miguelbmiranda@sapo.pt

Sunday, September 30, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 19 - O Orfeão Colegial


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

O dia era de festa, 3 de março, e as vozes da elite do Colégio Militar preparavam-se para esgalhar na ampla nave central do Mosteiro dos Jerónimos. Em frente do padre Miguel Carneiro, especialista na formação e ensaio de grupos corais, perfilhava-se uma mão cheia de Meninos da Luz com farda de gala, tendo a seus pés um espaço sobrelotado de familiares e amigos a perder de vista, que tinham passado a manhã a assistir ao desfile militar dos dezasseis pelotões das quatro companhias do Batalhão Colegial. Quando as mãos do maestro se elevaram, as gargantas contraíram-se e deu-se início ao Hino Nacional. A “Portuguesa” ecoou pelo edifício encomendado por D. Manuel I, e até os pombos ficaram em sentido perante o espectáculo, com a primeira voz no red line, perto do limite do ruído permitido por lei, a segunda com decibéis normais e a terceira, a da elite da elite, a única audível, para onde só iam aqueles que já apresentavam uma quantidade de pêlos apreciáveis. A plateia já estava em transe, só comparável aos espectáculos do Tony Carreira, quando após o “marchar, marchar” o silêncio voltou a ouvir-se. Mas foi por pouco tempo! Todos se puseram de pé e aplaudiram durante algum tempo aqueles canários fardados de pano. Na entrada, longe da confusão, o 125 (Horrível), o 191 (Peidão), o 668 (Peida Gorda) e o 601 (Gordini) aproveitavam para agradecerem a todos os santos por terem sido recambiados, logo na primeira audição, para a ralé do Orfeão do Colégio Militar, o Canto Coral, que os dispensava de todas as aulas e, por consequência, de todas as festas, era uma espécie de paraíso, quando comparado com o inferno das três vozes. Mas não se afastavam muito do local dos ensaios, que decorriam à porta fechada com os “atletas” a cantarem de pé. E um dia até viram o 652 (Xoxo) a ser posto fora do ensaio à chapada, depois de ter alterado a letra duma canção. Quando a porta se fechou, e se ouviram os canários fardados de cotim retomar a atividade, o Zécarias (666) correu para ela e deu-lhe dois valentes biqueiros, que se sobrepuseram à mais potente voz alguma vez ouvida, a terceira, alterando, a frio, os planos do Carioca, alcunha herdada pelo padre Miguel Carneiro do seu antecessor, o maestro Jaime da Silva, que durante 28 anos (entrou em 1930) fez esgalhar as goelas dos Meninos da Luz. De imediato as portas abriram-se com estrondo, e de lá saiu um professor à beira de um ataque de nervos, e com um sprint de fazer inveja ao Usain Bolt. O 320 (vaca), que ia a passar, achou por bem fugir para sua segurança, levando no seu encalço um Carioca com vontade de esganar o primeiro Menino da Luz a que conseguisse deitar a mão. A organização do Orfeão do Colégio Militar não é consensual, há quem diga que havia duas primeiras e segundas vozes, seguidas de uma terceira e quarta, acabando no canto coral; ou uma primeira, uma segunda e outra segunda, mais grave, seguida das restantes, terceira, quarta e…canto-coral. Só o “paraíso” é que é comum às duas versões!
Voltemos ao Mosteiro dos Jerónimos. Depois da cena de histeria veio a bonança, e o padre Miguel Carneiro tornou a virar-se para os seus pupilos levantando as mãos. O que é que iria ser cantado naquele espaço mandado erguer por um rei para homenagear o regresso da Índia do grande navegador Vasco, carregadinho de especiarias, cujo dinheiro da venda foi direitinho para os bolsos dos governantes, um costume que ainda se mantem nos dias de hoje? Seguiu-se o Hino do Colégio, também a quatro vozes, que mais uma vez arrepiou os pêlos da assistência, seguido de uma música castelhana com variante medieval. Atingiu-se assim o clímax no espaço onde repousava o poeta Luís, e o Carioca virara-se em pose triunfal para a assistência. Até onde iria o talento destes jovens estudantes do Colégio Militar, escolhidos a dedo para emprestarem a sua voz ao Orfeão Colegial? A resposta veio com as cancões seguintes, “Minha Amora Madurinha”, “Ó cigarra, cigarrinha” e “Pedro, Tiago e João num barquinho”!


 

Friday, September 14, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 18 - O Dérbi


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

O dia do tradicional jogo de futebol entre os alunos e os cães…perdão, oficiais, aproximava-se, e já se sentia a emoção no ar. E como não podia deixar de ser, o Ramalho, barbeiro fanático da catedral da Luz que tinha colado no espelho um recorte de jornal que dizia “quem não é do Benfica não é bom chefe de família”, já estava confirmado e devidamente pago  pelos cães…perdão, oficiais. O Comandante do Corpo de Alunos (oficial) pedia para que não houvesse exageros, como aqueles que tinham acontecido durante as “Pinturas”, em que a porta de acesso à Soca (bar dos Oficiais), e paredes adjacentes, tinha sido grafitada com os restos das tintas, onde se podia ler “Bar dos Cães”, tendo por isso sido aplicada a pena de “detenção de fim-de-semana” a todo o corpo de graduados, uma vez que tinham assumido a culpa (“um por todos, todos por um”) pelo ato dos cinco responsáveis, para que procedessem a limpezas.

Algures numa sala do colégio decorria a aula de francês, ministrada pelo “François”, um professor proprietário de um aparelho auditivo. A brincadeira do dia era o “Jogo do Queijo”, e a vítima do momento o 664 (Barrada), que pertencia à Conferência, uma espécie de Opus Dei, que recolhia dinheiro no internato e ia depois entrega-lo a quem estava previamente assinalado como necessitado, que tinha ficado sem a sua “La Vache qui rit”, cujos pedaços cruzavam o espaço aéreo à medida que eram debitados os verbos “être” e “avoir”. Quando o produto acabou, a turma organizou-se e começaram a responder ao professor François em voz baixa, o que o levou a pensar que tinha o aparelho mal afinado. Com o indicador direito aumentou o volume do som, e nessa altura todos começaram a gritar, obrigando-o a desligar apressadamente o aparelho que apitava por todos os lados. O 120 (Cabedo) espremia as calças, depois de ter caído dentro da piscina que estava com água verde, após a  aula de equitação; o 191 (Peidão) tentava coser um botão, por isso trouxera a caixinha dourada com linha, agulha e dedal; o 601 (Gordini) ajeitava o T.P.C. de Ciências da Natureza, disciplina ministrada pelo Forreta, um feijão, que germinava dentro de uma lata de sardinhas, envolvido por um algodão húmido; o 121 (Pejó) simulava um galope; o 125 (Horrível) tentava espetar um canivete no chão. Na sala ao lado o Ferreirinha, com a sua eterna gabardina cinzenta, entusiasmava-se com o Camões:
- “As armas e os barões assinalados (e dava uma passa no cigarro Kart) / que da ocidental praia lusitana (nova passa)….
Mas alguém bateu à porta! Era mais uma visita surpresa do diretor, o que obrigou o professor de português a esconder a mão, com o cigarro, no bolso. O poeta zarolho continuou a ser o tema, mas as atenções da turma estavam agora viradas para o que se passava no bolso. Havia atividade, mas o Ferrari era um professor muito batido nestas andanças, por isso aguentou a pressão, e ainda conseguiu dar a última passa no Kart, após a saída do visitante.  
Na barbearia o árbitro, que já tinha sido corrompido, conforme a tradição, que nestes tempos era exclusiva do colégio, e depois generalizou-se ao país, com uma nota de 500 escudos, para que fizesse o possível e o impossível para os cães…perdão, oficiais, ganharem, estava à beira de um ataque de nervos, pois detetara que o 288 (Minhoca) trazia umas meias do Sporting, e por isso jurou vingança. Em vez de lhe cortar um “pente 4” como fora pedido, aplicou-lhe um “pente 2”, sem reclamação, pois caso o fizesse seria imediatamente presente ao Oficial de Dia, o capitão Espírito, por estar “indevidamente fardado”, arriscando-se por isso a sentir o calor da sua régua de madeira. Amor com amor se pagava, o futebol já neste ano longínquo de 1973 movimentava paixões.
O dia do Derbi da Luz chegou, no campo de futebol de 11 a assistência só tinha uma cor, cotim, e na altura da troca dos galhardetes, o alferes Santola foi presenteado com um soberbo osso de vaca, conseguido graças ao chefe das cozinha, que ultimamente andava um pouco stressado, pois de cada vez que saia das instalações tinha à sua espera uma multidão de alunos que o escoltavam até à portaria ao som de gritos: “Meia-Lua, Meia-Lua, Meia-Lua…”! E numa das vezes chegou a rebolar quando o pau que empunhou para arriar no 305 (Vinasse), o que estava mais à mão, encravou num ramo dum eucalipto, tendo-se desequilibrado. Quando o árbitro se preparava para dar início ao encontro apareceu a acelerar pela pista de atletismo, na sua Java 125, o senhor Patronilha, que foi de imediato contemplado com um cartão vermelho. Após este incidente o apito soou e deu-se início a mais um dérbi, onde houve pequenas escaramuças e um penalti marcado à última da hora, mão do guarda-redes dos alunos dentro da pequena área!
 

Monday, September 10, 2012

Camarada Choco 90 - Missão (quase) Impossível

Camarada Choco
Aventura 89

 
São Pedro, um Aparafusado celestial, nem queria acreditar que o Patrão lhe tinha enviado um dossier preto, sinal de que teria de ir fazer uma recolha difícil. Abriu a capa e, como do costume, a primeira folha tinha as coordenadas do local. Usou o Google e:
- Venteira?? Outro Desaparafusado? Já se está a tornar um hábito!
Virou a página e leu o perfil do candidato.
- Um mongão? E ainda por cima vem com pré-condições: deverá estar debaixo dum relógio e levar um ósculo na testa! Maldito destino, só complica o que é fácil!
Mas como o Patrão escrevia sempre direito por linhas tortas, a Dona Lucy, uma Aparafusada duvidosa, acabou por facilitar as coisas. Como não tinha espaço para alimentar a Trovoada resolveu tirar o emplastro da frente, dando-lhe um valente empurrão com uma perna. O Senhor Mongão, que já sonhava com mais uma tarde de luxuria com a Pirosa, acordou estremunhado e só parou debaixo do relógio do refeitório.
- Yes, metade já está feito, - gritou o Peter cosmológico, dando uns bónus à Dona Lucy.
O Senhor Mongão estava agora com um olho semiaberto, pensando ter-se tratado de uma investida precoce da sua concubina, mas deu de caras com a Lolita, que gritou:
- Arre, mas isso são maneiras de conduzir. Organiza-te!
A hora era de almoço, ou seja, a Dona Pilca impunha agora uma rígida disciplina militar.
- Hoje só comem dois tomates cada um, e se alguém quiser mais coma os seus, - gritou com os braços levantados, deixando cair os óculos no empadão de raspas de solha.
- Não precisas de gritar, os meninos ainda podem engasgar-se, - interveio a Pirosa, correndo para o Senhor Mongão com o prato do almoço, dando-lhe um ósculo na testa.
- Yes, missão cumprida, vinte créditos para a Pirosa, - exclamou o Peter celestial, ao mesmo tempo que enviava um sms ao Patrão. – “M ão a Kminho”!
Na sala do Senhor Mongão as relações com o Peixe-Espada não eram as melhores. Durante anos este fora obrigado a assistir, entalado numa mesa de pernas altas, às tardes de luxúria entre a Pirosa e o Senhor Mongão, uma espécie de canal, sem poder petiscar. Nestas alturas gritava e atirava com os lápis para o chão, sendo de imediato ameaçado pela Dona Lucy:
- Se continuas a portar-te mal envio-te em correio azul para a sala do Pintor.
O resto da história seguiu o guião escrito nas estrelas, e à noitinha o Senhor Mongão já estava a tomar um cafezinho com o Peter celestial, que já tinha um rumo para ele:
- Por teres sido um Desaparafusado tiveste uma boa vida, agora é altura de ires para a estiva, calão!
Noutra ponta do Cosmos o Peixe Espada esfregou os indicadores para a desgostosa Pirosa, como que dizendo, “agora és minha, logo à tarde vais ver quem é aqui o menino”! 

Tuesday, September 04, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 17 - Instrução Militar


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Estávamos no ano letivo 1972/1973 e a turma E do segundo ano preparava-se para iniciar a aula de Instrução Militar (mais conhecida por INFIA). O jovem tenente fazia a chamada e ia ouvindo gritos alternados de “presente”, ao estilo inconfundível de militares . Até que:
- Aluno 601!
- Presunto.
Risota geral! Houve uma pausa, uma breve pausa na rotina, até que o oficial investiu raivoso sobre o prevaricador que tinha ousado parodiar com a instituição militar, e deu-lhe um soberbo carolo, que o fez soltar um grito estridente de morte. Seguiu-se a apresentação do evento, iriam ser divididos em três grupos, as três filas da formação, que seriam comandadas por alunos a designar, tendo como missão deslocarem-se para um canto da parada, onde fariam o manuseamento das Manelican à ordem do chefe do momento. Ao prevaricador Gordini (601) foi entregue o comando da terceira fila e indicado o local para onde se deviam deslocar: o canto esquerdo da parada!  Até ao local o aprumo foi exemplar, o modelo seguido era o colega 69 (“o número mais vergonhoso do colégio” – Horrível ), Manelican no ombro esquerdo, braço direito a subir até à altura do ombro, barulho dos calcanhares a bater no solo, só destoava a voz fininha do líder, mas depois de um carolo daqueles não se podia pedir mais. Mas não pararam no sítio indicado, dobraram a esquina, e uma vez dobrada as instruções foram outras, “destroçar” foi a ordem, mas foi um “destroçar” organizado, que obrigou a uma escala na vigilância. Os movimentos do tenente deveriam estar controlados, não se podia arriscar. O 125 (Horrível) sentou-se no chão e puxou de um cigarro, ao mesmo tempo que contava as aventuras amorosas do fim-de-semana, não fosse ele um dos mais precoces, ou imaginativos, do batalhão colegial. Os outros optaram por fazer um despique de petardos, parecia o foguetório de uma festa de verão. Ao longe as outras duas filas trabalhavam que nem formigas, “firme”, “sentido”, “ombro arma”, “apresentar arma”, “ombro arma”, “descansar arma”, “à vontade”, num movimento automático que até cansava os pupilos do aluno Gordini (601), que ressonavam no passeio, junto à porta lateral da quarta companhia. De repente o 191 (Peidão), que estava de vigia, gritou:
- O Cuequinha vem aí!
Ao longe via-se o tenente a acelerar o passo não acreditando no que via, mais precisamente no que não via, a terceira fila do 2º E. Quando dobrou a esquina deparou-se com uma formatura impecável, em “apresentação de arma”, um miminho para o oficial, cujas Manelican estavam todas apoiadas com o cão nos cintos de cabedal, para assim aliviarem os braços dos meninos. Mesmo assim o Cuequinha quis saber a razão para a escolha daquele local, tendo o fator “sombra” sido a justificação. Deu então ordem para se deslocarem para a ponta oposta, local mais próximo dos colegas, e assim sucedeu, braço à altura do ombro, calcanhares a castigar o alcatrão, e a mesma voz esganiçada do líder, sinal de que ainda não passara o efeito inebriante do fabuloso carolo do Cuequinha. Mas a cena repetiu-se, a terceira fila do 2º E tornou a dobrar a esquina e “destroçou”, desta vez junto à porta lateral de acesso à terceira Companhia. O recreio durou pouco, o oficial estava atento! Foram salvos por uma inesperada chuva torrencial, que alterou o plano da aula:
- Formar, - gritou o tenente, quando todos se preparavam para uma debandada geral.
Seguiu-se a ordem de “passo de corrida em frente marche” até à sala de armas, lá para os lados dos claustros. Se fosse nos tempos que correm o facto era notícia da primeira página do “Correio da manhã”, que diria que os alunos se tinham constipado por terem ficado com as cuequinhas molhadas, mas felizmente tudo tinha decorrido nos anos setenta do século anterior, em que as cuequinhas ficavam molhadas, não pela chuva, mas pelas aparições espontâneas da mítica Rosa. E não consta que ninguém tenha ficado constipado por marchar debaixo de uma carga de água torrencial.