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Friday, March 04, 2016

Camarada Choco 95 - A Única Mulher



Camarada Choco
Aventura 95

Há um período e um tempo para todos os Aparafusados banhados pelo sol da Venteira. O Primo do Choco nem queria acreditar quando, após a curva da saída da Escola para Desaparafusados da Venteira, deu de caras com a mãe da Mó no meio da estrada, disposta a uma pega de caras, e assim garantir uma estadia prolongada no bem bom do Francisco da Fonseca, ou quiçá, uma avença vitalícia do país, após um momento de glória na primeira página do Correio da Manhã, onde o seu cabelo sueco apareceria espalmado no alcatrão, tipo carpete, tendo ao seu lado um corpo semelhante a uma das fãs de encher do único motorista da zona que guiava de pé: o Picachu! Antes do embate ainda teria acesso, tipo flash, à última das memórias libidinosas mais fresca, o convite que o Florzinha, colega da sua filha, lhe fizera durante uma das entregas matinais quando, ao vê-la de robe, lhe pediu para o tirar e mostrar-lhe os marmelos, sinal de que os clientes, que se faziam passar por grogues desde a nascença, derretendo grande parte do Orçamento Geral do Estado, tornavam-se sabichões quando as cuecas apertavam. Desde que o brazuca do Dom Café entregara o troféu de “Miss Simpatia” à terapeuta Julieta, um descafeínado enfeitiçado, que esta fugia do local como o Diabo da Cruz.
- Este espaço é meu, só meu, tenho o poder absoluto sobre as pastilhas elásticas, por isso só autorizo que seja este Desaparafusado a atender o meu telefone, - gritou a Espatinha para o Stor Pobre, revirando os olhos como o Manelinho.
A tradição não se cumpriria, a Madrinha, que estava do outro lado da linha, não iria ouvir o tradicional “churrasqueira da Brandoa, bom dia”, uma ideia da Única Mulher, assunto que irá ser tratado mais à frente, mas sim os gritos alucinantes daquela que se julgava dona e senhora do espaço que servia as primeiras refeições do dia à maioria dos Aparafusados, servidas a custo por alguns Desaparafusados escolhidos a dedo por esta responsável que se autointitulava pedagógica, a Maria Maluca e o Chico Duplo.
- Esses destemperos emocionais indicam que está aí uma informadora com problemas no chip, - exclamou aquela que detinha o posto mais peripatético da Venteira, mas também o mais difícil do concelho, qualidade para quem era dotado de sentimentos intempestivos, que lhe condicionavam a alma, conseguindo ainda ouvir o barulho do rodar dos glóbulos oculares da agente, semelhante a uma roleta da sorte.
O ataque de caspa provocara a fuga, prontamente travada, do Chico Duplo, que jurava a pés juntos ao seu irmão virtual ter ouvido os gritos da temida Popinha dos têxteis, cujo amor pelo seu colega desaparafusado mais preto da Venteira não era correspondido. Mas o assunto do dia dizia respeito à falta de carcanhol nas contas de todos!
- Só há uma certeza de que um futuro melhor é apenas possível com mais e melhores Aparafusados, - disse alguém entregando uma lista reivindicativa.
Este ato inconsciente e ingénuo iria ter repercussões inimagináveis, que mostrava a fragilidade e a crueldade da vida na Venteira.
- Temos de lhe pôr as barbas de molho, - sugeriu uma outra já mais batida nestas andanças políticas, dando o já tradicional murro na mesa, ao mesmo tempo que confessava querer agora erguer um Califado na zona, caso o seu programa dirigido a pessoas complexas ganhasse as eleições.
E nestas alturas caía sempre um manto de silêncio, ao mesmo tempo que todos se afastavam. A culpa da falta do pilim devia-se à ausência da Única Mulher, a detentora dos códigos que permitiam, não o lançamento de mísseis atómicos, mas a libertação dos fundos mensais. E até o Troca Tintas, teoricamente o mais poderoso, andava ao papel! Para agravar a situação a Escola de Desaparafusados da Venteira estava a ser vítima de uma epidemia de santinhas, fenómeno até agora exclusivo do Camarada Choco e da sua irmã Bélinha. A maioria jurava tê-la visto junto à igreja central, por isso surgiu de imediato um novo papel a propor um carjacking ao veículo da dita Senhora, e com ele ir buscar a desejada e a respetiva folha com os números mágicos! O ambiente estava tão tenso, viviam-se tempos insensatos, que bastava um comentário inocente fora do sítio para começar um incêndio:
- Ó, uma nódoa, - disse, perdendo a medida das conveniências, com um ar sereno e natural, a terapeuta Julieta, tocando levemente na t-shirt branca do Cabo Pilas, que se lambuzava com uma bola de Berlim com creme.
A vida do ex militar era desprovida de riscos, sensaborosa, com uma disciplina férrea que lhe permitia aproveitar bem o tempo, evitando desperdiça-lo no ócio, que o dissesse a stora Raquete, que fora contemplada com uma resma de papéis com o “Horário das sessões de apoio psicopedagógico para o ano de 2016”, por ter ousado prolongar a aula do Castelinho cinco segundos para além do tempo, obrigando-o a chegar atrasado àquele apoio fundamental para o seu futuro de desaparafusado incondicional. Por isso estas ocasiões raras com subtis magnetismos da natureza eram sempre aproveitadas para dar uma escapadela ao oeste selvagem, que lhe davam um vigor inesperado. Encarnou de imediato num Romeu de consciência duvidosa:
- Queres lavá-la? – Perguntou com tom e som, fazendo uma aproximação sugestiva à terapeuta.
- Se ma deres, tiro-te a nódoa, - respondeu a rapariga com tanto mimo e talento que o entonteceu.
Dito e feito, o Cabo Pilas retirou a t-shirt com uma impetuosidade masoquista e colocou-a nas mãos da colega, hirto e duro, peito para fora e barriga para dentro, que foi confrontada com o mundo natural do pedopedagogo, envolto num cenário erotizado semeado de pequenas malícias, um organismo vital sujeito a leis não humanas, primitivo e abafado, com um cheiro impossível de esquecer, que se colava à alma, tradicional e agrícola, selvagem, sem sentimentalismos, enfim, um “emoticon” dos tempos modernos, com o corpo agitado em excesso, soltando inoportunos gemidos. A terapeuta foi rodeada de ecos míticos, recheados de relâmpagos com uma intensidade cada vez maior, que lhe causaram um tom intensamente febril, só amainado com convulsivos sinais da Cruz, para afastar o demo que parecia andar à solta pelos vastos corredores da Escola Para Desaparafusados da Venteira, parecendo querer-lhe afagar violentamente o cocuruto.
- Não te esqueças que o teu nome vem do grego, Pétros, pedra, é sobre ti que edificarei os serviços de informações da Venteira. Vai ao bar, uma das minhas informadoras tem o chip avariado! - Ordenou a Madrinha ao Engenheiro, o único a dar o exemplo naquele espaço que se pretendia pedagógico. 
Estava decidido, estes tempos insensatos assim o obrigavam, a Única Mulher regressaria à escola, a bem ou a mal, por isso o carro da santinha depressa desapareceu nesse fim de dia, envolto, não no nevoeiro que nunca trouxe o rei monga, mas no lusco fusco da Venteira, após a recolha da dita senhora ao ninho, ao colo do prior. Ninguém soube quem foi, mas todos temiam agora a Távora Redonda das Terapeutas, com reuniões contínuas ao longo do dia, que foi capaz de produzir uma folha A4 reivindicativa que mexeu profundamente com o IN da toda poderosa Madrinha, que via agora súbditos cercados por más influências. Todas as frases fora de contexto eram consideradas suspeitas, excitavam-na, por isso a primeira a ser confrontada por aquela obstinada que deveria obedecer ao Troca Tintas, mas que fazia o que não devia, foi a terapeuta Pamela, que teve um descuido desproporcionado com a porta aberta, considerado uma possível ameaça à chefia da Escola para Desaparafusados da Venteira:
- Na relação sou eu que visto as calças!

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