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Wednesday, February 16, 2011

Camarada Choco 73 - O Cunhado do Choco (versão modificada)


Camarada Choco
O cunhado do Choco
 (versão modificada)
 Aventura 73
 
- Ôu er um é, é, - confidenciou a irmã do Choco, a Bélinha, no momento em que a mãe se preparava para apanhar um croquete que o Jardel, o único membro da família com os carretos no lugar, tinha largado à entrada do prédio.
A notícia desconcentrou a Dona Native, dadora dos genes riscados que os filhos ostentavam, e ela deixou fugir o guardanapo, enterrando os dedos no conteúdo intestinal do rafeiro.
- U ê? – Perguntou, reparando que a filha acariciava com ternura a barriga.
- Ôu ávrida do Árlos, - respondeu a Bélinha com um enorme sorriso.
- Tas ávrida do Senhor Pintor?
- Im!
A gravidez da Bélinha significava a perpetuação do reinado do cromossoma-coxo-dominante, herdeiro dum vasto império da Venteira, melhorado agora com um pincel de boa marca, que daria com toda a certeza lugar a uma brocha de cabeça larga. A emoção era tanta que depressa espalhou a notícia pelas redondezas.
- Ôu ser avó e sogra, e tudo graças ao Senhor Pintor, – confidenciou à Dona Palmira, proprietária do café mais chique da zona, cuja especialidade era o meio-gordo servido numa taça, ao mesmo tempo que o canídeo  forrava o tapete do estabelecimento com um brigadeiro.
- Ôu ávrida do Árlos, – repetiu a Bélinha.
A Dona Native era uma mãe orgulhosa, o seu filho tornara-se um violinista genial, sem coordenadas, depois do pai lhe ter oferecido uma guitarra sem cordas; e quando já desconfiava que a sua Bélinha tinha mais riscos na alma do que o irmão, eis que ela a surpreende com um netinho, e ainda por cima de um pintor libertino, em permanente crise existencial, senhor duma performance lendária, mas que ainda não tinha acertado contas com os seus próprios fantasmas.
Ao final da tarde rumou ao Centro de Saúde para dar a novidade:
- Dótóra, a minha filha está à espera de uma brocha de cabeça larga, – e apontou para a barriga da adolescente.
A médica já conhecia de ginjeira esta família governada por um pai com mão de alumínio, material com que fechava todas as varandas da região e arredores, que deixara a carreira escolar dos filhos se submeter à negligência e vontade da mulher. Foi por isso que o Camarada Choco conseguiu emancipar-se de maneira progressiva da sombra tutelar da mãe, e entrar em roda livre.
- A Bélinha está grávida?
- Im, im, tem o bucho eio com uma brocha de cabeça larga.
- E como é que sabe?
- Foi ela que disse! – Respondeu a Dona Native olhando para a médica com um ar de superioridade.
- E quem é o pai?
- O SENHOR PINTOR – respondeu, orgulhosa, em maiúsculas e a negrito.
Disse então à “Dótóra” que de início tinha ficado um pouco desconfiada pois não encontrara nas cuecas a cola pegajosa, a que chamou “mento”, produto exclusivamente masculino, mas a insistência da filha acabara por convencê-la de que ia ser avó. Contou então o sonho que tivera à tarde, ou talvez alucinação, fruto de alguma travadinha de que também sofria, onde via o Senhor Pintor a andar de baloiço com a sua Bélinha, enquanto ela segurava, toda babosa, um Choco de caracóis.
- A menina não está grávida, - disse a médica, abrindo a porta.
Cruzou-se na rua com um caniche, e foi esta a última lembrança que teve do netinho

Wednesday, February 09, 2011

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 48 - Restaurante "O Tino"


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Quando o Tino transformou a taberna, situada num daqueles sítios onde iam aqueles que não podiam ir a outro sítio, e onde o frio de fora juntava-se ao frio de dentro, numa casa de pasto, tinha como missão destronar o seu vizinho galego, dono do restaurante “Os Arcos”. E não era o único, porque o Senhor Xantola já andava na estrada, com o mesmo objectivo. O ex-sargento dos Comandos entrou a matar, oferecendo soberbos peixes amarelados, gostosas carnes esverdeadas, mergulhadas em molhos brilhantes, uma precursão do actual Sushi, onde o freguês podia optar por batatas cozidas cruas ou batatas fritas encharcadas no óleo do próprio cozinheiro, pratos estes decorados com saladas mornas e gordurosas, enfim, um serviço de primeira cuja conta vinha sempre num prato de alumínio amolgado, onde muitas vezes abundavam pequenos pêlos encaracolados, para dar um toque chic. As sobremesas eram feitas numa cave clandestina, tradição que se mantém actualmente na restauração da vila, e constavam de uma panóplia de gostosos sabores: “Bolo de Bolacha” da Sesaltina, feito com os restos das bolachas que o Zé dos Porquinhos comprava para o Bóbi, na drogaria do Zé da Antónia, e que tinham sempre a decorar as penas da última galinha abatida; “Baba de Camelo”, produzida na Terrugem de Cima pela mãe do Ánhuca ao fim de semana, altura em que ele tomava banho e mudava de meias, peças estas com que a senhora aproveitava para fazer massa de pasteleiro, usando só farinha, porque o molho já lá estava; “Doce da Avó”, receita exclusiva da Maria das Bicicletas, cujo ingrediente principal era o óleo que o Cabrita lá ia mudar todas as quintas-feiras; “Delícia de Amêndoa”, feita com as crostas que o Pingalim gamava à tia. O Carlos Ponta cresceu com os amigos neste ambiente cultural e, segundo o senhor Mac Macléu Ferreira, “a restauração ficou para sempre hibernada no In deste jovem cabeçudo”, pronta a despertar ao menor sinal, o que aconteceu durante o fogo de artifício na viragem do século. Manteve os pratos, mas trocou-lhes os nomes, “Treco Lameco”, “Creme Brulée”, “Pistôn de Foie Grás”, “Cracker Cake”. Mas voltemos ao sargento: estava imparável, pois em frente a este formoso restaurante abriu também um “Salão de Jogos”, com a última novidade em máquinas da terceira geração, vindas directamente do fornecedor oficial, o senhor Zé de Porto Salvo, nome de todos os desvarios e de todas as errâncias, de todas as grandezas e de todas as decadências, uma espécie de Vale de Azevedo autóctone. Mas o “Manuel da Leitaria” também dava cartas a todos, juntamente com o snob “Papagaio”, cuja especialidade era meio-gordo à taça, que o Pontas mudou para “White Express”, enquanto que o “Bachil” arrasava com as célebres “Bifanas à Casa”, que gritavam mergulhadas num molho borbulhante castanho amarelado, que hoje dá pelo nome de “Steaks plongé dans punhétê”, para já não falar do tão afamado “Kitanda”, especialista em “Pombo Abafado” ( ), um produto do campo exclusivo da Avenida que os filhos do Manelinho do Estrume, um autodidacta amante deste tipo de aves, que engravidou a filha depois da mulher ter fugido após o décimo quinto parto, alimentavam diariamente com sementes desviadas da Gaiola do Ligóia. Mas o Tino sobrepôs-se, porque conseguiu juntar o princípio da realidade ao princípio do prazer, e por isso havia zangas, despiques, rixas, litígios, zaragatas, amizades que se reconstituíam no fim da noite, com as garrafas a voltarem a esvaziar-se. “Tradição que se perdeu com as modernísses do senhor Carlos Ponta”, confidenciou um dia o empresário Mac Macléu Ferreira, “onde os Pierre-Pomme-de-Terre de agora se apresentam de fato e gravata, e cujos dissídios são em voz baixa e não ultrapassam as fronteiras das mesas, apesar das cóleras serem as mesmas”. No Tino não havia pausas, enquanto que agora elas eram enormes, os clientes por vezes caiam, levantavam-se e regressavam. Antes bebiam e estavam contentes, agora bebem para afogar o medo, porque sabem que vão ter de pagar com o dinheiro que não têm, pois fazer carreira agora é encher de graxa o chefe libidinoso. E se por acaso não fosse no Tino, bastava um dos adolescentes do Gang dos Meninos Ricos, Caucasianos e de Boas Famílias de Paço de Arcos, pôr os peidociclos a trabalhar, para que os outros saíssem logo a correr, ficando a conta por conta da casa!