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Monday, October 31, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 73 - Vai com ele, vai com ele!


O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 4



A tradição já não é o que era, a vitória já não chegava a quem se regia pelas leis, mas sim a quem ditava as leis, a quem as impunha aos seus adversários. Na bolsa de jogadores quem aposta no Fininho ganha sempre, por isso o Brinca na Areia já não é o seguro de vida para a vitória, e tudo isto desde o “Caso Lagoas Parque”, quando o suspeito trouxe o Sete Escadas, o veículo da golpada, um jogador descendente dos tripulantes da nave do “Caso Roswell”, segundo teoria do jornalista Bill, que causou danos existenciais em todos os atletas. A sua influência põe em risco a harmonia destes quarenta gloriosos anos, enchendo de vergonha os seus ancestrais, o Choné e o Miguel CG, que dão agora os primeiros passos na arte do Bocia paçoarcoense, antevendo um futuro glorioso no campo do lado. Será agora mais sensato escolher, logo após a saída da pedra, um velho com mais de meio século, que antes vinha no fim por exclusão de partes, a um “tenrinho”, classificação da tabela do “Capitão Porão” que ainda se mantem em vigor, assim como a mão na grande área significa livre indirecto fora dela. Este domingo solarengo esteve a favor do Fininho, a hora mudara, mas ninguém sabia em que estado viria o relógio dele? Marcaria um golo e daria por finda a partida, alegando falta de visibilidade como era prática antiga, ou aceitaria a lei, e a hora seria a oficial? Quando o pai e o filho marinheiros apareceram com chuteiras amarelas, uma bola de berlinde como esférico oficial e luvas estilo barbatanas para o guarda redes, o Bill, jornalista dos angolanos, com pouco faro para o jogo, mas muita intuição para as notícias, desconfiou, o colega da TVI, o único jogador que mantinha o penteado do princípio ao fim, sinal de que não usava a cabeça para nada, típico dos atletas da família, preparava-se para prometer uma entrevista exclusiva ao Pedro Dias no final da partida, e por isso a gestora espanhola, que não percebia nada de números, oferecera-lhe a ele e ao pai umas faluas cor de canário. A tradição mantinha-se, o Milhas mandou vir com o Peidão por causa da equipa:
- És sempre enganado, eles só têm dois velhos, o Fininho e o Marinheiro pai, o resto é só malta nova!
Ficavam de fora da contagem do jogador mais complicado de todos os tempos os adolescentes Laranja e To Zé! Após os primeiros vinte minutos de jogo já todos sabiam que a vitória não iria fugir à equipa adversária do Fininho. Puro engano! A uma dada altura da partida deu-se o incidente habitual, que faz sempre mudar o destino do encontro, mais uma vez protagonizado entre o senhor todo poderoso do Lagoas Parque e o infeliz do árabe, que na semana anterior tinha sido atirado de pantanas pelo ar. O marcador anunciava um resultado de 4 a 6 quando o Fininho se atirou de encontro ao Milhas, mas este protegeu-se miraculosamente, atirando com ele de encontro a uma parte macia do campo.
- Blasfémia, blasfémia, - gritaram os seus jogadores, exigindo um penalti duplo.
O Fininho tinha sido atirado para longe e jazia no chão com um ombro inconsciente. Durante algum tempo pareceu-lhe ouvir o barulho da carroça do senhor Bazílio a sair da carvoaria na Avenida, para mais uma distribuição de carvão pela zona. Abriu os olhos e viu-se rodeado da Amélia, da Terrugem de Cima, e das suas seis filhas, a Isabel, a Maria de Lourdes, a Rosalina, a Graça, a Arminda e a Maria Adelina, que lhe diziam:
-Acorda Fininho, estás a perder, precisas de repor a verdade do jogo!
Ao Peidão tinha-lhe saído a pedra, mas mesmo assim jogou a maior parte da partida com menos um jogador, sinal de que aqui também havia mão do Fininho, especialista em rapto de jogadores. A verdade do jogo só foi reposta quando o pai Marinheiro fez “auto-falta” e lesionou-se, sendo obrigado a recolher ao banco. As equipas estavam finalmente com o mesmo número de jogadores. Quando o Fininho ressuscitou, todos esperavam pela pesada sanção, mas surpreendeu os presentes com um veredito invulgar:
- Não foi falta! – Disse, piscando o olho ao Bill.
Não foi falta, mas foi golo cinco minutos depois, após um alívio suspeito do amigo dos angolanos: 5 a 6 no placar! Mas os festejos duraram pouco, um contra ataque da equipa mais poderosa, em que o apelo desesperado do adolescente Laranja a um companheiro, “vai com ele, vai com ele”, e apontou para o Espalha, fez com que todos corressem na direcção do sobrinho da Uber, abandonando o portador da bola, que se limitou a chutar o esférico para o fundo da baliza. Durante toda esta dinâmica futebolista o jornalista da TVI esteve mais preocupado em manter o penteado intacto para a chefe Judite. Durante a ausência do maestro, até o pacato To Zé simulou uma falta grave na grande área, acusando o mártir Milhas de uma agressão violenta, parando o jogo e evitando um golo iminente do referido árabe, que enrolou a língua nas cordas vocais e repetiu a frase de protesto várias vezes, acabando por isso de ganhar mais uma alcunha: Papagaio! E antes de dar por terminado mais um relato dos vergonhosos acontecimentos, o Chico Paulo demonstrou, mais uma vez, estar do lado dos inimigos ao permitir dois frangos monumentais que deram a vitória ao Firmourinho. Como prémio de consolação regista-se o monumental golo familiar protagonizado por dois soberbos jogadores, o Zé Miguel e o Peidão que, após o grito de guerra “passa a bola ao papá”, o veterano enfiou o berlinde dentro da baliza adversária com o pé esquerdo. Espera-se que no próximo encontro a verdade do jogo seja reposta, como é apanágio de um Estado de Direito Democrático!

Thursday, October 27, 2016

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 82 - O Semita

O Comandante Guélas

Série Colégio Militar



A essência do CM é possível captar através das nossas memórias, transformadas em estórias. Contava a lenda que o Grijó, professor de Físico-Qímicas, mais conhecido por Semita, viera para o Colégio Militar após uma expulsão das minas da Panasqueira, de onde tinha sido corrido com uma “bengala” por ter feito mal os cálculos da dinamite, e por isso rebentado com uma galeria. E isto teve consequências devastadoras na personalidade do engenheiro, pois nos dias de trovoada as aulas acabavam logo com o estrondo do primeiro relâmpago. Era senhor de um nariz adunco, tinha a voz rouca e um cabelo amarelado, não se sabendo se estas duas últimas características se deviam aos efeitos da explosão. Porque sofreu violentamente na alma, fez sofrer os seus alunos que, apesar de tudo, se lembram dele como se fosse hoje. O Volvo 130 azul já há muito tinha sido estacionado junto ao pavilhão de Desenho e Trabalhos Manuais quando se deu uma explosão lá para os lados do laboratório de Química, junto à Enferma, seguido de uma reprimenda monumental do Semita:
- Ó Morais, és um bronco, disse-te para cortar mais fininho o produto! – Gritou o professor para o seu assistente, o Ruca ou Fiasco.
A gargalhada foi geral e acompanhada de ruídos de animais, por isso o Semita retaliou de imediato, distribuindo ponteiradas e gritando:
- É gado, é gado, nesta aula uns dormem de olhos fechados e outros de olhos abertos, - e continuou. - Tenho aqui as vossas notas, que são uma miséria - e olhou para o 668. – Moço, sabes andar de bicicleta? – Perguntou, ajeitando o cabelo.
- Sei! – Respondeu o Peida Gorda.
- Então vais levar uma “bicicleta” – disse, com a voz rouca que o caracterizava, e continuou. – Ó moço, tu não tens memória, tu tens uma vaga ideia. - 666?
- Aqui!
- Levas para casa uma “bengala”. Oube lá ó mocinho, tu percebes tanto disto como o sapo tem cabelo. Já viste algum? Ora aí tens! 384?
- Sou eu.
- “Bicicleta”! Psché, num monte de esterco fazes nódoa.
Quando entrou na sala de professores, após o final da aula, o assunto do dia era a derrota do Futebol Clube do Porto frente ao Sporting, por isso aproximou-se do Pereirinha e do Santana e gritou:
- Senhor tenente-coronel, vá para o cara..., - e saiu.
Regressou de imediato:
- Senhor tenente-coronel, olhe que é facultativo!
Mas o dia não estava a correr bem para o Semita. Foi desafiado para uma partida de xadrez pelo engenheiro Casanova, e algum tempo depois reagia no decorrer da partida:
- Não jogue assim, porque senão ganha-me, - avisou, já um pouco exaltado.
- Mas eu jogo mesmo para ganhar! – Retorquiu o adversário.
Não era esta a resposta que o professor de Física e Química, que obrigava os alunos a decorarem a Tabela Periódica e as Leis de Kirchoff, desejava ouvir. O seu pensamento estava agora a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando encontrar um interruptor que acendesse uma luz. Mas a jogada do adversário precipitou as coisas:
- Xeque ao rei!
Com a mão esquerda o engenheiro Grijó, que era senhor de um grande livro de exercícios resolvidos que nunca ninguém conseguira deitar a mão, virou as peças do tabuleiro e retaliou:
- Ainda se lembra da jogada?
Apercebeu-se que já estava atrasado quando ouviu o segundo toque para o início das aulas. Correu de imediato para o pavilhão de Química mas a turma evaporara-se, excepto dois artistas, o 191 e 591 que, sabe-se lá porquê, acabaram interceptados pelo docente, e levados compulsivamente para a aula, onde foram confrontados com uma situação inesperada:
- Vou fazer chamadas orais, aleatoriamente! – Disse o professor que costumava contar aos seus alunos que quando tinha a idade deles cuspia no pão que levava para a escola, para que os colegas não o comessem.
À tarde ainda participou numa partida simultânea de xadrez, Semita versus Alunos e, pela primeira vez na história deste estabelecimento militar, um aluno ganhava terreno ao professor de Físico-Químicas. Mas foi sol de pouca dura. Com um golpe “acidental” da sua gabardine, o engenheiro Grijó acabou com a ousadia do atrevido, espalhando as peças sobre o tabuleiro. A assistir à cena, e perto da derrota, estava o 15 que, aproveitando a sabedoria do mestre, deixou cair o barrete sobre a zona do jogo. Foi a única vez que se ouviu um elogio do senhor da Panasqueira:
- Moço, essa foi a melhor jogada que fizeste até agora, - exclamou, avançando para o aluno do lado. 




Wednesday, October 26, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 72 - Obrigado Zé!

O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 3


No futebol de Paço de Arcos não há detalhes supérfluos, tudo é significante, nada é natural ou está lá por acaso. A suspeita estava lançada, a corrupção tinha chegado ao futebol de domingo, o Fininho, agora mais conhecido como o Pinto de Paço de Arcos, andava a ganhar todos os jogos, conseguia transformar derrotas óbvias, em vitórias impossíveis. Mas na última partida os indícios foram tantos, que as dúvidas transformaram-se em certezas para o único jornalista presente, o Bill, que já comemorava efusivamente o 4 – 2, quando foi perder 4 – 5, uma reviravolta que começou com um gravíssimo atentado contra o jogador mais complexo da liga paçoarcoense, que surpreendeu os colegas e foi motivo de júbilo do corruptor principal. O Milhas foi literalmente atacado na grande área adversária pelo senhor doutor, rodopiou no ar, aterrou com estrondo na zona mais pelada, sinal de que o gesto que o derrubou fora premeditado, gritou como uma tempestade, pondo as sobrancelhas oblíquas, comportamento habitual desde a adolescência quando entrava em situações de stress, e ouviu a música de uma trombeta. Entrou num estado psicótico, atirando relâmpagos sobre o agressor e olhou para o espaço entre os seus pés, sentiu que as palavras dos amigos estavam a ficar fora do lugar, estava rodeado de sons, imagens, palavras, coisas, atmosferas, ideias, sentimentos, miragens, deu de caras com a Quitéria Barbuda a fazer compras no “Severino Seco”, onde pedia 10 tostões de manteiga, meia quarta de café, uma quarta de arroz, ao mesmo tempo que punha uma garrafa vazia em cima do balcão. Ainda teve tempo de ouvir o senhor Fernando a perguntar-lhe com um ar de gozo:
- É para pôr petróleo?
Regressou ao campo, atordoado pelo turbilhão de incontáveis “Obrigados Zé”, e ainda teve tempo para deixar sair uma indignação exclamada de impropérios e gritos, quando o todo poderoso Fininho aplicou a pena máxima: um penálti sucessivamente repetido até ser falhado pelo Tarolo Neves! E como quem não marca sofre, o Chico Paulo fez de seguida um auto golo (4 – 3), mudou para a equipa adversária, ficou no mesmo sítio, desmaiou e enfiou a bola no fundo da mesma rede (4 – 4). O último golo ninguém o viu, mas foi declarado válido pelo Presidente Vitalício do Conselho de Arbitragem, o sempre presente senhor Pinto de Paço de Arcos (4 -5)!

Monday, October 17, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 71 - O Sete Escadas

O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 2


No “Grupo de Futebol de Paço de Arcos” (GFPA) nunca existiu limite de idade, e os mais novos iniciam-se quando o tio Fininho autoriza, que o diga o filho do Toguinha, logo baptizado pelo proprietário do espaço com um nome nada apropriado para um rapazito à porta da adolescência, que o pai insiste em traze-lo equipado com as cores do Sporting, e que tem como referências o Ronaldo e o Figo. E o Espalha, sem qualquer tipo de sensibilidade futebolística zás, “Violeta”! Quem entra recebe logo uma alcunha, que o diga o Caramelo, que ainda tentou reagir, mas depressa se apercebeu da tarefa impossível, pois durante os noventa minutos foi bombardeado com “larga a bola Caramelo”, “passa a bola Caramelo”, “chuta Caramelo”, e outros miminhos paçoarcoenses. E nestes tempos de tecnologias, quem entra no whatsapp “Bola PA”, com administradores exclusivos, nunca mais de lá sai, mesmo que o tente, que diga o Velinho, que joga de longe, e já tentou fugir várias vezes, por estar à beira de uma expulsão colectiva para o “Lar dos Acólitos Anónimos”, pela mulher e pelos filhos, fartos de ouvir os toques das intervenções a entrarem em catadupa pela madrugada adentro. De cada vez que saiu houve uma manifestação pedindo o seu regresso. E como o administrador principal é um jogador sensível a causas sociais, pimba, pôs o número do velhinho de volta, e ainda ele não enchera a taça de meio gordo branco para comemorar o êxito da fuga, e já o telemóvel cantava de novo. E é uma “causa social” do Fininho que dá origem a esta estória!
A notícia correu depressa pelos quatro cantos do mundo, o Choné soubera em Istambul, onde se encontrava a recuperar de mais uma grave auto lesão, da derrota da equipa que o João Laranja, filho de um pioneiro, carregava sempre às costas. A tradição tinha sido quebrada, já se falava na “maldição do Fininho”. O laranjinha atribuía a derrota imprevista a um guarda redes que o administrador do whatsapp pusera na sua baliza. E atribuía-lhe o século XVIII como data de nascimento! O Miguel CG, que já se apercebera que também podia jogar de longe na rede, quis saber qual o nome do “novato”, uma vez que era o primeiro jogo que fazia.
- SETE ESCADAS, - esclareceu o Choné!
O século foi logo emendado, não era o XVIII mas sim o XVI. O tio Fininho mostrava, mais uma vez, ser um visionário na arte de jogar à bola, em duas semanas introduzira as novas tecnologias em campo, primeiro com o seu “replay” das jogadas, e agora com um jogador em “câmara lenta”. O Sete Escadas trouxe a justiça para o mundo do “Bola PA”, porque a partir de agora quem ficar com o laranjinha é obrigado a tê-lo na baliza, acabando-se de vez com o a tática do “carregador de jogo”. Aposto que para a próxima vez que o Fininho ousar participar na escolha da mão, que dá acesso à formação das equipas, não foge se não lhe sair a pedra, pois escolher o “brinca na areia” já não é sinal de vitória garantida!

Saturday, October 15, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 70 - Não jogam nem deixam jogar!



 O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 1



O famoso grupo domingueiro de futebol de Paço de Arcos, que não joga nem deixa jogar, acaba de fazer oficialmente quarenta anos de atividade. Foram dois os pioneiros, o Choné e o Miguel CG que, com uma bola do primeiro, que a alugou ao segundo, deram inicio a um jogo de baliza a baliza na praia de Carcavelos. Até que um dia se juntaram às equipas o Carinha da Avó e o seu irmão Caretas que, quando a sede apertava, e isso acontecia sempre a cada contra ataque, bebia uma cerveja. Foi a primeira derrota coletiva do Choné! No domingo seguinte exigiu a desforra, e aumentou o preço do aluguel da bola, contratou o Paivinha, mais conhecido como o general Bidon, um jogador com 200 quilos, e o Miguel CG respondeu com o Marques Capitão que, durante toda a partida, nunca soube qual era a sua equipe, por isso perdeu! Atualmente o seu lugar é ocupado pelo Bill. Na semana seguinte juntaram-se mais dois amigos, o Fininho e o Cafreal, o primeiro já com o equipamento de árbitro, que continua a usar, e o segundo um jogador que aquecia sempre com limões, e que não entrava em campo sem rezar:
- “África eh / meu berço de embalar / ai com palmeiras / ai ao luar.”
Com o Fininho apareceram as primeiras regras do Futebol de Paço de Arcos, por isso o Piquinhas, que nunca conseguiu chutar uma bola, rescindiu o contrato, não sem antes deixar um poema:
- “Fui ao mato / cortei o mato / e ainda trago fumo no papo.”
Deu-se o primeiro empate! Houve então necessidade de contratar mais atletas e na semana seguinte apareceram os manos Chico Mata Cães, Melga e Fufa, e o Marinheiro pai, que trouxeram mais qualidade ao jogo. Os Baptistas introduziram as balizas que ficavam no campo o tempo necessário para a equipa do Chico Paulo marcar um golo, pois caso o sofresse agarrava nos tubos e fugia para casa. Com a vitória do Isaltino um dos jogadores foi promovido a sobrinho, não o do táxi, mas o da UBER, e depressa se tornou o oligarca de um espaço desportivo sintético onde agora jogam, e onde o Peidão, o contabilista, prepara a sua reforma dourada. Mas só com um relato fidedigno de um domingo qualquer, é que poderemos ter uma imagem da modalidade!
A tradição cumpria-se com mais um jogo a chegar ao final sem a intervenção externa da campainha, ou da natureza, sinal de que num jogo corrido com estas características há sempre tempo para acertos e trocas de mensagens. Pela milésima vez o Chico tinha atingido a “redline” e queimara as juntas da cabeça, perdendo o discernimento e as linhas do rosto de todos os que com ele jogavam, principalmente as do Fininho. O seu apelido Marinheiro encerrava em si todos os desvarios, todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências, por isso o fumo preto que lhe saia pelas orelhas era espesso e a cor avermelhada que lhe forrava a fácies punha-o à beira de um ataque de caspa! Ao longe o papá, impecavelmente vestido com um equipamento do Sporting, que incluía meias e chuteiras verdes do Quaresma, tentava trazer o filho para a realidade, ao mesmo tempo que punha a mãos no bolso, não para ajustar as bolas, mas para tirar o cartão com a cor do Benfica, sabendo de antemão que tal seria impossível, porque a gasolina que tinha bebido no Algarve quando fora ao gamanço com o amigo chinês, depois de terem demorado a noite toda a desmontar uma cadeira feita de tubos de plástico, entranhara-se nos seus genes, não havendo por isso nada que conseguisse apagar o tal risco profundo que, em quase todos os jogos, colocava o pequeno-grande Chico à beira do precipício. Pelo meio o Mário Jordão encostara a uma lateral, depois de um furo repentino que lhe queimara as juntas da cabecinha e o fizera deitar labaredas pelos ouvidos, sinal de que aqui se jogava à bola a sério. Mas o mais grave foi quando o Choné resolveu disputar uma bola na grande área adversária e chocara violentamente com o Rato, tendo caído desamparado no relvado, onde permaneceu o tempo necessário para que o Fininho lhe desenhasse a silhueta. Quando se levantou não sabia o nome!
- Não lhe ligues, o Fininho é assim mesmo! – Gritou o pai Marinheiro de longe.
Mas nada demovia o colosso de estar colado à sombra do jogador com equipamento de árbitro que, desde que soubera que o Chico estava a estudar Logística na Escola Náutica, fazia-lhe interrogatórios massivos sobre o comportamento da “Carreira 22”, ao mesmo tempo que lhe agradecia os golos que a sua equipa ia marcando, apesar do inebriante Milhas, colega do Chico, também reagir, não às perguntas, mas sim aos agradecimentos, sinal de um reflexo já condicionado, com origem na casa dos Baptistas e na maresia da praia de Carcavelos, já para não falar da confusão dos seus cromossomas. E para agravar a situação, o Milhas teimava em dar orientações táticas desde que o apito imaginário dera início à partida. No calor da discussão ninguém se apercebeu da saída intempestiva do careca de meia-idade de nome Jorge, que tinha atingido o prazo de jogabilidade, em virtude de ter sido traído pela “claustrofobia por espaços vastos”, diagnóstico do Chico BF, que o impedia de respirar, compensando o défice com escarretas fininhas. Pelo meio o Tiago BF interrogava o Pequeno Polegar, de nome Biblot, sobre os motivos que o levavam a ir sempre disputar as bolas altas na Grande Área. Mas o assunto da jornada era a grandiloquência do Chico Marinheiro, que teimava em rosnar junto ao tio, enchendo-lhe o fatinho de perdigotos, e isto o jogador Fininho não tolerava:
- Não me diriges a palavra com a boca cheia de azeitonas, – indignou-se o pioneiro, apontando um indicador ameaçador ao “Colosso das Palmeiras”.
E nisto uma bola tresmalhada passou a rasar a cabeça do Milhas. Tinha sido o Rubi, que ainda não se apercebera que o jogo estava em pausa. Lá fora o pai Marinheiro ia aniquilando a equipa adversária quando resolveu dar à chave do Aston Martin do Choné e este acelerou furioso de encontro ao carro do Preto.
De fora ficam muitos outros acontecimentos que terão de ser discutidos na especialidade!