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Thursday, September 14, 2006

Camarada Choco 41 - Director’s Cut

                        Camarada Choco

                      (parte 3 da triologia "O Cabo das Tormentas" - O regresso do Cabo)
                                                     Que foi censurada na Europa

                                      Aventura 41

- Mas não era com isto que contávamos ? – Perguntava indignada a Menina Tatrícia à sua própria sombra, ao tomar conhecimento de que o Cabo pilas se tinha apresentado ao trabalho. – O homem, além de não ter dado o berro, mudou a cor para roxo. Tenho de ir avisar a Pilca.
A entrada na Sala das Roscas foi tão repentina, que passou por cima da educadora, dando-lhe uma panada no penico onde borbulhava a cera, que foi aterrar na cabeça do novo elemento, o Canivete Suíço 2, que ameaçou ir chamar o pai e o seu Mercedes, comprado com o saco azul que faz parte do fardamento dos fiscais de obras da Câmara Municipal. Um dos pingos continuou viagem e aterrou nas calças do primo do Choco, o motorista militar, que ameaçou de imediato o culpado com o pau que tinha dentro do carro:
- Deve ter sido um dos doutores ou doutoras, invejosos da minha grande afinidade com o camarada.
Aquele de quem o primo do Choco desconfiava estava longe, muito longe, a tomar o pequeno almoço, desde as oito da manhã, altura em que abriu a porta da Cerci à Dona Pilca, no sítio mais recatado da Venteira, o “Café Central”, na companhia da sua misteriosa companheira.
- O que é que queres ò mulher ? – Perguntou a Dona Pilca, assustada com a entrada intempestiva da colega.
- Nem imaginas quem é que voltou?
- Desembucha, que eu ainda tenho de pintar vinte azulejos para a Cremesse da Doutora e quinze tubos de ensaio para o Casamento Real da Afilhada.
- O Crómio!
- O dos “Morangos com Açúcar”?
- Qual “Morangos com Açúcar”, o Cabo, o Pilas, o maldito.
- O Pilas?
- Sim, o Sapo!
- Não te assustes, tenho tudo controlado e pronto para caso ele sobrevivesse, - disse calmamente a Senhora das Roscas, levantando-se e abrindo o armário, de onde tirou um boneco. – Preparei-me para este dia com o “Curso Intensivo de Magia”. – E mostrou um boneco de palha. – Apresento-te o Gonorreias!
- Bruxaria? Vê lá o que é que vais fazer.
A Dona Pilca afastou as revistas, deitou de barriga para baixo (decúbito ventral) o Gonorreias e enfiou-lhe, com todo o prazer estampado no rosto, uma agulha pelo “olho” dentro.
- AIIIIIIIIIIIIII – gritou o convalescente, lançando uma mão desesperada ao cagueiro, passando a coçar-se sofregamente.
- O que é que se passa, Kodac? – Perguntou a Psicóloga morena, aparecendo pelas costas do Cabo.
- São as cruzes, são as cruzes – respondeu a vítima, voltando-se para a colega.
- Chico?? Enganas-me sempre de cada vez que te vejo de costas. Mas estás com dores aí? O Coração é lá em cima.
- Se substituíres o “o” pelo “u”, vais ver que em mim não notas as diferenças, - tentou acalmar a colega.
Entretanto na Sala das Roscas.
- Mas isso funciona! – Exclamou sorridente a Menina Tatrícia, tirando da caixinha outro alfinete, espetando-o de imediato na parte frontal da bacia do Gonorreias.
O Pilas tirou as mãos do cagueiro e lançou-as sofregamente à fruta, dando uma cabeçada no vidro da secretaria, que assustou o Pato Donald, que foi a correr em pânico para o colo da assistente da Dona Sãozinha, obrigando-a a ficar com o telemóvel colada à vista esquerda.
- Digam-lhe que eu não estou cá, e só volto amanhã – gritou o Porres escondendo-se debaixo da secretária. - Assim, talvez ele se vá embora e só volte para a semana.
- Quando ele se misturar com os utentes nem vão notar, -exclamou a pupila da Dona Sãozinha, atirando o Pato para dentro do armário. – O Porres por arrastar uma perna e a cabeça foi logo para motorista. Isto está a ficar lindo! E não nos podemos esquecer que a Sem-Canudo está agora ao leme principal.
- Não tarda nada o barco encalha – respondeu o Porres, espreitando pelo vidro.
O Pilas estava parado, sem convulsões, e preparava-se para bater à porta.
- Vocês são indecentes – protestou a Pirosa. – Eu não quero meter-me nas vossas jogadas, mas o que estão a fazer ao senhor Cabo Pilas é desumano. A natureza já lhe deu aquele ar sapudo, o Coração atraiçoou-o, tiraram-lhe a sala, e agora vocês querem o quê?
- Sete palmos abaixo da terra – respondeu firme e com convicção a Senhora das roscas, tirando o Gonorreias das mãos da protestante e cravando-lhe uma tesoura na barriga.
A reacção do visado foi dada pelos intestinos, que soltaram um sonoro flato, que fez estremecer a porta dos serviços administrativos. O Pato Donald, que saia calmamente dos arquivos, deu um sonoro berro tipo corneta e foi enfiar-se na trincheira do Porres. Mas houve mais consequências. A orquestra sinfónica dos “Mongas com Açúcar” deixou de tocar o “Milho Verde”, a Doutora Sem Canudo riscou o cheque azul e a psicóloga morena ficou com o cabelo estilo carapinha, que levou o Gorila da Educativa a chamar-lhe “mana”.
- Epá, temos aqui um cavalo ! – Zurrou o primo do Choco, coçando a fruta.
- Devem ser os efeitos secundários dos remédios. Eles falavam em pequena flatulência.
- Pequena flatulência, Kodac ….Pilas, Pilas? – Perguntou indignada a Psicóloga Africana. – Penso que o colega não está nas melhores condições para se apresentar ao trabalho. Isso que o Cabo largou já está ao nível de um atentado suicida.
- Pôs-me em frangalhos as cuecas, - queixou-se o Pilas, desapertando o primeiro botão da braguilha.
- Eu não quero saber das suas intimidades – protestou a Psicóloga Morena Africana.
Mas nisto entra, sem aviso, a Psicóloga Loira e o Virabicos e acende um isqueiro….
- Não…….não……- ainda alertou a Assistente Social ,-cuidado com o Metano…..
A explosão foi tremenda!
No átrio só ficou de pé o Pilas, rijo que nem um chouriço nervoso. Façamos a descrição dos restantes elementos presentes:
- O cabelo da Psicóloga Loira foi parar à cabeça do Vira-Bicos, que passou a Cozinheiro – Sueco.
- A Psicóloga Morena, que já tinha sido vítima do primeiro flato do Cabo pilas, que a transformara em Psicóloga africana, herdou o bigode do Porres e passou à condição de Identidade Indefinida.
- Uma das tias que passava naquele momento, vinda directamente de um cabeleireiro, com um penteado tipo abajour, levou com as ondas de choque e ficou estilo hippie.
- A Senhora dos Têxteis saiu do estado letárgico e disse: “pode entrar”!
O Porres levantou-se e tomou uma atitude:
- Tirem o anãozinho mágico daqui antes que ele destrua o edifício.
Na Sala das roscas a Pirosa tentava separar as colegas e alcançar o Gonorreias.
- Parem, parem com essas maldades, coitado do Sapudo.
- Coitado? – Gritou indignada a Dona Pilca. – Coitada é de mim que sou uma vítima desse maldito sapo.
E novo ataque, agora um prego de aço, que penetrou no boneco de palha e furou-o de lado a lado. Parecia a partida de um Grande Prémio. O Pilas arrancou com o rabo a arrastar pelo chão, em direcção às entranhas da Cerci, deixando rasto no chão como o caracol. Quando o Porres se levantou já o Cabo não constava.
- Respeitinho é muito bonito. Eu sou o Presidente!
Pelo caminho atropelou a Dona Piulia, que meteu de imediato baixa.
- Não, não, não, - tornou a gritar a Pirosa, tirando de novo o Gonorreias das mãos das piranhas. – Vocês ainda o vão matar. Não viram que o pigmeu já ia a deitar fumo negro do escape?
- Cala-te ó mulher, não venhas para a minha sala dar-me lições de moral – impôs-se a Senhora das Roscas tirando o boneco de palha das mãos da beata, e arremessando-o contra a parede.
O arroto que o Cabo Pilas deu no bar foi tão grande, que atirou ao chão todos os noddys da sala do Pintor. Até o Lampreia enfiou vários murros na perna esquerda, preparando-se para um remate.
- Ouviste o urro do pequenote ? – Perguntou em desespero a Pirosa, agarrando no Gonorreias e atirando-o para fora da sala. – Eu não quero ter como amigas duas assassinas. É meu dever tirar-vos do caminho do Mal.
O anãozinho mágico de palha aterrou aos pés da Dona Piulia, que olhou para ele e disse:
- Olha uma pega. O que é que ela faz aqui no corredor? – Pegou nele e guardou-o na Bata.
A um bolso de uma bata chegam sempre os odores de quem a usa.
- Eu queria um pastelinho de bacalhau ? – Pediu o Cabo Pilas à Dona Espatinha.
- Um pastel de bacalhau?!
- Cheira a bacalhau. Como é daqui que se enche o maior saco azul da Doutora, pensei que tivessem aumentado a oferta.
- Francamente senhor Cabo, isto aqui ainda não é uma taberna. Tem de ir ao médico ver o que é que se passa com o seu olfacto.
Mas o Pilas estava noutra! Tinha o nariz apontado para o ar, à procura de um novo odor. Na outra ponta do corredor a Dona Piulia tinha-se escapulido, com o sinal de emergência ligado, para um canto do exterior.
- Mas aposto que está a cozinhar couves e feijão preto ? – Insistiu o Cabo Pilas.
- Couves e Feijão?! Francamente senhor Cabo, eu penso que o senhor deveria continuar com a baixa.
- Onde está o Gonorreias, Pirosa? – Perguntava desesperada a Dona Pilca, removendo todos os caixotes do lixo.
- Não sei, mas mesmo que soubesse não te dizia, bruxa malvada.
- Se não vai a bem vai a mal – gritou a Senhora das Roscas agarrando numa tesoura e correndo para a porta da sala. – Onde é que pára o Cabo Maldito?
Por vezes os céus estão atentos. Quem parou a marcha da Dona Pilca foi a ex-loiraça do Castanheira, que levou um encontrão tão grande, que foi projectada contra um dos móveis que a Doutora mandou trazer dum contentor junto à Azinhaga dos Besouros, para o Pintor o transformar à imagem desta Cooperativa de (in)sucesso.
- Vou tratar de ti, minha pequenina, - gritou a Pirosa, arrastando a Dona Pilca para a sala.
Entretanto…
- Trá-lá-la, trá-lá-lá – cantava o Nélinho no momento em que passava ingenuamente junto ao pesado amarelado que se encontrava tombado a obstruir a entrada da Sala das Roscas.
Mas nesse momento a ex do Castanheira acordou e fixou o açoriano.
- Ah então foste tu que me abalroas-te, meu bombom das ilhas. É agora que te vou encher a boca toda!
O resto são cenas íntimas, que nada têm a ver com o nosso querido Cabo Pilas.