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Wednesday, March 30, 2011

Camarada Choco 78 - Agarrem que é ladrão

Camarada Choco

Aventura 77

Apesar de já não poder guiar o “machibombo”, o Castanheira ainda estava “prás curvas”, e foi por isso que o intruso não passou despercebido e teve de acelerar mal se apanhou no exterior da Escola para Desaparafusados & Afins da Venteira. Mas no seu encalço ia o motorista mais famoso da Brandoa, capaz de conduzir uma carrinha de nove lugares com trinta Desaparafusados, e dos grandes, no interior, mais a Mosca Morta, a Tété Destravada, a Jaquina, e quantos fossem precisos, e tudo isto sem usar os travões na maior descida do local, com 90% de inclinação, que colocava sempre o conteúdo estomacal da Careca colado ao pára-brisas, altura em que o Castanheira passava a guiar por instinto. A primeira curva foi feita em slide, o intruso, que passará a ser conhecido como Xungoso, pareceu ir capotar, enquanto que o nosso herói  começou a ter “rates”, sinal de que as válvulas do escape já estavam lassas devido à idade; na recta o Castanheira ainda conseguiu pôr o turbo, mas foi traído pelos óculos chineses que insistia em usar, e por isso não viu que o Xungoso se despistara e entrara de rompante num dos prédios. Felizmente as carcaças da padaria serviram de air-bag e o nosso herói pode regressar à escola são e salvo. Deu de caras com a Afilhada Principal, a única vítima do Xungoso, que ameaçava tudo e todos com um mês de raiva, pois o intruso roubara-lhe o que de mais precioso tinha:
- Dinheiro?? – Perguntou a terapeuta Zézé.
- Isso não interessa!
- O B.I.? – Questionou a Fisio Raposinha.
- Faz-se outro!
- O Multibanco? – Interveio o Vira-Bicos.
- Tenho mais!
- Cheques?
- Nãooooooooooo!
O mistério adensou-se, porque é que a Sobrinha Principal ameaçava lançar a bomba atómica? Nem uma promessa de aumento a fez deixar de espumar. A verdade veio a seco:
- O Xungoso ousou levar a carteira onde eu tinha a foto dos meus anjinhos a atirar a vizinha do r/c chão do telhado do prédio!
Era demais, nem com o argumento de que oportunidades  de registar os seus meninos em actividades pedagógicas iriam ser diárias, a convenceram a recolher as garras.
- Eu quero a foto!
E tudo se esclareceu algum tempo depois quando se descobriu que após o despiste o Xungoso largara a carteira. Mesmo assim a Afilhada Principal apresentou queixa às autoridades, e prometeu apresentar como prova as imagens dos filmes clandestinos da Madrinha, a Dra. Com Caneco (ex-Sem canudo).
- Ordeno-lhe que deixe de apresentar queixa, - gritou a Dra. Com Caneco, com receio de também passar a ser companheira de carteira do Xungoso.
- Nem pensar, o seu colega…perdão…aquele indivíduo, quase traumatizou os meus meninos, - berrou a Afilhada Principal, de dedo em riste. – Se eu chegasse a casa sem a foto, os meus anjinhos poderiam deixar de arremessar velhas do telhado, e isso teria com toda a certeza implicações nas suas vidas adultas. Eu quero ver a cara do Xungoso, para o atirar do prédio mais alto da Venteira.

Thursday, March 24, 2011

Camarada Choco 77 - A Caminho do Caos

O Camarada Choco

Aventura nº 76

Quando a Menina Tatrícia viu a amiga da Mosca Morta nem quis acreditar: sapatos de agulha, cabelo Estilo Moisés, calças rotas da Brandoa, unhas primorosamente pintadas, carinha laroca, e decote atrevido. Distribuía miminhos pelos Desaparafusados e sorrisos Pepsodent aos Aparafusados.
- Vens trabalhar para aqui, vens – resmungou a Menina Tatrícia. – A primeira vez que mudares uma fralda e ficares com merda nas unhas, voltas para a loja a ganir.
Mas não foi assim, a Pirosa apaixonou-se perdidamente pelo Choco e nunca mais largou o clube...integrou-se. E num dia de chuva os Desaparafusados que estavam à responsabilidade do padrinho do Choco foram acordados, enquanto dormiam alegremente no ginásio, por um som descorporizado, onde se via através dos ouvidos, hossanas atrás de hossanas, entre o estridente e o inaudível. A Pirosa arriava de olhos fechados na Lobisomem, que assimilava os papo-secos ao mesmo tempo que gritava por todos os poros, no meio de um lusco-fusco com cheiro a merda, à frente de uma turba em estado letárgico, reflectida no espelho do cagatório número 3, que já não via o pano da Kalélé há várias semanas. O corpo da Lobisomem estremecia à medida que ia enfardando. Na sala da Dona Pilca, já praticamente reformada destas histórias, a Barbuda não aguentava a pressão e declarava-se perseguida pelos colegas Desaparafusados, e por isso ameaçava greve à apanha dos croquetes diários das cadelas se as condições de trabalho não fossem imediatamente alteradas:
- Não quero ser mais chamada de Barbuda, exijo ser tratada por Lili Kroketes, com dois “k”. Entendido?
De Desaparafusados percebia o Stor Pobre, sentia-os à distância, em qualquer lugar, a qualquer hora:
- Tens toda a razão, é justo, a partir de agora a ordem para ires apanhar os croquetes vai ser dada em código e não te dirijo o olhar. Vou fingir que é com um dos teus colegas que estou a falar.   
- Aceito, – disse a Barbuda…perdão, a Lili Kroketes.
A palavra passe passou a ser “Barrote Croquetes”, com o Stor Pobre de olhos colados no monga Raló, e o Bitó a fazer de eco. E como não havia duas sem três, entrara outra sala em convulsão:
- Tinto, trocou o clássico cinzeiro por carrascão? – Gritou a Dra. Sem Caneco (ex Sem Canudo) sem se aperceber de que na sala ao lado (a quarta!) acabara de tirar o Nélinho do seu estado natural de letargia libertando-o, mais uma vez, dos seus impasses, e continuou. – Com estas garrafas de tintól para muitos dos nossos queridos Desaparafusados não vai ser o “Dia do Pai”, mas um normal “Dia da Pinga”.
- Mas a garrafa é do tamanho dum bribon, para esses não lhes faz efeito nenhum, – justificou-se a Sobrinha da Tarde Número Um, já com meia-paralisia facial.
Felizmente a cena foi interrompida pelo ciclone emocional, e já rotineiro, do Nélinho, que exigia a presença imediata da Doutora Sem Caneco no primeiro andar, para um taco-a-taco. A Madrinha já tinha mudado de alvo e estava agora com o estado compulsivo virado para a Beta Cigana que, por ser namorada do filho do presidente, passara a bater diariamente em todos os colegas Desaparafusados do Lar e ameaçava com despedimento os Aparafusados que a impediam de distribuir os papo-secos. Mas o problema mais grave dizia respeito ao Choco, mais precisamente ao seu pepino, que ele insistia em esgalhar diariamente ao longo dos últimos meses, tendo sido até aqui classificado o gesto pelos especialistas como “punheta”, mas que agora mudara de figura ao ter sido descoberto um terceiro tomate. Informada a mãe, o caminho da urgência do Centro de Saúde foi a atitude mais correcta, mas a Dona Native não se revelou, mais uma vez, a pessoa indicada para transmitir ao “dótór” a descoberta:
- Ele “em” um “tico-tico” (sic), passa a “ida” a tocar à gaita, – disse de rajada a progenitora Desaparafusada.
Nem aqueceram o lugar, foram de imediato recambiados para a consulta de psiquiatria, como já era habitual, pois o “dótór” insistia em despachar todos os doentes de rajada, para assim atingir a quota diária e pirar-se para o privado, onde fazia o mesmo mas amealhava muito mais.    








Sunday, March 13, 2011

Camarada Choco 76 - Venteira Brinca




Camarada Choco
Aventura 75
As autoridades da Venteira queriam impressionar o povo, e assim convidaram todas as escolas da zona para um grandioso desfile de Carnaval, mesmo as do interior profundo, que iriam mostrar a todos que a paixão continuava a ser o tacho…perdão a Educação. Por isso foi com orgulho que a impagável Doutora Sem Caneco, apelido que substituíra o verdadeiro, “Sem Canudo”, alegando pressões políticas dos adversários, que desejavam roubar-lhe os tachos…perdão, o labor e a dedicação “aos coitadinhos dos Desaparafusados” (sic), recebeu das mãos do Presidente da Junta o convite para o mega desfile à roda do chafariz. O ofício que chegou às salas ordenava a todos os participantes para estarem devidamente apalhaçados às 10 horas da manhã, afim de irem conviver com os Aparafusados da rua de baixo. O Pitrongas apresentou-se como candidato a super-herói, com uma toalha vermelha de bidé a fazer de capa, o pijama azul do pai a acentuar-lhe o ar feminino, e as cuecas encarnadas fio-dental da mãe a dar-lhe o imprescindível toque aerodinâmico; o Ládi Manquê, também conhecido como o Coxo-Mais-Rápido-da-Brandoa, apresentou-se impecavelmente travestido com o equipamento da selecção de futebol de Cabo verde, a terra onde tinha aberto o coco de lés-a-lés, após uma queda nas rochas, e perdido grande parte do conteúdo esponjoso, que fora rapidamente substituído por areia da praia; o Choco, impecavelmente vestido de Cobrador do Traque, estava vidrado numa colega metida entre plumas, decote estonteante e pêlos que mergulhavam em profundezas convidativas, tão vastas e abundantes como pradarias, e por isso a mão direita aumentara as rotações debaixo da mesa, como já fazia habitualmente; a Doutora Sem Caneco apressava a comitiva, tudo nela era excessivo, a voz arrebatada às profundezas, a cabeça em movimento de rotação, excetuando o discurso que se mantinha naturalmente incoerente, abrindo as caixas das fantasias com raiva antes que tudo se desmoronasse na incredibilidade:
- Onde é que está o chapéu multicolor? – Perguntou, já com ar de arrufo.
Por momentos a Dona Pilca ausentou-se e ficou entregue ao seus próprios pensamentos, que lhe davam a imagem da chefe a entrar no Ministério com o fato de banho azul, que doara à Mary Maluca, com todos os sovacões ao léu e o soberbo chapéu de Pierot, que agora procurava desesperada.
- Pilca, – gritou.
- Não disparem, não disparem, – levantou-se estremunhada a já afamada Pintora de Guardanapos da Venteira, fazendo um enorme bigodão a um anjinho com a cara do Cabo Pilas.
À sua frente estava a Doutora Sem Caneco atrasada para uma reunião de angariação de fundos na capital, atirando contradições e paradoxos, e já à beira de se metamorfosear em algo cheio de dissonâncias, e do seu lado esquerdo passou apressada a pequena Lolita, o seu fiel Cobrador de Fraque para Prendas & Afins, imitando na perfeição os trejeitos da hilariante Madrinha.
- Meta já todos estes Desaparafusados na rua, e use esse pincel que tem na mão para dar retoques aos que não estão devidamente apetrechados para este dia tão chato…perdão, feliz, – gritou a senhora absoluta da Escola para Desaparafusados & Afins da Venteira, fazendo um gesto que exprimiu na perfeição a cacofonia dos doutores, autênticos doentes que prescrevem receitas, os seus chavões, o seu palavreado, repetido vezes sem conta em enfadonhos oráculos, responsáveis pela fragmentação do seu talento (fim de convulsão do escritor).
Quando o gang de Desaparafusados chegou ao local o mundo parecia estar a rodar a uma velocidade inferior ao normal e os seres atordoados pelo efeito do Tegretol. Foram recebidos por um palhaço com um dilema identitário, deixado para trás numa qualquer encruzilhada pedagógica, que lhes perguntou gentilmente:
- Querem pela frente ou por trás?
Após um espaço e um tempo de inércia, em que a Terapeuta Zézé corou e se inquietou, ouviu-se um sonoro suspiro, e quando se preparava para responder levou uma cotovelada da colega, que a fez engolir em seco o que lhe ia no mais fundo do seu Sub-Consciente, que se caísse nos ouvidos errados dava com toda a certeza como pena um ano inteiro de Padres-Nossos e Aves-Marias, e cem voltas a Fátima de joelhos.
- Pergunte àquela sueca, – respondeu a Stora Raquete, com uma voz doce e frágil, apontando para a Sobrinha da Tarde Número Um, que aproveitara as festividades para se transformar naquilo que os genes lhe tinham negado.

Tuesday, March 08, 2011

Camarada Choco 75 - E depois do "Adeus"


Camarada Choco
Aventura 74
O impagável Cabo Pilas nem queria acreditar no que via. No hall da entrada da Escola para Desaparafusados & Afins, da Venteira, alguém tinha afixado um papiro, extenso e exigente, uma promiscuidade entre imagens e letras, onde o texto era redigido em camadas, incorporando indecências e subtextos, com uma liberdade e engenho que levava os leitores, Aparafusados e Desaparafusados, a não saberem exactamente onde estavam. Era uma mistura crítica dos costumes e do misticismo que coabitavam na Escola mais famosa da Venteira.
- Até na hora da despedida me insulta, – resmungou, esfregando, com rapidez e repetição, as mãos uma na outra, exibindo alguns desajustes relativamente ao espaço onde labutava, metamorfoseando-se em algo cheio de dissonâncias, porque nunca tinha aceite o tempo da vanguarda.
Aquele quadro deixara o Cabo Pilas num estado de desaparecimento ontológico, para ele o papiro era uma espécie de buraco negro na iminência de o engolir. No fundo deste desabafo havia uma história, uma ilusão, inconfessabilidades onde a libido e toda uma esperança foram afogadas por graves problemas de vizinhança, e tudo isto por uma troca de nomes mal calculada: em vez de “Dr. Cabo Pilas” saíra a frio e sem retorno um “Chiquinho”! O ex-militar vinha atordoado do primeiro andar devido ao vazio da sala vizinha, e revoltado com a firmeza dos seus valores, das suas esquisitices que divertiam os colegas, que estavam ensopados no seu ADN e talvez nos odores das cuecas molhadas. Segundo a lenda, a figura rígida e confusa do Cabo Pilas devia-se ao facto de ser descendente directo de Adão, e duma infância e adolescência aconchegadas, que o tinham convencido da sua genialidade e sapiência, e daí a sua incessante procura pelo amor-perfeito.
- Comporta-te Pilas, – disse baixinho de si para si. – Deixa-te de lamechices, ela foi-se embora para o meio do Atlântico, e isso é bom para ti, o teu espaço vital aumentou, – e susteve a respiração, ao mesmo tempo que fazia um percurso geográfico e mental ao primeiro andar.
O seu pensamento catastrofista foi momentaneamente interrompido pelo aparecimento do seu irmão gémeo univitelino, que lhe deu os bons-dias. O percurso da Prima da Afilhada da Doutora sem Canudo até ao primeiro andar tinha sido atípico e contra a corrente dos direitos adquiridos. Entrara na vizinhança do Pilas a seco, sem pedir licença, e sem pausas. Recusou manter-se submissa a este eterno candidato a chefe libidinoso e autocrático, que só conhecia a vida no limite da tortura física e mental, com um subconsciente carregadinho de sal.
- Kodac, o que é que estás aqui a fazer? - Perguntou a Psicóloga Morena, que acabara de entrar e o olhava de costas.
- Mas que mania, já está cá há tanto tempo e não nos consegue distinguir?
- São os malditos pescoços!
Subiu com tristeza a escada e fechou com leveza a porta do gabinete, regressando à pureza selvagem, cheio de dores metafísicas, contradições e paradoxos.

Tuesday, March 01, 2011

Camarada Choco 74 - A Batata Quente (versão nova do Desenvolvimento Pessoal e Social)


Camarada Choco
(nova versão do Desenvolvimento Pessoal e Social)


Tinha-se chegado a um ponto sem retorno, o abismo estava cada vez mais perto, a ponte para a outra cueca...perdão...para o outro desejo, tinha de abrir caminho a todas as aventuras e sonhos, e as almas brutas dos Desaparafusados estavam carregadinhas de emoções intensas, irresistíveis, de gestos, de rituais interditos, de quem os Aparafusados fugiam como o Diabo da Cruz. A Natureza andava a brincar com os Desaparafusados, negava-lhes muitos dos direitos dos Aparafusados, mas em relação a este aspecto punha-os ao rubro, e aí os Aparafusados empunham a ditadura da teoria que lhes negava a socialização da prática. E foi assim que, mais uma vez, o tema “sexo” ficou a cargo da Doutora das Almas, uma expert em secas, que decidiu que os Desaparafusados adolescentes iriam fazer uma visita de cortesia aos Desaparafusados com idade de voto, mas sem esse direito, apesar de muitos deles terem mais capacidades do que muito dos Aparafusados que iam às urnas. A excitação estava dentro dos parâmetros normais, incluindo várias borras, mijas e convulsões de última hora. Na sala a formadora esperava pacientemente os utentes, entretendo-se a desenhar no quadro um objecto constituído por dois círculos pequenos e uma linha recta avantajada. Os assistentes foram-se acomodando à medida que chegavam e algum tempo depois o local já fervilhava de mongas teenagers inconsequentes.
- Bem, podemos começar, – avisou a oradora, apontando para o desenho. – Isto é um Pénis! Alguém sabe o que é um Pénis?
- Énis...Énis, – levantou-se de imediato alguém da assistência com o braço no ar. – Énis, Énis.
- Diz lá, Palmira Melga, o que é um Pénis?
- Énis...Énis, – gritou em estado convulsivo, sendo acompanhada pela multidão em histerismo. – Énis, Énis.
- Vá lá, explica aos teus colegas, – insistiu a Doutora de Almas.
E como um gesto vale mais do que mil palavras, a adolescente puxou de imediato o Choco, que estava ao seu lado, e prontificou-se para mostrar o que era o “Énis”. O macho não cabia em si de contente por ter sido ele o eleito e deixou escapar a sua enorme língua de encontro ao chão. Abriu os braços e avançou a bacia em sinal de cooperação.
- Énis, Énis.
Puxou pelo indicador da mão direita e colou-o de imediato nos ténis vermelhos número 50 do seu querido e respeitado Choco. A decepção foi geral, mas não evitou que a turba exibisse sem pudor os seus ténis. O retorno à calma só foi possível porque o stock de drunfos estava sempre por perto, e até a doutora tomou um dos vermelhos, pois o tema também a enlouquecia.
- Énis, Énis, – repetia sem descanso a Palmira Melga, alheia ao caos em que se transformara o “Desenvolvimento Pessoal e Social”.
- Quem sabe o que é um “pénis”? – Insistiu a oradora.
De imediato o Choco tomou a iniciativa e, saltando para o palco, tal qual um felino, gritou bem alto para quem o quisesse ouvir:
- Áálho, áalho, áalho, – rosnou o herói do cinema mudo, ao mesmo tempo que baixava furiosamente os calções...perdão, os cinco calções multicolores vestidos dois meses antes. Nem as vozes contra o demoveram da exibição e num piscar de olhos ficou com a cintura pélvica ao léu, mostrando ao público o apêndice, agora avantajado devido ao calor da discussão, torto e com um nó, graças a Deus. E no meio disto tudo ainda se ouviram dois gritos alucinados, um da Doutora das Almas e o outro da Madame Amorim, que desmaiaram com a emoção. O Choco permaneceu em sentido exibindo o seu fabuloso Chevrolet com os pneus furados, também graças a Deus, uma precaução da Natureza, não fosse ele querer seguir as pisadas dos progenitores e manter indefinidamente a inscrição da família Choco na Caixa Nacional de Pensões. E ficou ali, congelado, debaixo da luminosidade certa, único e insubstituível, coquete e apaixonado, com uma plateia ao rubro, que cheirava a sexo. Foi necessário esperar algum tempo para fazer sentar a Papoila que, devido à sua fraca visão, insistia em ver o Chevrolet, tendo-se para isso deslocado para junto do colega e colado os olhos no descomunal pepino. Quanto aos outros machos presentes, todos eles também exibiam os seus dotes às colegas interessadas...todos? Todos não, dois deles, o Ambrósio Caspa e o Monga Macaco, por mais que procurassem, não conseguiam vislumbrar os seus cacetes, ausentes devido às contingências genéticas.
- Amigos, tenho outra pergunta para vos fazer, – avisou a Formadora, conseguindo captar a pouca atenção dos presentes.
O próximo tema era difícil e por isso a Doutora das Almas avançou com muito medo:
- Alguém sabe o que é uma “Vagina”?
Foi demais! Com esta o Choco não se aguentou e atirou-se sofregamente à Zobaida, que permanecia no seu normal estado letárgico rodeada de moscas, mas foi traído pela sua visão estereoscópica, indo cravar os dentes na roda traseira esquerda, que apresentava um piso careca, despedaçando-a com estrondo, facto este que provocou um súbito desequilíbrio na pré-histórica cadeira de rodas, que não aguentou a traição da força da gravidade, arremessando, de imediato, o seu pesado conteúdo de encontro ao chão frio. Mas como o destino é muitas vezes madrasto, nesse preciso momento ia a passar a apressada Lolita que apanhou com os quilos da colega, mais os quilos da fralda, ficando espalmada, tendo tido ainda tempo de gritar:
- Organizem-se!
Foi com muito esforço que o Camarada Choco organizou os poucos neurónios, tendo o Conselho Pedagógico, que reuniu de emergência, deliberado amarrá-lo a uma cadeira com um saco de gelo entre as pernas. Decidiu-se também avançar com a projecção do pequeno, mas muito elucidativo, filme “A Actividade Sexual dos Caracóis, das Lentilhas e dos Percebes” da autoria do Alto Comissariado Europeu para a Inclusão do Sexo dos Desaparafusados (A.C.E.I.S.D.), responsável por muitas viagens transatlânticas das doutoras, com e sem canudo, dos ministérios, que estava previsto para o final da sessão. Entretanto, os organizadores desta educativa e pedagógica Acção de (Des)Informação acharam por bem também eles recorrerem à ajuda dos milhares de drunfos postos à disposição dos presuntos....perdão...dos presentes. O Fangio Espástico protestou porque queria que pusessem no ar a cassete com a gravação da sessão do canal 18 da TV Cabo do dia anterior. As lentilhas acabaram por ser mais eficazes do que os caracóis, pois conseguiram adormecer o impetuoso Choco, que encostou a cabecinha no regaço da sua amada Floribela. Quanto aos responsáveis pela organização, optaram pela fuga em frente:
- Vamos falar outra vez sobre “Vagina”, – continuou a titubeante oradora, lançando um olhar medroso para as suas colegas, ao mesmo tempo que ligava o projector de slides que atirou para o ecrã a imagem de uma rosa com a respectiva legenda: “Sexo Seguro”.O nome da Rosa abanou as profundezas da alma e das....cuecas, do nobre e altivo Choco, obrigando-o a dar um pulo majestoso, tal como um cobridor, mergulhando de cabeça no retrato...
- Ele vai dar cabo do ecrã – alertou a Doutora das Almas, conseguindo afastar-se a tempo do predador.
Não se sabe a causa, nem o truque utilizado, mas todos foram testemunhas juramentadas de que o herói saiu do local com uma rosa vermelha entre os dentes. Quanto à do ecrã, desapareceu misteriosamente sem deixar rasto.
- Lá vão as lentilhas outra vez, – gritou o projectista, rodando o manípulo do aparelho.
A doutora estava sozinha, fechada, tal como a sua mala escura, pousada na mesa. Encontravam-se na sala dois mundos separados, os Aparafusados e os Desaparafusados, pensando os primeiros que dominavam os desejos dos segundos.
O despertador tocou e a Doutora das Almas acordou sobressaltada. Olhou assustada para todos os lados, mas viu que estava só. Correu para uma mesa, agarrou nos papéis do projecto com que pretendia impressionar a Madrinha e aumentar o currículo virtual, e reduziu-os a pó. Deu um gole na garrafa de água, deitou-se, mas já não quis dormir mais!