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Friday, November 23, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 24 - As Noites dos Facas Longas


Comandante Guélas
Série Colégio Militar


O Colégio Militar sempre deu muito de bom, e pouco de muito mau!Por terem feito uma “brincadeira” ao professor de inglês, um capitão, todos os graduados de 1932 foram chumbados, e  em vez de expulsos, como pretendia a direção, por causa de um deles ser familiar de uma eminência parda do regime, foram graduados no ano seguinte em furriéis. Na disciplina de Inglês dos anos 70 havia o “American Language Course”, dado no futurista Laboratório de Línguas, com boxes individuais para cada aluno, apetrechadas com uma panóplia de instrumentos, dirigidos implacavelmente por um docente em cima de um estrado, com uma consola cheia de botões à sua frente, que fazia corar de inveja o pessoal da Guerra das Estrelas. Tudo isto era reforçado com uma soberba Sala de Cinema, onde a imagem se juntava ao som, e o escuro facilitava as sonecas. E tudo isto para tentar fazer com que os jovens militarzinhos se tornassem uns experts no uso da língua. Mas no topo da escala pedagógica estava o curso de “Educação Sexual Nórdica”, difundido à velocidade da luz pelas inigualáveis “Ginas”. Por isso, o roubo destas revistas não representava um ilícito criminal, mas antes um ato de camaradagem, na difusão da arte de bem cavalgar uma almofada. E por causa das malucas das nórdicas tornou-se famoso nos anos 90 o Pija-Man, um super-herói equipado com um pijama turco preto, que as farejava à distância, fechadas a sete chaves nos armários metálicos verdes, raptava-as, esgalhava, e tornava a pô-las em casa, sem que o proprietário desse pelo abuso. Mas se o gamanço implicava dinheiro ou outro assunto do Índex, era sempre aberta a Caixa da Luz, de onde saiam todos os demónios e males do colégio, que representava um regresso a práticas antigas, dando origem a muitos processos dos Távoras. A memória é uma forma poderosa da experiencia involuntária que muitas vezes regressa associada a circunstâncias do presente, como fluxo de instabilidade, o que a torna uma realidade para além do tempo, um fluxo infindável da consciência, com sensações físicas difusas, imagens, odores e sons, com tanta vivacidade e complexidade, que nos fazem regressar ao colégio. Não podemos esconder os nossos pecados, não podemos enterra-los, temos de carrega-los, temos de admiti-los com orgulho. O orgulho não advém da consumação do erro, mas da coragem que é necessária para admitir esse erro. Havia tradições e tabus no Colégio Militar que eram disfuncionais para o espírito de corpo e de camaradagem. Como é que se chegava por vezes àquela loucura e àquele mal?
Quando o 401 entrou na sala de leitura da quarta companhia no sábado à noite de um janeiro gélido, porque tinham ficado todos retidos, conforme fora ordenado com a conivência de alguns oficiais, ia com um sorriso confiante, que depois deu lugar a um sorriso apreensivo, que deu lugar a um esgar de sofrimento, um vazio nos olhos, um tremer de medo, exausto, com sede, um tímpano furado à chapada, o sangue a sair em esguicho, uma marca no rosto de uma agressão com uma garrafa de whisky Highland Clan, gamada no Bar do pessoal, com dores intensas no cotovelo esquerdo, operado duas semanas antes para retirarem os parafusos, de uma lesão ganha a representar com orgulho o Colégio na Classe Especial de Ginástica um ano antes, atingido agora barbaramente pelas pernas arrancadas às cadeiras, que estavam nas mãos dos carrascos de ocasião, cegos de um ódio profundo durante toda aquela longa noite, em sentido. O espaço dedicado à “leitura” transformara-se num tribunal inquisitorial, a orgia de violência era a quem mais ordenava, estavam presentes quase todos os graduados da quarta companhia e de outras, e do Comando, com graduação igual ou acima do Comandante de Companhia. E tudo isto porque tinham desaparecido 350 escudos dum armário, 150 escudos do saco preto de outro e uma mini calculadora científica, que apareceu dois dias depois debaixo duma cama, após a ameaça de uma firmeza! Mais tarde o autor deste último roubo foi apanhado com 100 dólares de um colega durante a viagem de curso, depois de terem sido obrigados a formar numa parede da Legião Estrangeira em Nice, onde foram revistados, e confessou também o desvio da calculadora. Para manter a tradição, escolheram aquele que nunca fora subserviente, que não era adepto da graxa, cujo pai nunca presenteara os graduados com lagostas, como aconteceu noutro tempo, em que um general enchia semanalmente os graduados e os oficiais da companhia com carradas de marisco, cujo filho um dia acusou, durante um desses encontros íntimos com o comando, alguns colegas, de atos indignos, o que fez com que fossem acordados brutalmente às duas da manhã, torturados, uns queimados com cigarros, entregues depois aos oficiais, que continuaram a festa, mas que nunca conseguiram que eles dissessem aquilo que eles queriam ouvir, porque a verdade era só uma. Valeu existir um Comandante do Corpo de Alunos Oficial muito competente, que investigou, e castigou o denunciante e os cobardes com estrelas nos ombros. Assim, como o 402 lhes estava atravessado na garganta, transformaram-no, a ele e ao vizinho de cama, e portanto suspeito de ter informações, em sacos de pancada, onde despejaram todas as frustrações da breve vida. Os carrascos só queriam ouvir o “sim”, mas o 401 e o 402 não deviam nada, apesar de teme-los, mantiveram-se firmes, e em sentido, como obrigavam os “regulamentos”, durante toda a noite. E como os ratos são sempre os primeiros a abandonar o navio, um colega também suspeito entregou em desespero  uma lista de todos os roubos que fizera desde a entrada no espaço educativo, onde não constavam estes, ganhando assim um bilhete para a primeira fila reservada à assistência na Sala de “Leitura”, sinal de que nestes tempos bastava uma folha de Excell para comprar graduados. Um dos inquisidores por vezes entrava em histeria e soltava gritos efeminados, mostrando que tinha as hormonas trocadas, e por isso tentava ser o mais macho. O 402, o alvo, aguentou-se firme durante vinte sessões.
Por isso, “Zacatraz” aos bravos 401 e 402, que se portaram com “Ardor Guerreiro que se apura”.

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