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Thursday, March 17, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 56 - O Enforcado


Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
A zona mais famosa de Paço de Arcos já deu pelo nome de Fontainhas podendo dizer-se que existe uma “Geração Fontainhas”, que representa o produto da transição entre os “bons costumes” do Antigo Regime e os “livres costumes” da pós-Revolução. Foi numa bonita noite de Verão que o Gang de Meninos Ricos e Caucasianos resolveu presentear todos os automobilistas que circulavam na Marginal com um enforcamento! O local escolhido foi a entrada de cima, pois havia aí uma árvore ideal para pendurar a corda, e uma sebe para esconder as pernas. O Bernardo pôs à disposição dos amigos o seu pescoço e trepou para cima de uma pedra que o Charlot entretanto tinha deslocado até ao local. A corda foi gamada de um dos barcos que estavam perto e começou a preparar-se a cena da execução. No palco apareceu metade do enforcado, com a cabeça à banda e a língua de fora. Um, dois, três….ACÇÃO!
Passou o primeiro, passou o segundo, mas não passou o terceiro carro, que fez uma travagem tão brusca, que ia provocando logo ali um acidente. O “defunto” nem se mexeu, tal era a convicção. O condutor saiu do carro pé ante pé, não fosse acordar o “morto”, mas não passou do passeio, talvez com medo de incomodar o eterno descanso daquela costeleta que não abanava, apesar de estar uma noite muito ventosa. A seguir parou outro, e outro, até se formar uma pequena multidão. O “zumzum” da assistência abafou um flato inconveniente do “morto”.
- É melhor chamarmos a polícia, – disse alguém.
Mas naquela altura chamar a polícia era um pouco arriscado, pois à noite os agentes não gostavam de ser acordados, e logo por causa de um mero presunto atado a uma árvore, que nunca iria fugir.
- Mas primeiro vamos tentar salvá-lo, – aconselhou alguém de dentro de um carro, e já com meia-hora de espectáculo.
Quando o Bernardo já estava a ficar com “cãibras” e à rasca para fumar, alguém avançou decidido para o enforcado, de apelido Sá. A alguns centímetros do artista e ao preparar-se para lhe tirar a pulsação, deu-se o milagre: o presunto puxou dum cigarro e pediu-lhe lume. O cagaço do herói foi tão grande que quase ficou ao colo do que estava atrás. Por momentos parecia que estavam todos num velório. Mas depressa o terror se transformou em ódio e gritaram:
- Cabrão!
Foi o sinal de alarme para o ex-enforcado, que largou o púlpito e deu corda aos sapatos, indo no seu encalço uma multidão de fãs enfurecidos, decididos a fazer-lhe o funeral.

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