, e já o Carcaça aquecia à porta do Lagoas Parque, para assim não ter que ir à baliza. Aproveitou uma pausa na preparação para mais um inesquecível jogo e deu uma espreitadela nos cartazes para as eleições dos Corpos Gerentes do Futebol P.A.:
- Um velho com um ar gaseado, dizia “Não ao cimento, só queremos estacionamento”;
- O outro avisava, “ Se tens cuidado com o teu cagueiro, não votes no Maneleiro”;
- E mais outro, “Se não marcas golo vota no Taroulo”;
- “Se não tens graveto, vota no Preto”;
- “Gostas de leitão, vota no Peidão”;
- “Sentes-te sozinho, vota no Cuzinho”;
- “Se és amigo do Macara, vota no Vara”;
- “Se queres notas de mil, vota no Bill”;
- “Se não és nenhuma menina vota no Maninho Ensina”;
- “Se queres livrar-te do Tio Mino, vota no Isaltino”.
O jogo deste domingo depressa ficou resolvido com a vitória inequívoca da equipa do Fininho que, meia hora depois do início do jogo, atingiu a marca dos 3 -0, com um triplo agradecimento ao Bill, sinal de fim da partida e início do treino (“A equipa que chega aos 3-0 ganha por diletantismo, o resto é treino” – artigo 3º do Código Teológico do Futebol de Paço de Arcos). O Peidão ensinou então ao jornalista como se marca um golo de calcanhar na própria baliza, o Ulki ia-se transformando quando sofreu três golos de rajada, e só acalmou quando o Fininho o informou que já estava em treino, sinal de que, além de problemas com os pés, tem também graves lacunas nas mãos, nada que o impeça de querer uma carreira brilhante na bola. Desta vez o acidente de trânsito mais grave foi quando o Zé Miguel foi abalroado pelo Carcaça, que o atirou de encontro ao relvado. Por momentos, e por ser já uma tradição, teve acesso ao passado da vila, e quando regressou contou ao papá que deu de caras com um menino matulão equipado a rigor para o Crisma, que iria chumbar, cujo cantar era uma oração:
- “Tenho uma rata no sótão / Ao pé de uma lata de tinta / Todos os dias lá vou / Ver se a rata já pinta!”.
Regressou ao campo quando uma menina de branco parecida com um sapo lhe tentou dar um ósculo na praia de Paço de Arcos! O Big Mac do Incha Padel estava tão agradecido aos seus companheiros de desporto do Futebol P.A., que lhes prometeu um cardeal com bengala para a baliza. Mas como o tempo era de política, havia um jogador já com um cargo políticos garantido:
- O Bill será vereador do Saneamento, passa a maior parte do tempo de jogo no balneário, e quando resolve jogar só faz merda.
Mas o acontecimento desportivo da vila mais grave foi a agressão que o Big Mac sofreu durante uma partida de Padel, quando a sua orelha direita foi alvo de um atentado, alguém, ou o próprio, fez embater uma frigideira no referido pavilhão. Mais tarde  Conan Vargas explicou às repórteres da revista “Focinhos:
- Graças a este incidente o meu colega padeleiro ficou a jogar melhor e a gostar de polvo!