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307 estórias

Sunday, July 28, 2019

Charles Ganzas




Série Camarada Choco

Aventura 98


Charles Ganzas



A TVI tem destas coisas, quando as audiências são poucas obriga os empregados a fazerem das tripas coração, e foi por isso que Queluz reinventou a biografia do trissómico mais mafioso da Brandoa, que nascera geneticamente entupido ao nível do hardware, com uma mentira sem limites, descaracterizado, normalizaram a sua família fraudulenta, afogaram-no em mentiras, um pobre coitado nas mãos de gentalha em roda livre, atolados nos seus próprios complexos. Uns dias antes a Fininha dos Serviços Administrativos atendera o telefone, e dera de caras com a mamã do Kodac, que lhe deixava um inusitado, e urgente, recado:

- Diga ao meu filho que quero saber onde é que ele escondeu o saco com as doses de erva do sobrinho, porque o miúdo tem de ir trabalhar.

Dizia-se que o mano do Kodac tinha ficado farto das estadias periódicas em Vale dos Judeus e emigrara para a Alemanha, deixando o rebento na Brandoa a gerir o negócio familiar. O Kodac era o bem-amado da zona, os brós idolatravam-no alimentando-lhe piedosamente o vício do tabaco e do sumo de cevada. Mas havia pré-condições, um pacote com vários maços em troca de algumas doses catadas ao sobrinho. Nesta família tão atenta, teve logo de amadurecer a partir do primeiro mês, porque caso o não fizesse não iria longe. E aprendeu que o cromossoma extra no par 21 não iria ser uma desvantagem na Brandoa, mas sim um passaporte para a impunidade, seria o rei da zona, com uma espiritualidade no andar, que brotava diretamente dos próprios pés, que exalavam um permanente cheiro a queijo indiano, e tudo graças a uma mistura explosiva de unhas encravadas, calos jurássicos, fungos locais, alcagoitas familiares, razão suficiente para a mãe nunca ter atendido aos pedidos desesperados da escola para que fosse mostrar os cascos do filho a um especialista. O Kodac apercebeu-se dos poucos neurónios da entrevistadora, por isso deixou a mãe enfeitiçar a pateta da jornalista com fake news:

- O meu filho é esperto, podia ter ido muito longe, mas só encontrou obstáculos na vida. O último sujeitou-o a um trabalho escravo no hospital, oito horas diárias para ganhar uns míseros 136 euros. Despediu-se!

- E fez muito bem, - respondeu a Poeiras.

Mas a verdade era outra, trabalhava três vezes por semana, quatro horas, o resto do tempo que deveria ser na Escola para Desaparafusados da Venteira, era cumprido no hospital a catar nas carteiras dos colegas, dinheiro esse que mantinha vivo outro vício diário, as raspadinhas. Entrava às nove horas, fumava no balneário, catava dinheiro aos colegas, tomava o pequeno-almoço às dez, desviava mais euros da caixa registadora, e fingia que trabalhava no restante.

- Passava todo o tempo a andar, - queixou-se a “extremosa” mamã, que dizia agora estar sempre sentado na escola, a fazer de segurança na portaria.

Desculparam-no durante anos por ter um extra no vinte e um, mas acabou por ir para a rua, despedido. Até para um monga havia limites! Os manos eram assim verdadeiras obras-primas da Natureza e da mão humana, um com três no vinte um, o outro com várias estadias em Vale de Judeus. Quanto ao pai, nunca reconhecera o filho, não se sabe se por não se rever na cara do rebento, e por isso ter pensado que um carteiro chinês tocara três vezes à porta, ou por consumir diariamente sumo de cevada que dava para um batalhão, mas por precaução o petiz estava proibido de fumar na sua presença, não fosse o papá explodir. A tia do Kodac não se conformou com o que lhe tinham explicado, que o rapaz não iria longe, tinha um cromossoma a mais no par 21, e por isso arranjou a morada de um médico “que até marrecos cura, e tudo com um limão”, como lhe explicara a amiga Laurinda, que fazia bordados para fora. Quando o doutor viu o trissómico da Venteira deu a receita:

- Eduque-o como ao outro!

Foi a sorte dele, na Brandoa não havia coincidências, tudo acontecia quando tinha de acontecer, na altura certa e no lugar certo, por isso agora na idade adulta aos fins de semana, sem variações, o Kodac não chega a casa, fica sempre estatelado num qualquer passeio da Brandoa, de braços estendidos, fitando os céus num movimento de translação onde, devido à mistura de erva e cevada dada pelos brós, uma estrela se transforma invariavelmente na amada Barbuda, que lhe expõe, sem preconceitos, a abundante turfa, que nasce nos pés e acaba nas beiças.

Saturday, July 06, 2019

Charles Love






Série Camarada Choco

Aventura 97


Não sei por onde hei-de começar esta estória. Talvez pelo princípio: o Pintor, o único licenciado de baixa densidade da Porcalhota com a força de uma epifania, acabou o mandato pedagógico na Escola para Desaparafusados da Venteira, reformando-se! Mas eu sabia que ele não iria deixar-se consumir pela bisca-lambida e milho aos pombos no Parque Central, era um velho capaz de responder às novas tendências sociais, proporcionando um conjunto de bens e serviços suficientemente latos, capazes de responder aos diversos anseios de cada consumidora, ávida por uma visita sua à cave. Por isso, estava eu calmamente a curtir uma “santinha”, epilepsia exclusiva da minha família pela parte da mãe, que se começou a manifestar após a morte da pastorinha com cara trissómica, que resolveu aparecer-me nos canos do balneário para machos da piscina que frequentava, com a saia levantada e as cuecas nos joelhos, quando fui repescado à realidade por alguém com um sotaque da Brandoa profunda. No écran da televisão estava, não o Dartacão como inicialmente pensei, mas sim o hilariante Pintor, com uma legenda de Formador Principal, que tentava a todo o custo convidar para o pecado, usando o seu mítico savoir faire, uma formosa, mas não segura, tia do Bolhão:

- Sou filho de alguém que morreu por amor!

Amor ao Moscatel sem limites, à cachaça ao pequeno almoço, ao meio-gordo à taça, enfim, uma panóplia ilimitada de químicos capazes de transformar em iscas qualquer fígado com pergaminhos. Mas felizmente deixou à Humanidade uma figura singular, uma ostra única, um fidalgo com marca própria: Charles Love!

Um reformado com um estilo romântico próprio, promissor, capaz de preservar o património local:

- Fui candidato ao Festival da Canção!

 Da televisão muda, que mesmo assim o rejeitou mal o viu!

- Eram só cunhas, como é que se podia recusar uma figurazinha destas? – Explicou um dia fazendo uma auto massagem.

E continuou:

- Contracenei com a Marreca de Monsanto na longa metragem “Pinceladas para que te quero”.

E continuou:

- No sítio onde exerço a minha profissão de Forrador, perdão, Formador Principal, dirijo um Atelier imponente, decorado ao estilo romântico, como eu.

Soube mais tarde por uma fonte credível, ele próprio, que, graças à performance do Pintor, o canal televisivo recuperou o top das audiências:

- Desde esse momento o telemóvel nunca mais parou de tocar, eram fêmeas dos seis continentes, incluindo a Atlântida.

E de Formador Principal passou a Doutor num abrir e fechar da boca, apesar do sinal vermelho que a tia do Bolhão lhe deu, sem apelo nem agravo.

- Arrependeu-se, telefonou-me a confidenciar-me que tinha deitado para o lixo o bilhete premiado do Euromilhões, com a terminação da Lotaria.

Mas como nunca aceitou mudar o que a Natureza lhe dera, um esgalhador sem limites, foi para o veículo da repescagem à procura da fêmea perfeita, uma teenager de encher com o pipo por baixo do sovaco esquerdo, uma Eva da Repimpa, e saiu-lhe uma reformada oxigenada sem apetite para velhos, levando de imediato mais uma luz vermelha, e uma admoestação do Conselho de Sábios:

- Nós a pensar que tínhamos um Rodolfo Valentino com cheiro a rosas, e saiu-nos um canastrão marreco com bafo de bode!

Por isso foi com enorme satisfação que soube do regresso, na 2ª Temporada, do sexagenário Charles Love, agora na versão de candidato ao altar, mas com pré-condições inegociáveis:

- Não quero uma velha de 60 anos, exigi uma fêmea que esteja disponível para engravidar nas Ilhas do Seixal, - explicou o Pintor Principal, e Formador no lado oculto do espectro moral nas horas vagas.

A SIC sabia que a personagem era muito forte, e com o desenrolar iria tornar-se cada vez melhor, a Ferreirinha que se cuidasse, a Casa da Cristina arriscava-se a ser substituída pela Casa do Pintarolas. Mas como só teremos televisão à séria em Setembro, e já havia muitas pessoas ansiosas, pus-me a imaginar. Alucinei uma estreia, vi, aparecendo numa manhã de nevoeiro na Praia do Trancão, o Desejado, um gato com um olhar desconfiado, postura traquina e provocadora, expressão hipnótica de desprezo, bafo a maré vazia, olhos de águia, que gentilmente disponibilizava aos milhares de fêmeas a possibilidade de saborearem aquela forma de arte humana, um cisne depenado, que só a tecnologia podia proporcionar penas. Ainda a fêmea não se apresentara e já ele a namoriscava, havia algo de mercurial, sensual, perigoso, provocante, arrogante, mal educado, que tinha a capacidade de engravidar qualquer uma só com o olhar, de qualquer idade, sem que ela desse por isso. O segundo episódio, e já com eles mais vazios, e cheios de bolhas, a baterem, tal qual badalos num sino, nos joelhos, era uma cena de chuva à porta do Louvre, uma taberna na Brandoa, com o nosso macho a mastigar um pastel de bacalhau e a perguntar a uma candidata:

- A que horas abres?

E dá-lhe uma martelada sensual com o alho porro.

- Já vou ser pai-avô!

No terceiro capítulo, e já com as audiências a baterem recordes estratosféricos, aparece montado na sua Harley-Charleston a sentir o cheiro a bacalhau da candidata, que mal cabe entre a mala e a marreca do condutor, e ressona com a boca aberta.

- Quando chegarmos à praia do Jamor vou-te mostrar a facilidade com que pego no pincel, sinal de que das minhas mãos sai sempre uma obra de arte, como prometi à produção.

Charles Love era o único macho com direitos meteorológicos exclusivos, nas suas veias sentia-se  a inconfundível inconstância do Badaró, por isso abandonou as filmagens e fugiu para o Luxemburgo atrás de uma das suas musas.